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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Amorim reúne Chomsky, Villepin e Zapatero para falar de ameaças à democracia (Cf. Monica Gugliano)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 13/set/2018...

Amorim reúne Chomsky, Villepin e Zapatero para falar de ameaças à democracia 

Celso Amorim. Foto Orlando Brito
Se há hoje um articulador a quem se pode atribuir a solidariedade internacional e a reação no exterior à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele se chama Celso Amorim. Diplomata de carreira, Chanceler durante os oito anos dos mandatos de Lula e ministro da Defesa no primeiro governo de Dilma Rousseff, Amorim tem movido mundos e fundos chamando a atenção para a causa do ex-presidente que cumpre pena de prisão de 12 anos em Curitiba, condenado pela Lava Jato.
Com a mesma determinação que à frente do Ministério das Relações Exteriores construiu uma personalidade para a política externa brasileira, que chamou de “altiva e ativa”, Amorim tem defendido junto aos seus interlocutores (algumas das mais influentes personalidades do planeta, como o Papa Francisco) o argumento de que Lula “é um preso político” e que o Brasil passa por um momento extremamente difícil. “O Brasil é um país em decadência antes de ter sido desenvolvido”, afirma.
José Luiz Zapatero no Brasil quando Lula era presidente. Foto Marcelo Botelho/ObritoNews.
Nesta sexta-feira, o trabalho que o ex-ministro tem feito no exterior ganhará visibilidade e uma vitrine no Brasil. A Fundação Perseu Abramo (FPA) realizará durante todo o dia 14 de setembro o seminário internacional “Ameaças à Democracia e a Ordem Multipolar”, um evento costurado por Amorim a partir de uma conversa que teve há alguns meses com – Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro da França. “Ele me disse: o Brasil faz falta ao mundo. E foi a partir dessa ideia que pensamos o Seminário”, conta o ex-ministro.
O Seminário “Ameaças a democracia e à Ordem Multipolar” que começa às 9 horas reunirá, além de Villepin, ex-primeiro-ministro da França; Massimo D’Alema, ex-primeiro-ministro da Itália e o ex-primeiro-ministro da Espanha, José Luís Zapatero e o professor Noam Chomsky, que revolucionou a linguística moderna e notabilizou-se por suas posições políticas progressistas.
Também participam Pierre Sané, ex-secretário geral da Anistia Internacional e presidente do Imagine Africa Institute (Senegal); Jorge Taiana, deputado do Parlamento do Mercosul e ex-ministro das Relações Exteriores da Argentina; Cuauhtémoc Cárdenas, presidente do Centro Lázaro Cárdenas y Amalia Solórzano e ex-governador do Distrito Federal do México; e Carlos Ominami, ex-senador e diretor da Fundación Chile 21 (Chile).
A abertura será feita por Marcio Pochmann, presidente licenciado da Fundação Perseu Abramo; e pela senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do PT. Participam também os ex-ministros Luiz Carlos Bresser Pereira e Miriam Belchior.
O Seminário é restrito a convidados, mas haverá transmissão ao vivo:

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Original disponível em: (https://osdivergentes.com.br/outras-palavras/amorim-reune-chomsky-villepin-e-zapatero-para-falar-de-ameacas-a-democracia/?utm_medium=push&utm_source=OneSignal&utm_campaign=push%20news&utm_content=aviso%20%push). Acesso em 13/set/2018.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

PT divulga nota criticando entrevista do comandante das Forças Armadas

PT divulga nota criticando entrevista do comandante das Forças Armadas: O PT divulgou nota repudiando entrevista do general Villas Boas, neste domingo, por interferir no processo eleitoral. Leia no Blog do Esmael.

A cabeça de um líder (Fernando Brito)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 12/set/2018...

A cabeça de um líder
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Era novembro de 1989.
Excluído do 2° turno contra Collor por apenas 0,5% dos votos, Brizola recolhera-se a sua Casco Viejo, uma pequena casa de pedras e um telhado de amianto pintado de vermelho, sede de sua tão fantasiada fazenda no Uruguai, El Repecho (a colina, numa tradução livre).
Lambia as feridas, para empregar a expressão  que ele próprio costuma usar para o necessário período de restabelecimento, ainda mais depois de ter ficado a pouco mais de 450 mil votos do embate final.
Na tarde de 22 de novembro, uma semana depois do primeiro turno, o telefone – cujo número Ricardo Kotscho, assessor de imprensa do Lula havia me pedido – toca por lá.
Conversa curta, de poucas palavras e amabilidades quase formais.
Os dois combinam de se encontrar dia 25, um sábado, antes de uma “pajelança” – como costumávamos chamar reuniões amplas, com milhares de pessoas – do PDT.
Datas são importantes: faltavam, daquele domingo, ali exatas três semanas para o segundo turno das eleições. 21 dias.
A adesão à candidatura Lula não foi tranquila: o velho leão não entrega sem rugir a liderança ao leão novo, pouco experiente e ainda deslumbrado pela juba negra.
Mais ainda porque as estruturas partidárias e os militantes sempre tiveram rusgas, embate e, ali, ainda havia o ressentimento natural dos que víramos fugir por milímetros a dianteira do combate eleitoral.
Tão difícil era que, sabido, o velho Brizola teve de apelar para afirmação pela negativa,ao recordar a frase com que o general Euclydes Figueiredo, irmão do João  presidente, reagiu à sua eleição sete anos antes ao governo do Rio de Janeiro – “Brizola é um sapo, que a gente engole e depois expele”.
E disparou, sobre uma platéia ainda hostil a apoiar o petista:
– Pois não seria uma maravilha termos de fazer essa gente engolir outro sapo, e um sapo barbudo?
Começava aí uma avassaladora transferência de votos, quase ao ponto de não ficar um de fora: Lula chegou a 73% no Rio e a 68% no Rio Grande do Sul, somando toda a votação de Brizola.
21 dias, repito.
Verdade que o quadro era outro, verdade que Brizola pôde aparecer em comícios e na TV, recomendando o voto.
Mas Brizola e Lula tinham rusgas e “torcidas” bem pouco dispostas  a “vestir a camisa” do adversário de ontem, o que não é o caso de Fernando Haddad, sobre o qual, aliás, exceto o antipetismo, não vejo razões para ter os altos índices de rejeição apresentados em algumas pesquisas- e só algumas delas.
Por esta brutal transferência de votos, não há muitos que questionem a demora de Brizola em apoiar Lula e nem tão poucos que o critiquem por manter a corda esticada com as disputas com José Paulo Bisol, então o vice do petista.
Lula vai passar a Haddad o bastão da candidatura, não o da liderança política e  Haddad sabe que é receber o bastão de candidato é o que lhe dará a faixa presidencial, adiante.
Líder que não preserva sua liderança já não é líder, porque deixou de ser a montanha, a referência da população e, assim, perdeu a capacidade de orientar o povo.
Não é uma questão de generosidade ou desapego pessoal. É uma questão de capacidade de conduzir a disputa política.
E não de ser conduzido por ela.

Original disponível em: (http://www.tijolaco.com.br/blog/a-cabeca-de-um-lider/). Acesso em 12/set/2018.

domingo, 9 de setembro de 2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A antecipação do voto útil e a tragédia política brasileira (Rodrigo Perez Oliveira)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 07/set/2018...

A antecipação do voto útil 

e a tragédia política brasileira


06 DE SETEMBRO DE 2018, 14H27


Rodrigo Perez Oliveira:
“A eleição em que o favorito disparado não pode concorrer
já nasce com aparência de golpe preventivo.
Apenas Lula venceria pelo voto.
Os outros só podem vencer pelo veto”
Foto: Ricardo Stuckert
Sem a foto de Lula na urna, as eleições de 2018 se encontram diante de um impasse: a antecipação do voto útil para o primeiro turno da corrida presidencial.
Na situação que temos hoje, não importa o que aconteça, não importa quem vença, o governo que sairá das urnas será eleito mais pelo veto do que pelo voto. Isso significa uma tragédia política para o Brasil. É disso que quero falar neste ensaio.Na prática, o voto útil funciona como veto. O eleitor vota em X para evitar que Y vença. No segundo turno, quando sobram apenas dois candidatos e a polarização é normal, o voto/veto é natural. Acontece sempre, no Brasil e em qualquer outra parte do mundo que tenha um sistema eleitoral parecido com o nosso.
Mas no primeiro turno isso não deveria acontecer, de jeito nenhum.
O primeiro turno é o momento em que o eleitor precisa estar à vontade para fazer o voto propositivo, programático.
O primeiro turno é o momento de votar no aerotrem de Levy Fidelix, nas promessas soviéticas do Zé Maria, nos devaneios líricos do poeta Mauro Iasi, na bomba atômica do Enéas. É o momento de escolher uma terceira via, aquela candidatura que fica ali, sempre com algo entre 15 e 20% e que se apresenta como alternativa às forças hegemônicas.
Não teremos esse momento nessas eleições, o que é muito ruim para o Brasil, muito ruim mesmo. Péssimo.
A pessoa que em 01 de janeiro de 2019 subirá a rampa do Palácio do Planalto terá sido eleita quase que exclusivamente pelo veto e não pelo voto. Haverá um déficit de legitimidade. O novo governo já nascerá fragilizado.
Explico melhor:
Hoje, existem na cena política brasileira duas forças que são capazes de assombrar eleitores nos dois lados da fronteira ideológica: Lula e Jair Bolsonaro.
Não se trata exatamente de uma polarização, pois falar em “polarização” significa sugerir alguma igualdade entre os polos, o que não é verdade. Há meses que todas as pesquisas mostram que Lula tem o dobro de intenções de voto de Jair Bolsonaro, e com uma rejeição ligeiramente menor.
Lula e Bolsonaro, portanto, ao mesmo tempo em que são os mais amados, são, também, os mais odiados. A política sempre foi e sempre será território fértil para os afetos.
A dose de amor e ódio não é igual, que fique claro. Bolsonaro tem uma margem de fidelidade que não é menor que 15%, mas que também não é muito maior que 20%, o que o torna praticamente inelegível, como mostram as simulações para o segundo turno feitas por todos os institutos de pesquisa. Bolsonaro é o adversário dos sonhos. Todos os outros querem disputar o segundo turno com ele.
Já Lula tem uma fidelidade que não é menor que 35% e um teto que chega na casa dos 40%. Se pudesse concorrer, Lula venceria com facilidade e da urna sairia um governo legitimado pela soberania popular. Essa seria a única possibilidade de termos uma eleição capaz de nos tirar do caos institucional em que estamos vivendo. Mas Lula não estará na urna. O golpe não nadaria tanto para morrer na praia.
Fernando Haddad representará o lulismo e aqui começa, prematuramente, a disputa pelo voto útil.
À direita vencerá a candidatura que conseguir se apresentar com mais potencial para derrotar o lulismo num eventual segundo turno.
À esquerda, sairá vitoriosa a candidatura que conseguir convencer o eleitorado progressista de que pode derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno.
Acho muito difícil que direita e esquerda cruzem suas espadas já no primeiro turno. A competição será endógena, acontecerá dentro de cada trincheira ideológica, onde o que estará em jogo será a disputa pela capacidade de vetar o outro lado.
De um lado, a campanha de Alckmin vai investir na desconstrução de Bolsonaro, dizendo que o PSDB ainda é capaz de rivalizar com o PT. A campanha de Alckmin vai tentar convencer o eleitorado que odeia o PT de que o antipetismo ainda é capital político monopolizado pelos tucanos. Para isso, Alckmin terá a TV. É aqui que veremos se a TV ainda é determinante para o convencimento eleitoral.
Bolsonaro vai continuar fazendo o jogo de formulações facilmente digeridas pelo seu eleitorado cativo. “Bandido bom é bandido morto”, “ideologia de gênero”, “sou honesto” e por aí vai. Bolsonaro joga pelo empate. Quanto menos falar, quanto menos aparecer, melhor pra ele.
Amoêdo corre por fora e pode tirar votos tanto de Bolsonaro como de Alckmin. Se a disputa for apertada, isso pode significar algum protagonismo para o candidato do banco Itaú.
Do outro lado, a campanha de Ciro Gomes vai tentar mostrar ao eleitorado progressista que Haddad não é viável, que não é o herdeiro ideal. Ciro já começa a defender Lula com veemência, algo que ele não fez até aqui. O índice de 40% dos votos válidos é motivo suficiente para inspirar algumas mudanças na estratégia.
O grande trunfo da campanha de Ciro são as simulações de segundo turno, que mostram Haddad como o único candidato que não consegue derrotar Bolsonaro. Enquanto estiverem disponíveis, esses números serão usados à exaustão pela candidatura cirista, com o objetivo de criar uma tendência que beneficie Ciro Gomes.
Só que Ciro não está sozinho. Marina Silva rivaliza com ele nessa disputa pelo veto ao Bolsonaro.
Evocando a imagem da mulher negra, mãe, pobre, seringueira e analfabeta até os 16 anos, Marina ainda atrai votos progressistas, mesmo que sua agenda econômica seja extremamente conservadora. Talvez Marina Silva seja mais capaz que Ciro Gomes de capitalizar o veto a Bolsonaro. Por questões de gênero e raça, ela tensiona melhor com Bolsonaro.
A operação “todos menos Bolsonaro” pode significar a vitória de Marina Silva. Se eu tivesse dez fichas para apostar, colocaria quatro nela.
Já candidatura de Haddad tem a seu favor os tais 40%, que sem Lula estão por aí, órfãos, soltos no ar. Ainda não temos dados disponíveis que nos permitam saber se esses votos migrarão para Haddad. A mudança oficial na cabeça da chapa acontecerá nos próximos dias, em um grande ato simbólico a ser realizado, pelo que li na imprensa, em Curitiba. Lula escreverá seu testamento político e abençoará Fernando Haddad. Acho muito difícil que Haddad não consiga herdar uma quantidade mínima de votos que o coloque pelo menos na casa dos 30%, o que fatalmente o levaria ao segundo turno.
Como disse há pouco, as projeções para o segundo turno mostram Haddad muito próximo a Bolsonaro, mesmo sem fazer campanha, mesmo sem ser oficialmente a cabeça de chapa. Haddad tem margem pra crescer, inclusive junto a um eleitorado tucano mais tradicional. Pode ser que o jeitão de bacharel uspiano sirva para alguma coisa. As outras seis fichas, eu colocaria em Fernando Haddad.
A última pesquisa eleitoral, a ser divulgada nas vésperas do 07 de outubro, será determinante. Quem aparecer na frente na disputa entre Alckmin e Bolsonaro atrairá o veto ao lulismo. Quem aparecer na frente na disputa entre Marina Silva, Fernando Haddad e Ciro Gomes atrairá o veto ao Bolsonaro.
Ainda não dá pra saber. Fato mesmo é que o impedimento de Lula significa uma tragédia política para o Brasil. A eleição em que o favorito disparado não pode concorrer já nasce com aparência de golpe preventivo. Apenas Lula venceria pelo voto. Os outros só podem vencer pelo veto.







terça-feira, 4 de setembro de 2018

O truco do truco (Ricardo Cappelli)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 04/set/2018...



Ricardo Cappelli afirma que manter Lula na urna seria um verdadeiro truco no sistema. 


Leia no Blog do Esmael, clique...


Ricardo Cappelli: O truco do truco

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O narcisista de direita (Raphael Silva Fagundes)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 03/set/2018...

O narcisista de direita

03 DE SETEMBRO DE 2018, 18H44
O narcisista de direita não se importa com museus ou galerias de arte e 
chama de mito um candidato que ignora a história de seu país
Foto: Reprodução/Facebook

A personalidade triunfa sobre as classes em uma sociedade narcisista. As pessoas agem irracionalmente perante a personalidade coletiva, esquecem seus próprios interesses e ficam hipnotizados pelas palavras imponentes do orador. A retórica dele impõe o silêncio dos outros. Todos movem-se fascinados, mulheres tornam-se antifeministas, gays homofóbicos, negros racistas, trabalhadores burgueses, funcionários públicos privatistas, adultos crianças.
A personalidade política se transforma em uma pessoa coletiva, fazendo com que as pessoas acreditem mais nele que nas ideias. E, por sua vez, “a comunidade política se torna moralista, mais do que ideológica”. Richard Sennet destaca que “aqueles que reconhecem a si mesmos nesse indivíduo não precisam falar diretamente uns com os outros”.1 Na cultura narcisista não se pensa mais na ideia, mas na pessoa.
Vivemos em uma era em que as massas resolveram falar de política, justamente em um momento narcisista onde os interesses individuais sobrepõem-se ao interesse coletivo. Este último nem existe mais. Encontramos esses elementos tanto nas esquerdas quanto nas direitas. Os primeiros passaram a valorizar o mercado livre do eu. Luta-se pelo direito de ser reconhecido. O gay, o negro, a mulher, tais causas são fruto da cultura narcisista que formou a nova esquerda. É a luta pela identidade. “A política degenera em uma luta, não para uma mudança social, mas para a auto-realização”.2
O narcisista de direita se encontra na nova classe C que se ampliou durante o governo Lula. E uma analogia intrigante pode nos ajudar a compreender esse novo ser. Christopher Lasch nos mostra que em uma cultura narcisista há um grande horror à velhice e à morte: “o envelhecimento implica um terror especial para os que temem a dependência e cuja autoestima requer a admiração geralmente reservada à juventude, à beleza, à celebridade ou ao encanto pessoal”. O narcisista é incapaz de aceitar que uma geração mais jovem possui “agora muitas gratificações, antes apreciadas, de beleza, riqueza, poder e, particularmente, de criatividade”. E faz de tudo para se manter jovem, em forma, não quer ser deixado para trás, jamais se convencerá que está na hora de dar a vez.
O narcisista de direita pensa a mesma coisa em relação as classes subalternas. Em meio ao cenário de crise, à medida em que vai perdendo seus privilégios, não aceita ideia de que os mais pobres possam chegar onde chegaram. Eles não podem ter “facilidades”, seria como se estivessem furando a fila rumo ao sonho americano.3 A crise econômica vem prejudicando o poder de compra dessa classe média, ameaçando sua glória, como a velhice que tira paulatinamente a disposição juvenil. Essa classe não vê problema algum em fechar as portas que dão acesso ao andar que povoa, pensa apenas em não regredir a condição de pobre de onde veio. Reina agora a ética da autopreservação. É a favor do corte de gastos públicos, e acredita que todo o mal reside no bandido, o demônio que não o deixa usufruir dos elementos narcísicos que geram sua felicidade.
Depois que se atingiu certo patamar, não se importa mais com os conflitos sociais, substitui o termo “classe” por “cidadão de bem”. Não existe mais classe dominante e dominada, apenas o cidadão de bem e os que impedem a realização deste projeto narcisista. A questão não é mais econômica, mas moral. Portanto, não existe mais ideologia, apenas moralismo. Sem o conflito de classe, a questão é apenas a ira contra os que impedem o eu de se realizar na figura do cidadão de bem, trabalhador (não existe mais patrões), consumidor. A história deixa de ser movida pelas lutas de classes, e passa a ser entendida como a luta pela realização do eu. Não existe mais humanismo. Não se pensa mais no ser humano, mas no cidadão de bem e, caso não se encaixe nessa categoria, lhe é desejada a morte. Não deve mais existir políticas para os pobres, mas para o cidadão de bem. Será que um dia esse conceito irá substituir o já deprimente conceito de nação?
O narcisista de direita projeta sua personalidade em um representante que se identifica com ele, que fale o que ele falaria olhando para o espelho. Ele não quer progresso social, quer apenas ser reconhecido como um cidadão de bem.
Observa-se também o fato de a “militância” de direita hoje ser forte nas redes sociais. Esse é o lugar do narcisista, seu lar por excelência, pois os que entram nesse ciberespaço sabem que estão sendo vigiados e assim desejam. Ali se expõe a vida íntima valorizando de forma fanática a felicidade, o corpo e o prazer. As enquetes realizadas nas redes sociais colocam o candidato de direita em primeiro lugar.
Essa classe média não pensa mais no autocrescimento, mas na autopreservação. Dane-se o futuro, dane-se o passado, tudo deve ser feito para a manutenção da condição presente. É nesse momento que, segundo Paulo Freire, “se instaura um clima de ‘irracionalidade’, que gera novos mitos auxiliares para a manutenção do status quo”.4Assim, o narcisista de direita transforma imediatamente seu líder em mito.
Desta forma ele jamais estudaria para obter conhecimento. O investimento nos estudos está na necessidade de preservação enquanto classe média, no arranjar um bom emprego, bem remunerado. Não se pensa na ciência ou na história. Estuda-se com um objetivo externo ao conhecimento; é o saber alienado. Por isso, não se importa com museus ou galerias de arte. Pode parecer até triste ver estas instituições em chamas, mas o aumento do preço da gasolina é pior, qualquer boato de paralisação dos caminhoneiros fará esquecer qualquer tragédia cultural, porque afeta o consumo, a principal ferramenta do homem narcisista.
O narcisista de direita era até pouco tempo o analfabeto político. Até pouco tempo estufava o peito dizendo que odeia a política. “Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”, como bem descreveu Bertolt Brecht.
E aqui há um culto a todas as espécies de ignorância. Chama-se de mito um candidato que ignora a história e a economia de seu país. Que é ignorante no sentido vulgar do termo que confunde falta de conhecimento com o comportamento rude, grosseiro e truculento. Outros cultuam sua ignorância por se fazer de inocente, ingênuo, sem maldade, diferente de todos os políticos. A ignorância é a máxima do narcisista de direita.
Mas a história que hoje está de luto devido a falta de investimento, sempre registrará os fatos. Analisará os conceitos e refletirá sobre essa época. Observará o espírito, as contradições materiais e os conflitos de interesse que fizeram desse tempo um caldeirão de tragédias, manipulação e ódio. E para vós de um tempo vindouro, de um “momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência”.5

1 SENNET, Richard. O declínio do homem público. Trad: Lygia Araujo Watanabe. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 347
2 LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983. P. 51.
3 https://diplomatique.org.br/como-a-direita-seduziu-o-eleitorado-popular/
4  FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.54.
5  BRECHT, Bertolt. Aos que vierem depois de nós.
Original disponível em: (https://www.revistaforum.com.br/o-narcisista-de-direita/). Acesso em 03/set/2018.

PT tem medo do TSE e TSE tem medo do PT (Helena Chagas)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 03/set/2018...

PT tem medo do TSE e TSE tem medo do PT
Superior Tribunal Eleitoral. Foto: STE
Os integrantes do TSE, uma corte sazonal, que alterna períodos de holofotes com outros da mais absoluta obscuridade, têm consciência da enormidade da decisão tomada na madrugada de sexta para sábado, quando cassou a candidatura do líder nas pesquisas presidenciais. Entendem ter cumprido seu dever diante das circunstâncias legais e da opinião pública, mas não querem passar à posteridade como algozes perseguidores, com as mãos sujas de sangue.
Como seria isso? Seria, dizem interlocutores próximos de ministros do TSE, atuar no estilo pega, mata e esfola Lula. Além de negar o registro, tirar o partido da TV e infligir-lhe outras sanções. Esse excesso de rigor seria logo traduzido na propaganda petista como casuísmo, injustiça, perseguição. Também a Justiça Eleitoral sairia arranhada do episódio – pelo qual não é responsável , já que não foi o TSE que condenou Lula no caso do triplex, limitando-se a cumprir a obrigatoriedade da Lei da Ficha Limpa.
Não foi por outra razão que, aos 45 minutos do segundo tempo da madrugada de sábado, reuniram-se os ministros para voltar atrás na decisão de suspender a propaganda do partido na TV até a indicação do substituto de Lula. Estabeleceram que o PT pode usar o programa, sim, desde que o ex-presidente não apareça como candidato.
No fim de semana, até com a desculpa da falta de tempo para troca, o partido resolveu esticar a corda no programa de rádio, mantido com Lula na cabeça. Foi suspenso hoje por decisão do ministro Luiz Felipe Salomão, numa espécie de aviso aos navegantes. E o PT correu a avisar que está mudando todos os seus programas, no rádio e na TV, para não descumprir a lei – ainda que não oficialize imediatamente Fernando Haddad no lugar de Lula.
O resultado desse jogo é, por enquanto, 1 x 1. E interlocutores das duas partes acham que vai ficar por isso mesmo. O PT não vai abusar nos programas e o TSE não vai cassá-los mais. Afinal, se o PT tem medo do TSE, o TSE também tem medo do PT…
Helena Chagas
Jornalista, formada na Universidade de Brasília em 1982. De lá para cá, trabalhou como repórter, colunista, comentarista, coordenadora, chefe de redação ou diretora de sucursal em diversos veículos, como O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil (EBC). Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República de janeiro de 2011 a janeiro de 2014.