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sábado, 18 de fevereiro de 2012

A hora da verdade (Ricardo Amorim)


Ricardo Amorim
Ricardo Amorim é economista, apresentador do "Manhattan Connection" (Globo News) e presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br)

A hora da verdade

Quando tudo tem que dar certo para algo acontecer, é bom botar as barbas de molho

Indicadores econômicos favoráveis no Brasil, nos EUA, na China e até na Europa alimentam expectativas de que a crise europeia e seus impactos globais ficaram para trás. Bolsas e matérias-primas em alta e dólar em queda mostram que a esperança dominou o medo.

Podemos relaxar e gozar as alegrias da recuperação? Inegavelmente, duas medidas importantes foram tomadas para postergar o pior na Europa. O Banco Central Europeu ofereceu € 450 bilhões em empréstimos de três anos ao custo de 1% ao ano aos bancos da região. Com esse dinheiro, e recebendo taxas de cerca de 7%, eles voltaram a comprar títulos da Espanha e Itália, que antes não conseguiam se financiar. O BCE imprimiu ainda € 200 bilhões, que, injetados no FMI, financiaram parte dos pacotes de resgate à Grécia, Portugal e Irlanda.

Em resumo, a Europa adotou o caminho brasileiro da década de 80. Para evitar um calote, optou por rodar a máquina de imprimir dinheiro. As consequências inflacionárias e cambiais a médio e longo prazo nós brasileiros conhecemos bem, mas a curto prazos, a Europa ganhou fôlego. Uma recessão branda na região é quase uma certeza em 2012, mas se ela não vier acompanhada de uma nova crise financeira global causada por calotes, a recuperação econômica nos EUA e na China pode sustentar a economia global.

No entanto, os riscos ainda são muitos: 

1. Eventual calote grego que atinja o FMI e o BCE limitará a capacidade de ambos de conseguir novos recursos para pacotes para Espanha, Itália e bancos europeus.

2. Tal calote grego criaria precedentes que podem também levar Portugal ao calote, gerando preocupações se Espanha e Itália seguirem o mesmo caminho.

3. A possível saída da Grécia, e eventualmente de outros países europeus da zona do euro, pode gerar crise financeira, jurídica e de confiança significativa.

4. A recuperação nos países ricos continua totalmente dependente do estímulo monetário de seus respectivos bancos centrais. Com o balanço do FED e do BCE atingindo 30% do PIB, preocupações com inflação e exaustão dos estímulos monetários são inevitáveis.

5. A fragmentação política europeia e situações econômicas díspares continuam gerando dificuldades de coordenação política e aprovação de medidas corretivas na União Europeia; eleições e polarização política nos EUA, idem.

6. Se a recuperação econômica na Europa e nos EUA não acontecer logo, o risco de revoltas sociais violentas crescerá bastante.

7. Idem no Oriente Médio, onde já começou a frustração com a democratização pós-Primavera Árabe. Uma eventual quebra no fornecimento e alta significativa do preço do petróleo abortariam recuperações ainda incipientes nos EUA, na Europa e no Japão, grandes importadores de combustível.

8. Um eventual ataque militar ao Irã teria um impacto brutal sobre os preços do petróleo, gerando uma recessão global.

9. A atividade e os preços imobiliários estão em queda na China. Muitos acreditam que haja uma bolha imobiliária prestes a estourar.

Conclusão, é possível que o forte crescimento do consumo nos países emergentes, as inovações tecnológicas nos EUA e a integração política e fiscal na Europa se materializem e garantam um crescimento global robusto em 2012. No entanto, como palmeirense, aprendi que, quando tudo tem que dar certo para algo acontecer, é bom botar as barbas de molho. 
Do Portal Istoé: (http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/35_RICARDO+AMORIM). Acesso em: 18/fev/2012.

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domingo, 30 de outubro de 2011

Bolsa Brasil (Ricardo Amorim)


Ricardo Amorim
Ricardo Amorim é economista, apresentador do "Manhattan Connection" (Globo News) e presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br)

Bolsa Brasil

Ela está sempre em alta e vai sendo valorizada ao gosto de cada freguês

Se você achou que este artigo trataria das perspectivas para nossas ações, enganou-se. Vou falar dos programas de transferência de renda do governo e suas consequências. Com frequência, escuto inúmeras críticas ao Bolsa Família. Algumas procedentes, como o fato de o benefício não ter prazo para acabar e seu valor ser idêntico em locais com custo de vida tão díspares como São Paulo e o sertão nordestino. Outras, como a existência do programa, improcedentes. 

O que realmente impressiona é que outros programas de transferência de renda e subsídios implícitos ou explícitos, com custos muito mais elevados do que os R$ 16 bilhões anuais do Bolsa Família, não recebam as mesmas críticas. Por exemplo, o Bolsa Empresário – diferença entre o custo de financiamento do Tesouro Nacional e as taxas dos empréstimos do BNDES – custará R$ 18 bilhões em 2011. O Bolsa Exportador – diferença entre a remuneração das reservas internacionais e o custo de financiamento da dívida pública – custará mais de R$ 60 bilhões. O Bolsa Aposentado custará mais de R$ 90 bilhões – o déficit de nosso sistema de previdência.

Você deve estar pensando “só eu não ganho o meu”. É muito provável que ganhe, sim. Há, por exemplo, o Bolsa Idoso e o Bolsa Estudante, conhecidos popularmente como Lei da Meia-Entrada, que faz com que todos os demais paguem ingressos mais caros para que estudantes e idosos paguem menos. Há ainda o Bolsa Mulher, a lei que permite que mulheres se aposentem cinco anos antes dos homens; o Bolsa Rural, com linhas de créditos subsidiadas para o setor; o Bolsa Banqueiro, abençoado pelas nossas taxas de juros elevadíssimas para cobrir as enormes necessidades de financiamento do setor público; o Bolsa Funcionário Público, devido a salários superiores aos praticados pela inciativa privada para as mesmas funções e às aposentadorias privilegiadas; o Bolsa Universitário, para os estudantes de universidades públicas gratuitas. Não nos esqueçamos do Bolsa Corrupto, recursos do inchado erário desviados para bolsos privados.

Eu sei, eu sei. O programa que beneficia especificamente você é completamente diferente dos demais e plenamente justificado. É por isso que o Brasil tem hoje uma das cargas tributárias mais elevadas do planeta, mas faltam recursos para investimentos em educação, saúde e infraestrutura. E continuamos discutindo a elevação do Bolsa Político – a arrecadação pública – criando-se mais um imposto para financiar o setor de saúde.

Uma das funções mais importantes do Estado é corrigir distorções de mercado – como, por exemplo, uma excessiva concentração de renda. No Brasil, confundimos isso com governo gastão, que se mete em tudo e distorce mais do que corrige distorções. Enfim, enquanto você continuar convencido de que o seu programa é mais do que justo, pense duas vezes antes de reclamar do Bolsa Família, dos impostos altíssimos, da infraestrutura precária e da saúde, educação e segurança deficientes. Ao compactuar com o atual sistema, a sociedade brasileira faz uma opção por um governo forte e poderoso que nos oferece migalhas e um país cuja capacidade de se mover é limitada pelo peso do próprio governo. Escolhemos o dinheiro dos Bolsas, em vez de dinheiro nos bolsos. Já passou da hora de refazermos nossas escolhas. 
Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa Manhattan Connection, da Globonews, e presidente da Ricam Consultoria

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Do Portal Isto É: (http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/35_BOLSA+BRASIL). Acesso em: 30/out/2011.