Acessos

Mostrando postagens com marcador "O Golpe começou em Washington" (Cf. Paulo Henrique Amorim). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "O Golpe começou em Washington" (Cf. Paulo Henrique Amorim). Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

"O Golpe começou em Washington" (Cf. Paulo Henrique Amorim)

06/jan/2015...

Gaspari, o Golpe começou em Washington

Por que o autor da aclamada “tetralogia” não deu bola para o Morel ?
Publicado em 06/01/2015

O Presidente Ranieri Henrique Cardoso assume, docemente constrangido





Com prefácio de Moniz Bandeira, autor do clássico “O Governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil – 1961-1964”, e ensaios de Marco Morel, historiador e neto do autor, e de Leonardo Brito, também historiador, a editora Paco Editorial acaba de lançar a segunda edição de “O Golpe começou em Washington”, do jornalista Edmar Morel, escrito, em 1965, um ano após o dito Golpe.

Era tudo verdade !

Autor do também clássico “A Revolta da Chibata”, Morel faz um minucioso, exaustivo inventário das atividades americanas – no Brasil e nos Estados Unidos – para derrubar Jango.

Não era um capítulo da “teoria conspiratória”.

Era tudo verdade.

O papel despudorado do interventor americano, o co-presidente do Brasil, Lincoln Gordon, que ocupava a embaixada americana, em comodato com o chefe da CIA, general Vernon Walters.

Morel descreve a movimentação militar prevista pelo presidente Kennedy e executada por Lyndon Johnson, sob a batuta de Gordon, para apoiar os Golpistas.

Moniz Bandeira reconstitui o que já se tinha visto nos excelentes documentários “Dossiê Jango” e “O dia que durou 21 sinistros anos”:

San Tiago Dantas, advogado de múltiplos  interesses americanos no Brasil – como demonstra Morel – avisou Jango que a Marinha americana ia apoiar os golpistas.

E Jango temeu que os americanos dividissem o Brasil ao meio, como fizeram na Coreia e no Vietnã.

Morel levanta os interesses americanos que Jango contrariou – e que levaram à sua queda.

A legitimação da encampação da Bond & Share.

O combate aos laboratórios farmacêuticos e a heroica tentativa de fazer o que Lula fez: a Farmácia Popular.

O bloqueio à tentativa da Hanna Mining Company de tomar conta do minério de ferro.

A Lei de remessas de lucros.

O dinheiro a rodo que os americanos depositaram no IBAD para financiar a eleição de políticos alinhados com Gordon.

(O mesmo rodo – do Fundo do Trigo do Governo americano – levou dinheiro para o IPES, um Instituto Millenium, onde o general Golbery subornava jornalistas e donos de jornais para “defender” o Golpe com profícua “produção intelectual”.) 

A encampação das refinarias privadas de petróleo, que operavam com os interesses americanos.

Está tudo aí, nesse trabalho pioneiro e de inestimável valor.

Que deveria ser distribuído de graça nas escolas públicas do Brasil.

Estão todos lá.

Os Golpistas de então são os mesmos de hoje.

Os da UDN, do PRP e do PSDB.

Os argumentos – abaixo a desenfreada corrupção; só os estrangeiros salvam a Petrobras da ruína – são os mesmos.

Os personagens, também.

Juscelino, que apoiava as refinarias americanas e a Hanna e traiu Jango, está escondido no meio do PMDB.

Fernando Henrique pode ser o Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara e sucessor temporário de Jango.

Mazzilli e Fernando Henrique se equivalem na vaidade.

E na pusilanimidade: desempenhar o papel do civil que, docemente constrangido, assumiria ainda que provisoriamente a Presidência, para salvar o Brasil do abismo.

Morel não dá a mínima atenção ao presidente da UNE, Padim Pade Cerra, embora ele se considere um protagonista de 64 – escreveu até a versão bolinha de papel do Golpe.

A UDN está no Golpe até o pescoço – ou melhor, até o bolso.

Lá se instalaram alguns Varões de Plutarco da UDN, como o ministro da Justiça (?) da “Revolução”, o mineiro Milton Campos !

Um Tartufo, como seu sucessor, Aécio Never.

A descrição do caráter dos personagens Golpistas e entreguistas ilustra a fartura de dados e provas recolhidas pelo repórter Morel.

Ressalte-se trabalho impecável de Leonardo Brito, autor do anexo “Um Golpe ‘Made in USA’ – notas para um balanço biográfico”.

Está lá na página 64 (coincidência !), uma breve análise do papel que a “tetralogia”, “bastante aclamada pela grande mídia”, do historialista (ver no ABC do C Af) de múltiplos chapéus (também no ABC do C Af), Elio Gaspari.

Segundo Brito, Gaspari entra no capítulo dos que atribuem a Jango a culpa pela queda de Jango.

Como se sabe, Gaspari assegurou que Jango caiu porque gostava de pernas – de cavalos e de coristas.

É o gato que escondeu com o rabo de fora.

O que o historialista quis provar em sua “tetralogia” aclamada pelo PiG ?

Que o Golpe não começou em Washington.

Não fosse ele um americanófilo infatigável, embaixador plenipotenciário da Universidade de Harvard no Brasil e correspondente emérito da Amazon.

Segundo, o historialista quis ressaltar o papel de dois iluminados generais Golpistas que, segundo ele, são os Fundadores da Democracia no Brasil.

Geisel, o Sacerdote, e Golbery, o Feiticeiro, deram o Golpe para salvar o Brasil e acabaram com o Golpe – também para salvar o Brasil.

Quá, quá, quá !

E por alguns anos, essa “teoria” teve curso no PiG e em ilustres salões da elite, como a versão predominante do que aconteceu no Brasil em 1964.

Se ainda não tivesse sido devidamente desmontada, a reedição do livro de Morel acaba de fazê-lo, de forma implacável.

Morel merecia estar vivo para contemplar um dos aspectos de sua magnífica obra.

Em tempo: em sua aclamada “tetralogia”, Gaspari não dá a menor bola para Morel nem para outro livro central: “1964 – A Conquista do Estado – Ação política, poder e golpe de classe”, de René Armand Dreifuss, Editora Vozes.

Em tempo2: 
o Eduardo Cunha, que o Ciro conhece bem, tem o jeito do Auro de Moura Andrade que, como presidente do Congresso, declarou vaga a Presidência, enquanto Jango ainda estava em território nacional.


Paulo Henrique Amorim