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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Bolsas: Queda mundial aponta possível agravamento da crise capitalista - Portal Vermelho

domingo, 21 de julho de 2013

O ataque ao modelo social europeu (Vicenç Navarro)

21/07/2013 | Copyleft 

O ataque ao modelo social europeu

Na Espanha e em outros países do sul do continente, todos eles submersos em ditaduras fascistas ou fascistoides, a Europa era o lugar de destino para as forças antifascistas que lutavam para conseguir liberdade, justiça social e bem-estar. A Europa era o sonho que aspirávamos. Pois bem, este sonho se converteu em um enorme pesadelo. Por Vicenç Navarro


Pois bem, este sonho se converteu em um enorme pesadelo. E a grande maioria da população espanhola já expressa, através de pesquisas, que esta não é a Europa que desejavam e haviam sonhado. Hoje, pertencer à Europa representa alguns enormes sacrifícios (o desmantelamento do já escassamente financiado Estado de Bem-estar, a redução dos salários e da proteção social, e a enorme destruição de empregos, passando a ser a Espanha, junto com a Grécia, os países com maior desemprego, alcançando índices nunca vistos antes, mais de 50% entre os jovens).

E todos esses sacrifícios estão sendo promovidos precisamente por aqueles que são responsáveis pela enorme crise financeira e econômica que a Europa e a Espanha experimentaram em sua história recente. E estou me referindo ao que costumava clamar-se a classe capitalista (hegemonizada pelo capital financeiro, baseado na especulação) e que agora, utilizando uma narrativa mais americana (na verdade, estadunidense) chama ao establishment financeiro e grande patronal. É uma guerra de classes (class war) que estão vencendo em bases diárias, à custa de um enorme sacrifício humano por parte das classes populares e que aparece em toda variedade de indicadores (níveis de pobreza e exclusão social, número e taxa de suicídios, taxas de desnutrição infantil, estresse social – tanto individual como coletivo -, doenças mentais, deterioro das taxas de novos casos de doenças cardiovasculares, infartos e ataques de coração, e muitos outros) que estão sendo documentados em uma longa lista de trabalhos científicos de grande credibilidade e que estão sendo publicados em várias revistas de prestígio internacional. E essas deteriorações estão sendo mais acentuadas nos países do sul, onde as políticas neoliberais tem sido impostas com maior intensidade. Estas são as consequências do ataque mais frontal que o “modelo social europeu” está experimentando.

As condições para que o ataque seja exitoso

Ataque esse que exigiu uma série de mudanças que debilitaram os instrumentos que tradicionalmente defendiam os interesses das classes populares, que incluem os sindicatos, os movimentos sociais e os partidos de esquerda.

Assim, o establishment neoliberal que controla a União Europeia e seu governo (o Conselho Europeu, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e a Corte Suprema Europeia, entre outros) foram impondo toda uma série de medidas com as que exitosamente levaram a alcançar estes objetivos. Vejamos algumas destas medidas:

1. A decisão da Suprema Corte Europeia (EU Court of Justice) nos casos Laval, Rütter e Luxemburgo, que anulou e/ou reduziu consideravelmente o direito de greve.

2. As recomendações da Troika que debilitam significativamente os convênios coletivos, tanto no setor privado como no público.

3. As imposições, também da Troika, como condição dos famosos resgates (que facilitam o pagamento das dívidas públicas aos bancos responsáveis pelas crises financeiras) que implicam no desmantelamento dos serviços públicos, com grande destruição de emprego nestes setores.

4. As imposições, também da Troika, de reformas dos mercados de trabalho, que têm como objetivo a criação de desemprego e a redução dos salários e da proteção social, com o fim de debilitar o mundo do trabalho.

5. A aprovação por parte do establishment neoliberal europeu (que governa a Eurozona) de toda uma bateria de tratados e acordos (o Pacto pelo Euro Plus, também chamado “Competitiveness Pact” e o Pacto Fiscal) que têm - todos eles - como objetivo diminuir, a ponto de anular, o poder da população (e muito em particular da população trabalhadora) de opor-se ao desmantelamento do modelo social. Todos esses pactos foram aprovados sem que se oferecesse à população a possibilidade de participar ou debater as medidas draconianas que tais pactos ou tratados preveem contra o Estado do Bem-estar em seus países. Na verdade, o ataque ao modelo social requer também a redução, quando não a eliminação da democracia nestes países. A eliminação do modelo social requer a diluição, quase o aniquilamento, da democracia na União Europeia. A única instância democrática no espaço europeu é o Parlamento Europeu, que tem jogado um papel marginal no desenho e aprovação desses tratados. E, a nível de cada Estado, ditas medidas – como foi o caso na Espanha – foram aprovadas por elites muito pouco representativas da maioria do eleitorado, ao qual se mantém marginalizado.

A eliminação do modelo social requer a destruição da democracia. E isso ocorreu com a cumplicidade dos maiores meios de difusão e de outras instituições geradoras de opinião e persuasão, que estão à serviço dos poderes financeiros e empresariais que os possuem ou influenciam. Hoje estamos assim, vendo a desaparição da democracia e do Estado social.

*Catedrático de Políticas Públicas, Universidade Pompeu Fabra e Professor de Public Policy em The Johns Hopkins University. Artigo publicado originalmente na coluna “Domínio Público” no jornal publico.es, em 18 de julho de 2013.



(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22390). 

domingo, 16 de junho de 2013

Crise Européia. Incoerência econômica não produzirá recuperação rápida (Simon Evenett)

por The Observer — publicado 13/06/2013 10:40, última modificação 13/06/2013 10:56

Incoerência econômica não produzirá recuperação rápida

Políticos europeus declaram a morte da austeridade e depositam esperança na reforma estrutural. O problema é que esta leva décadas para funcionar
Por Simon Evenett*
LOUISA GOULIAMAKI / AFP
Protestos na Grécia
Protesto na Grécia, um dos países mais afetados pela crise na Europa
Digam o que disserem os eurocéticos, os presidentes da Comissão Europeia têm uma função importante: afundar grandes projetos que se tornaram politicamente tóxicos. Uma década atrás, Romano Prodi declarou que a camisa de força fiscal do início da era do euro era "burrice", e isso pôs fim ao pacto de estabilidade e crescimento. No início, quando pequenos membros como Irlanda e Portugal rompiam o pacto, eram censurados - e até multados - pela comissão. Quando França e Alemanha não puderam suportar suas restrições, Prodi atirou a toalha. Afinal, burlar o pacto tornou-se tão comum que começou a minar a credibilidade da comissão.
Avanço rápido para 2013, e esse ciclo se repetiu. Desde 2010, governos dos países da UE se comprometeram à austeridade e a comissão pastoral assumiu a liderança em monitorar, convencer e às vezes punir seu rebanho. Enquanto isso, o apoio do público à UE despencou. A empresa de pesquisas Pew Research relatou em maio que a porcentagem de pessoas com uma visão favorável da UE tinha caído de 68% em 2007 para 46%. Hoje, só 29% acreditam que a integração europeia fortaleceu seu país. Apenas 17% acreditam que cortar a dívida pública deve ser a principal prioridade do governo.
Enfatizar a austeridade, porém, não apenas está fora de compasso com a opinião pública como ameaça o apoio ao projeto europeu. Em última instância, a austeridade ameaçou a viabilidade política de muitas vacas sagradas. Entra em cena José Manuel Barroso, o carrasco da austeridade. No final de abril, ele se desviou do roteiro em comentários a um grupo de pensadores de Bruxelas. Reconhecendo o minguante apoio público à UE, ele fez a ligação com a atual "situação financeira".
Depois veio o golpe fatal. Barroso comentou que as atuais políticas tinham alcançado seus limites e então opinou que políticas de sucesso devem ter um grau mínimo de "apoio político e social", como ele disse. O fato de que o porta-voz de Barroso tentou minimizar seus comentários só acrescentou lenha à fogueira. O fracasso da austeridade não é apenas político.
Dois dias antes de Barroso falar, o órgão estatístico da Europa, Eurostat, anunciou que a redução do déficit do governo em 2012 havia estagnado tanto na zona do euro como na UE em geral. Pior, apesar da atenção dada à austeridade, a parcela de renda nacional gasta pelos governos aumentou em 2012, subindo mais na zona do euro do que no resto da UE. O programa de austeridade da UE ou deixou de conter os gastos do governo ou deixou de produzir cortes do déficit. Esses fatos zombam da contenção da OCDE, salientada em sua recente previsão econômica no final de maio, de que os programas de austeridade na Europa funcionaram porque permitiriam a estabilização das proporções entre dívida e PIB até 2030.
Então é a volta aos estímulos econômicos? Não tão rápido. No país das maravilhas que promove a atual elaboração de políticas econômicas, abandonar a austeridade veio, com uma notável exceção, com promessas de não reinflar as economias com gastos públicos. A exceção, de modo bizarro, vem da Comissão Europeia. Recentemente, Barroso repetiu seu pedido de que os países membros da UE deem ao Banco Europeu de Investimento bilhões de euros para investimento em infraestrutura. O gasto nacional em pontes é ruim, mas os gastos conduzidos por Bruxelas são bons. No melhor dos casos, isso remove os gastos dos balanços nacionais; no pior, é incoerente.
Como a política fiscal e de gastos não está sobre a mesa e a política monetária foi terceirizada para os bancos centrais, que agenda restou para os ministros das Finanças e Bruxelas? A ênfase tem de ser para a reforma estrutural. Certamente, organizações internacionais como o FMI e a Comissão Europeia haviam defendido a reforma estrutural mais cedo, juntamente com a austeridade. Agora a primeira é o único jogo praticado.
O que podemos esperar de maneira realista, então, dessa nova fase de reação política em tempo de crise? Nem mesmo os proponentes das reformas estruturais afirmam que ela recompense tão rapidamente. Lembretes disso surgiram no último debate sobre o legado econômico de Margaret Thatcher. Foi reveladora a frequência com que comentários econômicos sérios indicaram ganhos na produção per capita até 2007, cerca de 28 anos depois que ela assumiu o cargo. As reformas levaram o crédito por reforçar a concorrência e aumentar os números do trabalho, mas não por aumentar a produtividade do Reino Unido em relação a seus pares.
A reforma estrutural não é uma solução rápida. Muitos defensores da reforma estrutural são francos o suficiente para reconhecer que ela gera dores em curto prazo. Isso não é difícil de entender. Se você tem um emprego do qual é difícil que o demitam, a reforma do mercado de trabalho introduz insegurança, e você poderia ser tentado a poupar mais agora que há uma maior perspectiva de desemprego. A reforma trabalhista em toda a economia poderia induzir cortes de gastos do consumidor, acrescentando outro peso a uma economia fragilizada. Além disso, esse sofrimento em curto prazo provavelmente não será bem recebido pelos eleitores. Na verdade, é por isso que os políticos com um interesse saudável em seus futuros resistiram a implementar reformas estruturais.
Ainda assim, suponha que reformas estruturais de curto prazo fossem implementadas com o apoio ativo da Comissão Europeia. O sofrimento em curto prazo mais uma vez minará o apoio ao projeto europeu, e caberá a outro presidente da comissão dar o golpe de misericórdia. Com o fim da austeridade, a falência das políticas de recuperação econômica se tornará cada vez mais visível.

Simon J. Evenett é professor de economia na Universidade de St. Gallen, Suíça.
(http://www.cartacapital.com.br/economia/politica-economica-europeia-incoerente-nao-produzira-uma-recuperacao-rapida-4169.html/view). 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O economista que previu o estouro da bolha financeira fala sobre as raízes profundas da crise (Raghuram Rajan. Entrevista p. Marcelo Sakate)

Boa leitura para domingo: o economista que previu o estouro da bolha financeira fala sobre as raízes profundas da crise


Raghuram Rajan

17/06/2012
 às 17:08 \ Vasto Mundo

Boa leitura para domingo: o economista que previu o estouro da bolha financeira fala sobre as raízes profundas da crise

Raghuran Rajan: "Os políticos trabalham de olhos nas eleições. Pouco fazem para consertar as deficiências estruturais da economia" (Foto: Roberto Setton)
Raghuran Rajan, professor da Universidade de Chicago e ex-economista-chefe do FMI: "Os políticos trabalham de olhos nas eleições. Pouco fazem para consertar as deficiências estruturais da economia" (Foto: Roberto Setton)
(Entrevista a Marcelo Sakate, publicada na edição impressa de VEJA)

Raghuram Rajan
AS RAÍZES PROFUNDAS DA CRISE
Para o professor da Universidade de Chicago, que anteviu o estouro da bolha, os estímulos de curto prazo são insuficientes para eliminar as fragilidades na economia mundial
O indiano Raghuram Rajan, 49 anos, é um dos economistas mais respeitados de sua geração, pelos seus diagnósticos precisos sobre o sistema financeiro e a economia global.
Um exemplo: em agosto de 2005, numa conferência para debater o legado de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Rajan fez um discurso destoante dos elogios consensuais. Advertiu que a criação de aplicações financeiras complexas havia sido acompanhada de um aumento excessivo da exposição dos bancos a operações de risco, pondo em perigo o sistema financeiro global.
Na ocasião, ele era o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, cargo que ocupou por três anos.
Há dois anos, Rajan lançou o livro Fault Lines, uma referência às “falhas geológicas” que, em sua opinião, representam as causas profundas da crise financeira. A obra, escolhida como a melhor de economia de 2010 pelo jornal Financial Times, foi lançada em maio no Brasil pela Editora BEI, sob o título Linhas de Falha – Como Rachaduras Ocultas Ainda Ameaçam a Economia Mundial.

Que “falhas geológicas”, como o senhor define, ameaçam a economia mundial?
Existem falhas profundas que são responsáveis pela crise nos últimos anos.
Nos Estados Unidos e na Europa há uma combinação de baixo crescimento com distribuição desigual de renda. As políticas usadas para restabelecer o crescimento se mostraram insuficientes e, em alguns casos, criaram mais problemas.
Nos Estados Unidos, os incentivos para a ampliação do endividamento das pessoas, especialmente utilizando a casa como garantia, foram uma das causas da crise imobiliária. Da mesma forma, na Europa, a disposição de governos para tomar dinheiro emprestado e gastar sem limite é em parte responsável pelas dificuldades da Grécia, apenas para dar o exemplo mais extremo.
Outra falha advém do fato de muitos países possuírem políticas orientadas para o aumento do consumo, como é o caso dos Estados Unidos, enquanto outros estão voltados para produzir mais e poupar mais, como a Alemanha e a China.
Essas divergências resultaram num desequilíbrio global, no qual alguns países bancam o excesso de gastos de economias ricas. É um movimento insustentável. A retração nas economias mais desenvolvidas resulta desse endividamento excessivo, tanto das famílias como do governo.

As autoridades mundiais estão combatendo essas falhas?
Os políticos, em geral, olham apenas o curto prazo.
Eles costumam trabalhar preocupados com as próximas eleições. Pouco agem no sentido de consertar os fundamentos vitais para o longo prazo, como o aprimoramento da educação, o treinamento dos trabalhadores e o aumento da produtividade.
A tendência é escolherem a solução mais fácil, gastando um pouco mais e deixando o tempo sanar os desequilíbrios.
Nem sempre essa estratégia funciona.

Devemos ficar pessimistas, portanto, com as perspectivas para a economia mundial?
Um dia os políticos podem reconhecer a necessidade de fazer reformas, ao menos em parte.
É semelhante ao que aconteceu no Japão na década de 90. Os japoneses passaram oito anos fingindo que não havia problemas. Só então começaram a agir.
Da mesma forma, se na Europa alguns países não fizerem as reformas estruturais necessárias, a região terá sérias dificuldades para crescer. É preciso assegurar que os salários sejam compatíveis com o valor agregado pelos trabalhadores. Em alguns países, os salários subiram muito acima da produtividade.
Há duas maneiras de realizar esse ajuste agora. A primeira, cortando drasticamente os salários. É o que os programas de austeridade tentam fazer.
A segunda, elevando a produtividade. É o que buscam as reformas estruturais.
São medidas como o estímulo à competição, a redução dos custos operacionais e a diminuição do excesso de burocracia. Até agora, as autoridades tentam implantar só as medidas de austeridade, mas deveriam mudar o foco para as reformas.
A analogia que se fazia com o Japão é a do sapo dentro de uma panela com água fria, colocada sobre a chama. Se a água for aquecida lentamente, o sapo não saltará e será cozido. Se a desaceleração na atividade econômica for lenta, não existe o impulso para mobilizar os políticos no sentido de executar as reformas.

É possível evitar uma nova crise?
Podemos fazer todo o possível para consertar, ao menos parcialmente, as falhas que originaram a última crise, mas isso não nos livrará necessariamente da próxima. Em geral, é difícil identificar as causas a tempo. Na minha avaliação, os maiores desafios da atualidade estão na desaceleração da produtividade, na queda do crescimento e na necessidade de reduzir a desigualdade de renda.

O senhor aponta a desigualdade social como uma das causas para a crise financeira americana. O incentivo para o aumento do endividamento, e a partir daí o estímulo ao consumo e à aquisição de imóveis, teria sido, segundo o seu argumento, uma maneira de amenizar o contraste social. A situação melhorou desde o estouro da bolha imobiliária?
Está piorando. As pessoas reconhecem que existe o problema, estão mais participativas – veja o movimento “Ocupe Wall Street” -, e o presidente Barack Obama começou a usar a desigualdade e a polarização como argumento para algumas políticas.
Mas os democratas tentam apresentar os republicanos como o partido dos ricos. É um jogo de soma zero. Quando as pessoas dizem “vamos tirar dos ricos e dar aos pobres e assim reduzir a desigualdade”, está-se criando um conflito de classes. O melhor para todos seria dizer: “Ouçam, existem muitas pessoas que não estão se beneficiando do crescimento. Se não encontrarmos meios para trazê-las para participar desse processo, haverá uma polarização ainda maior e políticas piores”.
Precisamos encontrar meios para que essas pessoas tenham acesso à educação de qualidade e aos serviços de saúde. Talvez, para isso, seja necessário mais dinheiro, que pode ser obtido taxando os ricos. Mas o governo poderia cobrar um pouco mais de impostos de todo mundo para ajudar os verdadeiramente pobres.

O senhor critica o Federal Reserve por manter a estratégia de juros baixos para reanimar a economia. Por quê?
A grande questão é o que virá depois. É imprevisível. Algumas regiões dos Estados Unidos experimentaram um boom imobiliário. Depois a bolha estourou. Agora as pessoas estão muito endividadas e não podem mais gastar. Mas são pessoas concentradas em poucos estados, como Flórida, Nevada, Arizona. As baixas taxas de juros não aumentam a demanda nesses estados, porque as famílias já vivem atoladas em dívidas. Se os habitantes de Nova York gastarem mais, eles não comprarão obrigatoriamente produtos fabricados em Nevada ou no Arizona.

O senhor vê indícios de que a política do Fed esteja alimentando novas bolhas?
Acredito que haja riscos, mas ainda não são bolhas propriamente ditas. Países como o Brasil recebem fluxo enorme de recursos porque, em parte, as suas taxas de juros são elevadas, enquanto nos Estados Unidos são muito baixas. Com o otimismo sobre a economia brasileira, o dinheiro continuará a entrar. Há outros indícios. Nos Estados Unidos, o preço da terra está subindo muito fortemente. É um problema potencial. Mas bolhas são algo sobre o que você nunca tem certeza até que ocorra o colapso.

Como evitar que o enorme fluxo de recursos que ingressam no Brasil possa ameaçar a economia?
Não existem instrumentos diretos que sejam sustentáveis no longo prazo para tentar conter a entrada de capital financeiro internacional. Mas há meios indiretos. As taxas de juros no Brasil são elevadas por uma série de razões. Seria útil corrigir os fatores estruturais que as pressionam. Ainda mais importante seria assegurar que, mesmo que o dinheiro ingresse no país para financiar a economia, ele não seja imediatamente utilizado e que se tente cortar os gastos em outras áreas.
Será necessário pressionar o governo para obter superávits fiscais maiores, em vez de aumentar os gastos para absorver os recursos. Existe também a possibilidade de controlar a entrada de capital para prolongar o prazo de permanência do dinheiro. Por fim, pode-se facilitar a saída de capital do país, diminuindo, por exemplo, as restrições aos gastos no exterior das pessoas e também das empresas.

Por que o senhor não acredita na eficácia da política de estímulos ao consumo?
É preciso encontrar maneiras de obter um crescimento sustentável. Essa é a grande questão para todo o mundo. Em última instância, será o desafio que muitas economias emergentes já reconheceram para si. É preciso capacitar as pessoas, ampliar o acesso à educação e aos serviços de saúde e criar a estrutura para que possam trabalhar. Flexibilizar as regras para que possam sair do emprego se quiserem fazer coisas mais interessantes. Ou seja, retomar as medidas para o crescimento. São questões fundamentais para esses países.

A crise deu margem a que economias emergentes, como o Brasil, reforçassem o chamado capitalismo de Estado, em que os governos são mais atuantes. Qual a eficácia dessa estratégia?
O capitalismo de Estado pode funcionar em economias emergentes onde inexistam instituições privadas fortes, como uma alavanca temporária para reduzir a distância que as separa de países desenvolvidos. Se o Estado é grande, pode cumprir as tarefas facilmente. É muito óbvio o que precisa ser feito, como pontes, estradas e fábricas.
O problema é quando a missão não é tão clara, como avançar em inovação, algo essencial à medida que um país amadurece. Nesse ponto, são necessárias empresas privadas e independentes do governo, que possam fornecer incentivos para os seus trabalhadores progredirem e inovarem.
Isso significa desistir de monopólios estatais, encorajar a competição, incentivar empresas privadas e privatizar. Há uma agenda extensa de ações, e muitos países não conseguem cumpri-la.
Sou cético quanto à capacidade do capitalismo de Estado de preservar o crescimento econômico, de maneira duradoura, à medida que um país enriquece.

No Brasil, o governo adotou medidas para defender alguns setores da concorrência externa, considerada desleal, principalmente vinda da China. É uma decisão acertada?
A pergunta certa a ser feita é: em que momento eles devem se tornar mais abertos e liberalizar a economia para que se beneficiem da competição, da inovação e do crescimento? A coisa errada a fazer quando um país passa a ser emergente é reduzir a competição, porque ele pode se tornar cada vez mais protecionista e se afastar da fronteira que o separa das nações desenvolvidas, em vez de se aproximar.
A consequência é uma queda na produtividade. Uma vez que um país tenha crescido razoavelmente e atingido uma renda per capita média, como é o caso brasileiro, tentativas para reduzir a competição e para celebrar campeões nacionais tendem a afetar a eficiência no longo prazo.

Recentemente, o senhor disse que a Índia precisa acelerar as reformas. É uma lição de casa aos emergentes?
O que eu argumentei para as autoridades indianas é que os países em desenvolvimento, em geral, precisam de uma segunda rodada de reformas. A primeira onda foi bem-sucedida e resultou em um crescimento acelerado. Mas, se você não retomar as reformas e não aplicar de maneira transparente os recursos, a economia perderá o ritmo.

O que o Brasil pode aprender com a Índia?
O forte crescimento da economia global fez o preço de muitos recursos produzidos pela Índia subir tremendamente, de matérias-primas a equipamentos de telecomunicação. No início, não houve muita preocupação dos indianos com a forma como seriam aplicados os recursos nem com a transparência. Uma quantia enorme foi desperdiçada, e as pessoas perderam a confiança no governo.
No Brasil, será muito importante avaliar se o dinheiro gerado pelo petróleo será utilizado em benefício da população. Se o governo quiser agir com transparência, os recursos devem ser destinados a uma conta separada, em vez de acabar como despesa pública.
Parte da riqueza pode formar fundos que revertam em benefícios a gerações futuras. Outra parte pode virar investimento físico e em capital humano. Será crucial saber utilizar os recursos. Muitos países enfrentaram o desafio e não conseguiram ampliar os benefícios para a economia. Ao contrário, gastaram mal e tornaram-se menos competitivos.

domingo, 11 de novembro de 2012

Banco espanhol suspende despejo após suicídio de cliente (Danielle Chaves)


Banco espanhol suspende despejo após suicídio de cliente

11 de novembro de 2012 | 9h 57

DANIELLE CHAVES - Agência Estado
O banco de poupança espanhol Kutxabank, do País Basco, suspendeu todas as ordens de despejo depois que uma cliente que seria despejada se matou na última semana, gerando protestos contra os bancos nas ruas da Espanha. A decisão do Kutxabank é a primeira do tipo tomada por uma instituição do setor bancário espanhol, que vem sendo prejudicado financeiramente pelo estouro da bolha imobiliária no país, em 2008.
"O presidente do Kutxabank, Mario Fernandez, instruiu a entidade a imediatamente suspender todos os procedimentos de despejo relacionados a hipotecas até que novas regulamentações sejam conhecidas", informou o banco em um comunicado. Na sexta-feira o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, prometeu oferecer propostas para reduzir a pressão sobre os proprietários de casas em uma reunião na segunda-feira.
A ex-política do Partido Socialista Amaia Egana, de 53 anos, se jogou da janela de seu apartamento na quinta-feira, no segundo suicídio em 15 dias relacionado a ordens de despejo. Duas semanas antes, José Luis Domingo, também de 53 anos, se enforcou pouco antes de oficiais irem retirá-lo de sua casa na cidade de Granada. Centenas de pessoas fizeram protestos contra os bancos na sexta-feira em Madri e na cidade de Barakaldo.
A quarta maior economia da zona do euro está em recessão desde o ano passado, o que levou a taxa de desemprego para mais de 25%. As informações são da Dow Jones.

Do Portal Estadão: (http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,banco-espanhol-suspende-despejo-apos-suicidio-de-cliente,958822,0.htm). Acesso em: 11/nov/2012.