19/out/2014...
Eu chamei a minha biografia de Sigmund Freud: En Son Temps et Dans le Nôtre(“Sigmund
Freud – em seu tempo e no nosso”). Penso que se não compreendermos
Freud no seu tempo, como ele viveu, o que ele viu, como elaborou seus
textos, muitas vezes adotamos teses completamente aberrantes, mudando de
ideia permanentemente, realizando coisas geniais e coisas muito
equivocadas. Se contextualizarmos sua época, entenderemos melhor a nossa
e compreenderemos melhor o que é Freud hoje. Por exemplo: Freud estava
convicto que o inconsciente estava fora do tempo, na eternidade, como um
mito, por isso foi buscar explicações nos mitos da Grécia Antiga. Ele
pensava que aquilo que existia no inconsciente chegaria necessariamente à
História. Quando é deflagrada a guerra de 1914, a I Guerra, que vai
destruir o primeiro movimento psicanalítico, já que era um movimento
eminentemente europeu, e a guerra destruirá a Europa, Freud pensa que o
Império sairá vencedor, e se engana. Ele também pensa que aquilo que
aconteceu na realidade é o que se passa no inconsciente. Que a
destruição, isso tudo, estava no inconsciente. Não é falso, mas eu
entendo no sentido inverso. Em meu livro, demonstro que o que Freud
aplicou em sua teoria era um reflexo de sua época. Eu historicizei.
Porque se aplicarmos a teoria psicanalítica a todos os contextos, como
queria Freud, não compreenderemos o que está acontecendo. Ela também é
produto de uma época.
Entrevista:
Élisabeth Roudinesco "Não podemos trabalhar a obra de Freud como atemporal"
Psicanalista, autora de recente biografia do fundador da psicanálise, fala de história, sexualidade, sociedade e sobre o contexto em que Freud viveu
04/10/2014 | 18h01
Autora de uma das biografias de referência de Jacques Lacan (1901 – 1981), a psicanalista francesa Élisabeth Roudinesco lançou recentemente na França o que reivindica como “a primeira biografia de Freud escrita por um autor francês que renova a abordagem de sua obra”. Sigmund Freud: En Son Temps e Dans le Nôtre (“Sigmund Freud: em seu tempo e no nosso”, em tradução livre), mergulha em correspondências e em arquivos recentemente abertos pela Biblioteca do Congresso em Washington, nos Estados Unidos, para fazer uma abordagem histórica da obra de Freud – Roudinesco é uma crítica ferrenha da psicanálise que não utiliza a História para se aproximar da obra de seu fundador.
A psicanalista esteve em Porto Alegre neste fim de semana para três palestras do ciclo Diálogos com Élisabeth Roudinesco, promovido pelo Contemporâneo: Instituto de Psicanálise e Transdisciplinaridade (CIPT). Na sexta, falou sobre A Psicanálise na Situação Contemporânea. No sábado, falaria sobre Como Ler Lacan. Neste domingo, participaria do debate A Família Contemporânea, ao lado de Roberto Graña e Ângela Piva. Roudinesco onversou com a reportagem do caderno PrOA na sede do CIPT na última quinta-feira.
A senhora veio ao Brasil para falar, entre outras temas, sobre como ler Freud no século 21. Essa é uma pergunta instigante. Como a senhora a responderia?
Penso que
hoje é preciso voltar ao texto de Freud não de forma estrutural, mas
histórica. Porque os psicanalistas contemporâneos, há vários anos,
apenas repetem os textos de Freud de maneira engessada, esquecendo do
contexto no qual ele produziu sua obra. Não podemos trabalhar a obra de
Freud como um texto atemporal, temos que retornar à sua origem, à sua
gênese, à maneira como ela se situa historicamente. É muito comum que o
texto de Freud funcione como a Bíblia, como o Talmude.
E também por isso, os psicanalistas não sabem responder aos ataques dos
antifreudianos. Os psicanalistas não conhecem a vida e a obra de Freud,
eles se restringem à clínica.
A
senhora falou no contexto. Mas uma interpretação do contexto de Freud
não teria que necessariamente confrontar o nosso contexto?
Ano
passado, o Brasil viu o ressurgimento de manifestações populares nas
ruas. Muitos viram nelas o descrédito no sistema político. O que a
senhora acompanhou desse processo?
O
Brasil tem defeitos, mas é um país democrático. No momento, a pior
crise que vejo é mesmo na Europa. O Brasil é um país emergente, com
muitos problemas e grande desigualdade, mas ao mesmo tempo é um lugar em
que se veem avanços. Já na Europa, a sensação é de melancolia. Há um
sentimento de retorno do populismo, do nacionalismo, de coisas que não
imaginávamos que voltariam. O sentimento hoje é de regressão, o povo
europeu tem a impressão de que estão tirando as conquistas sociais. A
impressão na França é que se vivia melhor há uns 40 anos, o povo esquece
que a Europa pode ser uma potência, que a população hoje vive 20 anos a
mais, que não podemos manter o sistema de aposentadoria como antes. O
povo tem a impressão de que há imigrantes demais, mas eles sempre
estiveram na França. Eu mesma sou filha de imigrantes. Eles têm a
impressão de que estão acabando com suas tradições. Vivemos um momento
muito mais difícil do que aqui.
Alguns
críticos comentam que parte do problema na Europa se deve à
disseminação do multiculturalismo, e à sua ideia de que o imigrante não
deve ser assimilado, e sim reproduzir sua comunidade – o que abriria
espaço para o radicalismo islâmico, por exemplo. Como a senhora vê esse
argumento?
Não é
verdade, mas é verdade. Não é verdade objetivamente. A assimilação dos
imigrantes na Europa se dará com o tempo. Já a impressão de que não está
havendo assimilação existe de fato. Há 4 milhões de muçulmanos na
França. É muito. É a segunda religião do país. Mas há a imagem de que
todos os muçulmanos são islamistas radicais. Não é exato. Na França,
quando vemos a evolução do país, os filhos de imigrantes magrebinos se
assimilam majoritariamente bem, se tornam republicanos, franceses, e se
chamam Mohammed ou Sarah sem nenhum problema. O povo acha que há muitos
muçulmanos porque vê as notícias sobre jihadistas, mas nem todos são
jihadistas.
Mas e no caso do Estado Islâmico, em que se especula a origem europeia de seus líderes?
Isso
não quer dizer que os 4 milhões de muçulmanos franceses são
responsáveis. Já houve tempo em que se apontaram os judeus como
responsáveis por todos os problemas da Europa. Isso se chama racismo. É
preciso ser vigilante, não aceitar o comunitarismo, sobretudo o
comunitarismo religioso, mas respeitar as religiões e ser vigilante
quanto ao ódio que o povo muçulmano pode despertar. E aí a assimilação
será feita.
A
senhora também veio falar sobre novas configurações da família. No
Brasil, em ano de eleição, essa questão tem sido muito discutida. Ao
mesmo tempo, há o crescimento de um discurso agressivo contrário à união
civil de homossexuais com base no conceito de família.
As
pessoas já foram contra a abolição da pena de morte, contra o aborto,
contra o divórcio. Mas na Franca elas perderam. Isso pode levar tempo,
mas creio que acontecerá aqui. A questão homossexual vem encontrando
oposição muito grande hoje na França. Eu participei de debates no
Senado, na Assembleia Nacional, na televisão, e a questão que faço é a
seguinte: eu entendo os argumentos religiosos, mas e os laicos? Quais
são? Não existem. É o medo da abolição da diferença de sexos – que é uma
questão que não está no centro da luta dos homossexuais. Os filhos
criados por casais homossexuais não têm mais patologias do que os
outros. Vão todos se tornar homossexuais? Não. Faz milhares de anos que
os casais heterossexuais é que produzem filhos homossexuais. Portanto,
não há argumento, a pessoa é contra e não tem um argumento racional.
Outro medo dos que são contrários é que haja mais homossexuais. Não é
verdade. É algo bastante misterioso, mas a porcentagem de homossexuais
na maioria das civilizações se mantém constante, não importa a
sociedade, não importa a época, sempre foi um fenômeno minoritário. Hoje
ela é mais visível, mas não quer dizer que esteja aumentando. A
heterossexualidade não vai mudar: um homem e uma mulher vão continuar
atraídos e formarão família. Mas o que se quer é que a sexualidade
minoritária tenha direito de existir. Ela não vai alterar ou prejudicar a
“ordem natural” de homens e mulheres.
As pessoas têm medo da mudança?
Sempre
haverá medo. As pessoas temem que homens virem mulheres e vice-versa.
Na minha geração, se dizia que mulheres que usavam calça comprida eram
masculinizadas, seriam todas lésbicas. No final do século 19, se dizia
que a mulher que trabalhava não teria mais filhos. O que aconteceu? As
mulheres, em vez de ter 10 filhos, passaram a ter dois. E daí? Neste
momento, não precisamos mais ter uma família tão numerosa quanto
antigamente. Antes morriam muito mais crianças do que hoje. No século
19, a perda de um filho era algo muito frequente, então as famílias
tinham muito mais filhos. Hoje não precisa mais ser assim. E nos países
em que isso levou a baixo índice de natalidade, foi compensado pela
imigração. As pessoas querem que tudo continue como elas acreditam que
é. Mas não é possível. Tudo sempre muda. E por isso, voltando à primeira
pergunta, é preciso pensar em Freud na história e pensar historicamente
em nosso futuro. No futuro, os homossexuais poderão casar, e as
crianças criadas por eles vão ter exatamente os mesmos problemas que têm
hoje. Não é pior e não é melhor, será a mesma coisa.
PSICANÁLISE E HISTÓRIA
ao longo de quase 600 páginas, Élisabeth Roudinesco desenvolve em seu recenteSigmund Freud: En Son Temps et Dans le Nôtre (“Sigmund
Freud – em seu tempo e no nosso”) o que alega ser a “primeira biografia
francesa” de Sigmund Freud (1856 – 1939). E escolheu fazer isso com um
método que define como quase inexistente na literatura psicanalítica a
respeito da obra de Freud: com uma aproximação histórica. O livro
entrecruza leituras da obra de Freud com a reconstrução do contexto de
sua época, e de como o que Freud viu e viveu se plasmou em seus textos
fundadores da psicanálise. O livro tem previsão de publicação no Brasil
no ano que vem, pela editora Zahar
Disponível em: (http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/10/elisabeth-roudinesco-nao-podemos-trabalhar-a-obra-de-freud-como-atemporal-4613156.html). Acesso em: 19/out/2014.

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