18/11/2013
Disponível em: (http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Anotacoes-sobre-uma-farsa-I-/4/29574).
Anotações sobre uma farsa (I)
A ideia era transformar José Dirceu num caso exemplar e exemplarisante da Justiça. Chegaram lá: é a vitória da grande hipocrisia que impera no país.
Eric
Nepomuceno

Pouco antes das seis da tarde do sábado
passado, um avião da Polícia Federal aterrissou no aeroporto de Brasília,
levando os condenados pelo Supremo Tribunal Federal para começar, de imediato,
a cumprir as sentenças recebidas. Três horas mais tarde, foram conduzidos à
Penitenciária da Papuda. Entre os presos, havia de tudo – da herdeira de um
banco privado a um publicitário dado a práticas heterodoxas na hora de levantar
fundos para campanhas eleitorais. Práticas essas, aliás, testadas e comprovadas
na campanha do tucano Eduardo Azeredo, em Minas Gerais, em 1998.
Lembro bem, porque trabalhei nessa
campanha, sob as ordens do sempre presente e ativo Duda Mendonça. E fui
pago.
Mas a imagem que importava era outra: era
a de José Dirceu, talvez o mais consistente quadro ativo da esquerda
brasileira, e de José Genoíno, o antigo guerrilheiro que chegou a presidir o
PT, sendo presos. Essa a imagem buscada, essa a imagem conseguida.
Terminou assim a etapa mais estrondosa de
um processo que começou, se desenvolveu e permaneceu vivo o tempo todo debaixo
de uma pressão mediática praticamente sem antecedentes neste país de memória
esquiva e oblíqua.
Durante meses, com transmissão ao vivo
pela televisão, intensificou-se o atropelo de princípios elementares da
justiça. E mais: foi aberto espaço para que vários dos magistrados máximos do
país pudessem exibir seu protagonismo histriônico e singular, e no final
chegou-se a sentenças próprias do que foi esse julgamento: um tribunal de
exceção.
Jamais foram apresentadas provas sólidas,
ou mesmo indícios convincentes, da existência do ‘mensalão’, ou seja, da
distribuição mensal de dinheiro a parlamentares para que votassem com o governo
de Lula.
O que sim houve, e disso há provas,
evidências e indícios de sobra, foi o repasse de recursos para cobrir gastos e
dívidas de campanha. Aquilo que no Brasil é chamado de ‘caixa dois’ e que é
parte intrínseca de todos – todos – os partidos, sem exceção alguma, em todas –
todas – as eleições.
Claro que é crime. Mas um crime que
deveria ser tratado no âmbito do Código Eleitoral, e não do Código Penal.
Há absurdos fulgurantes nessa história, a
começar pelo começo: o denunciante do esquema do tal ‘mensalão’ chama-se
Roberto Jefferson, que pode ser mencionado como exemplo perfeito de qualquer
coisa, menos de honradez no trato da coisa pública.
Ávido e famélico por mais e mais
prebendas, além das admitidas na já muito flexível prática da política
brasileira, foi freado por José Dirceu, na época poderoso ministro da Casa
Civil. A vingança veio a galope: Jefferson denunciou a presença do ‘carequinha’
que levava dinheiro a políticos em Brasília.
Atenção: na época, o próprio Jefferson
admitiu que tinha levado a metade, apenas a metade, dos milhões prometidos para
cobrir dívidas de campanha eleitoral, repassados pelo tal ‘carequinha’, o
publicitário Marcos Valério, que – vale reiterar – tinha testado esse mesmo
esquema em Minas, em 1998, na campanha do tucano Eduardo Azeredo.
E acusou Dirceu, o mesmo que havia
bloqueado seu apetite inaudito, de ser o responsável pelo esquema.
A entrevista de Roberto Jefferson ao
jornal ‘Folha de S.Paulo’ foi o combustível perfeito para a manobra espetacular
dos grandes conglomerados mediáticos do país, que desataram uma campanha cuja
dimensão não teve precedentes. Nem mesmo a campanha sórdida de ‘O Globo’ contra
Brizola teve essa dimensão.
O resultado é conhecido: caíram Dirceu e,
por tabela, José Genoino. Duas figuras simbólicas de tudo que o conservadorismo
endêmico deste país soube detestar com luxo de detalhes.
Todo o resto foi e é acessório. Fulminar
Dirceu, devastar a base política de Lula, tentar destroças sua popularidade e
impedir sua reeleição em 2006 foram, na verdade, o objetivo central.
Acontece que em 2006 Lula se reelegeu, e
em 2010 ajudou a eleger Dilma. E José Dirceu se transformou no alvo
preferencial da ira anti-petista em particular e anti-esquerda em geral.
Ele foi condenado, pelo grande
conglomerado dos meios de comunicação, no primeiro minuto do primeiro dia,
muito antes do julgamento no STF. A própria denúncia apresentada pelo inepto
procurador-geral da República, Antônio Silva e Souza, depois aprofundada pelo
rechonchudo Roberto Gurgel, é um compêndio de falhas gritantes.
Mas, e daí? Transformou-se na receita
ideal para o que de mais moralóide e hipócrita existe e persiste na vida
política – e, atenção: judiciária – deste pobre país.
A manipulação feita pelos meios de
comunicação, alimentada por uma polpuda e poderosa matilha de cães hidrófobos,
fez o resto.
Entre os acusados existe, é verdade, uma
consistente coleção da malandrões e malandrinhos. Mas o objetivo era outro: era
Dirceu, era Genoíno. Era Lula, era o PT.
Foram condenados, entre pecadores e
inocentes, por uma corte suprema que abriga alguns dos casos mais gritantes de
hipertrofia de egos em estado terminal jamais vistos no país, a começar pelo
seu presidente.
Dirceu e Genoino foram condenados graças a
inovações jurídicas, a começar pela mais insólita: em vez de, como rezam os
preceitos básicos do Direito, caber aos acusadores apresentar provas, neste
caso específico foi posta sobre seus ombros provarem que não tinham culpa de
algo que jamais se pôde provar que aconteceu.
É curioso observar como agora ninguém
parece recordar que Roberto Jefferson teve seu mandato cassado por seus pares
porque não conseguiu provar que aconteceu o que ele denunciou.
Anestesiada e conduzida às cegas pelo
bombardeio inclemente e sem tréguas dos meios hegemônicos de comunicação, a
conservadora e desinformada classe média brasileira aplaudiu e aplaude esse
tribunal de exceção. Aplaude as sentenças ditadas ao atropelo do Direito como
se isso significasse o fim da corrupção endêmica que atravessa todos – todos,
sem exceção – governos ao longo de séculos.
A ideia era transformar José Dirceu num
caso exemplar e exemplarisante da Justiça.
Chegaram lá: é a vitória da grande
hipocrisia que impera no país.
O Supremo Tribunal Federal não se fez
tímido na hora de impor inovações esdrúxulas.
Afinal, uma única coisa importava e
importa: a imagem de José Dirceu e José Genoino sendo presos.
Para o conservadorismo brasileiro, era e é
como uma sobre-dose após tempos de abstinência aguda. Pobre país.
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