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domingo, 8 de dezembro de 2013

(In)fidelidade. Sem direito à exclusividade sexual no casamento (Regina Navarro Lins)

07/12/2013 07:01


Sem direito à exclusividade sexual no casamento

Regina Navarro Lins


Ilustração: Lumi Mae
Ilustração: Lumi Mae

Comentando o “Se eu fosse você''

A questão da semana é o caso do internauta que ama a noiva, mas ela se diz uma mulher livre, que separa tranquilamente amor e sexo, e se recusa a só fazer sexo com ele.
É comum ouvirmos histórias de homens que tiveram inúmeras relações extraconjugais. O escritor belga Georges Simenon, por exemplo, declarou ter feito sexo com mais de 2500 mulheres no decorrer dos seus três casamentos. Mas ouvir de uma mulher o desejo de variar de parceiro não é comum. Muitos defendem a fidelidade conjugal, no entanto, poucos se contentam com um único parceiro sexual, mesmo enfrentando altos riscos.
O adultério sempre foi punido com crueldade pelo mundo afora: açoitamento público, decepação do nariz e das orelhas, morte por apedrejamento, fogo, afogamento, etc. Não é incrível que os seres humanos, ainda assim, se envolvam em aventuras extraconjugais? Mas a infidelidade acontece a toda hora, em todos os lugares, com as pessoas comuns e com as famosas.
O número de mulheres “infiéis” tem se igualado ao dos homens e o adultério começa cada vez mais cedo para ambos os sexos. Uma pesquisa realizada na Inglaterra, dirigida às mulheres que trabalham fora, comprova que há pouca diferença entre os sexos no que diz respeito às relações extraconjugais. Dois terços das casadas ou com companheiro estável responderam ter tido relação extraconjugal. Na ocasião da entrevista, quase 50% das mulheres confessaram estar envolvidas num caso, e 72% garantiram que era melhor fazer sexo com o amante.
Entretanto, se relacionar sexualmente fora do casamento não é nada simples. O conflito entre o desejo e o medo de transgredir é doloroso. A fidelidade não é natural e sim uma exigência externa; numa relação amorosa estável as cobranças de exclusividade são constantes e aceitas desde o início. Com toda a vigilância que os casais se impõem, a fidelidade conjugal geralmente exige grande esforço quando a pessoa se sente viva sexualmente e não abdicou dessa forma de prazer.
Assim, as restrições que muitos têm o hábito de estabelecer por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que a “infidelidade”. Mesmo porque reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. Quando a fidelidade não é espontânea nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e o parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a se considerar vítima, a se tornar intolerante, inviabilizando a própria relação.
Agora, observamos grandes mudanças nessa área. Não havia outra saída, a vida a dois, numa relação estável — namoro ou casamento — se tornou difícil de suportar diante das transformações e apelos da sociedade atual. Principalmente porque sempre se aceitou como natural que um casal vivesse numa relação fechada, onde só participavam a possessividade, o controle e o ciúme. Mas, no momento em que os modelos de amor, casamento e sexo se tornaram insatisfatórios, abriu-se espaço para novas experimentações no relacionamento afetivo-sexual. E é exatamente o que algumas pessoas já começaram a fazer.
O sociólogo inglês Anthony Giddens chama de “transformação da intimidade” o fenômeno sem precedentes de milhares de homens e mulheres que, estimulados pelos amplos movimentos sociais atuais, estão tentando, consciente e deliberadamente, desaprender e reaprender a amar.
Apesar dos conflitos, medos e culpas, da expectativa dos parentes e amigos, dos costumes sociais e dos ensinamentos estimularem que se invista toda a energia sexual em uma única pessoa — marido ou esposa —, não são poucos os homens e as mulheres que dão sinais de desejar relações mais livres. E se consideram fiéis por não acreditar que fidelidade tem a ver com sexualidade.

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