João Miguel, Caio Blat e Cao Hamburger falam sobre 'Xingu'
Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra
Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra
O diretor Cao Hamburger foi a Berlim com uma obra que serve como uma aula de história do Brasil. Xingu conta a trajetória dos irmãos Villas-Bôas, Orlando, Claudio e Leonardo (grandes defensores da preservação territorial e cultural dos índios no centro-oeste brasileiro) e do processo de criação do Parque Nacional do Xingu, a maior reserva indígena do País.
De volta em Berlim (o diretor participou do festival em 2007 com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), Cao falou sobre a importância do tema para a sociedade brasileira. Para recriar a história da forma mais real possível, o diretor leu o diário de viagem dos irmãos e realizou dezenas de entrevistas com pessoas que trabalharam com eles na época e com os povos habitantes da reserva. "Essa historia não é muito conhecida no Brasil. Ela tem sido esquecida através das gerações. Por isso resolvemos fazer esse filme, pois, apesar de ter ocorrido há mais de 50 anos, ela é muito atual. Os mesmos problemas acontecem em outras regiões do Brasil", disse.
O elenco é formado por Caio Blat, João Miguel e Felipe Camargo, que interpretam os irmãos Villas-Bôas quando eles partem para a Marcha Para o Oeste nos anos 40. Presentes em Berlim para lançar o longa, Caio e João Miguel contaram sobre a preparação e o contato com os índios do Xingu. "Eu e o João fomos pra lá antes das filmagens começarem. Fiquei fascinado com os índios, com a cultura deles. Foi um total encantamento. O olhar deles é deslumbrante, tem uma espontaneidade absurda. É uma mistura de tragédia e pureza. E saber que estávamos contando e defendendo o ponto de vista deles no filme nos trazia um grande sentimento de responsabilidade", lembra Caio, que veio à Berlim acompanhado de sua mulher, Maria Ribeiro, outra veterana do festival.
O diretor explicou que 99% dos atores indígenas ¿ que surpreenderam a produção e a imprensa ¿ eram do Xingu e o processo de seleção foi feito com muito cuidado. "Começamos a construir uma relação com eles ainda bem cedo. Foi uma aproximação lenta e cuidadosa. A Bel Berlink (produtora), quase virou uma índia. Não queria mais voltar. A produção de elenco não foi muito diferente da que fizemos para O Ano em Que Meus Pais Saíram De Férias, com a comunidade judaica, ou como em Cidade de Deus. Mas foi uma surpresa ver o quão rápido eles entenderam o jogo da encenação. Foi uma experiência muito rica", afirmou.
O longa foi filmado em 10 semanas, sendo que uma delas dentro do parque. As demais foram feitas nos arredores e em Tocantins. Os atores contaram que o balanço entre modernidade com o respeito e preservação das tradições revela um lado incrível de uma cultura presente no País que a maioria dos brasileiros desconhece. "Acho que depois do Xingu eu não fui maios o mesmo. Foi uma experiência que vai ecoando com o tempo. Eles têm isso incorporado, um entendimento em relação às suas tradições. Eles tentam cultivá-la durante toda a vida e tudo isso foi praticamente riscado da história brasileira. Eu espero que o filme possa ir além e levantar questões sobre o tema", contou João Miguel, presente no festival pela primeira vez.
Entretanto, manter as tradições não significa que os índios são contrários à tecnologia. Caio contou que mantém contato com seus colegas de set do Xingu pelo Skype e Facebook. "Quando ligavam o gerador na aldeia, eu falava com a minha família pelo Skype, assistia ao Jornal Nacional. Aí quando eles desligavam, parecia que eu voltava 500 anos no tempo, íamos pra oca e dormir nas redes. O que me impressiona muito são os jovens, que têm contato com o mundo, mas optam por ficar nas aldeias. É uma escolha muito séria. A tecnologia não interfere na cultura", contou.
O filme compõe a lista da mostra Panorama, a mesma em que Tropa de Elite 2 participou no ano passado, e será exibido ao público amanhã (16), sexta (17) e sábado (18).
- Especial para Terra
- Do Portal Cinema Terra: (http://cinema.terra.com.br/festivaldeberlim/2012/noticias/0,,OI5614553-EI19653,00-Diretor+Xingu+tem+sido+esquecida+atraves+das+geracoes.html). Acesso em: 19/fev/2012.
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