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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um mundo cheio de carros (Deonísio da Silva)


Um mundo cheio de carros

Por Deonísio da Silva em 27/12/2011 na edição 674
Alguns sinais de riqueza e de independência, ou de seus contrários, pobreza e dependência, podem ser observados também nos automóveis que os estadistas usam para se locomover e se exibir. O jornalista Leonídio Paulo Ferreira lembra hoje (19/12) no Diário de Notícias que Barack Obama, o número um do mundo, desloca-se em luxuoso Cadillac, fabricado nos EUA, naturalmente. Hu Jintao, o mandatário número um da China, usa uma limusine Hongqi, de tecnologia chinesa, claro. Angela Merkel troca de carro como de vestido. Ora, vai de BMW (1,5 milhões de carros em 11 meses), ora de Mercedes ou de Audi (essas duas marcas venderam mais de 1,19 milhões de carros cada uma). O antecessor de Angela Merkel, Gerhard Schroeder, só andava de Audi, com os quatro anéis lembrando seus quatro casamentos. Sua sucessora ainda está no segundo matrimônio e Merkel não é seu nome de família.
Bem, esses estadistas usam carro próprio, digamos assim, pois que feitos por seus próprios países. A maioria dos outros prefere carros deles. Talvez a Mercedes lidere a preferência dos pedidos de estadistas. Cristina Kirchner prefere Audi. Os chefes de Estado do Egito e da Índia deslocam-se em Mercedes.
Esses dados seriam apenas curiosidades, não fosse o seguinte: a indústria do automóvel é um pilar da economia mundial, especialmente da Alemanha, mas não há como ignorar que as ruas de todo o mundo estão cheias também de Toyota e de outras marcas asiáticas, onde também trafegam milhões de carros italianos.
Por que não emigra ele mesmo, o primeiro-ministro?
Mas quem é Angela Merkel? Esse Merkel é do ex-marido, Ulrich Merkel. O atual chama-se Joachim Sauer. Seu nome de batismo é Angela Doroteia Kasner. É filha de pastor e por isso acompanhou o pai quando este foi cuidar de uma paróquia na então Alemanha Oriental. Lá ela viveu até cair o muro, em 1989, e doutorou-se em Química. É uma política de centro, mas tem pressa: “Na Alemanha estamos sempre enfrentando o perigo da nossa própria lentidão. Temos que acelerar as reformas.” Isso, naturalmente, equivale a tirar direitos de trabalhadores, pois é assim que se conjuga o verbo reformar em todo o mundo. Para melhorar a vida dos trabalhadores, o verbo é outro, é necessário fazer uma revolução. O caso é que Angela Merkel está ao volante de um poderoso carro alemão. Estava em boa velocidade em 2010: a economia alemã cresceu 3,6%. Para este ano estava previsto um crescimento de 2,9%, mas a crise derrubou as previsões de 2012 para 1%.
E o Brasil? Esperemos que os políticos brasileiros não imitem os de Portugal, cujo primeiro-ministro aconselhou os professores qualificados a procurarem emprego em outros países. Como não são os professores que estão enterrando país, por que não emigrava ele mesmo, o primeiro-ministro? Será que algum país daria emprego a um político que quebrou o país dele? Ainda que bons professores sejam bem aceitos em todo o mundo, remunerá-los à altura de suas qualificações, é outro problema. Um carro é fabricado em pouco tempo. Um professor demanda quase meia vida para formar-se e não para de aperfeiçoar-se a vida inteira.
***
[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e um dos vice-reitores da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o CaixãoAvante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]
Do Portal Observatório da Imprensa: (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed674_um_mundo_cheio_de_carros). Acesso em: 30/dez/2011.

Casamento. Cartório realizou casamento de pessoas do mesmo sexo, seguindo procedimento de habilitação...


Notícias - 30/12/2011
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País tem casamento gay direto no cartório
Porto Alegre foi palco, no dia 9 de dezembro, do primeiro casamento homoafetivo direto do Brasil no cartório. Com o parecer favorável do Ministério Público, os noivos não precisaram recorrer à Justiça para concretizarem a união. A cerimônia seguiu os mesmos trâmites de uma união entre heterossexuais.

De acordo com o registrador substituto do Cartório do Registro Civil da 4ª Zona das Pessoas Naturais de Porto Alegre, Felipe Daniel Carneiro, a maioria dos cartórios ainda se nega a habilitar casamentos entre pessoas do mesmo sexo, por julgarem inconstitucional. Porém, ele considera que, "depois do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu a união estável entre casais homoafetivos, todos devem ter os mesmos direitos".

Felipe defende que não precisa existir uma legislação especifica para regulamentar esses casos, uma vez que a jurisprudência já entende que é possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo. "Nós já vínhamos sendo abordados por vários casais, mas ainda não tínhamos nenhuma orientação das corregedorias. Quando percebi que muitos desembargadores estavam decidindo pelo casamento homoafetivo decidimos habilitar esses casos. Considero que se todos são iguais, não é necessário haver uma lei especifica e seria discriminação a não habilitação desse casamento".

Mais um avanço - Para a advogada Maria Berenice Dias, presidente da Comissão de Diversidade Sexual da OAB e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), esse casamento é mais um avanço para o reconhecimento da igualdade de direitos. "Até agora os casamentos homoafetivos precisavam passar pelo juiz. É significativo e de vanguarda esse caso em que houve apenas a manifestação do Ministério Público", afirma.

Outros casais do mesmo sexo já se casaram no país, no entanto foi preciso acionar o Judiciário. O primeiro casamento aconteceu em São Paulo, no dia 27 de junho de 2011, com o aval do juiz Fernando Henrique Pinto. Outros estados como Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal também já tiveram decisões nesse sentido.

(*) Acompanhe diariamente os principais conteúdos jurídicos emhttp://www.twitter.com/editoramagister
Fonte: IBDFAM

Do Portal Editora Magister: (http://www.editoramagister.com/noticia_ler.php?id=56609&page=1). Acesso em: 30/dez/2011.

Entrevista do Psicanalista Flávio Gikovate: "Existe traição virtual?"

30/dez/2011


Entrevista do Psicanalista Flávio Gikovate: "Existe traição virtual?"

Ouça... Do Portal CBN: (http://cbn.globoradio.globo.com/Player/playerOndemand.htm?audio=2011/colunas/diva_111207&OAS_sitepage=cbn/colunas/nodivadogikovate/player). Acesso em: 30/dez/2011.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Crise Européia. "Mão (in)visível do Liberalismo Italiano" pretende cobrar fatura dos direitos sociais e trabalhistas

Itália planeja novo pacote que pretende reduzir direitos trabalhistas

Mario Monti afirmou que os leilões de títulos do governo foram positivos, mas a volatilidade no mercado continuará. Ele defende rodada de reformas em janeiro e promete crescimento
Publicado em 29/12/2011, 15:16
Última atualização às 15:16
  
Itália planeja novo pacote que pretende reduzir direitos trabalhistas
O premier italiano, Mario Monti, durante entrevista coletiva em Roma(Foto:Tony Gentile/Reuters)
São Paulo – O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, disse nesta quinta-feira (29) que seu governo buscará apresentar até o fim de janeiro um amplo pacote de medidas liberalizantes, alterações em benefícios sociais e reformas que pretendem flexibilizar as leis trabalhistas. A iniciativa é justificada pelo chefe de governo do país europeu como uma forma de impulsionar o crescimento econômico do país, que vive uma crise de confiança sobre a capacidade de pagamento de suas dívidas, além de uma forte recessão.
A aprovação, na semana passada, de um pacote de medidas de "austeridade" para "salvar a Itália" foi a primeira tarefa de seu governo, disse Monti a repórteres em uma coletiva de imprensa de encerramento do ano. Seu segundo ato será apresentar alternativas para "fazer a Itália crescer", o qual terá como objetivo tornar mais competitiva a economia italiana.
Os planos do governo serão apresentados aos ministros de Finanças da União Europeia em 23 de janeiro, disse Monti. Até agora, as reações de governos da zona do euro para confrontar a crise têm sido voltadas a reduzir despesas do setor público, mesmo que isso tenha consequências de agravar a estagnação econômica.
Por isso, sindicatos e movimentos sociais realizaram diversos protestos contra redução de aposentadorias, aumento da idade mínima para ter acesso a benefícios de seguridade social além de congelamento de salários do funcionalismo público. Embora possam auxiliar a conter o crescimento de gastos, as medidas acabam retirando dinheiro de circulação e dificultando ainda mais a recuperação, na visão dos críticos.

Leilão

Na coletiva, o primeiro-ministro italiano ainda comemorou o resultado do segundo leilão de títulos da dívida do governo, que arrecadou  7 bilhões de euros com rendimentos menores que as taxas das vendas do mês anterior. No entanto, o premier alertou que a turbulência dos mercados ainda não chegou ao fim e que o governo precisa fazer mais para convencer os investidores de que a Itália pode administrar as dívidas que fez o país ser o foco da crise da zona do euro.
Monti assumiu o cargo em novembro, substituindo Silvio Berlusconi. Além de ter um histórico de polêmicas e escândalos sexuais e de corrupção, o antecessor não foi capaz de oferecer uma saída concreta para a crise que assola a Itália. De perfil conservador e ortodoxo, "Supermario" Monti, como foi tratado pela imprensa local durante os anos 2000, quando foi conselheiro da União Europeia, tenta recuperar a confiança de investidores do mercado e de outros países da zona do euro.
Com informações da Reuters

A crise do euro bate às portas da City londrina (Marcelo Justo - Correspondente da Carta Maior em Londres)

A crise do euro bate às portas da City londrina ~ Ronaldo - Livreiro

A crise do euro bate às portas da City londrina

do Carta Maior

A crise do euro bate às portas da City londrina

A crise do euro é potencialmente devastadora para a City, que concentra quase dois trilhões de dólares diários do mercado de divisas mundial. Em julho um informe revelou que os bancos britânicos tem cerca de 300 bilhões de dólares investidos em títulos dos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Um efeito dominó do euro produziria um buraco nas finanças de bancos como o RBS (que emprestou cerca de 150 bilhões de dólares aos PIIGS) ou o Barclay (exposto em uma cifra similar). O artigo é de Marcelo Justo.

O Reino Unido enfrenta sua segunda recessão em três anos, tem o índice de desemprego mais alto desde 1994 e seu nível de vida caiu em 2011 pelo quinto ano consecutivo, mas na City a festa continua. É certo que os banqueiros não gozam do favor da opinião pública, é verdade que os indignados que acamparam há mais de dois meses nas fronteiras da City são uma pedra no sapato, e não resta dúvida que, como em A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Allan Poe, a peste do euro é um fantasma que está batendo à porta, mas enquanto não há sinais de contágio, a City pode alardear uma saúde juvenil.

Em seus dois quilômetros quadrados, concentram-se uns 500 bancos, cerca de 70% dosHedge Funds de toda a Europa, seguradoras e resseguradoras, quase dois trilhões de dólares diários do mercado de divisas mundial, tudo isso escorado por um aparato de grandes escritórios de advocacia que faturam cerca de 1,5 bilhões de dólares ao ano, uma bagatela se levarmos em conta que as bonificações da City chegam à casa dos 10 bilhões de dólares.

Com tanto dinheiro, o poder político e midiático pode ser sentido em todas as partes. Em meados de dezembro, o primeiro ministro David Cameron não hesitou em vetar uma modificação do Tratado da União Europeia que buscava resolver a crise do euro, apesar de mais metade das exportações do país irem para o resto da União Europeia, em especial para Alemanha e França, os principais impulsionadores da reforma.

O primeiro ministro justificou o veto com um apelo ao “interesse nacional” que, longe de ser a proteção do reino em matéria de prevenção de um ataque militar, se identifica com os interesses da City frente à ameaça de uma regulação europeia desfavorável que coloque em perigo a hegemonia britânica em setores fundamentais das finanças mundiais, como os Hedge Funds ou o mercado de derivativos.

Uma inclinação similar ocorre no plano interno. No parlamento, dias antes das festas de Natal, o ministro de Finanças, George Osborne, aceitou a recomendação de uma comissão investigadora sobre a necessidade de isolar a banca de depósitos e comercial das operações da banca financeira, mas descartou uma regulação dura ao estilo da lei Glass e Steagall que os EUA aprovaram em meio à depressão dos anos 30 que proibia os bancos de operar simultaneamente em ambos os setores.

Em seu anúncio, Osborne indicou que o White Paper, passo prévio à legislação, seria publicado em 2015 após uma nova rodada de consultas onde a City poderia fazer valer todo seu lobby e rede de contatos que se estende ao coração do próprio governo. David Cameron é filho de um corretor de bolsa e seu vice-primeiro ministro, o liberal Nick Clegg, ainda é diretor do United Trust Bank.

Na década passada os trabalhistas foram vítimas da mesma ilusão sobre as bondades do setor financeiro propagadas como verdade revelada pela usina midiática. Segundo o jornal City A.M, porta-voz do setor financeiro, o setor é fundamental para a economia britânica em termos de emprego (ao redor de um milhão e meio de empregos) ou contribuição em impostos (cerca de 10% das receitas do fisco).

A hipérbole midiática, que justificaria tantas concessões, torna-se clara quando se comparam essas cifras com os números do setor manufatureiro. Uma pesquisa do Centro para a Investigação da Mudança Sócio-Cultural, da Universidade de Manchester (CERS, na sigla em inglês), indicou que a indústria emprega dois milhões de trabalhadores e que, em pleno boom financeiro no período 2002-2008, a City pagou a metade do que o setor manufatureiro paga em impostos para os cofres britânicos.

Se o aparato financeiro legal que sustenta a City permite a evasão de impostos com o recurso mágico dos paraísos fiscais, a sangria que a City produziu com a queda do Lehman Brothers mostra o perigo mortal da dependência econômica britânica desse setor. Desde setembro de 2008, o governo britânico aportou entre injeção direta de fundos, empréstimos e garantias mais de um trilhão de dólares para estabilizar o sistema bancário.

“Bancocracia” em perigo
Duas coisas ameaçam hoje o poder dessa “bancocracia”. Em meio ao pior ajuste econômico do período pós-guerra, os protestos das Organizações Não-Governamentais estão começando a ter um impacto na consciência nacional e nos tribunais. O movimento UK Uncut (Reino Unido sem cortes), que se formou logo após o corte draconiano anunciado no ano passado pela coalizão liberal-conservadora, está liderando campanhas contra grandes empresas que são acusadas de sonegar impostos. A City e sua banca na sombra espalhada em entidades financeiras paralelas em paraísos fiscais é um dos alvos do ataque.

Na quinta-feira passada, a organização iniciou um recurso contra o acordo entre a autoridade tributária britânica e o banco Goldman Sachs que descontou o juro de um imposto devida pela entidade financeira. Se a cifra é menor – cerca de 27 milhões de dólares – o simbolismo é considerável.

Enquanto isso, o movimento Occupy, que está acampado na Catedral de Saint Paul, nas portas da City, ganhou uma batalha legal pré-natalina quando a justiça britânica decidiu que não tomaria nenhuma decisão, até 11 de janeiro, sobre o pedido de retirada do acampamento formulado pelo banco UBS.

Mais perigosa e potencialmente devastadora para a City é a crise do euro. Em julho um informe revelou que os bancos britânicos tem cerca de 300 bilhões de dólares investidos em títulos dos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Um efeito dominó do euro produziria um buraco nas finanças de bancos como o RBS (que emprestou cerca de 150 bilhões de dólares aos PIIGS) ou o Barclay (exposto em uma cifra similar).

Em meio a esse incerto panorama econômico-financeiro internacional, com a ameaça de uma segunda recessão a vista e de uma situação de crédito imobilizado, a City seguirá apostando desde seu lugar privilegiado no cassino global para seguir em festa. No entanto, como se sabe, a especulação é uma arma de dois gumes que pode terminar com uma saída virulenta do cassino com os bolsos vazios. Até para a City, 2012 será um ano difícil e perigoso.

Tradução: Katarina Peixoto

Os filhos e os amigos do Poder (Eduardo Guimarães)


Os filhos e os amigos do Poder

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Se existe algum mandamento primordial do bom jornalismo deve ser o de seus militantes estarem permanentemente obrigados a se questionarem sobre se não estão incorrendo naquele que também deve ser o maior pecado de tão nobre ofício, o de jornalistas permitirem que as próprias opiniões se confundam com os fatos.
A nota divulgada por Verônica Serra na última segunda-feira a pretexto de responder às acusações do livro A Privataria Tucana, assim, suscitou questionamentos que em tudo se assemelham aos esgrimidos contra Fábio Luís Lula da Silva, que a mídia e os adversários do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamam de “Lulinha” ao acusarem-no de ter feito tráfico de influência durante o mandato do pai.
É um fato irretorquível, no entanto, que o comportamento da mídia em relação aos filhos de Lula e de Serra é totalmente diferente. Tal fato foi bem explicado pela ombudsman da Folha de São Paulo, Suzana Singer, em crítica interna de sua autoria que vazou recentemente. Ela questiona o jornal por dispensar tratamento diferenciado a casos semelhantes.
Suzana, com base no livro da privataria, pergunta por que Verônica Serra e o marido têm offshores, se a Folha não deveria questioná-los e por que o jornal não noticiou que Alexandre Bourgeois, marido de Verônica, foi condenado por dever ao INSS. Ao fim, considera que o jornal foi “muito rigoroso” com filho de Lula e que não está sendo com a filha de Serra.
Todavia, se retiramos do quadro esse partidarismo escandaloso da mídia restam questionamentos tanto a Fábio Luís quanto a Verônica, para não falar em seus pais. E nessa equação nova que se constrói sozinha caberia, ainda, o filho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Paulo Henrique Cardoso, além de centenas ou milhares de filhos, esposas, pais, irmãos, tios, sobrinhos e o que mais se quiser de políticos com mandatos eletivos em todos os níveis.
Contudo, há que fazer distinção da boa vontade natural que ser filho de políticos influentes desperta do que é uso desses filhos por políticos corruptos para esquentarem o produto de roubo de dinheiro público ou do mero favorecimento daquele político à ascensão profissional e social de seus parentes via tráfico de influência.
É preciso, portanto, comparar os casos envolvendo os filhos do Poder porque não adianta petistas e tucanos ficarem se acusando sem levarem em conta que há telhados de vidro para todo lado. Se eu só falo dos problemas do filho de Lula e não falo dos problemas da filha de Serra ou vice e versa, apenas engano a mim mesmo. Disso, este blogueiro está fora.
Vejamos, então, o caso de Fabio Luís. Filho do ex-presidente Lula e de dona Marisa Letícia, é graduado em Ciências Biológicas. Foi monitor do Parque Zoológico de São Paulo até 2003 – ou seja, fazia apresentações do parque a visitantes, para isso recebendo uma bolsa mensal de seiscentos reais.
Em 2004, após o primeiro ano de mandato de seu pai, Fábio Luís fundou a empresa Gamecorp, o que suscitou diversas matérias jornalísticas e críticas da oposição que o acusaram de tráfico de influência e a seu pai de favorecimento na destinação de recursos públicos, pois o grupo de telefonia Telemar/OI investiu na mesma Gamecorp que teria sido ajudada pelo governo federal.
A suspeita levantada era a de que a Telemar estaria ajudando o filho de Lula esperando que este fizesse uma alteração na Lei Geral das Telecomunicações que permitisse fusão com a Brasil Telecom, o que era proibido. Em dezembro de 2008, porém, Lula assinou decreto que permitiu a venda da Brasil Telecom para a Telemar/Oi.
Pode ser coincidência, pode não ser. Contudo, o caso foi exaustivamente investigado pela imprensa, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público e jamais se provou nada. Um tucano, então, poderia argumentar que também houve investigação das privatizações (houve mesmo?) e que nada foi apurado, apesar de não poder dizer que houve pressão da imprensa.
Tão certo quanto o alvorecer sucede a madrugada, os dois lados dirão que a investigação contra o adversário não chegou a nada porque foi malfeita ou manipulada. E é a isso que chamam sectarismo. Em tribunais, porém, não vale nada. E muito menos para quem pretenda se manter lúcido.
Esses casos se reproduzem na política, sendo hoje parte dela. Os filhos do Poder tornam-se naturalmente atraentes de gentilezas e de boa vontade, mas é óbvio que políticos e seus rebentos muitas vezes deixam de ser agentes passivos da generosidade empresarial, por exemplo, e se tornam mercadores das prerrogativas que têm ao próprio alcance.
No caso dos filhos do Poder que não deixam de ser cidadãos por os pais governarem e que, portanto, têm que seguir com suas vidas e assim acabam sendo favorecidos sem pedirem nada, não há o que fazer. Já quando há suspeitas de que o político ou seus parentes se valeram das próprias prerrogativas para mercadejar o poder que detém, há que investigar a fundo.
No que diz respeito ao filho de Lula e à medida que acusam seu pai de ter tomado para favorecê-lo, a declaração da ombudsman da Folha em sua crítica interna corrobora a versão de que o caso foi largamente esmiuçado e dessas investigações nada nunca resultou. No caso da filha de Serra, porém, a omissão em investigar é gritante.
Outra diferença é a de que não há qualquer notícia no caso Gamecorp sobre operações internacionais obscuras como as que cercam os negócios de Verônica Serra. Montagem de empresas anônimas em paraísos fiscais, aumento exponencial do patrimônio pessoal de parentes, amigos e assessores do tucano… Há muito a ser explicado.
Seja como for, o Brasil deveria aprovar leis muito mais duras em relação aos parentes e amigos do Poder sem, é óbvio, fazer com que ser parente ou amigo de um político com mandato eletivo se torne uma maldição que feche portas para essa pessoa porque ninguém quererá correr o risco de ser confundido com um corruptor.
Neste momento, devido a fatos novos que Privataria elenca, é imperativo da cidadania e da isonomia política exigível investigar aqueles que até a ombudsman da Folha afirmou que vêm sendo poupados, o entorno familiar e social de José Serra que protagoniza o livro A Privataria Tucana, entorno contra o qual sobram evidências.