Escrito em 06.fev.2009
ADEUS, MANO VELHO
Não podia ter acontecido. Mais um, e logo tu. Por que, me pergunto, perder Adão Pretto, deputado federal, lutador das causas populares, dos sem-terras, dos pequenos agricultores, um de nossos melhores, por que? “Que merda”, falamos ambos, eu e João Pedro Stédile, quando nos abraçamos. Pensei que, terminado 2008, a série de notícias tristes e perdas sem explicação tinha terminado. Vejo que não. Continuam e aumentam a dor, a tristeza, o infinito sofrimento, tudo que me invade agora, os nervos à flor da pele, agora quando estou esperando o avião alçar vôo para Porto Alegre.
Lembro de tantas coisas. De quando nos conhecemos, por exemplo, em 1985, numa conversa numa sala apertada no Seminário dos franciscanos em Três Passos , RS, reunidos ao redor de uma mesa pequena eu, frei Sérgio Görgen, Antônio Marangon, para acertar tua entrada e do Marangon no Partido dos Trabalhadores. Foste eleito deputado estadual constituinte gaúcho em 1986 comigo, José Fortunati e Raul Pont. Teu lema e teus símbolos: a enxada e UM PÉ NA LUTA, OUTRO PÉ NO PARLAMENTO.
Lembro das batalhas da constituinte estadual, nós 4 no meio de 55 deputados, o PT estreante, mas dando os rumos de uma constituição com perfil popular e cidadão, brigando pelas boas causas dos pequenos, inserindo artigos que garantiam processos democráticos, espaços de defesa dos trabalhadores. Por teu trabalho, acabaste premiado com o Prêmio Springer de melhor deputado.
Lembro-me de como enfrentavas os latifundiários, tanto nas ocupações de terra quanto no Parlamento. Um dia, depois de tantas provocações do deputado Carlos Azambuja, grande fazendeiro de Bagé, fronteira do Brasil com o Uruguai, quase o atacaste com o suporte do microfone; eu estava por perto para te segurar na tua justa indignação, e não seres punido pelas regras da Casa.
Lembro-me de tantas campanhas eleitorais onde tua gaita e tua voz cantavam e declamavam as lutas do povo, o sonho da Reforma Agrária e de uma sociedade sem explorados nem exploradores.
Lembro-me de tantas marchas e ocupações de terra em que te fazias presente, às vezes estávamos juntos, ou eu te substituindo como deputado, quando havia mais de um lugar para ir defender quem lutava pela terra e estava ameaçado pela direita conservadora e pela Brigada Militar.
Lembro-me com saudade e ternura, e o referi na Assembléia Legislativa no momento das homenagens, da simplicidade com que, da tribuna, me saudavas como Selvino ‘Hécks’ e ao Raul ‘Ponts’, mais um ‘s’ no final dos nossos sobrenomes, o que acabou referência amiga e de brincadeira quando nos (re)encontrávamos em algum lugar e para muita gente que adotou a expressão. (Vi pela primeira vez o Raul chorar, falando de ti e do teu mandato colado aos movimentos sociais, como deveria ser o de todos os parlamentares.)
Lembro-me do teu inseparável chimarrão, que sempre me socorria quando me encontrava contigo em algum lugar, eu que não sou de carregar os apetrechos nas viagens Brasil afora.
Lembro-me do teu apartamento/hotel em Brasília, porto seguro para quem vinha de todos os cantos deste país imenso, e era acolhido com um chimarrão, uma pinga, uma comida quente e um colchão para deitar os ossos.
Lembro-me do nosso último encontro em Canoas, primeiro de janeiro, posse do prefeito Jairo Jorge, encontro infelizmente rápido, mas que seguirá gravado em minha memória.
Nada e ninguém te segurava, na tua coragem, na tua determinação, no teu compromisso com os pobres e trabalhadores.
Mano velho, plantaste muitas sementes, como falaram Olívio Dutra e o presidente Lula na homenagem final. Sementes que se traduzem em filhos biológicos, mas principalmente em filhos da luta e do teu/nosso sonho de justiça, de liberdade, de democracia, de igualdade, de partilha. As sementes estão germinando, irão crescer e já começam a dar frutos aqui e acolá na América Latina, e ainda darão muitos frutos no futuro.
Vai, mano velho, camperear em outros campos, mas, por favor, como bom pastor não esquece de olhar por nós e para nós, de nos acompanhar com tua alegria, teu riso sempre presente, teus causos, tua música, tuas trovas inesquecíveis com o Severiano, teus discursos inflamados que levantavam a multidão, tua defesa permanente dos sem-terras, dos pequenos agricultores, dos trabalhadores do campo e da cidade.
Não te esqueceremos jamais, mano velho. Serás um facho de luz, um brilho permanente, uma estrela. Sim, uma estrela a iluminar os pampas onde tem terra para distribuir e onde os lutadores acamparão para resistir, plantar e produzir.
Do teu mano um pouco mais novo de coração partido,
Selvino.
Selvino Heck
Assessor Especial do Presidente da República
Em seis de fevereiro de dois mil e nove
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