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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Protestos no Brasil. "Empreiteiras e Globo se apropriaram de gastos exagerados da Copa" (João Pedro Stedile. Entrevista)

25/06/2013 
STEDILE: EMPREITEIRAS E GLOBO SE APROPRIARAM DE GASTOS EXAGERADOS DA COPA

VIOMIONDO por Conceição Lemes
por Nilton Viana, no Brasil de Fato


“É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro”. Essa é uma das avaliações de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST sobre as mobilizações em todo o país.
Segundo ele, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. “As pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais”, afirma.
Para o dirigente do MST, as redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe Livre, que soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo.
Nesta exclusiva ao Brasil de Fato, Stedile fala sobre o caráter dessas mobilizações, e faz um chamamento: devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para as ruas disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência  da luta de classes. “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil”, constata.
E faz um alerta: o mais grave foi que os partidos de esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esse métodos. Envelheceram e se burocratizaram. As forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas as suas energias para ir à rua, pois está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. “Precisamos explicar para o povo quem são seus principais inimigos”.
Como você analisa as recentes manifestações que vem sacudindo o Brasil nas últimas semanas? Qual é base econômica para elas terem acontecido?


Há muitas avaliações de porque estarem ocorrendo estas manifestações. Me somo à analise da professora Erminia Maricato, que é nossa maior especialista em temas urbanos e já atuou no Ministério das Cidades na gestão Olivio Dutra.

Ela defende a tese de que há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras provocadas por essa etapa do capitalismo financeiro. Houve uma enorme especulação imobiliária que elevou os preços dos alugueis e dos terrenos em 150% nos últimos três anos.
O capital financiou sem nenhum controle governamental a venda de automóveis, para enviar dinheiro pro exterior e transformou nosso trânsito um caos. E nos últimos dez anos não houve investimento em transporte público. O programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, empurrou os pobres para as periferias, sem condições de infraestrutura.
Tudo isso gerou uma crise estrutural em que as pessoas estão vivendo num inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais.
Somado a isso, a péssima qualidade dos serviços públicos, em especial na saúde, e mesmo na educação, desde a escola fundamental, ensino médio, em que os estudantes saem sem saber fazer uma redação. E o ensino superior virou lojas de vendas de diplomas a prestações, onde estão 70% dos estudantes universitários.
E do ponto de vista político, por que aconteceu?


Os quinze anos de neoliberalismo e mais os últimos dez anos de um governo de composição de classes transformou a forma de fazer política refém apenas dos interesses do capital. Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses.

Toda juventude nascida depois das diretas já não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo de vereador, por exemplo, o sujeito precisa ter mais de 1 milhão de reais. Deputado custa ao redor de 10 milhões de reais. Os capitalistas pagam, e depois os políticos obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil.
Mas o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. E, portanto, gerou na juventude uma ojeriza a forma dos partidos atuarem. E eles tem razão. A juventude não é apolítica, ao contrário, tanto é que levou a política às ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado.
Estão dizendo que não aguentam mais assistir na televisão essas práticas políticas, que seqüestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na manipulação. E os partidos de esquerda precisam reapreender que seu papel é organizar a luta social e politizar a classe trabalhadora. Senão cairão na vala comum da história.
E porque as manifestações eclodiram somente agora?


Provavelmente tenha sido a soma de diversos fatores de caráter da psicologia de massas, mais do que alguma decisão política planejada. Somou-se todo o clima que comentei, mais as denúncias de superfaturamento das obras dos estádios, que é um acinte ao povo. Vejam  alguns episódios. A Rede Globo recebeu do governo do estado do Rio e da prefeitura, 20 milhões de reais de dinheiro público para organizar o showzinho de apenas duas horas, no sorteio dos jogos da Copa das Confederações.

O estádio de Brasília custou 1,4 bilhão de reais e não tem ônibus na cidade! A ditadura explícita e as maracutais que a FIFA/CBF impuseram e os governos se submeteram. A reinauguração do Maracanã foi um tapa no povo brasileiro. As fotos eram claras: no maior templo do futebol mundial não havia nenhum negro ou mestiço!
E aí o aumento das tarifas de ônibus foi apenas a faísca para ascender o sentimento generalizado de revolta, de indignação. A gasolina para a faísca veio do governo Gerlado Alckmin, que protegido pela mídia que ele financia e acostumado a bater no povo impunemente, como fez no Pinheirinho, jogou sua polícia para a barbárie. Aí todo mundo reagiu.
Ainda bem que a juventude acordou. E nisso houve o mérito do Movimento Passe Livre, que soube capitalizar essa insatisfação popular e organizou os protestos na hora certa.
Por que a classe trabalhadora ainda não foi à rua?
É verdade, a classe trabalhadora ainda não foi para a rua. Quem está na rua são os filhos da classe média, da classe média baixa, e também alguns jovens do que o André Singer chamaria de sub-proletariado, que estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo, mas querem ser ouvidos. Esses últimos apareceram mais em outras capitais e nas periferias.
A redução da tarifa  interessava muito a todo povo e esse foi o acerto do MPL. Soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo. E o povo apoiou as manifestações e isso está expresso nos índices de popularidade dos jovens, sobretudo quando foram reprimidos.
A classe trabalhadora demora a se mover, mas quando se move, afeta diretamente ao capital. Coisa que ainda não começou a acontecer. Acho que as organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e estão um pouco tímidas. Mas acho que enquanto classe, ela também está disposta a lutar. Veja que o número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 80.
Acho que é apenas uma questão de tempo, e se as mediações acertarem nas bandeiras que possam motivar a classe a se mexer. Nos últimos dias, já se percebe que em algumas cidades menores, e nas periferias das grandes cidades, já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas. E isso é muito importante.


E vocês do MST e camponeses também não se mexeram ainda.

É verdade. Nas capitais onde temos assentamentos e agricultores familiares mais próximos já estamos participando. E inclusive sou testemunha de que fomos muito bem recebidos com nossa bandeira vermelha, com nossa reivindicação de Reforma Agrária e alimentos saudáveis e baratos para todo povo.
Acho que nas próximas semanas poderá haver uma adesão maior, inclusive realizando manifestações dos camponeses nas rodovias e municípios do interior. Na nossa militância  está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar. Espero que também se mexam logo.


Na sua opinião, qual é a origem da violência que tem acontecido em algumas manifestações?

Primeiro vamos relativizar. A burguesia através de suas televisões tem usado a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra.  São minoritários e insignificantes diante das milhares de pessoas que se mobilizaram.
Para a direita interessa colocar no imaginário da população que isso é apenas bagunça e, se no final se tiver caos, colocar a culpa no governo e exigir a presença das forças armadas. Espero que o governo não cometa essa besteira de chamar a guarda nacional e as forças armadas para reprimir as manifestações. É tudo o que a direita sonha!
Quem está provocando as cenas de violência é a forma de intervenção da Policia Militar. A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade.
Há grupos direitistas organizados com orientação de fazer provocações e saques. Em São Paulo atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E, claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja tentando tirar seus proveitos.
Há então uma luta de classes nas ruas ou é apenas a juventude manifestando sua indignação?


É claro que há uma luta de classes na rua. Embora ainda concentrada na disputa ideológica. E o que é mais grave, a própria juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica.

Vejam, eles estão fazendo política da melhor forma possível, nas ruas. E ai escrevem nos cartazes: somos contra os partidos e a política? Por isso tem sido tão difusa as mensagens nos cartazes. Está ocorrendo em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. Os jovens estão sendo disputados pelas idéias da direita e pela esquerda. Pelos capitalistas e pela classe trabalhadora.
Por outro lado, são evidentes os sinais da direita muito bem articulada, e de seus serviços de inteligência, que usam a internet, se escondem atrás das mascaras e procuram criar ondas de boatos e opiniões pela internet. De repente, uma mensagem estranha alcança milhares de mensagens. E ai se passa a difundir o resultado como se ela fosse a expressão da maioria.
Esses mecanismos de manipulação foram usados pela CIA e o departamento de estado Estadunidense na primavera árabe, na tentativa de desestabilização da Venezuela, na guerra da Síria. E é claro que eles estão operando aqui também para alcançar os seus objetivos.
E quais são os objetivos da direita e suas propostas?


A classe dominante, os capitalistas, os interesses do império Estadunidense e seus porta-vozes ideológicos que aparecem na televisão todos os dias, tem um grande objetivo: desgastar ao máximo o governo Dilma, enfraquecer as formas organizativas da classe trabalhadora, derrotar qualquer propostas de mudanças estruturais na sociedade brasileira e ganhar as eleições de 2014, para recompor uma hegemonia total no comando do estado brasileiro, que agora está em disputa.

Para alcançar esses objetivos eles estão ainda tateando, alternando suas táticas. As vezes provocam a violência, para desfocar os objetivos dos jovens. As vezes colocam nos cartazes dos jovens a sua mensagem. Por exemplo, a manifestação do sábado em São Paulo, embora pequena, foi totalmente manipulada por setores direitistas que pautaram apenas a luta contra a PEC 37, com cartazes estranhamente iguais e palavras de ordem iguais.
Certamente a maioria dos jovens nem sabem do que se trata. E é um tema secundário para o povo, mas a direita está tentando levantar as bandeiras da moralidade, como fez  a UDN (União Democrática Nacional) em tempos passados. Isso que já estão fazendo no Congresso, logo logo, vão levar às ruas.
Tenho visto nas redes sociais controladas pela direita que suas bandeiras, além da PEC 37, são a saída do Renan do Senado, CPI e transparência dos gastos da Copa, declarar a corrupção crime hediondo, e fim do Foro especial para os políticos. Já os grupos mais fascistas ensaiam Fora Dilma e abaixo-assinados pelo impechment.
Felizmente essas bandeiras não têm nada ver com as condições de vida das massas, ainda que elas possam ser manipuladas pela mídia. E objetivamente podem ser um tiro no pé. Afinal, é a burguesia brasileira, seus empresários e políticos que são os maiores corruptos e corruptores. Quem se apropriou dos gastos exagerados da Copa? A Rede Globo e as empreiteiras!
Quais os desafios que estão colocados para a classe trabalhadora e as organizações populares e partidos de esquerda?


Os desafios são muitos. Primeiro devemos ter consciência da natureza dessas manifestações, e irmos todos para a rua, disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. Segundo, a classe trabalhadora precisa se mover. Ir para a rua, manifestar-se nas fábricas, campos e construções, como diria Geraldo Vandré. Levantar suas demandas para resolver os problemas concretos da classe, do ponto de vista econômico e político.

Terceiro, precisamos explicar para o povo quem são seus principais inimigos. E agora são os bancos, as empresas transnacionais que tomaram conta de nossa economia, os latifundiários do agronegócio, e os especuladores.
Precisamos tomar a iniciativa de pautar o debate na sociedade e exigir a aprovação do projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas; exigir que a prioridade de investimentos públicos seja em saúde, educação, Reforma Agrária.
Mas para isso o governo precisa cortar juros e deslocar os recursos do superávit primário, aqueles 200 bilhões de reais que todo ano vão para apenas 20 mil ricos, rentistas, credores de uma dívida interna que nunca fizemos, deslocar para investimentos produtivos e sociais. E é isso que a luta de classes coloca para o governo Dilma: os recursos públicos irão para a burguesia rentista ou para resolver os problemas do povo?
Aprovar em regime de urgência para que vigore nas próximas eleições uma reforma política de fôlego, que no mínimo institua o financiamento público exclusivo da campanha. Direito a revogação de mandatos e plebiscitos populares auto-convocados.
Precisamos de uma reforma tributária que volte a cobrar ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) das exportações primárias, penalize a riqueza dos ricos e amenize os impostos dos pobres, que são os que mais pagam.
Precisamos que o governo suspenda os leilões do petróleo e todas as concessões privatizantes de minérios e outras áreas públicas. De nada adianta aplicar todo royalties do petróleo em educação, se os royalties representarão apenas 8% da renda petroleira, e os outros 92% irão para as empresas transnacionais que vão ficar com o petróleo nos leilões!
Uma reforma urbana estrutural, que volte a priorizar o transporte público, de qualidade e com tarifa zero. Já está provado que não é caro e nem difícil instituir transporte gratuito para as massas das capitais. Controlar a especulação imobiliária.
E finalmente, precisamos aproveitar e aprovar o projeto da Conferência Nacional de Comunicação, amplamente representativa, de democratização dos meios de comunicação. Para acabar com o monopólio da Globo e para que o povo e suas organizações populares tenham ampla acesso a se comunicar, criar seus próprios meios de comunicação, com  recursos públicos. Ouvi de diversos movimentos da juventude que estão articulando as marchas, que talvez essa seja a única bandeira que unifica a todos: Abaixo ao monopólio da Globo!
Mas para que essas bandeiras tenham ressonância na sociedade e pressionem o governo e os políticos, somente acontecerá se a classe trabalhadora se mover.
O que o governo deveria  fazer agora?


Espero que o governo tenha a sensibilidade e a inteligência de aproveitar esse apoio, esse clamor que vem das ruas, que é apenas uma síntese de uma consciência difusa na sociedade, que é hora de mudar. E mudar a favor do povo.

E para isso o governo precisa enfrentar a classe dominante, em todos os aspectos. Enfrentar a burguesia rentista, deslocando os pagamentos de juros para investimentos em áreas que resolvam os problemas do povo. Promover logo as reformas políticas, tributárias. Encaminhar a aprovação do projeto de democratização dos meios de comunicação. Criar mecanismos para investimento pesados em transporte público, que encaminhem para a tarifa zero. Acelerar a Reforma Agrária e um plano de produção de alimentos sadios para o mercado interno.
Garantir logo a aplicação de 10% do PIB em recursos públicos para a educação em todos os níveis, desde as cirandas infantis nas grandes cidades, ensino fundamental de qualidade, até a universalização do acesso dos jovens à universidade pública.
Sem isso, haverá uma decepção, e o governo entregará para a direita a iniciativa das bandeiras, que levarão a novas manifestações visando desgastar o governo até as eleições de 2014. É hora do governo aliar-se ao povo, ou pagará a fatura no futuro.
E que perspectivas essas mobilizações podem levar para o país nos próximos meses?


Tudo ainda é uma incógnita. Porque os jovens e as massas estão em disputa. Por isso que as forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas suas energias para ir à rua. Manifestar-se, colocar as bandeiras de luta de reformas que interessam ao povo, porque a direita vai fazer a mesma coisa e colocar as suas bandeiras conservadoras, atrasadas, de criminalização e estigmatização das idéias de mudanças sociais.

Estamos em plena batalha ideológica que ninguém sabe ainda qual será o resultado. Em cada cidade, cada manifestação, precisamos disputar corações e mentes. E quem não entrar, ficará de fora da história.
Leia também:

(http://suscetivel.wordpress.com/2013/06/25/stedile-empreiteiras-e-globo-se-apropriaram-de-gastos-exagerados-da-copa/). 

terça-feira, 25 de junho de 2013

"Sempre fui a favor de uma Constituinte específica como uma reforma política" (Luis Roberto Barroso. Entrevista)

25/06/201313h08 Atualizada 25/06/2013





Barroso volta atrás e diz ser a favor de Constituinte limitada

Aiuri Rebello
Do UOL, em Brasília



  • O advogado Luís Roberto Barroso toma posse nesta quarta-feira no STF
    O advogado Luís Roberto Barroso toma posse nesta quarta-feira no STF
Às vésperas de tomar posse como o 11º ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), o advogado Luís Roberto Barroso voltou atrás em sua opinião sobre a realização de uma Constituinte. "Se aproveitarmos esta onda contestatória relevante para conduzir uma ampla reforma política, teremos transformado um limão em uma limonada", disse nesta terça-feira (25) em Brasília.
Questionado sobre sua opinião anterior, dada em entrevista de 2011, disse que foi "mal-interpretado". Segundo o ministro, ele se colocou anteriormente contra uma Assembleia Constituinte plena, mas a favor de uma Constituinte pontual.
"Já declarei que não acho ser o caso de convocar uma Constituinte originária, já que no Brasil temos todas as instituições funcionando e não há calamidade [desordem institucional]", afirmou. "Mas sempre fui a favor de uma Constituinte específica, que possa tratar de temas específicos como, por exemplo, uma reforma política."
Barroso também declarou ser a favor de um plebiscito popular.

Posse

"Fico feliz de chegar a um cargo no poder público com a juventude e o povo na rua. Essa é a energia que move a história. Energia do bem e da paz." Ele rechaçou, porém, a violência de parte dos manifestantes. "A violência e a depredação não constroem nada de bom".
Estão marcadas para esta quarta-feira ao menos três manifestações na Esplanada dos Ministérios, que ocorrerão pouco depois da posse de Barroso no STF, às 14h30.
O novo ministro é um dos principais advogados constitucionalistas do país e atuou em casos polêmicos julgados pela Suprema Corte, como o que permitiu a união estável entre casais do mesmo sexo e as ações afirmativas em matéria racial.
(http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/06/25/barroso-volta-atras-e-diz-ser-a-favor-de-constituinte-limitada.htm?cmpid=ctw-politica-news). 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Protestos no Brasil. Atos à direita, eu estou fora (Cadu Amaral)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Atos à direita, eu estou fora



O que começou há algumas semanas com manifestações de rua contra os aumentos abusivos dos valores das tarifas do transporte publico se transformou em uma coisa amorfa, sem foco e amplamente influenciado e dirigido pela pauta da direita brasileira. Tanto que ate o Movimento Passe Livre (MPL) retirou-se do último ato por discordas de “práticas conservadoras” nas manifestações.

As práticas conservadoras a que se referia o MPL vão além de cartazes pedindo o fechamento do Congresso ou contra a legalização do aborto, mas se trata também de agressões físicas e morais a militantes partidários, de sindicatos ou centrais sindicais e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por esses estarem portando a bandeira de seu partido. Em São Paulo chegou-se a apedrejar militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Estas são claramente pauta da direita, que no Brasil sempre teve um viés golpista – não é preciso dar aula de História aqui! – inflado pela grande mídia. Basta puxar a memória rapidamente e lembraremos que no início das manifestações veículos de comunicação como Globo, Folha, Estadão e Veja eram peremptoriamente contrários aos atos. Vândalo era o adjetivo mais educado que dedicavam às pessoas que estavam nas ruas.


Ao contrário do que muita gente pensa, partidos políticos estavam à frente das organizações das manifestações. E no Brasil inteiro. Mas logo fascitoides passaram a dirigir a massa nesses atos. Não dormindo no ponto, a mídia tratou de ampliar o volume dos gritos de fora partido. E logo a corrupção virou a pauta central das manifestações. Mas nada há contra corruptores.

Dizer que há insatisfação com o rumo de um monte de coisas é lugar comum, é chover no molhado. É claro que tem, mas não é virando à direita que elas vão se resolver. Na internet grupos como o Anonymous e o Change Brazil fazem a guerra suja da boataria golpista. Só para ter ideia, o jargão “O gigante acordou” era um dos dizeres da Marcha da Família com Deus e pela Democracia que foi o estopim do golpe civil-militar de 1964.

Foto do livro "Marcha pela Família". Santos/SP


Um bocado de gente, me incluindo nisso, achou que dava para disputar por dentro essas manifestações, ledo engano. Disputa ideológica, não diretiva no sentido de ter o ato para si. Como é o centro do discurso fascista contra os partidos políticos. Essas manifestações já estão dominadas pela pauta da direita e se os setores democráticos do país não abrirem os olhos, não seria surpresa a repetição ou tentativa, mesmo que com nova roupagem, do que aconteceu em 1° de abril de 1964.

Na última sexta-feira (21) em São Paulo, 76 organizações dos movimentos sociais do país como o MST, a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Marcha Mundial de Mulheres, o Levante Popular da Juventude, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), estiveram reunidas para debater os rumos que essas manifestações estavam tendo. Também participaram representantes dos partidos PT, PCdoB, PSTU, PSOL, PCO, PCB, PSB e PPL.

Mas as discussões parecem ter ficado na tônica de disputar a pauta dos atuais atos existentes. Esses que apedrejam e agridem, física e moralmente, quaisquer militantes das organizações existentes.

Penso que todas as entidades que participaram dessa reunião deveriam organizar uma contraofensiva à esquerda nas ruas. Não se trata de organizar cruzadas para ter pancadaria. Isso os fascitoides já fazem nos atos do Globo Repórter.

Defendo organizar outras manifestações, onde se paute mais agilidade na reforma agrária, se paute reforma política – com financiamento público de campanhas para acabar com o poderio econômico nas campanhas eleitorais, voto em lista partidária e o fim das coligações proporcionais –, 100% dos royalties do pré-sal para a educação, contra as presepadas da cura gay e do estatuto do nascituro, pela taxação das grandes fortunas, Estado laico e pela liberdade ideológica e de organização.

Uma manifestação assim contará com minha presença e de tantos outros que, mesmo sem ter filiação partidária (até nem gostando de partidos) iriam às ruas. Não irei mais a nenhum ato que não tenha a participação efetiva dessas organizações e que mantenha dentro dos manifestantes fascistas que repetem a pauta da mídia brasileira e agem como animais ao atacarem militantes partidários e sindicais.

Ao contrário de Vladimir Safatle em seu artigo na edição 754 de CartaCapital, eu não confio nessa moçada que está saindo às ruas nesse momento. Mesmo tendo um sentimento legítimo de insatisfação, ela não consegue perceber sua transformação em massa de manobra da direita brasileira. Destila ódio e alimenta o espírito golpista de nossa “grande imprensa”. 


Disponível em: Blog do Cadu: Atos à direita, eu estou fora

domingo, 23 de junho de 2013

O lugar da presidenta (Paulo Moreira Leite)


Paulo Moreira Leite
Desde janeiro de 2013, é diretor da ISTOÉ em Brasília. Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA, correspondente em Paris e em Washington. É autor dos livros A Mulher que era o General da Casa e O Outro Lado do Mensalão.
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O lugar da presidenta

Observadores variados descobriram uma melodia única para avaliar o pronunciamento de Dilma Rousseff, ontem, quando a presidente falou sobre os protestos e a baderna.

Eles cobram novidades – sem dizer quais – e reclamam medidas espetaculares – sem dizer o que teriam em mente.
Esse pessoal não entendeu nada. O pronunciamento de Dilma, um pouco demorado demais, talvez,  esteve a altura do momento em que o país se encontra depois que milhões de pessoas foram às ruas. Sua virtude é não trazer novidades nem anunciar medidas espetaculares. O país, em 2013, não precisa disso, vamos combinar.  O  grande espetáculo se encontra nas ruas.
Num ambiente de semi-insurreição, onde reivindicações justas e urgentes se misturam a proclamações autoritárias e atos contínuos de violência arruaceira, cabe a presidente da República mostrar que assume suas responsabilidades,  lembrando que o país possui uma Constituição, que ela tem a obrigação de defender pelos meios de que dispõe.
São valores teoricamente velhos, tão antigos como o regime republicano, de 1889.
Na conjuntura atual, são afirmações atuais e indispensáveis. Não precisamos de lances marketing. Precisamos afirmar valores consistentes e fundamentais, como democracia, progresso social, Constituição.
A atitude de Dilma ajuda a recordar que os brasileiros usufruem do mais amplo regime de liberdades publicas de sua história e que essa conquista deve ser preservada. Lembra que seus poderes presidenciais emanam do povo. Foi um pronunciamento presidencial, de quem fala para o país inteiro – e não para os aliados do governo nem, exclusivamente, para os brasileiros que foram às ruas.
São referências importantes após quinze dias de baderna urbana – carros incendiados, vidros quadros, roubos, ataques a edifícios públicos – e baderna ideológica, com perseguição e porrada em militantes de partidos políticos, faixas que pediam  golpe militar e atitudes fascistas.
A presidenta não fez ameaças diretas, mas ficou implícito  – felizmente – que se sente inteiramente a vontade para usar o monopólio da violência – que é um direito do Estado – quando for necessário. Num momento em que se multiplicam atos de puro banditismo, condenou a arruaça e  a irracionalidade. Mostrou disposição muito maior para ouvir e negociar.
Para quem passou os dois últimos anos criticando a falta de diálogo do governo com a sociedade, Dilma anunciou que irá abrir as portas para dialogar com manifestantes, com entidades e sindicatos. Vai ouvir, considerar e ponderar. Se cumprir o que disse, seu governo assumirá um novo perfil político a partir de então.
Para quem imaginava que os protestos iriam paralisar o governo e transformar a presidente numa órfã política, Dilma avisou que está ativa. Mostrou disposição para ouvir a voz das ruas como nenhum antecessor jamais o fez. Mas sabe seu lugar e sabe muito bem para que foi eleita.
Essa é a mensagem real do pronunciamento.

O resto é crítica de cinema.
(http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE).

Esquerda se une em São Paulo para decidir como atuar em manifestações pelo país


SÁBADO, 22 DE JUNHO DE 2013



Assim eu gosto muito: Esquerda se une em São Paulo para decidir como atuar em manifestações pelo país






Nesta sexta (21/06), 76 organizações de esquerda, representando movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos se reuniram no sindicato dos químicos em São Paulo para avaliar o cenário de mobilizações no Brasil
José Coutinho Júnior - Brasil de Fato
de São Paulo (SP)
Nesta sexta (21/06), 76 organizações de esquerda , representando movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos se reuniram no sindicato dos químicos em São Paulo para avaliar o cenário de mobilizações no Brasil e como criar uma unidade entre si para atuar nestas manifestações.
A avaliação feita pelas organizações é de que as manifestações, que iniciaram em torno da redução da tarifa do transporte público na cidade, tem um caráter progressista, pois buscam a ampliação de diversos direitos sociais para a juventude e para a classe trabalhadora, indignadas com a situação em que vivem há anos.
No entanto, a direita organizada tenta dar os rumos do movimento, enfatizando o nacionalismo e explorando o senso comum de que as organizações políticas são a causa dos problemas do país, afirmando que as manifestações são de um povo que, unido não precisa de partidos ou organizações.
Dessa forma, a direita inicia um processo de incitação ao ódio às organizações trabalhadoras, responsáveis por construir lutas e mobilizações, para que estas sejam impedidas de participar ativamente das mobilizações com suas pautas progressistas, tentando assim acabar com o caráter de classe e de luta por direitos concretos das mobilizações.
A violência, tanto verbal quanto física, esta causada por grupos de skinheads e neonazistas, que movimentos sociais, partidos e sindicatos sofreram no ato da última quinta (20/06) em São Paulo, revela bem a capacidade dessa direita em utilizar o sentimento de indignação contra a política para expulsar a classe trabalhadora organizada dos atos.
Frente a isto, as organizações presentes avaliaram que é o momento de se unir, construindo uma plataforma política unitária e se organizar para levar as pautas da classe trabalhadora para as mobilizações, como a democratização dos meios de comunicação, a redução da jornada de trabalho, a suspensão dos leilões do pré-sal, a reforma política e a prioridade de investimento dos recursos públicos em saúde e educação, politizando desta forma as ruas e a população que se manifesta.
A violência deve ser combatida, mas é preciso ter em mente que ela é causada principalmente por grupos da extrema direita, e não pela maioria presente nos atos, que acaba sendo manipulada por estes grupos. As organizações avaliam que devem estar presentes nas ruas para disputar a consciência destas pessoas, além de realizar uma jornada nacional de lutas conjuntas para reivindicar suas pautas e mostrar sua força.
Estavam presentes organizações como a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Via Campesina, União Nacional dos Estudantes (UNE), Intersindical, Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Partido Socialismo e Liberdade (PSOl), Partido dos Trabalhadores (PT), dentre outros. Reuniões como esta estão sendo feitas em outros estados, como Rio de Janeiro, Brasília e Minas Gerais.
(http://mariadapenhaneles.blogspot.com.br/2013/06/assim-eu-gosto-muito-esquerda-se-une-em.html). 

sábado, 22 de junho de 2013

Movimento Passe Livre repudia violência contra partidos políticos

Publicado em Sexta, 21 Junho 2013

Movimento Passe Livre repudia violência contra partidos políticos

queima de bandeira

O Movimento Passe Livre (MPL) emitiu nota no início da madrugada desta sexta-feira em repúdio aos atos de violência contra partidos políticos durante as manifestações de quinta-feira (20) pelo país.

Em sua página no Facebook o movimento afirma ter presenciado "episódios isolados e lamentáveis de violência contra a participação de diversos grupos".

"O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos", afirma o movimento.

Em Porto Alegre, militantes do PT com bandeiras do partido foram reprimidos aos gritos de "sem partido" ainda na concentração do ato, em frente à prefeitura.
Mais tarde, os mesmos militantes discutiram com outros participantes, que acusaram de "fascistas".

Integrantes do PSTU foram hostilizados em Belo Horizonte, Fortaleza e Londrina (PR), onde tiveram que baixar bandeiras a pedido de outros manifestantes.

Na capital cearense, militantes com bandeiras da central sindical Conlutas, ligada ao PSTU, foram recebidos aos gritos de "Oportunistas, abaixem as bandeiras". Como resposta, diziam: "A ditadura acabou".

Bandeiras da UJS (União da Juventude Socialista), ligada ao PC do B, foram reprimidas em Fortaleza.

Florianópolis também registrou tensão motivada pela presença de militantes partidários. Integrantes de siglas como PT e PSTU também foram reprimidos aos gritos de "sem partido, sem partido".

Outros manifestantes buscavam ficar longe da minoria de militantes para evitar associação com as bandeiras partidárias.

O grito "sem partido" foi ouvido ainda em Aracaju (SE), quando manifestantes apartidários encontraram representantes de PSTU, PSOL e PCB.

Em Vitória da Conquista (BA), a manifestação terminou com uma bandeira do PT rasgada. O PT está a frente da prefeitura da cidade há cinco mandatos consecutivos. O atual prefeito é Guilherme Meneses.

(WILHAN SANTIN, AGUIRRE TALENTO, PAULO PEIXOTO, WILLIAM DE LUCCA, JEFFERSON BERTOLINI e MARIO BITTENCOURT).

Decifra-me ou te devoro”: a grande mídia e as manifestações 

História do Fascismo


Fonte: Folha

(http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questao-racial/violencia-racial/19434-movimento-passe-livre-repudia-violencia-contra-partidos-politicos). 

Há mesmo muita indignação de um tipo novo nas ruas brasileiras em ebulição... (Paulo Arantes. Entrevista)

22 de junho de 2013 | 17h 03

O futuro que passou

Há duas décadas, o Brasil só faz avançar - e no entanto ninguém aguenta mais


Ivan Marsiglia - O Estado de S. Paulo

Enfim concedida a revogação dos aumentos das tarifas de transporte nas duas principais metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, a tarde de quinta-feira se anunciava como o momento de comemoração para o movimento cívico e apartidário que tomou as ruas do País nas últimas duas semanas. O que se viu, no entanto, foi a expansão incontrolável dos protestos, com mais de 1 milhão de pessoas em cerca de cem cidades brasileiras. E, embora o tom geral das massas de manifestantes se mostrasse pacífico, cenas de conflito e vandalismo foram vistas por toda parte. Em Brasília, três ministérios foram depredados. No Rio, 62 pessoas ficaram feridas. No interior paulista, um jovem manifestante morreu atropelado e, em Belém, uma gari perdeu a vida após inalar gás lacrimogêneo lançado pela polícia.
Mais de 1 milhão de brasileiros foram às ruas protestar - João Godinho/AE
João Godinho/AE
Mais de 1 milhão de brasileiros foram às ruas protestar
No calor de acontecimentos que atingem proporções inéditas desde a redemocratização brasileira, o filósofo Paulo Arantes desfia, na entrevista a seguir, as perplexidades do "país do futuro" - que afinal chegou, trazendo consigo antigas contradições. "A vida no Brasil sem dúvida melhorou, e muito, nestas duas décadas de ajuste ao capitalismo global. No entanto, ninguém aguenta mais", afirma o professor aposentado da USP e doutor pela Universidade de Paris X, Nanterre.
Para Arantes, nunca é demais lembrar que o Maio de 1968 na França também eclodiu em um contexto de crescimento econômico, pleno emprego e políticas de bem-estar social. Comparação que, no entanto, para por aí. E que se as "jornadas de junho" nacionais, como o filósofo as chama, referenciam-se de fato em rebeliões altermundistas como a de Seattle-1999 ou de Nova York-2011, encontram no Brasil ambiente ainda mais explosivo, "tamanha a desagregação social em que nos enfiamos". E avisa: para evitarmos o risco de uma derivação autoritária, será preciso que governantes municipais, estaduais e federais deixem de lado suas "cabeças de planilha" e levem a sério a reivindicação radical de cidadania expressa nas ruas.
‘Perplexidade’ foi a palavra mais usada na descrição dos últimos acontecimentos em todo o País. O sr. também ficou surpreso?
É verdade, só hoje de manhã li pelo menos três artigos confessando "perplexidade" diante dessas realmente espantosas "jornadas de junho". Cada um com o seu assombro diante da "mais expressiva, surpreendente e rápida vitória popular de nossa história", nas palavras do cientista político Rubens Figueiredo, que atribui a rendição dos governantes locais, Estado e município, à "potência e capacidade de mobilização das redes sociais". O que os ideólogos da sociedade em rede estão chamando de autocomunicação, Kant falaria em uso público da razão. Seja como for, mais um motivo de espanto. Voltemos às três visões perplexas. O cronista, que admite não estar entendendo nada e exige a mesma franqueza dos demais, da imprensa, dos políticos e dos próprios manifestantes; o correspondente internacional, que talvez tenha vivido anestesiado pela rotina da profissão, cobrindo anos de prosperidade festejada pelos investidores estrangeiros; o veterano do mundo petista agoniado pelos sinais alarmantes de fadiga da estratégia de mudanças sem ruptura, com dez anos de conquistas dentro da ordem e níveis coreanos de aprovação eleitoral arriscando ir para o vinagre à menor gota d’água.
Como entender esses sinais, em um contexto de baixo desemprego e de crescimento, ainda que modesto, na economia?
A vida no Brasil sem dúvida melhorou, e muito, nestas duas décadas de ajuste ao capitalismo global. No entanto, ninguém aguenta mais. Essa a dissonância básica, ainda mais estridente quando o contexto é de baixo desemprego, como você bem lembrou. Não seja por isso. Sei que a comparação frisa o disparate, mas não custa recordar que o maior movimento contestatário da segunda metade do século 20, disparado pelo maio francês de 1968, ocorreu justamente no auge de um ciclo inédito de crescimento econômico, pleno emprego e Estado social a todo vapor, sendo que três meses antes da explosão o mais acatado colunista da época publicara um artigo descrevendo a França como um país entorpecido pela autossatisfação. A herança do Maio, entretanto, já se disse, é uma herança impossível. E a moçada do Passe Livre sabe muito bem disto: onde havia um horizonte de superação, existe uma ratoeira. Essa armadilha é o Brasil do futuro que afinal chegou. Como disse um poeta, "o horizonte sorri de longe e arreganha os dentes de perto". Por exemplo, a brilhante dentadura do PM baixando o porrete no casal de namorados num bar da Av. Paulista.
De que maneira o Passe Livre, que teve início em 2005, se aproxima e se diferencia dos movimentos sociais a que estávamos acostumados no Brasil?
O Movimento Passe Livre, como de resto seus congêneres nascidos da galáxia altermundista, sobretudo os descendentes da velha tradição da Ação Direta, discrepa dos movimentos sociais clássicos, para não falar é claro, dos partidos da esquerda histórica, embora seja igualmente temático como os demais movimentos, e obviamente de esquerda. É filho de Chiapas, Seattle, etc., das lutas contra a OMC, Alca & cia. Sua família é por certo a dos autonomistas. E, embora restrito a um foco único, é maximalista, como estamos vendo agora: a meta é a tarifa zero. Cuja razoabilidade demonstrada nas suas cartilhas de clareza igualmente máxima são exemplares como introdução prática à crítica da economia política. Pelo tênue fio da tarifa é todo o sistema que desaba, do valor da força de trabalho a caminho de seu local de exploração à violência da cidade segregada rumo ao colapso ecológico. Simples assim, por isso, fatal, se alcançar seu destinatário na hora social certa, como parece estar ocorrendo agora.
Daí a ressonância de uma causa como a da ‘tarifa zero’, tida como inviável?
Exato. E são tão afiados no manejo do melhor argumento contra a aberrante insensatez do atual modelo de transporte coletivo - e socialmente convincentes, como estamos vendo -, que, em contraste, as planilhas dos governantes parecem, elas sim, cifras fantasiosas ornamentando o jogo das concessionárias que se conhece. Mas de tanto levarem às cordas essas raposas das planilhas criativas, a expertise adquirida no processo foi aos poucos colando, num só personagem, o libertário e o gestor ideal de políticas públicas "igualitárias". Não estou insinuando que cedo ou tarde esses jovens estarão operando do outro lado do balcão - como já o fazem no âmbito da cultura digital, no qual a livre associação de livres produtores revelou-se o melhor caminho para gerar empreendedores shumpeterianos e novos formatos de negócios, como se diz no jargão do capitalismo cognitivo. Não à toa, demonstra-se por a+b que a circulação urbana planejada à luz de uma tarifa zerada exponenciaria a performance econômica de uma cidade, e estenderia o direito à cidade. Uma ruptura de época está nos arrastando para uma outra praia não menos conflagrada e na qual os europeus já vivem há tempos: onde em torno dessas famigeradas políticas públicas de gestão de um presente congestionado - da segurança à moradia - um grupo se amotina e as correspondentes instituições coercitivas fecham o cerco. Por isso na Av. Paulista um dia é pau outro dia é flor.
Além da reivindicação ‘irrealista’ da proposta de tarifa zero, fala-se muito sobre o ‘caráter difuso’ dos protestos. O sr. concorda?
Me parece muito mais insensata a hipótese contrária, de que centenas de milhares de pessoas ganhem as ruas para pedir a Lua. O engenheiro Lúcio Gregori, secretário de Transportes na cidade de São Paulo no governo Luiza Erundina, tem dito para quem quiser ouvir que só a horrenda política tributária no Brasil impede a gratuidade no transporte coletivo, tão viável quanto o SUS, escolas públicas e coleta de lixo. Quanto ao "caráter difuso" das demandas, trata-se de um bordão pejorativo porque, em sua infinita variedade, além de serem de uma espantosa precisão - nada menos do que tudo, como o Terceiro Estado em 1789 queria tudo por não ser nada -, elas sugerem um limiar que no fundo ainda não se ousou transpor.
Muitos têm dito também que as manifestações são o equivalente brasileiro de movimentos como o da Primavera Árabe e o Occupy Wall Street. A comparação procede?

A Primavera Árabe são outros quinhentos. Salvo a tática de ocupação de um local emblemático e o ímpeto do enfrentamento, nada a ver. Da geopolítica - estão no olho do furacão de uma guerra pela ordem mundial - à mescla de trabalhadores pobres e populações destituídas com uma religião militante e suas violentas divisões sectárias. Já o similar do Occupy americano reproduziu-se por aqui há dois anos, mas passou desapercebido, encoberto pela melhora dos índices de Gini no País. Na Turquia sim, um par de analogias salta aos olhos, porém não mais do que isso, pois estamos falando de um país-membro da Otan e implicado numa guerra civil no vizinho árabe: também um estopim com cara de causa menor, a desfiguração de uma praça entregue à especulação imobiliária, do outro lado da barreira, um governante com altos índices de aprovação e por isso mesmo acometido da apoteose mental que conhecemos bem, enterrado até o pescoço em megaprojetos para lá de duvidosos. Quanto aos Indignados espanhóis, é inegável o ar de família, menos quanto ao desfecho conservador, embora ninguém saiba qual será o nosso, tamanha a desagregação social em que nos enfiamos: uma imponderável deriva à direita pode ocorrer a qualquer momento. O fato é que há mesmo muita "indignação" de um tipo novo nas ruas brasileiras em ebulição, tão nova essa indignação que ousou tocar no santo dos santos, a Copa. E olhe que acompanho futebol desde 1950, nunca vi ninguém se atrever a tamanha profanação. O papa não perde por esperar...


A imagem de estádios de Primeiro Mundo em contraponto a serviços públicos de terceiro deu força à tal ‘revolta da catraca’?
O estopim da tarifa também passou por aí, e para além do importante movimento dos atingidos por megaeventos, alcançou a imaginação da massa infeliz condenada à catraca: queremos tarifa com padrão Fifa - bem como hospitais, escolas, creches, no mesmo padrão Fifa de qualidade. Humor popular direto ao ponto, porém um tantinho inquietante: então seria esse o metro da "cidadania social" a que se aspira? Luxo e apropriação direta dos fundos públicos? A proximidade com os Indignados europeus dá mesmo o que pensar. Fica no ar a dúvida: e se tivermos ingressado finalmente na era dos protestos desengajados - como os qualificou um sociólogo britânico -, quando protestar se tornou uma questão estritamente pessoal, e o ativismo, a rigor, um estilo de vida? Em fevereiro de 2003 1 milhão de pessoas foram às ruas na Grã Bretanha em protesto contra a iminente invasão do Iraque. Recolhidos cartazes e bandeiras, não deixaram nenhum rastro social ou político pelo caminho, salvo a palavra de ordem famosa "não em meu nome", isto é, não me envolvam nessa barganha de sangue por petróleo. Na mesma linha, outro conhecedor da cena inglesa observou que os europeus que promovem festa e casamento durante os protestos o fazem porque sabem que as demonstrations só demonstram para os próprios demonstradores. Quando a maré virou, e a vara de condão da PM "transformou" vândalos em indignados pacificamente distribuídos por nichos genéricos de demandas, a narrativa midiática dos acontecimentos não precisou forçar a mão para desviar-se do gatilho do movimento - e apresentar a manifestação como um fim em si mesma. Essa a moldura do imortal "está lindo vocês nas ruas".
Essa alternância entre vandalismo e cidadania foi o que tornou os protestos tão difíceis de decifrar?
Acho que há menos mistificação do que supõe a socióloga da FGV Silvia Viana, ao notar, num ótimo artigo, que são tantas as negativas - "não são só os 20 centavos, não é só o transporte, não é só a Copa..." - que o movimento parece um protesto por nada. Mas não é o que diz uma jovem manifestante, ao ser indagada sobre as motivações de sua presença no ato: "Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui". O teórico alemão Wolfgang Streek traduziria um pouco à la bruta: vim consumir política, no caso, repudiar um sem-número de "produtos", a saber tais e tais políticas públicas que não me satisfazem. Se não me engano, foi esse o ponto da entrevista do professor José Garcez Ghirardi (Em Trânsito", 16/6), domingo passado neste mesmo caderno. Alguém observou que muitas palavras de ordem nos protestos decalcavam slogans publicitários, a começar pelo "Grande Despertar" de uma marca de uísque.
E o próprio ‘vem pra rua’, da propaganda de uma fábrica de automóveis...

Puro agitpub: o autor da boutade acrescentou que se tratava menos de ouvidos treinados por jingles do que casos de detournement espontâneo à maneira dos situacionistas franceses. Mas, e se não for bem assim? À notícia da capitulação, o bom senso tático da esquerda tradicional recomendaria uma pausa para consolidação das conquistas. Parece não ser mais o caso. Nas palavras de um ativista, não só em solidariedade às outras cidades que ainda estão na luta, mas porque uma pauta puxa a outra, "a mobilização não pode parar, a cultura da mobilização não deve parar". Mas precisamos, sim, parar para pensar, antes de celebrar o que quer que seja, salvo a derrota acachapante dos reis da planilha. Um coletivo de estudiosos e militantes da questão social no Brasil poderia muito bem dizer que essa mobilização permanente tem menos a ver com a mobilização total de uma sociedade de consumo do que com a implicação, e o "engajamento", das pessoas arrastadas pelo novo assalariamento vulnerável, que estão ralando e padecendo e no entanto engajadas em duas frentes, a do trabalho que ninguém gosta de ver estropiado por chefias despóticas e avaliações espúrias e a do senso do vínculo social a ser reconquistado que decorre dessas engrenagens desenhadas para infligir sofrimento. Quem sabe não virá também dessa outra fonte de energia social o som e a fúria que se vê nas ruas?


Do ponto em que estamos, já é possível vislumbrar em que isso tudo vai dar?
Até agora mais ou menos cem cidades com manifestações marcadas ou já ocorrendo. Era de 70% de aprovação no Datafolha, segundo consta, o índice do Movimento das Diretas no seu começo. Como lhe dizer que estou entendendo o que seria inconcebível dez dias atrás? E olhe que o povo lulista - na acepção precisa que lhe deu o cientista político André Singer - mal começou a dar o ar de sua graça: tarifa zero dentro da ordem seria demais para o seu "horizonte de desejo", para usar a ótima expressão de Wanderley Guilherme? E quando o desemprego voltar com o tremendo arrocho fiscal pela frente? Deixará de lado a saída empreendedorista pela ação coletiva? Como reagiria a classe média, que até agora extravasou seu ressentimento atávico contra um pouco de tudo, na hora em que a gente diferenciada deixar de ser apenas uma ameaça virtual? Salvo a Copa, o consenso em torno do Brasil emergente ainda não foi arranhado. Se em algum momento se sentir sob ataque, reagirá como de hábito, cerrando fileiras em torno de um campo popular ad referendum, os cenários pré-64 sairão das gavetas mais uma vez, etc. Muitas dissonâncias portanto nessa unanimidade toda, além do mais fabricada pelos âncoras transmitindo ao vivo o impensável na pasmaceira dos últimos anos.
Na sexta-feira, já ficava clara não só a apreensão da Fifa em relação à Copa do ano que vem, mas a do Comitê Olímpico Internacional sobre a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro. São preocupações fundadas?
A Copa do Mundo não está indo para o vinagre apenas porque está ficando cada vez mais claro o engodo da redenção urbana operada por megaeventos do gênero. A ficha que caiu agora é o escândalo do seu tremendo custo público alavancando lucros privados inconcebíveis. Temos um ano pela frente, num cenário de retrocesso econômico, de volta à ortodoxia do primeiro mandato de Lula, tempo suficiente para que amadureça a percepção pública do real significado da Lei da Copa, essa sim uma verdadeira lei de exceção. Veremos de perto, entre outras derrogações e violações, o exercício da soberania corporativa sobre territórios e populações. Não faltarão gatilhos para outra onda de manifestações em cascata: tem muita gente com coceira nos dedos.
O sr. disse certa vez que o pensamento crítico brasileiro encontrava-se em ‘coma profundo’. Parafraseando um dos slogans mais cantados nos atuais protestos (‘o povo acordou’), acha que ele pode despertar agora?
Vasto assunto. Como o dito pensamento crítico brasileiro prestou relevantes serviços à inteligência nacional, por que não deixá-lo descansar em paz? 


(http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,o-futuro-que-passou-,1045705,0.htm).