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domingo, 19 de fevereiro de 2012

'Xingu' tem sido esquecida através das gerações...


Diretor: 'Xingu' tem sido esquecida através das gerações
15 de fevereiro de 2012 • 14h00 • atualizado às 14h14

João Miguel, Caio Blat e Cao Hamburger falam sobre 'Xingu'. Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra
João Miguel, Caio Blat e Cao Hamburger falam sobre 'Xingu'
Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra

JULIA DÓCOLAS
Direto de Berlim
O diretor Cao Hamburger foi a Berlim com uma obra que serve como uma aula de história do Brasil. Xingu conta a trajetória dos irmãos Villas-Bôas, Orlando, Claudio e Leonardo (grandes defensores da preservação territorial e cultural dos índios no centro-oeste brasileiro) e do processo de criação do Parque Nacional do Xingu, a maior reserva indígena do País.
De volta em Berlim (o diretor participou do festival em 2007 com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), Cao falou sobre a importância do tema para a sociedade brasileira. Para recriar a história da forma mais real possível, o diretor leu o diário de viagem dos irmãos e realizou dezenas de entrevistas com pessoas que trabalharam com eles na época e com os povos habitantes da reserva. "Essa historia não é muito conhecida no Brasil. Ela tem sido esquecida através das gerações. Por isso resolvemos fazer esse filme, pois, apesar de ter ocorrido há mais de 50 anos, ela é muito atual. Os mesmos problemas acontecem em outras regiões do Brasil", disse.
O elenco é formado por Caio Blat, João Miguel e Felipe Camargo, que interpretam os irmãos Villas-Bôas quando eles partem para a Marcha Para o Oeste nos anos 40. Presentes em Berlim para lançar o longa, Caio e João Miguel contaram sobre a preparação e o contato com os índios do Xingu. "Eu e o João fomos pra lá antes das filmagens começarem. Fiquei fascinado com os índios, com a cultura deles. Foi um total encantamento. O olhar deles é deslumbrante, tem uma espontaneidade absurda. É uma mistura de tragédia e pureza. E saber que estávamos contando e defendendo o ponto de vista deles no filme nos trazia um grande sentimento de responsabilidade", lembra Caio, que veio à Berlim acompanhado de sua mulher, Maria Ribeiro, outra veterana do festival.
O diretor explicou que 99% dos atores indígenas ¿ que surpreenderam a produção e a imprensa ¿ eram do Xingu e o processo de seleção foi feito com muito cuidado. "Começamos a construir uma relação com eles ainda bem cedo. Foi uma aproximação lenta e cuidadosa. A Bel Berlink (produtora), quase virou uma índia. Não queria mais voltar. A produção de elenco não foi muito diferente da que fizemos para O Ano em Que Meus Pais Saíram De Férias, com a comunidade judaica, ou como em Cidade de Deus. Mas foi uma surpresa ver o quão rápido eles entenderam o jogo da encenação. Foi uma experiência muito rica", afirmou.
O longa foi filmado em 10 semanas, sendo que uma delas dentro do parque. As demais foram feitas nos arredores e em Tocantins. Os atores contaram que o balanço entre modernidade com o respeito e preservação das tradições revela um lado incrível de uma cultura presente no País que a maioria dos brasileiros desconhece. "Acho que depois do Xingu eu não fui maios o mesmo. Foi uma experiência que vai ecoando com o tempo. Eles têm isso incorporado, um entendimento em relação às suas tradições. Eles tentam cultivá-la durante toda a vida e tudo isso foi praticamente riscado da história brasileira. Eu espero que o filme possa ir além e levantar questões sobre o tema", contou João Miguel, presente no festival pela primeira vez.
Entretanto, manter as tradições não significa que os índios são contrários à tecnologia. Caio contou que mantém contato com seus colegas de set do Xingu pelo Skype e Facebook. "Quando ligavam o gerador na aldeia, eu falava com a minha família pelo Skype, assistia ao Jornal Nacional. Aí quando eles desligavam, parecia que eu voltava 500 anos no tempo, íamos pra oca e dormir nas redes. O que me impressiona muito são os jovens, que têm contato com o mundo, mas optam por ficar nas aldeias. É uma escolha muito séria. A tecnologia não interfere na cultura", contou.
O filme compõe a lista da mostra Panorama, a mesma em que Tropa de Elite 2 participou no ano passado, e será exibido ao público amanhã (16), sexta (17) e sábado (18).
Especial para Terra
Do Portal Cinema Terra: (http://cinema.terra.com.br/festivaldeberlim/2012/noticias/0,,OI5614553-EI19653,00-Diretor+Xingu+tem+sido+esquecida+atraves+das+geracoes.html). Acesso em: 19/fev/2012.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Darcy Ribeiro, o Povo Brasileiro, a Raça Brasileira...


Darcy Ribeiro e a disfuncionalidade do Brasil

Do Tijolaço
O assassino em massa norueguês Anders Behring Breivik cita o Brasil, no manifesto racista que divulgou na internet, como um exemplo do que a “mistura de raças” produz em uma nação.
Segundo sua mente transtornada pelo ódio, seríamos assim “por causa da “revolução marxista brasileira”, o Brasil teria se tornado uma mistura de raças o que se mostrou uma “catástrofe” para o país que é “de segundo mundo” com um baixo nível de coesão social. Os resultados seriam os altos níveis de corrupção, baixa produtividade e conflitos entre as diferentes culturas”.
Breivik é um doente, mas a forma que sua doença assume é moldada por um caldo de cultura que existe aqui também, embora nem todos os que pensam como ele vão sair fuzilando dezenas de jovens. Mas ele existe e tem muita gente que está mergulhada nele e, mesmo sem verbalizar ou escrever isso, acha que o Brasil negro, mestiço, cafuzo, mulato, é a praga e o atraso deste país.
Cheios de dedos, para não explicitar seu racismo social, o que eram os que reclamavam daquela “gente diferenciada” que uma estação do Metrô traria a Higienópolis?
Mas deles a gente está cansado de falar.
Nós também temos culpa nisso.
Porque paramos de celebrar, por nos agarrarmos – usando a expressão do próprio terrorista, em seu manifesto – à idéia de tribo, de grupo fechado por alguma razão: etnia, gênero, ideologia, a riqueza da diversidade.
A maior perversidade da discriminação é essa: a de nos cegar para vermos a riqueza de nossa igualdade humana.
Estamos, com razão e por dever, tão presos a afirmar os direitos de grupos – e todos eles os têm e são invioláveis – que descuidamos de proclamar a maravilha de nossa grande – por que não assumir a palavra – disfuncionalidade.
Porque o ser humano não é uma função. Não é uma peça, um produto, algo feito em série, para cumprir um papel.
O milagre do povo brasileiro não é apenas respeitar a diversidade, mas ter forjado nela uma unidade nessa tão rica e una diferença.
Disfuncional, para aquele lunático terrorista.
Desprezível, para nossas elites, que nos consideram, por isso, inferiores, embora não tenham mais coragem de afirma-lo com todas as letras, o que não os impede de colocar cercas eletrificadas, insulfilme e, sobretudo, de aderir e aplaudir a ideia de que este país seja de todo o seu povo.
Que falta nos faz um Darcy Ribeiro agora – e como nossa intelectualidade se empobreceu por não os produzir às centenas – que proclame nossa miscigenação como virtude e avanço, e não esqueça dela porque tenha medo de dizer que ela é boa, porque soma todos os que somos iguais: negros, brancos, amarelos, índios e até nossos noruegueses.
Como debocharam da ideia generosa do “socialismo moreno” que ele, Darcy, e Leonel Brizola, apregoaram diante de seus narizes torcidos, tentando dizer que, numa sociedade justa, aberta e igualitária, todos nós em algumas gerações, seríamos da mesma cor, feita de todas as cores.
Como zombaram da ideia de uma “civilização dos trópicos”, por acharem boa, mesmo, aquelas frias e funcionais, que produzem desvios assim. E não é de hoje, vide as barbaridades coloniais, depois o nazismo e estes seus filhos tardios.
Não temos de ser funcionais, o que nada tem a ver com não sermos racionais.
Um país, como ser humano, vive em busca da felicidade.
E felicidade é um estado de alegria coletiva, de aceitação, do que o Frei Leonardo Boff dizia ser a festa, onde as pessoas dizem sim a todas as coisas.
É, porque a gente precisa entender e sentir que o não só tem sentido, quando se nega o sim para alguém. Nós não temos ódio, mas não descuidamos de lutar pelo direito – e o dever – de amar.
É isso: só o que temos contra nossas elites é não aceitar que o povão seja gente. É não entender o verso do Tom que diz que é impossível ser feliz sozinho.
O Rolex e a futilidade a gente aceita e tolera.
E ainda pergunta que horas são.

...Disponível no Portal Luiz Nassif: (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/darcy-ribeiro-e-a-disfuncionalidade-do-brasil?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter). Acesso em: 26/jul/2011.