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domingo, 4 de dezembro de 2011

O Pará e os novos donatários (Gaudêncio Torquato)


O Pará e os novos donatários

04 de dezembro de 2011 | 3h 03
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista; é professor titular da USP e consultor político.TWITTER: @gaudtorquato - O Estado de S.Paulo
A galeria de nossas grandezas começa com a dimensão continental do Brasil. Só quatro países - Rússia, Canadá, China e EUA - têm território maior. Fiquemos por aqui na comparação, pois é sabido que cada nação, mesmo estruturada sob a forma de federação, como a nossa, abriga singularidades que explicam sua organização política e institucional e sua divisão em mais ou menos unidades. Usar como referência os 8,5 milhões de km2 do nosso espaço ou se valer da dimensão territorial de algumas regiões para justificar a necessidade de expandir o número de Estados não é um critério que mereça crédito.
Vamos ao fato. Um grupo de políticos quer repartir o Pará para criar mais dois Estados, Carajás e Tapajós. Pelo visto, fecha os olhos para esta continha feita pelo Ipea: o Pará tem hoje um superávit anual de cerca de R$ 300 milhões, já excluídas as despesas da receita orçamentária. Carajás, se for criado, teria um déficit anual de R$ 1 bilhão e Tapajós, de R$ 864 milhões, enquanto o novo Pará começaria com um buraco de R$ 850 milhões. E por que alguns pretendem transformar a atual receita em estupenda despesa? A justificativa mais plausível aponta para o complexo da chupeta, a inclinação dos filhotes do patrimonialismo a mamar nas tetas do Estado.
A divisão do Pará, a ser submetida a plebiscito dia 11, é mais uma tentativa entre os 23 projetos de fracionar regiões que tramitam no Congresso e cuja motivação é preponderantemente política: ampliar domínios políticos regionais. Quase sempre as arrancadas legislativas desprezam princípios de racionalidade e viabilidade econômica para a divisão de Estados.
No caso da repartição do Pará, seria forjado um mapa de desigualdades: Carajás ficaria com 21% da população, 24% do território e 33% das riquezas; Tapajós, com 58% do território, 15% da população e 11% das riquezas; e o Pará remanescente abrigaria 56% do PIB, 64% da população e apenas 17% do território. A disparidade apareceria também na esfera do desmatamento, gerando modelos de ocupação diferentes: Carajás, com alta concentração fundiária e enormes áreas de mineração, enfrentaria o risco de sérios conflitos (muita terra em mãos de poucos) nos 46% do território desmatado; Tapajós, com grande concentração de assentamentos, teria só 7,8% de área desmatada e abrigando comunidades tradicionais e indígenas; o novo Pará contaria com 35% de área desmatada.
O argumento da igualdade só se sustenta na balança da política, eis que os novos entes ganhariam máquinas governamentais: prédios, estruturas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, milhares de funcionários - a serem certamente indicados pelos chefões eleitorais. De uma tacada só, o País veria a expansão do Custo Brasil do Mandonismo Político no momento em que a sociedade clama por uma gestão mais responsável da coisa pública.
O discurso da racionalização administrativa toma corpo em todos os espaços da vida nacional. A contínua troca de nomes na Esplanada dos Ministérios sugere em breve uma reforma ministerial mais profunda, ancorada em mudanças de sistemas e processos, sob o parâmetro da eficiência e eficácia, maior produtividade e menor custo para os cofres do Tesouro. Esse é o horizonte do amanhã, que destoa, como se aduz, de iniciativas ou gestos na direção do alongamento das pernas do Estado. Pôr na agenda nacional a pauta da divisão do Pará ou de outras unidades da Federação é, na expressão popular, jogar farofa no ventilador do governo, no instante em que a presidente Dilma se esforça para conferir maior organicidade ao Estado e imprimir ajustes ao mercado via políticas de incentivo aos setores produtivos.
Alguém argumentará: essa é a nossa cultura política. É verdade. Quanto mais extensos os braços do Estado, maiores serão os abrigos patrimonialistas onde impera a velha política. Ademais, estamos vivendo a era da política como empreendimento. Nunca se viu tanta disposição (e ambição) para disputar eleições. Por conseguinte, uma nova geração de capitães hereditários sobe ao palco para reivindicar seu papel de atores na peça da democracia representativa. Não se nega a hipótese de o Brasil, mais adiante, abrigar um conjunto mais expressivo de Estados, estribado em critérios de equilíbrio econômico, político, social e geográfico, e sem abrir querelas para mágoas, ressentimentos e desconfianças, como as que parecem mover os sentimentos dos paraenses. Vale lembrar que desde o início do século 20 o País redesenha seu mapa: em 1913 tínhamos cinco Brasis, o setentrional, o norte-oriental, o oriental, o meridional e o central; em 1938 passamos a adotar a nomenclatura de regiões; em 1942 territórios foram criados; até se chegar, em 1970, a modelo parecido com o atual, que foi ligeiramente alterado pela Constituição de 88.
Pausas, porém, se fazem necessárias para ajustar os ciclos. Em vez de pensar em criar mais Estados, o Parlamento tem pela frente o desafio de equacionar problemas urgentes, como a guerra fiscal, que consome as energias dos entes federativos. Agregar novos carros a um trem já desconjuntado é mais um empuxo para tirar a locomotiva dos trilhos.
A esta altura, a batalha pela divisão do Pará já abriu traumas na alma paraense. Há um sentimento divisionista embalando corações das duas alas. Para cicatrizar as feridas será preciso muito bálsamo. Ou seja, verbas, e não verbos. Ações, e não promessas.

domingo, 27 de novembro de 2011

A ordem tecnodemocrática (Gaudêncio Torquato)



A ordem tecnodemocrática

27 de novembro de 2011 | 3h 04
Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo
As quedas sucessivas de governos europeus - Islândia, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Eslováquia, Portugal, Itália e Espanha - abrem intensa polêmica sobre o fenômeno da regionalização, sinalizam a ascensão da tecnocracia ao centro do poder político e contribuem para mobilizar massas, até então amorfas, em países credores e devedores. Abrigados nas margens do espectro ideológico, grupos de todos os matizes passam a agir como exércitos destemidos, tomando as ruas, exigindo a saída de governantes açoitados pela crise financeira e a entrada na cena política de figurantes e de propostas inovadoras. O status quo é jogado no colo de "elites" identificadas com mandatários responsáveis pela adoção de modelos ultrapassados.
Espraia-se na Europa uma agitação que clama por mudanças drásticas, tendência que se enxerga na ação de partidos de extrema direita na Itália, França, Holanda, Áustria e Finlândia, e de setores populistas que pretendem sacudir o continente e inserir na agenda amplo debate sobre os parâmetros que regulam a União Europeia (UE). A par de explícitos interesses de grupos radicais, que esquentam a polêmica e partem para o embate, o que está em jogo neste momento, também nos EUA e em outras praças, é o próprio equilíbrio do sistema democrático, a ensejar a instigante questão: a crise financeira ameaça os valores da democracia?
Partamos da análise dos efeitos da regionalização na vida dos países. A crítica mais comum é quanto à sensível perda das identidades nacionais. E as nações passaram a ter governos manietados, ou, para usar termo mais leve, controlados pelo mandatário-mor do planeta, o capital internacional. Parcelas expressivas das populações europeias se queixam de que a erosão de suas fronteiras, a eliminação das moedas nacionais e a imposição de uma nova ordem pela troica UE-Banco Central Europeu-FMI interferem no seu modo de ser, pensar e agir. Não se conformam com o enxerto em suas culturas de sementes estranhas ao solo pátrio e apontam para o esgarçamento da teia de valores que formam o caráter de seus povos. A expressão das comunidades, agora mais acesa, resgata a tese de que as economias continentais diferem bastante para ficarem sob as rédeas de uma única política monetária. As assimetrias, como agora se mostram, eram previsíveis. O discurso é consistente.
O ordenamento do império financeiro - inspirado na proteção dos cofres e no fortalecimento dos PIBs nacionais - acaba tapando os olhos para o conforto social, ainda que as equações produzidas pelos formuladores de plantão tentem demonstrar relação de causa e efeito, ou seja, a estratégia de defender o bem da nação seria chave para abrir as portas do bem-estar geral. Não faltarão questionamentos à abordagem, basta lembrar a receita brasileira: para enfrentar a crise prescreveu o acesso da população ao crédito e consumo. Explicações à parte, o fato é que as democracias veem suas engrenagens navegarem nas ondas do império financeiro global, entidade que enquadra as esferas políticas e governamentais, centrais e periféricas, de potências ou territórios de pouca expressão. Não há como deixar de constatar a existência de parâmetros similares em todos os sistemas democráticos e a corrosão de cores nas bandeiras nacionais.
Dito isto, analisemos agora o segundo ator importante no quadro das democracias contemporâneas: o tecnocrata. De início, é oportuno lembrar que não há mais no planeta brilhantes estrelas da política. O painel político da humanidade locupleta-se de figurantes sem o glamour de líderes que marcaram presença na História. Os tempos são outros. Queixumes se ouvem nas praças do mundo: quem lembra a sabedoria e o tino de figuras portentosas como De Gaulle, Churchill e mesmo Margaret Thatcher ou Willy Brandt? As nações dispõem hoje de quadros funcionais de limitado ciclo de vida política. Os conflitos do passado, cujo foco era a geopolítica e a expansão de domínios, cedem lugar às lutas internas contra o dragão que devasta as finanças e corrói os Tesouros. É natural, pois, que o perfil do momento seja o treinado nos salões da tecnocracia. Aliás, o termo vem a calhar nestes tempos de insegurança, eis que agrega habilidade (tekné) ao poder (krátos). Isso é o que se espera dos "solucionadores de problemas", entre eles, Mario Monti, novo primeiro-ministro italiano, que herda o caos deixado por Berlusconi, e Lucas Papademos, que domina a planilha de contas, mas parece perdido diante dos cofres vazios da Grécia. Exímios tecnocratas, deverão pôr em prática as ordens de quem realmente dá o tom da Europa - Alemanha e França, cujos mandatários, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, são jocosamente chamados de Merkozy.
Afinal, o tecnocrata faz mal à democracia? A pergunta está no ar desde a queda do Muro de Berlim, no vácuo deixado pelo desvanecimento das ideologias e pela pasteurização partidária. De lá para cá, governos esvaziaram seus compartimentos doutrinários, preenchendo-os com quadros burocráticos e apetrechos técnicos para obter eficiência e eficácia. Inaugurava-se o ciclo que Maurice Duverger cognomina de "tecnodemocracia", que sucede à democracia liberal. Seus eixos se apoiam em organizações complexas e racionais e, hoje mais que nunca, levam em conta a gangorra dos capitais financeiros mundiais. A política deixou de ser uma unidade autônoma, porquanto passou a depender de mais duas hierarquias: a alta administração do Estado e os negócios. Esse é o feitio dos modernos sistemas democráticos. E é essa modelagem que explica manifestações radicais das massas em quadrantes diferentes do planeta. Busca-se um salvador da pátria, seja ele socialista, populista, liberal, conservador de direita, tecnocrata ou intelectual. Se ele não aparecer, um ditado conhecido dos ditadores poderá emergir: quando nada mais se apresenta, o trunfo é paus.
   
JORNALISTA, PROFESSOR, TITULAR DA USP, É CONSULTOR POLÍTICO DE COMUNICAÇÃO 
TWITTER: @GAUDTORQUATO