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domingo, 26 de maio de 2013

Indagações sobre a Fé (João Baptista Herkenhoff)

Indagações sobre a Fé

João Baptista Herkenhoff

Um ex-aluno me visitou cordialmente para formular face a face três perguntas sobre a Fé.
Propus atender suas indagações através de um artigo de jornal. Para que ele não interpretasse essa modalidade de resposta como desprestígio a sua pessoa, ponderei que talvez a curiosidade dele fosse partilhada por outros. Ele concordou e garantiu que aguardaria com muito interesse a publicação do texto.
Vamos então às indagações do jovem e às respostas que considero pertinentes.
Em primeiro lugar perguntou se Fé e Ciência são compatíveis ou, numa linguagem coloquial: Fé combina com inteligência ou é parceira da ignorância? Um intelectual pode ser um homem de Fé?
Talvez a mais devastadora resposta a todos aqueles que duvidam da harmonia entre Fé e Ciência tenha sido dada por um sábio que se chama Albert Einstein. Disse ele: “A Fé e a Ciência são complementares. Sem a Fé a Ciência é manca. Sem a Ciência a Fé é cega.”
Quis depois o ex-aluno saber se a Fé coere com a Democracia. A resposta a este questionamento é condicional. Se nos postarmos à face de uma visão fundamentalista da Fé, a incompatibilidade é total. O Fundamentalismo pretende monopolizar a Verdade, é intolerante com o pensamento divergente. O fundamentalista coloca a etiqueta de herege em todo aquele que discorda de verdades proclamadas como absolutas. Não há fundamentalistas apenas no universo muçulmano, como uma visão míope dos fatos pretende afirmar. Também entre os cristãos, ainda nos dias de hoje, há aqueles que têm essa visão deformada de Fé. A autêntica religiosidade não é fundamentalista, não pretende ser proprietária da verdade, motivo pelo qual comunga plenamente com uma concepção democrática de mundo e de vida.
Finalmente o jovem deixou de lado os questionamentos teóricos e abstratos e me colocou na parede indagando se tenho Fé. Respondo ao jovem e, ao mesmo tempo, torno pública minha confissão. Tenho Fé em Deus, princípio e fim de todas as coisas. Tenho Fé no Ser Humano porque vejo todo homem e toda mulher, sem qualquer discriminação ou exclusão, como imagem de Deus. Tenho Fé nos princípios religiosos que recebi na infância, pela boca de meu Pai e de minha Mãe. Tenho Fé nos valores éticos que resumem meu credo – respeito às pessoas, sentimento de absoluta igualdade entre todos aqueles que nasceram da barriga de uma mulher, compromisso de lutar por uma sociedade solidária, contra a guerra, pela paz entre as nações e pela construção de um mundo que será melhor através do esforço de todos nós.
* João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado e escritor. Autor do livro: Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória. (GZ Editora, Rio). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br Homepage: www.jbherkenhoff.com.br
(http://investidura.com.br/biblioteca-juridica/colunas/voz-da-experiencia/288898-indagacoes-sobre-a-fe). 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Discriminação do aposentado (Artigo de João Baptista Herkenhoff)

Discriminação do aposentado 

(31.08.11)

Por João Baptista Herkenhoff,
magistrado aposentado e professor 


A discriminação do aposentado não é uma questão técnica simplesmente. Seria uma questão técnica se envolvesse apenas aspectos contábeis. É questão ética porque ultrapassa os limites de simples considerações de ordem financeira.

Por ética devemos entender todo o esforço do espírito humano para formular juízos tendentes a iluminar a conduta de pessoas, grupos humanos, povos, sob a luz de um critério de bem e de justiça.

Esse critério de bem e de justiça, que ilumina a ética, prescreve que as novas gerações sejam gratas às gerações mais velhas. A ideia de reverência aos velhos esteve presente em muitas culturas, ao longo dos séculos. E mesmo hoje, quando uma cultura capitalista, monetarista, utilitária, desligada de qualquer compromisso ético, pretende impor-se ao conjunto da humanidade, ainda assim vozes ancestrais teimam em dizer que a terceira idade merece homenagem.

Frequentemente surpreendemos aqui e ali situações em que se discrimina o aposentado.

Recorrendo a recortes de jornal verifico dois fatos que ilustram o que estou dizendo. A primeira notícia registra o caso de uma aposentada que morreu durante a remoção, por ambulância, de um pronto-atendimento para um hospital.

A idosa teve um mal estar. Não sendo atendida no plantão do pronto-atendimento, foi levada por familiares para o hospital. Mesmo diante de uma crise de pressão arterial, tardaram os primeiros cuidados. Um auxiliar de enfermagem tentou tirar, sem êxito, a pulsação da paciente.

Nem essa situação aflitiva evitou que a idosa permanecesse na maca, sem maior atenção. Após apelos insistentes da filha, a presença da aposentada foi notada, mas aí apenas para constatar que havia falecido. 

O caso aqui referido, como exemplar, não é, infelizmente, exceção. Acontece com frequência. Apenas nem todas as ocorrências repercutem na imprensa.

Outro caso ilustrativo é o da criação de um auxílio-saúde para determinada categoria de servidores públicos.

Em que faixa de idade mais pode ser reclamado, com razão e justiça, um auxílio-saúde? Em que faixa de idade as pessoas gastam mais com medicamentos?

Não é preciso convocar especialistas para responder essas duas perguntas.

O senso comum dá a resposta. Se considerarmos correto e adequado que servidores percebam auxílio-saúde, os destinatários desse benefício devem ser, em primeiro lugar, os idosos.

Mas quem ficou fora do auxílio-saúde acima mencionado? A resposta a essa indagação não é óbvia, como foi óbvia a resposta única das duas indagações anteriores. Muito pelo contrário. A resposta é surpreendente. Os idosos ficaram de fora. Os idosos não precisam de auxílio-saúde.

Os fatos mencionados neste artigo são circunstanciais, episódicos. Foram apresentados como simples exemplo para que a reflexão não ficasse teórica demais. A substância deste texto, entretanto, é o julgamento ético dos fatos. Esse julgamento ético, de peremptória condenação, ajusta-se a quaisquer situações como as descritas, aconteçam onde acontecer, quaisquer que sejam as pessoas envolvidas.

jbherkenhoff@uol.com.br 

Disponível no Portal Espaço Vital: (http://www.espacovital.com.br/noticia_ler.php?id=25138). Acesso em: 05/set/2011.