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terça-feira, 7 de julho de 2015

Presidente Dilma reage e avisa: governo nao acabou (Cf. Ricardo Kotscho)

Postagem 07/jul/2015...


Presidente Dilma reage e avisa: governo não acabou

Publicado em 07/07/15 às 10h59

 Presidente Dilma reage e avisa: governo não acabou
Ponham-se no meu lugar: por onde começar este texto, depois dos acontecimentos dos últimos dias e horas que, numa velocidade cada vez maior, levaram a guerra política à beira de uma crise institucional sem precedentes, trinta anos após a redemocratização do país?
Tinha ido dormir com a sensação de que o governo estava no chão e as oposições só contavam as horas para saber quando e como assumiriam o poder.
Acordei nesta terça-feira com a manchete da Folha em que a presidente Dilma Rousseff, na mais franca e contundente entrevista desde a primeira posse, reage ao cerco desfechado contra ela na última semana para avisar que o seu governo não acabou:
"O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar", desafiou, indignada com os que se movimentam para encurtar seu segundo mandato e promover um terceiro turno.
Já que ninguém se dispunha a isso, no governo, no PT e na base aliada, a presidente resolveu sair em sua própria defesa. Parece que finalmente ela se deu conta da gravidade da crise que já dura seis meses e atinge todos os setores da vida nacional. Abriu o coração, falou tudo o que estava entalado na garganta e desabafou, referindo-se a "certa oposição um tanto quanto golpista":
"Eu não vou terminar meu mandato por quê? Para tirar um presidente da República, tem que explicar por que vai tirar. Confundiram seus desejos com a realidade ou tem uma base real?".
Na festiva convenção promovida pelo PSDB no domingo, em que foi reeleito para a presidência do partido, o senador mineiro Aécio Neves, derrotado por Dilma nas urnas há apenas oito meses, já se apresentou como candidato a tomar seu lugar o mais rápido possível, com direito a jingle de campanha, claque, camisetas, e tudo.
A euforia dos tucanos era tanta que, ao perguntar a Fernando Henrique Cardoso quando seria a estreia do seu programa de televisão no Canal Brasil, Aécio ouviu a seguinte resposta do ex-presidente, em tom de brincadeira, é claro:
"Pelo ritmo que vai, quando estrear você já será presidente".
Esqueceram de combinar com o governador paulista Geraldo Alckmin, outro pré-candidato, que saiu da convenção enciumado com a babação de ovo sobre Aécio, e com o senador José Serra, que nas últimas semanas já está oferecendo seu passe ao PMDB, caso eles precisem de um nome para disputar as próximas eleições presidenciais.
Dividido como sempre e animado como nunca, o PSDB deu muita bandeira, mostrando que não está disposto a esperar até 2018. Sem apresentar qualquer proposta alternativa ao país para o enfrentamento da crise e jogando tudo apenas no desgaste da presidente, o partido oficial da oposição acabou dando munição aos que denunciam suas manobras golpistas, agora voltadas para os tribunais, com o descarado apoio da mídia hegemônica.
Com esta oposição, Dilma reuniu forças para sair da toca e ir ao ataque, no momento de maior isolamento e mais delicado do seu governo, em que apenas a lealdade do vice Michel Temer parece estar do seu lado.
Na surpreendente e corajosa entrevista concedida por Dilma a Maria Cristina Frias, Valdo Cruz e Natuza Nery, nenhum assunto ficou de fora, nem mesmo o boato espalhado na internet de que teria tentado o suicídio:
"Eu não quis me suicidar na hora que eles estavam querendo me matar lá (quando foi presa durante o regime militar), a troco de quê eu quero me suicidar agora?".
Para deixar clara sua disposição de resistir às tentativas golpistas e retomar a iniciativa da agenda, hoje nas mãos do líder de fato da oposição, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, durante toda a segunda feira a presidente manteve reuniões com a coordenação política do governo e líderes e presidentes dos partidos da base aliada.
Dois são os próximos desafios de Dilma: o julgamento das contas do governo, com as chamadas pedaladas fiscais, no TCU, e o das suas contas da campanha eleitoral, no TSE. É das decisões a serem tomadas nestes tribunais, possivelmente ainda este mês, que dependerão os próximos capítulos desta guerra política sem quartel, e sem fim à vista. Preparem seus corações.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Em Aparecida a Igreja entre a retórica e a prática (Ricardo Kotscho)

Publicado em 25/07/13 às 13h39
papa basilica.jpeg Em Aparecida, a Igreja entre a retórica e a prática
Nos meus tempos de aluno do Colégio Santa Cruz, instituição modelar de ensino criada por padres canadenses, que tinham uma verdadeira preocupação social, embora a escola fosse frequentada pela elite paulistana, nas noites frias de inverno nós saíamos numa Kombi sempre acompanhados de algum padre ligado à OAF (Organização de Auxílio Fraterno), para levar não apenas abraços, mas sopa farta e quente, pão, café e cobertores para o povo da rua no centro de São Paulo. Foi até hoje o trabalho mais importante que fiz na vida e o que mais me gratificou.
Isso faz mais de meio século e a OAF ainda existe, graças a batalhadores como o padre Júlio Lancelotti, sempre perseguido, nunca vencido. Lembrei-me dele e destes meus tempos de colégio de padre ao terminar de ler o caudaloso noticiário publicado pelos três principais jornais brasileiros sobre a visita do papa Francisco a Aparecida nesta quarta-feira.
Todos registraram na íntegra os pronunciamentos do papa e a presença de mais de 200 mil pessoas na cidade, que em sua grande maioria passaram ao relento a madrugada mais fria dos últimos 50 anos, mas apenas a Folha deu destaque ao drama dos peregrinos, dando manchete de página: "Em Aparecida, frio e chuva levam mais de cem fiéis ao hospital".
"No total, 106 fiéis foram socorridos no hospital militar no local. O Corpo de Bombeiros fez 60 atendimentos. A maioria dos casos era de hipotermia, por conta do frio, e mal súbito _ algumas pessoas ficaram 24 horas sem comer para não perder lugar na fila para entrar na basílica. (...) O quadro piorou no início da manhã, quando a chuva intermitente na madrugada engrossou. Muitos desmaiaram diante da basílica", relatam os repórteres Diógenes Campanha, Daniela Lima e Fernanda Reis.
 Em Aparecida, a Igreja entre a retórica e a prática
Solidariedade, fraternidade, amor aos mais pobres, foram algumas das palavras mais ouvidas nas manifestações de Francisco e dos religiosos que acompanham sua visita. Tudo muito bom, muito bonito, mas entre a retórica dos sermões e a prática da vida real, a visita do Papa a Aparecida revelou que ainda existe um abismo enorme, apesar de toda a sua simpatia e boa vontade.
Claro que o Papa Francisco, hospedado na sede da Arquidiocese do Rio de Janeiro, no alto do Morro do Sumaré, não poderia saber o que se passava nas ruas de Aparecida naquela madrugada, mas será que todas as centenas de bispos, padres, monsenhores, seminaristas, voluntários e funcionários de diferentes governos, sem falar nos católicos que vivem na cidade, não foram capazes de enxergar este sofrimento do povo e providenciar pelo menos sopa quente, café e cobertores para quem padecia no frio, ou um abrigo para os idosos e as crianças?
Segundo o ministro da Defesa, Celso Amorim, em informação publicada pelo "Estadão", há 14.306 militares envolvidos na Jornada  Mundial da Juventude em função da agenda do Papa no Rio. Só em Aparecida, havia outros 4.040. Será que nenhum deles foi capaz de tomar uma providência antes que mais de cem peregrinos fossem hospitalizados por fome ou frio, ainda mais numa região, o Vale do Paraíba, no meio do caminho entre o Rio e São Paulo, onde proliferam unidades militares?
Como tantos outros católicos, também fiquei encantado com os gestos, os beijos, abraços e palavras de carinho do carismático papa argentino, mas na vida real, entre tantas louvações de entusiasmo e "babações de ovo" cheias de esperança reproduzidas pelos jornalões, sou obrigado a concordar com o que escreveu meu velho amigo Clóvis Rossi em sua coluna desta quinta-feira na Folha, com o título "O papa, sinais e substância":
"Acho que é cedo para esta  beatificação em vida do papa. Tudo bem que ele tenha emitido sinais simpáticos. Tudo bem que símbolos são importantes. Mas vamos combinar que símbolos só se tornam de fato decisivos quando acompanhados de substância. E vamos combinar também que, em matéria de substância, o papa ainda deve tudo. Nem se diga que a pregação de uma igreja ao lado dos pobres já é substância. Desde pelo menos a Rerum Novarum de Leão 13, velha de 122 anos, a retórica da igreja tem forte retórica social".
Rossi disse tudo, mas poderia acrescentar que neste ponto a Igreja Católica e a imprensa brasileira se equivalem no distanciamento obsequioso que mantém da vida real do povo. O carioca O Globo, que vem dedicando um caderno diário de dez páginas à visita desde a chegada do papa, reservou apenas sete linhas de jornal para falar dos fiéis que ficaram do lado de fora da basílica, assim mesmo citando o arcebispo de Aparecida, Raymundo Damasceno:
"Para o cardeal, chamaram a atenção o carinho e a presença dos milhares de fiéis, que não desistiram de esperar pela passagem do papa apesar da chuva intensa".
Nas quatro páginas publicadas pelo Estadão, somente sobre a visita de Francisco a Aparecida, encontrei apenas uma pequena foto de Tiago Queiroz, com a legenda: "Chuva e frio. Fiéis acompanham missa fora da igreja".
Ou os editores não se interessaram pelas matérias ou as dezenas de repórteres enviados à cidade fizeram como as autoridades da Igreja e dos governos: fecharam os olhos e esqueceram-se do povo congelado na sofrida e inesquecível madrugada de Aparecida. Os Júlio Lancelotti, infelizmente, ainda são muito poucos. Que papa Francisco os multiplique.
(http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2013/07/25/em-aparecida-a-igreja-entre-a-teoria-e-a-pratica/).