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sábado, 11 de julho de 2015

Dilma, Xangai e o sopro de esperança (Saul Leblon)

Postagem 11/jul/2015...

Dilma, Xangai e o sopro de esperança

A proteção ao emprego anunciada por Dilma mostra que é possível repactuar a economia fora da receita neoliberal para o Brasil.

por: Saul Leblon
10/07/2015 00:00
Roberto Stuckert Filho/ PR

















A Presidenta Dilma Rousseff fez três movimentos nas últimas horas que podem ser relevantes se refletirem o sopro de um vento novo, não a reatividade efêmera dos abanos em ambientes sufocantes.

Seu efeito mais visível foi sacudir a resistência ao golpe que o conservadorismo discute abertamente no país.

Há aqui uma hierarquia a destacar, cuja importância não é negligenciável.

Não foi o golpismo que gerou a convergência progressista das últimas horas.

Foi a contundência de Dilma em denuncia-lo, e a determinação de combate-lo, que imantou forças e vozes até então esmorecidas e dispersas.

Bingo número um: não haverá resistência sem que o principal protagonista político da trama participe, articule  e convoque a sociedade.

Na Grécia, Tsipras foi às ruas defender o ‘Não’ contra o jogral midiático que amplificava o cerco dos mercados.

Não o fizesse, hoje seria um cadáver político, arrastando seu partido junto para o descarte da História.

No Brasil, a movimentação presidencial sacudiu uma letargia exasperante que se arrasta há oito meses.

Uma das principais avenidas do trânsito golpista atual é a prostração decorrente do fosso aberto nesse período entre o governo reeleito em 2014 e a sua base social.

Em reunião no Palácio, na 2ª feira, Dilma revalidou a aliança com o PMDB não putchista.

Embora limitada, e como toda composição, um equilíbrio precário entre forças diferentes, seria um erro menosprezar esse diálogo.

Por dois motivos.

Um, setores democráticos subsistem no PMDB (o bravo senador Roberto Requião é um exemplo); dois, a prioridade crucial agora é impedir a ampliação da Liga dos Golpistas.

Todo esforço conservador consiste em remar na direção oposta: trazer integralmente o PMDB para a articulação da qual Eduardo Cunha é um operador desabusado.

Ao terceirizar a Câmara Federal à Liga dos Golpistas, Cunha já arregimentou amplas fileiras do PMDB e dos nanicos à conspiração aberta.

Na entrevista ao veículo da família Frias, na 3ª feira, Dilma afrontou esse aluvião num de seus veios mais salientes.

Debulhou-o em bateia assertiva e desassombrada.

O editorial da Folha acusou a pancada na 4ª feira.

Com dificuldade para ocultar as próprias digitais no cerco à Presidenta, o jornal grunhiu a esperança de que tribunais façam o serviço sujo de derruba-la. E fungou à matilha adestrada em mastigar a chefe da nação:

‘Ainda não é o caso’ (Folha; editorial 08/07/015).

Não se pode subestimar os maxilares dessa gente.

Seu histórico compõe um calendário de escombros da legalidade, que se renova cada vez que o interesse popular trisca ou ameaça o privilégio elitista.

Foi assim em 1932, 1954, 1964, 2002, 2006, 2010, 2014...

A mitigação contida no ‘ainda’ da Folha, reflete, de qualquer forma,  o temor de uma resistência imprevisível.

‘Venha tentar. Venha tentar (dar o golpe)’, desafiou Dilma ao predador que saliva diante da presa, sem saber exatamente do que ela é capaz.

Bingo número 2: é fundamental dar ao golpe o seu nome, expor à nação aqueles que adestram o seu conformismo para a ‘fatalidade’.

Dilma é capaz de variadas modalidades de resistência.

Não é hagiografia, é uma questão de biografia.

Em situações até mais extremadas, não hesitou.

Diante da articulação de elites e rentistas, amplificada pela mídia que mastiga diuturnamente a legitimidade dos seus 54 milhões de votos, por que hesitaria agora?

Na reunião com as centrais sindicais no Planalto, no mesmo dia, para apresentar uma salvaguarda de emprego e renda diante da crise, deu-se a terceira e mais importante inflexão da Presidenta.

Mais do que em todas as outras, reside aqui, talvez, a chave da interrogação que tanto atemoriza a Liga dos Golpistas.

Ainda há espaço para uma repactuação do desenvolvimento que reaproxime governo, forças progressistas e setores produtivos?

Bingo número 3: essa é a pergunta de um milhão, que o movimento de Dilma repôs, a contrapelo dos interesses que negam a sua pertinência.

A Política de Proteção ao Emprego, anunciada no momento em que o exército de demitidos atinge 8% da população ativa, carrega relevância econômica e social específica.

Porém, mais que isso.

A PPE é o filho temporão de uma outra lógica de enfrentamento da crise.

Nascido tardiamente, oito meses após a deflagração de um programa de ajuste ortodoxo, deveria --e, como se vê , poderia, tê-lo antecedido.

Tivesse sido o primogênito da reeleição, teria demarcado uma outra lógica ordenadora da transição de ciclo de desenvolvimento no país.

Essa é a força do PPE:  ser o protótipo de algo maior, uma câmara de negociação política para a reordenação em curso da economia; uma ferramenta da democracia para se contrapor ao cavalo xucro da crise capitalista (*leia ao final desta nota um resumo do funcionamento do programa). Uma espécie de ‘Grécia’ a transgredir normas e interditos da hegemonia ortodoxa imposta ao manejo da crise brasileira.

Lateja na lógica da PPE aquilo que a Liga dos Golpistas mais teme: a semente de um aggiornamento na luta pela democracia social brasileira; a ponte política que não desmonta, nem implode salvaguardas e padrões de estabilidade já conquistados, mas ergue as linhas de passagem para o futuro, calafetando o vácuo de onde emergem as manifestações mórbidas da crise.

Quais?

As que avultam no coreto golpista, onde a banda dos cunhas, aécios, caiados, kins catupirys, sardenbergs e assemelhados faz gato e sapato da legalidade.

Homólogos da radicalização da direita urbi et orbi, eles engrossam o pelotão dos gansos sinaleiros da crise capitalista que, paradoxalmente, insiste em declara-la superada, sendo espancados pela sua ressurgência no momento seguinte.

Um episódio resume todos os demais: campanha de 2014, debate na Globo entre o ex-ministro Guido Mantega e o centurião dos mercados e assessor de Aécio, Armínio Fraga. Mirian Leitão interrompe Mantega abrupta e peremptória:

'A crise mundial passou; o problema é o Brasil'.

Sim, o Brasil, grasnam os gansos sinaleiros, ‘a’ ilha de crise num mundo de oceânica prosperidade.

A bofetada da vez nessa turma veio do derretimento de três trilhões de euros na Bolsa de Xangai.

Por trás do ploft da bolha, encontra-se a valorização anual descabida de 150% nos preços das ações – em meio a um ciclo de desaceleração da economia chinesa.

Os ingredientes tóxicos da farmacêutica neoliberal,  vendida aqui como receita virtuosa para o país, estão aí resumidos.

Quais sejam, a decantada capacidade de autorregulação dos mercados e, sobretudo, a proficiente da racionalidade financeira para ordenar o crescimento de uma nação.

O saldo da crença, mais uma vez, não corresponde ao enunciado miraculoso.

O empoçamento de capitais na roleta global, em detrimento da máquina produtiva, explica boa parte da valorização artificial de papeis em Xangai e alhures, adquiridos por milhares de pequenos aplicadores que tomam dinheiro a juro para alicerçar pirâmides de ações  (leia a análise de Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a recorrência das bolhas na desordem neoliberal).

Ao primeiro tranco da liquidez volátil e pró-cíclica que opera à moda das manadas, dá-se a mutação do fastígio (acionário, imobiliário etc) em ruína e pó.

Um novo 1929 foi abortado na China pelas armas da repressão policial a especuladores, ademais da inclemente ação de bordoadas estatais que causam calafrios nos sacerdotes da autorregulação.

Elas vieram na forma de proibição de vendas das carteiras de grandes especuladores; congelamento da negociação de 50% das ações; aquisições impositivas e irrigação de recursos para deter a desova de pequenas acionistas.

O empoçamento da liquidez que faz estragos em Xangai, Londres, Paris ou São Paulo corresponde ao empoçamento do futuro na vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Já foi transcrito neste espaço o desabafo da insuspeita OCDE: grandes empresas mundiais estão sentadas em trilhões de dólares em caixa, mas não investem em produção.

Por quê? Porque falta no mundo aquilo que sobrava no Brasil, mas a ortodoxia está tratando de desidratar: empregos, demanda, ordenação pública do investimento, corrida à infraestrutura.

Sem consertar esse motor quebrado da economia mundial, a OCDE, que agrega as 35 economias mais ricas, vê com ceticismo a superação da crise capitalista, lipoaspirada por essas bandas como ‘a crise do PT’.

Em um mundo de sobras humanas, parte despejada no Mediterrâneo, parte no desemprego, salgadas com o sódio grosso desigualdade, os investimentos globais definham sete anos após a implosão da ordem neoliberal, em 2008.

O paradoxo que desalenta a OCDE e o próprio FMI (leia ao final duas notas técnicas do Fundo sobre a necessidade de controlar a farra financeira) ilustra a gravidade dos desafios enfrentados na luta pelo desenvolvimento nos dias que correm.

Fatos que precisam ser sublinhados, mais uma vez, diante do alucinado diagnóstico de que a retomada do desenvolvimento brasileiro é mera questão de faxina ‘no intervencionista lulopopulista’:

a) o investimento fixo (em bens de produção) nos países ricos e  já neoliberalizados como se quer aqui, está em média 17% abaixo do patamar de 2008;

b) o fluxo global de investimentos estrangeiros produtivos voltou a declinar em 2014;

c) mais de 200 milhões de pessoas continuam desempregadas – número 30 milhões superior ao período anterior à crise;

d) nos países desenvolvidos (já neoliberalizados), a renda média dos 10% mais ricos equivale hoje a quase dez vezes a renda média dos 10% mais pobres --contra a sete ou oito vezes há uma geração.

e) enquanto governos carecem de capitais para obras de infraestrutura, a OCDE informa que investidores institucionais tinham US$ 57 trilhões sob sua gestão no fim de 2013, o equivalente a 120% do PIB somado de todo os países ricos.

Alguma surpresa que esse paiol em chamas produza Xangais em série?

Companhias com os cofres abarrotados destinam fatias crescentes de seus lucros aos acionistas, grandes investidores especulativos e à recompra das próprias ações.

O onanismo rentista financia surtos de alta (bolhas) de ativos, seguidos de crashs dantescos, sem que se esboce uma coordenação mundial para reprimir a farra, com a contundência exibida agora pela China. A emergencia dos BRICs, reunidos em Moscou, é o único e promissor ensaio nessa direção, sugestivamente minimizado pelo dispositivo neoliberal.

É preciso extrair consequências dessas causas.

A mais importante delas nos leva de volta à semente de esperança contida no programa de defesa do emprego lançado pela Presidenta Dilma, em bem-vinda reação ao cerco golpista que a desafia.

Não cabe ilusões.

Políticas de desenvolvimento não lograrão êxito no século XXI –ainda que os preços estejam alinhados, como quer Levy— se não forem providenciados instrumentos de proteção contra a supremacia da lógica rentista.

Carta Maior considera que o PT subestimou a extensão desse descolamento do capital em relação ao seu projeto de desenvolvimento para o Brasil.

A subestimação explica, em parte, que se tenha apostado em uma regeneração das condições de mercado anteriores à crise de 2008.

Mais que isso. Que esse erro de cálculo histórico tenha levado a dois outros, interligados.

O primeiro, insistir apenas na prorrogação de estímulos ao consumo quando medidas estruturais de autoproteção do desenvolvimento deveriam ter sido tomadas diante da desordem financeira que veio para ficar –e da qual a crise de 2008 era um regurgito metabólico, não um soluço passageiro. Por exemplo, o controle de capitais em 2008, quando o próprio FMI o endossava.

O segundo, nos dias que correm, render-se à gororoba da assepsia neoliberal no momento em que os desequilíbrios macroeconômicos explodem no país e uma repactuação política do desenvolvimento figura como a verdadeira alternativa ao descontrole.

Ilusão resgatar essa alternativa agora em que o cerco golpista se estreita?

Mais ilusório, repetimos, é supor que a roda da democracia social poderá ser destravada aqui sem esse repto.

A política de valorização do emprego encerra, em ponto pequeno, aquilo que o campo progressista –e o governo Dilma--  está desafiado a construir a toque de caixa, em resposta ao emparedamento econômico e político em curso.

Basicamente, a PPE reúne Estado, centrais sindicais e  setores produtivos, com triplo objetivo: a) preservar empregos; b) reduzir custos diante de queda de vendas e c) mitigar a perda de receita fiscal diante da recessão.

Trata-se, enfim, de baixar o metabolismo da economia de forma negociada e, sob controle pactuado, transitar rumo a um novo ciclo de crescimento com justiça social.

Esse é o corredor estreito da esperança que foi reaberto pela inflexão da Presidenta Dilma nos últimos dias.

Alargá-lo não é uma questão de fé.

É obra inadiável: dela, porém, só o discernimento histórico das frentes progressistas em formação –e a grandeza de suas lideranças-- poderá dar conta.

O tempo urge.

(*)  Para saber mais (I)


Síntese da Política de Proteção do Emprego

A PPE reduz  a jornada de trabalho e o salário em até 30% durante seis meses, prorrogáveis por mais seis. Não pode haver demissão nesse período; o saldo do FGTS fica preservado, assim como todos os direitos trabalhistas. Os trabalhadores inscritos no programa terão estabilidade quando de seu término (para duração de 6 meses, 2 meses de estabilidade e para duração de um ano, 4 meses). O teto para a redução de jornada e de salário é de até 30%, definido por acordo coletivo, negociado com o sindicato da categoria. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) complementa 50% deste percentual. Se o PPE evitar a demissão de 50 mil trabalhadores  o governo gastará R$ 112,5 milhões em complementações durante seis meses. Sua receita porém será da ordem de R$ 181,3 milhões em contribuição previdenciária, ademais de economizar  R$ 291 milhões em seguro-desemprego. 

Para saber mais (II)


Notas técnicas do FMI 

Estados Unidos: Programa de Avaliação do Setor Financeiro – Supervisão e Gestão de Risco Sistêmico –

 A importância de reforçar o monitoramento do risco sistêmico e construir ferramentas macroprudenciais eficazes é amplamente reconhecida. Nos Estados Unidos, onde os mercados financeiros exibem um maior grau de heterogeneidade que em outros países, e onde o monitoramento e a regulação são responsabilidade de uma série de diferentes agências especializadas, é especialmente clara a necessidade de construir estruturas que garantam o compartilhamento de informações interagências, de preencher lacunas na regulamentação, obter um bom panorama dos riscos sistêmicos e desenvolver uma estrutura eficaz e cooperativa para enfrentar as eventuais ameaças à estabilidade financeira. Este artigo revisa estes processos nos Estados Unidos, bem como analisa os progressos alcançados quando diversas áreas importantes de risco foram identificadas, particularmente no setor não bancário.

A criação do Conselho de Monitoramento da Estabilidade Financeira (FSOC), em 2010, preencheu uma lacuna importante na estrutura da estabilidade financeira dos Estados Unidos, e é central na resposta regulatória aos problemas que atingiram o setor financeiro em 2007-2009 . A Lei Dodd Frank (DFA) atribui ao Conselho uma série de poderes que lhe permitem responder às ameaças emergentes à estabilidade financeira . Na prática, o Conselho trabalha principalmente através de comunicação reforçada, consulta e coordenação do trabalho das agências reguladoras financeiras dos EUA; a eficácia do FSOC depende amplamente do sucesso do Conselho em construir e pôr em prática um objetivo coletivo e comum às agências reguladoras financeiras dos EUA para identificar e tratar os riscos sistêmicos, e para trabalhar juntos pela promoção da estabilidade financeira. O trabalho empreendido pelo FSOC é bem-vindo. Contudo:

- O propósito coletivo e a responsabilidade do FSOC seriam reforçados se cada agência-membro e cada membro recebesse a missão explícita de promover a estabilidade financeira e, portanto, apoiar o trabalho do FSOC (sujeito à missão e objetivos das agências-membros e dos membros).

- Outras ações são necessárias para: melhorar a base de dados; superar obstáculos ao compartilhamento de dados; apoiar a coordenação e a consulta sobre normas e regulamentações prudenciais; aprimorar as estruturas de monitoramento de riscos; proporcionar maior clareza sobre a natureza e a escala de ameaças sistêmicas emergentes identificadas; e reforçar a transparência e a propriedade coletiva das ações necessárias ao enfrentamento dos riscos identificados, através do esclarecimento e da publicação dos desdobramentos específicos, além de deixar claras as responsabilidades, incluindo o cronograma esperado para a implementação e a comunicação dos resultados.

- O desenvolvimento de ferramentas macroprudenciais ainda está em andamento; as agências-membros e os membros do FSOC devem continuar concentrados em medidas para responder ao aumento dos riscos cíclicos e setoriais e para fortalecer a resiliência aos riscos dos mercados financeiros; assim como deixar claro a estrutura para a implementação de políticas macroprudenciais.

(Nota do FMI 02)

Estados Unidos: Programa de Avaliação do Setor Financeiro – Avaliação de Estabilidade do Sistema Financeiro.

Passos bem-vindos foram dados em direção ao fortalecimento do sistema financeiro. O Conselho de Monitoramento da Estabilidade Financeira (FSOC) consiste hoje em um fórum útil para um trabalho coordenado; o perímetro regulatório foi expandido; o compartilhamento de informações entre as agências melhorou; testes de estresse estão levando a mudanças na avaliação e gestão de risco; e novos poderes de resolução foram estabelecidos.

Antes que a memória da crise comece a se apagar, será importante completar a agenda de reformas e resistir a tentativas de derrubar medidas anteriormente acordadas. É, portanto, fundamental que a regulação iniciada pela Lei Dodd-Frank (DFA) seja completada e que diversas outras medidas já acordadas comecem a ser postas em prática. A paisagem regulamentar continua fragmentada, resultando em lacunas, sobreposições, e em respostas potencialmente tardias a riscos emergentes, e por isso deve ser simplificada. Enquanto o FSOC tem dado passos importantes para lidar com o problema de instituições ‘Too-Big-to-fail' (grandes demais para ir à falência), normas aperfeiçoadas para instituições não bancárias precisam ser postas em prática. Falhas fundamentais são encontradas no financiamento habitacional, nos fundos mútuos do mercado monetário e nos acordos de recompra tripartidos, e é preciso considerar a questão do mercado de empréstimo de títulos.

Enquanto isso, surgiram novos bolsões de vulnerabilidades, em parte em resposta à busca contínua por rendimento. Enquanto a maioria dos indicadores sugere que os riscos para a estabilidade financeira diminuíram, ainda há áreas potenciais de preocupação. Bancos grandes e interconectados dominam o sistema, ainda mais do que antes. Os riscos estão elevados no setor não bancário, onde riscos "run" e "redemption" estão aumentando, como resultado de alavancagem e transformações de maturidade, e cadeias de financiamento por atacado profundamente interligadas. As seguradoras assumiram maior risco de mercado e podem ser confrontadas com um passivo a descoberto em um cenário desvantajoso.

Isso requer um foco contínuo no reforço da estrutura micro e macroprudencial. O FSOC deve ser reforçado com as agências membro recebendo uma missão explícita de estabilidade financeira. Devem ser coletados dados abrangentes necessários para a construção de uma visão clara dos riscos sistêmicos e interconexões. Uma instituição reguladora nacional independente é um imperativo para o setor de seguros para preencher lacunas em relação às normas internacionais (incluindo deficiências na avaliação e requisitos de solvência) e garantir coerência na regulamentação e supervisão. É preciso atualizar orientações de supervisão bancária para risco de concentração, operação e de taxa de juros. Deve ser completada a regulamentação pendente do setor de títulos e derivativos, e as questões sobre o funcionamento eficaz do mercado devem ser tratadas à medida que surgirem. A supervisão dos gestores de ativos deve ser reforçada, incluindo requisitos explícitos de gestão de riscos, controle interno, e o esforço estruturado para realizar testes de estresse das instituições. Normas de gestão de risco para Infraestruturas do mercado financeiro precisam ser plenamente implementadas.

Finalmente, precisa ser claramente definida a responsabilidade pela prontidão e pela gestão de uma crise do sistema. O FSOC é o candidato natural para este papel. O desenvolvimento de planos de recuperação confiáveis para todas as instituições e infraestruturas financeiras importantes para o sistema será um componente importante deste trabalho.

Tradução das notas por Clarisse Meireles

sábado, 20 de julho de 2013

Crise da mídia eleva a tensão no país (Saul Leblon)

15/07/2013

Crise da mídia eleva a tensão no país




"Grandes jornais perdem inexoravelmente leitores no papel, mas não param de ganhá-los na Web (43 milhões de internautas leem o New York Times); (porém) quando os sites dos grandes jornais passaram a ser pagos (como o Times), a visitação despencou (de 22 milhões para 200 mil)”. 

“Libération ou Mediapart escolheram um modelo de pagamento parcial . Cabe registrar que se a imprensa da internet é, no momento pelo menos, quase gratuita, isso se deve ao fato de que ela é subvencionada pelos leitores da imprensa escrita”.

“ Antes, os meios de comunicação vendiam informação. Agora, como a TF1 faz com a Coca Cola, vendem consumidores a seus anunciantes”.

“ Quando “Slate” (grupo do Washington Post) comenta um livro ou um DVD, links ligam o texto ao site de vendas da Amazon. Para cada venda efetuada, Slate recebe 6% do total. A missão informacional é parasitada pela comunicação”. 

Os trechos foram pinçados da resenha do novo livro de Ignacio Ramonet, a 'Explosão do Jornalismo', publicada nesta pág.

O tema interessa a todos que enxergam na pluralidade da informação e no discernimento crítico que ela alimenta, a alma da democracia. 

Ramonet, um intelectual preocupado com o impasse da representação política no século 21, analisa um fenômeno que a mídia dominante conhece bem no Brasil: o declínio do jornalismo impresso e a ausência de um modelo de negócio que reproduza as mesmas taxas de lucratividade – e de hegemonia ideológica – em suporte digital.

O caso aqui se torna agudo por um par de razões.

Em edição recente, a inglesa ‘The Economist’ chamou a atenção para a velocidade exponencial da taxa de conexão brasileira à web.

A metade dos lares do país já está plugada na rede.

Somos a segunda base mais importante do Facebook no mundo. 

A mídia tradicional, segunda a revista conservadora, está perplexa diante de uma transição sem volta. 

Há muito dinheiro em jogo nessa travessia, explica Ramonet: a indústria da comunicação representa 15% do PIB mundial. 

Não só dinheiro em espécie, cabe dizer. 

Mas também a sua versão concentrada e ainda mais valiosa: o poder político que se embaralha nessa encruzilhada.

É sobretudo isso, que a ‘Economist’ não atenta, que adiciona especificidade e nitroglicerina ao caso brasileiro. 

A ponto de a deriva de um setor empresarial tornar-se uma ameaça à democracia do país.

Meia dúzia de corporações da mídia aqui pautam a vida política e tutelam a economia , como centuriões da riqueza acumulada e da autoridade corrente. 

Alguns encarnam essa ‘gendarmerie’ autoconferida há mais de um século. 

Enfrentam os tempos difíceis com as garras à mostra. 

Às trincas no alicerce político, decorrentes de três derrotas presidenciais sucessivas de seus candidatos à chefia da Nação, veio agregar-se a percepção de um esfarelamento estratégico.

Consequência da mudança estrutural irreversível na dimensão tecnológica do seu negócio. 

‘A explosão do jornalismo’, como diz Ramonet brincando com a ambiguidade, atinge o suporte convencional com tal impacto que desordena a escala e o conteúdo da linha de produção, borra o divisor entre emissor e receptor e dissolve o próprio conceito do que se emite: a informação. 

Pior: os gigantes do crepúsculo não estão mais sozinhos na luta pela adaptação ao novo meio digital. 

Há uma população nova, ágil, desassombrada, composta de pequenos veículos progressistas que contrastam a pauta dominante e disputam uma audiência antes cativa. 

Ainda não assimilada em sua importância por governos hesitantes, a emergência desses novos atores tira dos gigantes o favoritismo absoluto na nova corrida. 

O faturamento grita, a audiência tropeça.

E eles radicalizam. 

Sua estratégia no Brasil visa recuperar, por todos os meios --todos-- um pedaço do chão firme anterior.

Como a tecnologia é a variável exógena da equação, a alternativa dos 'liberais' que dominam a mídia converge para a luta pelo controle do Estado.

Vale tudo.

A partidarização sem pejo esparramou-se do editorial para o colunismo; contagiou as manchetes e já capturou o noticiário. 

Busca-se assegurar, ao menos, uma transição suave, para algum ponto seco, a salvo da inundação digital-democrática, que não cessa de subir.


Postado por Saul Leblon às 18:41

(http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1282). 

domingo, 16 de junho de 2013

Protestos no Brasil. A resposta é mais democracia (Saul Leblon)

12/06/2013

A resposta é mais democracia


Não enxergar o elo entre as ruas e o ciclo histórico costuma ser fatal às lideranças de uma época. 


Acreditar que o elo, no caso dos recentes protestos em São Paulo, está no aumento de 20 centavos sobre uma tarifa de transporte congelada desde janeiro de 2011, é ingenuidade.



Supor que a ordenação entre uma coisa e outra poderá ser restabelecida à base de cassetetes e pedradas é o passaporte para o desastre.



Desastre progressista, bem entendido.



A lógica conservadora nunca alimentou dúvidas existenciais ou políticas quanto a melhor forma de manter o caos nos eixos. 



Esse é um apanágio do seu repertório histórico.



O colapso do trânsito, inclua-se nesse desmanche o custo e o tempo despendidos nos deslocamentos, é apenas o termômetro mais evidente de um metabolismo urbano comatoso.



Cerca de 1/3 dos paulistanos, aqueles mais pobres, residentes nas periferias distantes, levam mais de uma, a até mais de duas horas no trajeto da casa ao trabalho.



Os tempos indicados são referentes à ida; não consideram o gasto no retorno.



Os dados são de pesquisa recente do Ibope.



Não se produz uma irracionalidade desse calibre sem um acúmulo deliberado. 



Estudos do Ipea reiteram a piora nas condições de transporte urbano das principais áreas metropolitanas do país desde 1992.



O Brasil tem a taxa de urbanização mais alta em uma América Latina que lidera o ranking mundial nesse indicador, diz a ONU.



O país concluiu a transição rural/urbana em três décadas, açoitado pela política de modernização conservadora do campo.



Isso se fez sob a chibata de uma ditadura militar .



E não poderia ter sido feito exceto assim.



A virulência do Estado ditatorial fez em um terço do tempo aquilo que as nações ricas levaram um século para realizar.



A coagulação da insensatez na atual ‘imobilidade urbana’ reflete o saldo de perdas e danos dessa marcha batida da história.



O crescimento populacional desordenado das grandes cidades, agudizado pelas referidas migrações é um dos alicerces da ruína. 



Ancorada na omissão pública de décadas, a expansão irracional e especulativa da mancha urbana ganhou vida própria. 



Com os desdobramentos logísticos sabidos: aumento das taxas de deslocamento e motorização; explosão dos congestionamentos e do custo do transporte.



Na vida da cidade e no bolso de cada cidadão.



Não é figura de retórica dizer que esses ingredientes acionam o pino de cada bomba de gás lacrimogênio e faíscam o pavio de cada enfrentamento irrefletido nas batalhas campais registradas na cidade de São Paulo em menos de uma semana.



Repita-se: o conservadorismo tem certezas esféricas quanto a melhor forma de lidar com a nitroglicerina social contida nas cápsulas de concreto que ergueu no país nas últimas décadas. 



Suas escolhas não podem ser as mesmas das forças progressistas.



O nivelamento regressivo acontecerá caso a inércia política ceda o comando dos acontecimentos à lógica da violência.



No caso dos protestos em São Paulo, a responsabilidade da autoridade municipal é superlativa. 



Cabe-lhe reafirmar o divisor entre a gestão progressista de uma sociedade e a visão conservadora sobre os seus conflitos.



Carta Maior saudou a vitória de Fernando Haddad em 2012 por entender, como entende, que ele representa o resgate do cimento da democracia na reconstrução de São Paulo.



Mais que isso.



Por entender que a sorte de São Paulo sob a liderança da nova administração marcará o destino da agenda progressista brasileira no período em curso. 



A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.



Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país. 



A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.



Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.



Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.



A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.



Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.



Sim, há outras nuances e interesses entrelaçados ao destaque esquizofrênico com que a mídia convoca e, depois, alardeia o caos a cada protesto.



Tais motivações são as mesmas que fizeram do tomate um astro olímpico na modalidade ‘descontrole dos preços’, há menos de um mês. 



As mesmas que hoje alardeiam ‘a explosão’ do dólar – e, ontem, denunciavam o ‘populismo cambial’ e os malefícios, verdadeiros, do Real sobrevalorizado.



Essas motivações exercitam sua sofreguidão cotidianamente na mesmice de uma mídia que se esboroa sob o peso de sua própria irrelevância jornalística.



A resposta da Prefeitura de São Paulo aos protestos não deve se pautar pelos uivos do jogral conservador.



Não se trata, tampouco, de conciliar com a violência gratuita.



Mas, sim, de encarar as manifestações como um mirante privilegiado para fixar uma nova referência na vida da cidade.



Qual seja, a de calafetar o abismo conservador que predominou secularmente na relação entre a Prefeitura e os moradores da metrópole, sobretudo a sua parcela mais pobre.



O trunfo do prefeito Fernando Haddad é ter sido eleito para isso.



Ele tem legitimidade para subtrair espaços à engrenagem opressora e devolve-los a uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.



Um salto de qualidade e intensidade na participação democrática na gestão da cidade; essa é a resposta para a fornalha da insatisfação.



Da qual os incidentes de agora podem representar apenas um prenúncio pedagógico.



São Paulo é o produto mais representativo do capitalismo brasileiro. 



Um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe gente enquanto tritura e refaz o seu concreto de desigualdade.



Não há solução administrativa ou orçamentária imediata para o caos deliberadamente construído aqui.



A resposta à lógica que sequestrou a cidade dos seus cidadãos é devolvê-la a eles fortalecendo os canais existentes e abrindo outros novos, que dilatem o seu discernimento e a capacidade de erguer linhas de passagem entre o presente e o futuro. 



A alternativa é a anomia, eventualmente sacudida de gás lacrimogênio e pedradas.




(*) NR: a menção ao uso de coquetéis molotov nas manifestações foi suprimida do texto por se tratar de informação divulgada pelo aparato policial, sem comprovação até o momento (12/06/2013; 23h51)

Postado por Saul Leblon às 17:37

(http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1264). 

terça-feira, 23 de abril de 2013

A 'escalada democrática' (Saul Leblon)


21/04/2013

A ‘escalada democrática’




Episódios recentes na vida política da América Latina indicam que estamos diante de uma ‘escalada democrática’ .

Em junho de 2012, numa sexta-feira, deu-se o golpe democrático’ contra Fernando Lugo, presidente eleito do Paraguai. 

Processado e derrubado pelo Congresso em 33 horas, seu afastamento consolidou-se na eleição deste domingo, que devolveu o poder à direita paraguaia. 

Três anos antes, a modalidade já havia sido testada em Honduras.

O Presidente Manuel Zelaya foi ‘impedido legalmente' em 29 de junho de 2009. 

Seis meses depois, uma nova eleição dava sua vaga ao conservador Porfírio Lobo, derrotado por Zelaya em 2005. 

Enfim, se você perde nas urnas o jeito é afastar quem ganha para liberar o caminho.

Isso lembra alguma coisa chamado 'mensalão'? 

Deflagrado em 2005 com o objetivo de levar Lula ao impeachment e impedir sua reeleição no ano seguinte, a AP 470 mantém sua 'funcionalidade eleitoral' e é assim que entra em fase decisiva de recursos esta semana (leia o editorial de Carta Maior: "Mais 250 dias ou Fux vai matar no peito?")

A contrapelo do cerco conservador, Lula foi reeleito em 2006 e repeliu o golpe contra Zelaya, em 2009. A embaixada brasileira em Honduras concedeu asilo ao presidente deposto.

O conjunto foi duramente criticado pelo dispositivo midiático 

No caso de Lugo, as emissões conservadoras se alvoroçaram de maneira ainda mais ostensiva. 

A frente pró-golpe manifestar-se-ia, primeiro, no Congresso brasileiro.

Expoentes tucanos e emissários do agronegócio brasileiro, que anexou extensões escandalosas de terras do país vizinho, em prejuízo dos camponeses locais, desfraldariam o lobby. 

Queriam o ‘reconhecimento imediato do novo governo amigável’ por parte da Presidenta Dilma. 

Rechaçados, entrou em campo a cavalaria midiática.

A Folha disparou um editorial sugestivamente intitulado ‘Paraguai soberano’(26-06). Curioso que não tenha produzido título equivalente no caso recente da Venezuela.

O texto esbravejava antecipadamente contra a reunião do Mercosul que ocorreria em Mendoza, três dias depois, para examinar a crise. 

O jornal da família Frias recomendava , quer dizer, ordenava: ‘o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho’.

Como os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai não se pautaram pelos editoriais e, ademais de suspender o Paraguai golpista, incorporaram a Venezuela ao bloco, as cepas e esporões direitistas passaram a reproduzir-se com furor lacerdista no noticiário. 

A política externa brasileira foi reduzida à posição de linha auxiliar do chavismo e do kichnerismo.

No caso recente da eleição venezuelana, o diapasão conservador arremeteu direto contra as urnas 

A margem estreita que marcou a vitória de Nicolas Maduro contra o direitista Enrique Capriles foi a senha para a contestação do processo democrático.

A ordem unida veio dos EUA: não legitimar Maduro enquanto uma recontagem não ‘esclarecesse melhor o quadro’.

A mesma cautela não se verificou quando dos golpes em Honduras e no Paraguai, imediatamente reconhecidos como legítimos por Washington. 

Enquanto o governo Obama dava corda à reação interna venezuelana, o jogral brasileiro disparava obuses na tentativa de acuar o Itamaraty e a Presidenta Dilma.

Não funcionou.

O governo brasileiro foi um dos primeiros a parabenizar Maduro pela vitória e a felicitar a democracia venezuelana.

Não só. Sob a liderança conjunta do Brasil e da Argentina, a Unasul foi convocada e respaldou o processo democrático venezuelano.

Colocou-se mais uma vez como uma pedra no sapato da ingerência norte-americana na região.

A transparência eleitoral na Venezuela é reconhecida por observadores internacionais insuspeitos.

O eleitor venezuelano registra seu voto na urna eletrônica, que lhe fornece um recibo da escolha feita. Depois de conferido, ele o deposita em caixas lacradas.

“Ao final da jornada, 54% dessas caixas são sorteadas e submetidas à auditoria. Prática que, em tamanha porcentagem, não é feita por nenhum outro país do mundo”, informa o enviado de Carta Maior à Venezuela, Vinicius Mansur (leia nesta pág).

O Departamento de Estado norte-americano e o conservadorismo brasileiro sabem desses procedimentos. 

De fato, não é a lisura do pleito que os mobilizava. E sim a possibilidade de ampliar ‘a ofensiva democrática’ na região, desautorizando Maduro para conduzir Capriles ao poder.

Nos três episódios, a pronta intervenção da Unasul e do Mercosul atrapalhou a vida do golpismo, seccionando o oxigênio externo fornecido pelos EUA. 

Essa capacidade de defender a soberania democrática é uma novidade histórica que incomoda os interesses conservadores na região. 

A liderança brasileira é o combustível que injeta coesão a essa nova institucionalidade.

Não incorre em erro quem suspeitar que esse papel incômodo pesará nos arranjos, no financiamento e na intensidade do cerco para afastar o PT do caminho, em 2014.

Postado por Saul Leblon às 18:30

(http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1231). 



quinta-feira, 28 de março de 2013

Dilma enfrenta a pátria rentista: mídia uiva (Saul Leblon)



27/03/2013

Dilma enfrenta a pátria rentista: mídia uiva


Uma dia de estupefação e revolta no circuito formado pelos professores banqueiros, os consultores e a mídia que os vocaliza.

Na reunião dos Brics, na África do Sul, nesta 4ª feira, a presidenta Dilma afirmou que não elevará a ração dos juros reivindicada pelos batalhões rentistas, a pretexto de combater a inflação. 

A reação instantânea das sirenes evidencia a cepa de origem a unir o conjunto à afinada ciranda de interesses que arrasta US$ 600 trilhões em derivativos pelo planeta. 

Equivale a dez voltas seguidas no PIB da Terra. 

Trinta e cinco vezes o movimento das bolsas mundiais. 

Os anéis soturnos desse garrote reúnem – e exercem – um poder de extorsão planetária, capaz de paralisar governos e asfixiar nações. 

Gente que prefere blindar automóveis a investir em infraestrutura. O Brasil tem a maior frota de carros blindados do mundo. 

E uns R$ 500 bi estocados em fundos de curto prazo; fora o saldo em paraísos fiscais.

Carros blindados, dinheiro parado, paraísos fiscais e urgências de investimento formam a determinação mais geral da luta política em nosso tempo.

Em Chipre, como lembra o correspondente de Carta Maior em Londres, Marcelo Justo, o capital a juros compunha uma bocarra equivalente a 67 bilhões de euros, uns US$ 90 bilhões de dólares.

Três vezes o PIB. De um país com população menor que a de Campinas. 

A fome pantagruélica desse organismo requeria rações diárias indisponíveis no ambiente retraído da crise mundial. 

A gula que quebrou Chipre é a mesma que já havia quebrado a Espanha, Portugal, Irlanda, Islândia e alquebrado o mercado financeiro dos EUA.

A falência cipriota assusta o mundo do dinheiro não por suas dimensões. 

Mas porque ressoa o uivo cavernoso de uma bancarrota, só anestesiada a um custo insustentável na UTI mundial das finanças desreguladas.

No Brasil o mesmo uivo assume o idioma eleitoral ao gosto do dinheiro graúdo: ‘dá para fazer mais’.

O governo Dilma acha que sim. 

Mas com a expansão do investimento produtivo. Não com arrocho e choque de juros.

O país ampliado por 12 anos de políticas progressistas na esfera da renda e do combate à pobreza, não cabe mais na infraestrutura concebida para 30% de sua gente. 

A desproporção terá que ser ajustada em algum momento. 

Como o foi, com viés progressista e investimento pesado, durante o ciclo Vargas.

Sobretudo no segundo Getúlio, nos anos 50. 

Mas também o foi em 64.

Em versão regressiva feita de arrocho e repressão contra as reformas de base de Jango, no golpe que completa 49 anos neste 31 de março.

O que se assiste hoje guarda uma diferença política importante em relação ao passado.

Nos episódios anteriores, o conflito de classe entre as concepções antagônicas de desenvolvimento seria camuflado pela vulnerabilidade externa da economia.

Um Brasil estrangulado pelo desencontro entre a anemia das exportações e o financiamento das importações colidia precocemente com o seu teto de crescimento.

O gargalo do investimento se realimentava no funil das contas externas. E vice versa.

Era um prato cheio para o monetarismo posar de arauto dos interesses da Nação. E golpeá-la, com as ferramentas recessivas destinadas a congelar o baile.

'Quem está fora não entra; quem está dentro não sai'. 

Durante séculos, essa foi a regra do clube capitalista brasileiro.

Hoje, embora a pauta exportadora se ressinta de temerária concentração em commodities, não vem daí o principal obstáculo ao investimento. 

O país dispõe de reservas recordes (US$ 370 bi). Tem crédito farto no mercado internacional. O relógio econômico intertemporal é favorável ao financiamento de um ciclo pesado de investimentos em infraestrutura.

Quem, afinal, veria risco em financiar a sétima economia do planeta, que, em menos de uma década, estará refinando a pleno vapor as maiores descobertas de petróleo do século 21?

O desencontro entre o Brasil que somos e aquele que podemos ser deslocou-se do gargalo externo, dos anos 50/60/80 para o conflito aberto entre os interesses da maioria da sociedade e os dos detentores do capital a juro.

Assim como em Chipre, na Espanha, nos EUA ou em Paris, o rentismo aqui prefere repousar num colchão de juros reais generosos, blindado por esférico monetarismo ortodoxo. 

Migrar para a esfera do investimento produtivo, sobretudo de longo prazo, como requer o país agora, não integra o seu repertório de escolhas espontâneas.

É essa prerrogativa estéril que os professores banqueiros do PSDB cobram pela boca e pelo teclado do jornalismo econômico, escandalizado com a assertiva defesa do desenvolvimento feita pela presidenta Dilma. 

Presidenciáveis risonhos que se oferecem untados em molhos palatáveis às papilas monetaristas e plutocráticas vão aderir ao jogral. 

“Esse receituário que quer matar o doente em vez de curar a doença está datado; é uma política superada", fuzilou Dilma.

Previsível, o dispositivo midiático tentou desqualificar o revés como se fora uma demonstração de ‘negligência com a inflação’. 

Um governo que trouxe 50 milhões de pessoas para o mercado de consumo minimizaria a vigilância sobre a inflação?

Seria o mesmo que sacar contra o seu maior patrimônio político. 

O governo Dilma optou por abortar as pressões de preços de curto prazo com desonerações. E enfrentar o desequilíbrio estrutural com um robusto ciclo de investimentos.

São lógicas dissociadas da receita rentista.

Aqui e alhures, a obsessão mórbida pela liquidez descolou-se da esfera patrimonial para a dos rendimentos financeiros. Não importa a que custo social ou político.

Sua característica fundamental é a preferência parasitária pelo acúmulo de direitos sobre a riqueza, sem o ônus do investimento físico na economia.

A maximização de ganhos se faz à base da velocidade e da mobilidade dos capitais, sendo incompatível com o empenho fixo em projetos de longa maturação em ferrovias, hidrelétricas ou portos.

Durante a década de 90, as mesmas vozes que hoje disparam contra o que classificam como ‘intervencionismo da Dilma’, colocaram o Estado brasileiro a serviço dessa engrenagem.

A ração dos juros oferecida no altar da rendição nacional chegou a 45%, em 1999.

Um jornalismo rudimentar no conteúdo, ressalvadas as exceções de praxe, mas prestativo na abordagem, impermeabilizou essa receita de Estado mínimo com uma camada de verniz naval de legitimidade incontrastável.

A supremacia dos acionistas e dos dividendos sobre o investimento –e a sociedade-- tornou-se a regra de ouro do noticiário econômico.

Ainda é.

A crise mundial instaurou a hora da verdade nessa endogamia entre o circuito do dinheiro e o da notícia.

Trata-se de uma crise dos próprios fundamentos daquilo que o conservadorismo entende como sendo ‘os interesses dos mercados’. Que a mídia equipara aos de toda a sociedade.

Dilma, de forma elegante, classificou essa ilação como uma fraude datada e vencida. De um mundo que trincou e aderna, desde setembro de 2008.

A pátria rentista uiva, range e ruge diante de tamanha indiscrição. 


Postado por Saul Leblon às 19:17