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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Argentina. ReEstatização. Luz. Após cortes de luz governo argentino cogita estatizar serviços...


27 DE DEZEMBRO DE 2013 - 12H59 


Após cortes de luz, governo argentino cogita estatizar serviço


A Argentina vive a maior onda de calor dos últimos 43 anos, com temperaturas que superam os 40º. Não bastasse, os cidadãos de diversas cidades do país sofrem com os recorrentes cortes de luz que, em algumas localidades, já chegam a mais de dez dias, causando grande transtorno para a população. Como uma das soluções possíveis, o governo cogita reestatizar o serviço, privatizado na década de 1990 por Carlos Menem.


Mulher cobra governo por cortes de luz em Buenos Aires


De acordo com as concessionárias de energia, os consumidores são os culpados pela situação existente porque “não informam sobre mudanças de equipamentos elétricos em seus domicílios, o que impede a prevenção do aumento do consumo” e ainda argumentam que devido às baixas tarifas que cobram, não tiveram como investir em melhorias. 


O governo, no entanto, rechaçou este argumento: “se não estão em condições de prestar o serviço, têm que notificar formalmente o Estado que não estão dispostos a executar o contrato nessas condições, e dessa maneira se estabelecem os mecanismos para a prestação de serviços.", manifestou o chefe de Gabinete de Cristina Kirchner, Jorge Capitanich.


Outra hipótese considerada pela gestão federal é transferir a administração das concessionárias diretamente à província de Buenos Aires e à Cidade Autônoma de Buenos Aires. 


Os cortes de luz ocorrem em diversos bairros de Buenos Aires e do cinturão urbano portenho. Nos últimos dias, diversos protestos foram realizados na região pedindo a normalização do serviço.


Da Redação do Portal Vermelho,
com agências


sábado, 31 de agosto de 2013

Perto do fim da "novela Lei de Meios", Estado se sai melhor que Grupo Clarín em audiência pública (Aline Gatto Boueri)

31/08/2013 - 16h26 | Aline Gatto Boueri | Buenos Aires

Perto do fim da "novela Lei de Meios", Estado se sai melhor que Grupo Clarín em audiência pública

Defesa de empresa de comunicação derrapa e advogados do governo são mais técnicos nas questões da Corte Suprema










Depois de dois dias de audiência pública na Corte Suprema, a batalha judicial sobre a aplicação da LSCA (Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual) – a Lei de Meios – está perto de chegar ao fim. Hoje a norma está vigente, mas o máximo tribunal da Argentina deve ainda se pronunciar sobre a constitucionalidade de quatro artigos fundamentais para a reconfiguração do espectro radioelétrico do país.

Nesta etapa do processo, a defesa do Grupo Clarín construiu seu argumento central na premissa de que os meios do grupo só podem fazer “jornalismo independente” com o tamanho atual e que, ao reduzir a quantidade de licenças e a escala da empresa, seria impossível investir em novas tecnologias e, por fim, subsistir.

Em 2007, o ex-presidente falecido Néstor Kirchner aprovou em seu último dia de mandato a fusão entre Cablevisión – empresa de TV a cabo cujo Grupo Clarín é acionista majoritário com 60% – e Multicanal. A empresa passou a ter hegemonia sobre o mercado do ramo. Outra norma aprovada por Néstor Kirchner, em 2005, o Decreto 527/05, suspendeu a concessão de licenças de rádio e TV por dez anos na Argentina, o que também beneficiou as empresas de comunicação que já existiam, entre elas o Grupo Clarín.


Ao indagar se antes dessas normas a sustentabilidade do grupo estava afetada, a Corte Suprema desmontou a defesa, que conseguiu ir muito pouco além de “o modelo de negócios anterior era diferente” e que “a longo prazo a empresa não poderá subsistir em um mercado de convergência” por conta do investimento em novas tecnologias. Erro aí. A LSCA não trata de convergência – é inclusive um dos pontos lembrados pelos críticos mais ferrenhos da norma, como o semiólgo Eliseo Verón, que em sua apresentação como amicus do Grupo Clarín disse que a LSCA “já era obsoleta no dia em que foi publicada no Boletim Oficial.”
Agência Efe

Audiência pública foi acompanhada com grande atenção pela população argentina


Neste ponto, a Corte lembrou que o investimento em novas tecnologias não era um aspecto relacionado com a LSCA e, a partir daí, os argumentos do grupo se desmantelaram. Várias vezes a defesa foi chamada a observar a pergunta. Gaguejaram e passaram a palavra entre si em meio a claras dificuldades para apresentar seu ponto de vista com coerência.

Estado

Do lado do Poder Executivo, a realidade foi outra. Das 36 perguntas respondidas à Corte Suprema – 19 a mais das que foram feitas ao Grupo Clarín -, a equipe de defesa foi segura e mais articulada. Falhou uma vez, quando perguntada sobre distribuição de licenças a meios de comunicação comunitários, prevista pela lei. Não soube responder à Corte quantas haviam sido repartidas, o que confirma as críticas sobre a lei, apesar de vigente, não ser aplicada no que se pode.

A defesa foi sábia. Diferenciou valor simbólico e valor de mercado para argumentar sobre por que era necessária uma lei de regulação da mídia quando já há uma lei de regulação de mercado. Também definiu a licença como privilégio, no sentido de que é uma concessão pública e que não gera direitos adquiridos, o que vai em concordância com o segundo parágrafo do artigo 48 da lei, um dos quatro questionados pelo Grupo Clarín. No entanto, argumentou que não pode ser retirada sem um devido processo administrativo, ou seja, anulou o argumento de que a LSCA permitiria a governos autoritários a retirada de licenças a meios de comunicação opositores. 
O Poder Executivo Nacional fez uma defesa técnica, com solidez, ao responder as perguntas da Corte Suprema. Ao defender a regulação sobre o sistema de TV a cabo, lembrou que, na prática, a hegemonia da Cablevisión no mercado impede o acesso a sinais de TV aberta, uma realidade na Argentina. À diferença da Capital Federal e sua região metropolitana, muitas localidades do interior do país só têm acesso a alguns sinais de TV aberta por meio do serviço de televisão paga, a cabo, mercado no qual o Clarín é hegemônico.

Também sobre o artigo 45 da LSCA, foco principal do embate, a defesa do Estado foi técnica e melhor que a do Grupo Clarín. Quando convidada a explicar o limite de 35% do mercado nacional para a prestação de serviços, a equipe de advogados lembrou, sem repetir a diferença entre uma regulação simbólica e de mercado, o que parece óbvio: 35% de participação, principalmente em um setor estratégico, é um valor muito elevado.

Debate pendente 

“Na Argentina existem somente 40 canais de TV aberta, por isso 85% das casas estão conectadas a algum sistema de TV a cabo, senão não podem ver televisão. No país inteiro, apenas em sete cidades há uma oferta maior que um canal de TV aberta. O Grupo Clarín domina o mercado de TV a cabo e faz uso dessa posição dominante. Tem uma política de preço predatória: cobra muito caro onde não tem concorrência e muito abaixo do custo do serviço onde tem”, explica a Opera Mundi o especialista em regulação da mídia Santiago Marino.

Não há no país hoje regras claras sobre pauta oficial. A distribuição de publicidade, fonte importante desde a estatização da Aerolíneas Argentinas e de 51% da petrolífera YPF, como lembra Marino, fica a critério do governo.

A forma como meios de comunicação comunitários se sustentariam em um cenário de aplicação plena à LSCA também é uma conta pendente. “Há uma reação analógica à LSCA no setor de meios comunitários. Todos querem uma licença porque durante 30 anos não tiveram nada. Acho que seria uma solução combinar o acesso a recursos como publicidade oficial ou planos de fomento por concurso a uma estratégia de transmissão em rede, com mecanismos de integração dessas organizações, vínculos com sindicatos para ver se é possível remunerar os profssionais que vão trabalhar aí”, explica Marino. “Não é simples. Deveríamos estar discutindo isso há quatro anos, mas estamos falando do artigo 161”, reclama.

O Grupo Clarín questiona na Justiça a constitucionalidade do artigo 41, que regula a transferências de licenças, do 48, em seu segundo parágrafo, que determina que não se pode alegar “direitos adquiridos” para manter licenças que excedam o limite estipulado pelo artigo 45, e do artigo 161, que estipula o prazo para adequação dos grupos de comunicação à LSCA.

(http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/30938/perto+do+fim+da+novela+lei+de+meios+estado+se+sai+melhor+que+grupo+clarin+em+audiencia+publica.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter). 

domingo, 19 de maio de 2013

Abogado en Argentina pide exhumación del cadáver de Néstor Kirchner para investigar su muerte

Abogado en Argentina pide exhumación del cadáver de Néstor Kirchner para investigar su muerte 
Abogado en Argentina pide exhumación del cadáver de Néstor Kirchner para investigar su muerte <br>
Fecha 19/05/2013 04:31:00 p.m.
El abogado Juan Ricardo Mussa acusó de homicidio simple, en los Tribunales Federales de Comodoro Pi en Buenos Aires, a Cristina Fernández y su hijo Máximo como presuntos autores de la muerte del expresidente Néstor Kirchner, quien falleció el 27 de octubre del 2010.


Mussa, dirigente del Partido Justicialista, considera"encubridores" del supuesto asesinato a Carlos Zannini, secretario Legal y Técnico, al exchofer de la familia, Rudy Ochoa y a Cristobal López, exempleado de Kirchner convertido en empresario y actualmente imputado en una causa de contrabando de divisas.



Según Mussa -azote en los juzgados del kirchnerismo- dos testigos reservados aseguran que el expresidente fue “asesinado de un tiro en la nuca”. El disparo -insiste en la querella- se habría producido durante una fuerte discusión del matrimonio, que habría llegado a las manos, y terminado con la vida del marido de la Presidenta.



Para aclarar lo sucedido, Mussa le solicitó al juez que ordene la exhumación de los restos de Néstor Kirchner.



El diario «Perfil» -primero en difundir la información- recoge que Mussa solicitó asimismo que se cite al personal de Emergencias Médicas de El Calafate, localidad del sur de Argentina en la que se produjo el deceso.



En el parte oficial de defunción, firmado por la Unidad Médico Presidencia, figuró que Néstor Kirchner murió el 27 de octubre del 2010 de un infarto fulminante como consecuencia de deficiencias cardiovasculares. El expresidente tenía una salud delicada y problemas coronarios.



El 7 de febrero del mismo año de su muerte tuvo que ser ingresado de urgencia y el 12 de septiembre se le practicó una angioplastia. El paro cardíaco le sobrevino a primera hora de la mañana en su domicilio de Calafate. El velatorio se hizo con el féretro cerrado.

Con información de ABC.es


Disponível em: Abogado en Argentina pide exhumación del cadáver de Néstor Kirchner para investigar su muerte br

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Argentina retoma julgamento sobre 'voos da morte' durante ditadura militar

Argentina retoma julgamento sobre 'voos da morte' durante ditadura militar


Atualizado: 04/02/2013 20:51 | Por EFE Brasil, EFE Multimedia

Argentina retoma julgamento sobre 'voos da morte' durante ditadura militar


Buenos Aires, 4 fev (EFE).- A Justiça argentina retomou nesta segunda-feira o julgamento por crimes de lesa-humanidade cometidos durante a ditadura militar, que inclui responsáveis pelos chamados 'voos da morte', com uma audiência na qual vários acusados se negaram a depor argumentando que as provas do processo são 'duvidosas'.

Tanto o último chefe naval da ditadura militar (1976-1983), Rubén Franco, como o médico Jorge Magnacco, se recusaram a falar perante o tribunal oral número 5 de Buenos Aires que reiniciou hoje o processo por delitos cometidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), a maior prisão clandestina do regime ditatorial.
Franco se negou a fazer declarações por considerar que as acusações se baseiam em 'provas testemunhais pobres e duvidosas'.

Durante a audiência, foi lida uma declaração prestada por Franco perante o Conselho Supremo das Forças Armadas em 1986, na qual assegurava que 'não houve violações às normas estabelecidas' pela Chefia da Marinha e atribuía os rumores sobre 'excessos' a 'publicações da imprensa internacional' baseadas em 'fontes de origem e credibilidade duvidosa', segundo a agência oficial 'Télam'.

Perante o tribunal também se negou a falar hoje o obstetra do Hospital Naval, Jorge Magnacco, já condenado por assistir os partos de mulheres sequestradas na Esma durante a ditadura.
Magnacco foi indagado pela subtração da hoje deputada Victoria Donda, nascida enquanto sua mãe estava sequestrada no centro de detenção clandestino da Esma.
O médico afirmou que nunca esteve destinado na Escola de Mecânica da Marinha, mas admitiu que conheceu suas instalações porque assistiu a dois partos no recinto.

A rodada de sessões consultivas se prolongará, pelo menos, até final do mês de fevereiro.
Esta fase do processo sentou no banco dos réus 68 acusados e abrange os casos de 789 vítimas de violações de direitos humanos na Esma, entre elas a jovem sueca Dagmar Hagelin e a dirigente da guerrilha Montoneiros, Norma Arrostito.
Entre os acusados estão Jorge Eduardo Acosta, ex-capitão de fragata e ex-chefe de Inteligência e do Grupo de Tarefas da Esma; o ex-capitão de corveta Ricardo, Miguel Cavallo, extraditado da Espanha em 2008, e o ex-capitão da Marinha e agente de Inteligência, Alfredo Astiz, conhecido como o 'anjo da morte'.

Além disso, serão processados os civis Gonzalo Torres de Tolosa, conhecido como 'Tenente Vaca', advogado integrante do grupo de tarefas da Esma, e o economista Juan Ernesto Alemann, ex-secretário de Fazenda da ditadura, acusado de presenciar um interrogatório sob torturas.
O processo julgará também os chamados 'voos da morte', nos quais eram jogadas no Rio da Prata ou no Oceano Atlântico pessoas sequestradas pela ditadura, e pelo quais estão acusados os pilotos de Aerolíneas Argentinas e governadores regionais retirados Enrique José De Saint e Georges Mario Daniel Arru, e Alejandro Domingo D'Agostino, chefe da Divisão de Veteranos de Guerra.
Também deverão depor perante os juízes Leopoldo Bruglia, Daniel Obligado e Adriana Paliotti, e o ex-piloto da linha aérea holandesa Transavia, Julio César Poch, também extraditado da Espanha.

A fase anterior do processo da Esma, o maior julgamento aberto na Argentina por crimes de lesa-humanidade cometidos durante a ditadura, terminou em outubro de 2012 com 16 condenados.
A causa total é composta por nove processos judiciais por crimes cometidos na prisão clandestina, por onde passaram cerca de cinco mil vítimas da repressão militar, segundo organizações de direitos humanos. EFE
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Leviatã midiático (Carta Capital) Fala-se muito, e com razão, da guerra declarada por Cristina...


Argentina

23.12.2012 09:31

O Leviatã midiático



Fala-se muito, e com razão, da guerra declarada por Cristina Kirchner ao grupo Clarín, que além de ter o jornal de maior circulação na Argentina detém o controle de mais da metade do mercado de televisão e rádio. Pouco ou nada se diz da guerra do grupo contra o governo. É como se fosse a batalha de um lado só.
Há um terceiro ator nesse confuso enredo, a Justiça. O desenlace final não oferece muitas opções: a Lei de Serviços de Comunicação -Audiovisual, conhecida por Lei de Meios ou Lei de Mídia, entrará em vigor. O problema é saber quando. Entre idas e vindas, diferentes instâncias da Justiça ora prorrogam, ora dão por suspensa uma medida liminar conseguida pelo grupo. Seja como for, o juiz Horacio Alfonso determinou que a lei é constitucional. O grupo recorreu, o recurso foi aceito, mas isso significa apenas, na opinião da maioria dos juristas argentinos, mais tempo até que se chegue à aplicação da legislação aprovada, em 2009, pela maioria do Congresso, contando com nutridos votos da oposição.

Embate. Cristina aposta na Lei de Mídia em um país cada vez mais radicalizado e dividido
Não era exatamente o que esperava o governo. A data, inicialmente determinada pela Corte Suprema, era a sexta-feira 7. O governo apostou alto. No domingo 9 estava programada uma imensa festa popular, para celebrar, de uma vez só, o dia dos Direitos Humanos (10 de dezembro) e o primeiro ano do segundo mandato de Cristina Kirchner – além, claro, da entrada em vigor da lei. Mais de meio milhão de argentinos cobriram a Plaza de Mayo e seus arredores. Uma espécie de resposta dos apoiadores de Cristina Kirchner às manifestações convocadas pela oposição. Em outras cidades do país, a mesma data reuniu outro tanto de gente.
Faltou, porém, o prêmio ansiado: na mesma sexta-feira em que deveria entrar em vigor, a lei acabou adiada novamente. A Câmara Civil e Comercial, uma espécie de vara da Justiça destinada a assuntos comerciais, tornou a prorrogar a liminar pedida pelo Clarín. O governo reagiu mal, com a habilidade de um dromedário embriagado, ao criticar duramente a decisão. Ou seja, uma vez mais abriu flancos para receber ataques furibundos dos grupos hegemônicos de comunicação, agora sob o argumento de pressão sobre juízes.
Vale anotar que parte das críticas duras do governo aos integrantes da Câmara Civil e Comercial se deveu ao fato de um de seus três juízes ter viajado a Miami à custa do Clarín.
Enroscos judiciais à parte, a faceta mais visível da briga entre o governo e o Clarín gira ao redor de um mesmo eixo, a formidável concentração de meios nas mãos do grupo. Nunca é demais repetir sua participação no mercado: 42% das licenças de rádio, 59% da televisão fechada (a cabo), 39% da televisão aberta. São 254 canais de televisão a cabo (algumas fontes mencionam apenas 237, o grupo diz que na verdade são 158, a nova lei diz que não podem ser mais do que 24 licenças), duas dúzias de televisões abertas (o limite permitido é dez). Promover a desconcentração caberá a Martín Sabatella, diretor da Autoridade de Serviços de Comunicação Audiovisual.
Há outros 20 grupos que acumulam licenças em volume muito superior ao permitido pela lei. Todos eles, inclusive gigantes como a Telefónica espanhola e o grupo, também espanhol, Prisa, concordaram em cumprir a lei e vivem agora um período de adequação. O fundo de investimentos -Fintech -Advisory, sócio do grupo Clarín na operadora de televisão a cabo Cablevisión, concordou em acatar a lei. O Clarín disse tratar-se de um sócio minoritário, sem poder de decisão. Detalhe: o fundo detém 40% das ações da Cablevisión. Não é um minoritário qualquer.
Essa história ainda vai se arrastar. Por quanto tempo, ninguém sabe. A distorção do noticiário dos meios do grupo Clarín não tem limites. Denunciam graves atentados à liberdade de expressão, e encontram amplo eco em seus congêneres em outros países, a começar, claro, pelo Brasil, onde cinco grupos dão as cartas.
Evidentemente, não é de liberdade de expressão que se trata, e sim da liberdade de acumular concessões. O objetivo da lei é criar mecanismos que impeçam semelhante concentração, principalmente de televisão fechada, que na Argentina tem um alcance muito maior que no Brasil (perto de 86% dos domicílios têm televisão a cabo ou via satélite). Isso, claro, para não mencionar a convergência com a internet de banda larga, que abocanha quase a metade do mercado argentino.

O governo de Cristina Kirchner não é, nem de longe, pioneiro nessa batalha contra a concentração e, muito especialmente, contra o Clarín. Foto: AFP
Cabe registrar que o governo de Cristina Kirchner não é, nem de longe, pioneiro nessa batalha contra a concentração e, muito especialmente, contra o Clarín. O primeiro presidente pós-ditadura, Raúl Alfonsín, tentou a mesma coisa. Chegou a mandar fiscais da Receita invadirem a empresa e durante meses virar pelo avesso sua contabilidade. Carlos Menem, por sua vez, pretendeu podar as asas famintas do grupo. Optou depois pela conciliação. Nestor Kirchner preferiu o caminho da cooptação: no fim de seu governo permitiu a fusão entre os canais Globovisión e Multicanal, o que consolidou de vez a hegemonia do grupo. A boa relação foi rompida em 2008, quando o Clarín se opôs com ferocidade à nova legislação fiscal sobre exportações agrícolas. Ninguém parece lembrar que os acionistas do grupo são acionistas de grandes companhias do agronegócio. Enfim, de onde quer que se olhe há razões de sobra para que todos os presidentes argentinos desde a redemocratização de 1983 – Alfonsín, Menem, Kirchner e agora sua viúva e sucessora, Cristina – tenham tentado conter semelhante poder, semelhante avidez. Nenhum deles, porém, bateu tanto quando a atual presidente.
Por trás desse conglomerado gigantesco, além do mais, há histórias escabrosas. O jornalClarín surgiu em 1945, de forma relativamente modesta. Seu fundador, Roberto Noble, era um fervoroso admirador de duas figuras que haviam marcado época e deixado um rastro de barbaridades: um italiano chamado Benito Mussolini e um austríaco chamado Adolf Hitler.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, vencidos e mortos os dois, Noble achava que parte de suas ideias merecia ser resgatada. Quando Juan Domingo Perón foi derrubado por um golpe militar em 1955, o Clarín demonstrou claras simpatias pelo novo regime. E assim foi. Havia outros grandes jornais que faziam pesada sombra. E se hoje é um dos diários de maior circulação na América Latina, até a última ditadura militar argentina (1976-1983) nunca deixou de ser um jornal de segunda linha, sem a tradição do conservador La Nación ou a ousadia de publicações que inovaram a imprensa do país, como a revista Primera Plana dos anos 60 ou o jornal La -Opinión dos primeiros anos 70.
Na ditadura, o jornal ganhou corpo e voz. E tornou-se um grupo importante, graças às manobras de seu executivo, Héctor Magnetto, que começou como contador e hoje é o segundo maior acionista da empresa. Além da cumplicidade aberta com o regime genocida, o jornal – ao lado do vetusto La Nación e o popularesco (hoje desaparecido) La Razón – conseguiu um maná a preço de banana: apoderar-se da Papel Prensa, única fábrica papeleira da Argentina. A apropriação é uma das tantas histórias de horror absoluto da ditadura iniciada pelo general Jorge Rafael Videla e continuada por outros adeptos da barbárie como meio de vida.
A Papel Prensa era, por certo, um negócio confuso. Foi fundada durante os efêmeros governos peronistas por um jovem e ousado financista, David Graiver, que contava com o apoio de José Gelbard, ministro de Economia de Héctor Cámpora e do próprio Perón. Graiver morreu num misterioso desastre aéreo no México, em agosto de 1976, quando a ditadura encabeçada por Videla cumpria cinco meses de horror. Sua viúva, Lidia Papaleo de Graiver, e a filha eram as herdeiras majoritárias, além de outros familiares do marido.
Naquele período, além de torturar, assassinar, desaparecer e mandar para o exílio dezenas de milhares de argentinos, os militares se distraiam apoderando-se dos bens de suas vítimas. Graiver era especialmente odiado. Além de judeu, era considerado (e muito, possivelmente com razão) o administrador da fortuna do grupo guerrilheiro peronista Montoneros, criada a partir de resgates milionários obtidos em sequestros. A Papel Prensa era um butim muito ambicionado.
Logo depois da morte de Graiver, sua viúva voltou para a Argentina. Queria cuidar das propriedades do marido morto. Foi quando conheceu a face cruel da ditadura e o rosto macabro de Magnetto. Presa, foi pressionada a vender as ações da Papel Prensa para um trio formado pelo Clarín, o La Prensa e o La Razón, além de uma participação que permanecia nas mãos do Estado.
Fragilizada, sob todo tipo de pressão – ameaçavam matá-la e desaparecer com sua filha, na época um bebê de 1 ano de vida –, capitulou. Vendeu suas ações e recebeu como sinal cerca de 8 mil dólares. O resto – outros 2 milhões, preço insignificante diante do que a Papel Prensa realmente valia – nunca foi pago. Até hoje ela move, na Justiça argentina, um processo na tentativa de receber o combinado. Neste ano, diante de um tribunal, ela contou como foi a venda e, principalmente, o que aconteceu em seguida.
Disse que pouco depois de ter assinado a papelada, foi presa. Há razões para que a prisão acontecesse depois da venda da Papel Prensa. Uma lei determinava que os bens dos subversivos presos ou mortos passassem diretamente às mãos do Estado. A ditadura queria compensar seus aliados da mídia. Prender Lidia Papaleo significaria passar a única fábrica de papel do país para o Estado. Feita a transação, sobrava uma viúva jovem, atraente, e certamente dona do segredo de outros milhões de dólares. Seus algozes queriam encontrar o dinheiro deixado por Graiver.
Diante do tribunal, Lidia Papaleo contou como foi violada, agredida, vexada. Teve o tímpano arrebentado a golpes de mão aberta contra o ouvido. Muitas vezes, depois de estuprada, era levada de volta para a cela e jogada, nua, no chão. “E então, contou ela ao juiz, ‘eles vinham e cuspiam, urinavam e ejaculavam em cima de mim’.”
Contou que até hoje, em seus pesadelos, revê o rosto de seus torturadores. E disse que nenhum desses rostos a amedronta mais que o do homem que a pressionou para assinar os documentos da venda da Papel Prensa. Os olhos do homem que dizia, com uma voz serena e calma, que ou ela assinava, ou veria sua filha ser morta, antes de ela mesma ser assassinada.
Esse homem chama-se Héctor Magnetto e é o presidente do Clarín, do qual detém 33% das ações.
Graças a ele e aos seus métodos, o grupo tornou-se o que é hoje. É ele o patrão dos paladinos que dizem e asseguram que a Lei de Meios é um atentado à liberdade de expressão. É à sua voz que fazem eco os conglomerados de comunicação do Brasil.
Cristina Kirchner acaba de cumprir o primeiro ano de seu segundo mandato, envolvida numa briga tremenda com o grupo capitaneado por semelhante personagem.
O país enfrenta, seu governo também enfrenta, é verdade, um amontoado de problemas significativos. A inflação está em níveis elevadíssimos (deve rondar ou superar a marca dos 25%, em 2012), a economia apenas engatinha após anos de forte impulso, a classe média concentrada, principalmente, em Buenos Aires, e que sempre expressou contra o peronismo algo muito parecido ao preconceito (quando não ao ódio) de classe, se opõe de maneira cada vez mais radical a tudo o que seu governo faz.
Há acusações de corrupção, e, certamente, uma parte consistente delas tem fundamento. Os investidores desconfiam de suas ações, algumas multinacionais abandonam o país, há sérias dificuldades para obter divisas e honrar os compromissos internacionais.
Nada disso parece insolúvel. Se ela conseguir, e tudo indica que conseguirá, desmontar um conglomerado ávido e feroz, que nasce a partir de uma história de horror e indecência, terá deixado uma significativa marca. E um exemplo – outro – para os vizinhos: da mesma forma que é possível resgatar o passado e fulminar a impunidade de quem cometeu crimes de lesa-humanidade, é possível desmontar os monopólios e democratizar a informação.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Magistratura. Câmara dos Deputados da Argentina convida juiz Baltasar Garzón para assessorá-la...


Câmara dos Deputados argentina convida juiz Baltasar Garzón para assessorá-la

Garzón elogiou a política de direitos humanos realizada pela Argentina nos últimos anos
 
 
O juiz espanhol Baltasar Garzón, recentemente expulso da carreira judicial em seu país, foi convidado a assessorar a comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados da Argentina, que nesta sexta-feira (02/03) considerou-o "Visitante Ilustre".
De visita a Buenos Aires, o ex-magistrado da Audiência Nacional espanhola foi homenageado pela Câmara dos Deputados argentina, cujo presidente, Julián Domínguez, lhe propôs também realizar um ciclo de palestras no país.
Garzón se reuniu com deputados governistas e opositores, que lhe agradeceram pelos processos que promoveu nos anos 1990 contra repressores da última ditadura argentina (1976-1983) e que permitiriam seu posterior julgamento na Argentina.
Ele elogiou a política de direitos humanos realizada pela Argentina nos últimos anos e considerou-a "um exemplo mundial".
Baltasar Garzón foi aplaudido de pé na cerimônia de abertura de uma nova sessão legislativa no Parlamento argentino, onde a presidente Cristina Kirchner elogiou o juiz e disse que a cassação de sua licença para atuar representa uma "afronta contra a justiça universal".
Horas depois, dirigentes de entidades de direitos humanos e personalidades da cultura o homenagearam em uma conferência sobre a memória compartilhada entre Argentina e Espanha.
Garzón teve a licença cassada no dia 20 de fevereiro passado, após ter sido julgado e condenado a 11 anos de inabilitação profissional por ter ordenado escutas de conversas entre réus de um caso de corrupção e seus advogados.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O neoliberalismo atropela seus mitos (Saul Leblon)


25/02/2012

O neoliberalismo atropela seus mitos

Um trem de passageiros breca na entrada da estação mas o freio não responde; a composição com mais de mil pessoas a caminho do trabalho tromba numa barreira de concreto. O segundo vagão esmaga o primeiro e assim, sucessivamente; o efeito dominó mata 50 pessoas e fere outras 700. A decifração do desastre que abalou a Argentina esta semana inclui particularidades que materializam uma discussão recorrente nas sociedades submetidas à onda de privatizações de serviços públicos dos anos 80/90, mitigadas mas não interrompidas nas décadas seguintes pelos governantes da região. O do Brasil entre eles. 

A composição argentina faz parte da concessionária Trens de Buenos Aires, a TBA, uma das vencedoras de leilões de privatização promovidos pelo governo Menén, há vinte anos, com consequências métricas autoexplicativas. A ferrovia argentina que figurava como a 10ª maior rede do mundo antes da segunda guerra foi fatiada e privatizada nos últimos anos. Dos 50 mil kms de trilhos originais restam 7 mil kms operacionais. Dos 50 mil funcionários integrados ao sistema, sobraram 15 mil. Não é uma exceção. No caso brasileiro, por exemplo, os procedimentos e suas consequência também produziram um saldo contundente : dos 40 mil kms de trilhos existentes nos anos 60 restam 28 mil kms; a privatização sucateou enormes extensões de ferrovias, reduziu milhares de vagões e centenas de locomotivas a ferro-velho e ferrugem; o país praticamente aboliu o transporte ferroviário de passageiros, despautério logístico que a entrega do setor à lógica privada deveria justamente evitar. 

O desastre argentino acrescenta duas facetas a esse acervo: ao longo dos últimos anos a TBA recebeu subsídios da ordem de US$ 3,6 bi do Estado para investir em melhorias na rede. Apenas 6% desse total, acusa-se, teria chegado na ponta final do sistema onde estão os passageiros. Pior: um destino desse parco investimento teria sido remodelar vagões dos anos 60, trocando assentos originais por outros menores e precários, mas adequados à maximização da lata de sardinha. O up grade pode ter sido uma razão adicional para a matança decorrente da colisão ocorrida com o trem da TBA.

Seria medíocre reduzir o desastre ferroviário desta semana na Argentina a um desfrute ideológico do equívoco neoliberal na América Latina. É preciso ir além e não omitir a pergunta incomoda: por que os governos progressistas subsequentes não reverteram o processo; ao menos, não impuseram padrões de atendimento que respeitassem os usuários do patrimônio público alienado? A resposta confronta um alicerce da doutrina neoliberal e coloca em xeque crenças e argumentos que embalam as privatizações de ontem e de hoje. 

O nome da viga mestra é agencia reguladora. Sobre ela apoia-se o escopo de um mito: a idéia de que é possível ter um Estado precário, frágil financeiramente, incapaz de investir, prover e contratar serviços públicos adequados mas, ao mesmo tempo, proficiente para instalar um aparato de tutela sobre concessões, a ponto de torná-las não exclusivamente mais lucrativas que o padrão anterior -- o que todas são, naturalmente. Mas, sobretudo, mais eficientes no atendimento à população. O desnudamento desse mito argui mais os seus discípulos à esquerda do que à direita.

As evidências cumulativas, às quais se agrega o desastre de Buenos Aires, desmontam essa sapata do edifício privatizante. No Brasil, agencias reguladoras lembram seixos perdidos na correnteza de interesses em torno das concessões e vendas de rodovias, telefônicas, sistemas elétricos, portuários e, agora, aeroportuários. 

Capturadas por eles, as reguladoras, ao contrário do que sugere a ficção neoliberal são uma costela do mesmo aparato acuado, não raro, submisso, do Estado mínimo. O fato desagradável para alguns é que elas figuram como frutos da mesma família genética da qual fazem parte a supressão de direitos sociais, o arrocho trabalhista e, claro, o sucateamento do aparato público. Vieram para dar harmonia institucional a esse conjunto, não para afrontá-lo. A inversão do regulador capturado pelo regulado, ou avidamente associado a ele, tem nas agencias de risco do sistema financeiro uma expressão de exuberância explícita dessa lógica. Mas há versões mais sutis, não menos amigáveis a seu modo. 

A brasileira Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), por exemplo, resume um padrão. Reguladora do sistema rodoviário, conta com apenas 117 funcionários para fiscalizar 5 mil kms de estradas federais privatizadas em um território de 8,5 milhões de km2. Em breve, serão 10 mil kms de pistas por conta dos leilões programados. 

Protagonistas desse enredo de faz de conta às vezes lamentam o simulacro do seu ofício, como é o caso dos integrantes da Comissão Nacional de Regulação de Transportes da Argentina. Depois do acidente, eles denunciaram a impotência e inutilidade de advertências anteriores sobre a precariedade do sistema. Outros, porém, exacerbam na tarefa e dar harmonia ao conjunto. O governo direitista da Espanha, dotado de robusto programa de privatização e austeridade ortodoxa, anunciou nesta 6ª feira a fusão das oito agencias reguladoras do país. A partir de agora elas integram um único guarda chuva, que reduz de 52 para 9 o número total de conselheiros. Quase um emblema do credo neoliberal no Estado mínimo, ela responde pelo pomposo batismo de Comissão Nacional de Mercado e Competência. A retrospectiva autoriza usuários a enxergarem nesse binômio um faiscante oximoro.
Postado por Saul Leblon às 07:40

Do Portal C arta Maior: (http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=899). Acesso em: 25/fev/2012.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Internacional. Brasil. Entrevista do Ministro de Assuntos Estratégicos – Brasil não pede licença...

...”Quando se prepara um plano para o país tem de levar em conta os vizinhos. Os laços econômicos e políticos que o Brasil mantém com países vizinhos são intensos. É do nosso interesse contribuir para o desenvolvimento regional e reduzir diferenças. Quanto mais prósperos, mais estáveis social e politicamente serão esses países.”


...“Se tivéssemos entrado na Alca, talvez hoje estaríamos como o México, cujo PIB retrocedeu em mais de 10%. A Alca não é um acordo de livre comércio, ela estabelece regras que eliminam a possibilidade de uma política econômica autônoma. Em um país subdesenvolvido como o Brasil, com enormes diferenças sociais, a ação do Estado é indispensável. Se tivéssemos aderido, o Banco do Brasil não seria mais público, nem existiriam o BNDES ou a Caixa Econômica Federal.”


...“A Venezuela é muito importante para nós, um país muito rico, não só em petróleo. A soberania é parte do povo. Aqui no Brasil houve uma prorrogação de mandato que não foi aprovada pelo povo. Foi um episódio nebuloso, em que pessoas confessaram ter vendido voto. Chávez concorreu a mais de 10 eleições, todas consideradas legítimas.”


...”Antes havia o hábito de se pedir licença, de ser pequeno. O Brasil agora é maior de idade, não pede licença para ter relações com qualquer país. Agora mesmo, veio ao Brasil o presidente de Israel, Shimon Peres. Também está aqui o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Eles não vêm para visitar as belezas naturais. É porque eles consideram importante a posição e a atuação do Brasil.”


Leia o teor da entrevista...



Fone: Diário Catarinense, 22 de novembro de 2009

ENTREVISTA
“O Brasil não pede licença”
Samuel Pinheiro Guimarães, ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos

Formulador da política externa na Era Lula, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães recebeu, há um mês, a incumbência de pensar o Brasil de 2022. O diplomata se diz à vontade na Secretaria de Assuntos Estratégicos.
Planeja desenvolver programas interministeriais e políticas para o desenvolvimento da Amazônia, mas foram as controversas relações diplomáticas do Brasil que dominaram a entrevista concedida, na sexta-feira.
Pinheiro é amigo de Hugo Chávez e tachado como representante do anti-imperialismo no Itamaraty.

Sobre o papel do Brasil na política latino-americana e os empréstimos concedidos pelo BNDES aos países vizinhos, é categórico:
– Sou favorável a um Plano Marshall para a América do Sul. Tão grave quanto uma guerra é o subdesenvolvimento.

Bacharel em Direito e mestre em Economia pela Universidade de Boston, em 2006 Samuel recebeu da União Brasileira de Escritores o título de Intelectual do Ano pela obra Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes. Sobre o prêmio, revela uma mágoa:
– Não saiu uma linha na imprensa sobre isso.

Diário Catarinense – A diplomacia do governo Lula é estratégica para o governo. Da sua experiência no Itamaraty, o que o senhor pretende aplicar no ministério em relação ao Mercosul?


Samuel Pinheiro – Quando se prepara um plano para o país tem de levar em conta os vizinhos. Os laços econômicos e políticos que o Brasil mantém com países vizinhos são intensos. É do nosso interesse contribuir para o desenvolvimento regional e reduzir diferenças. Quanto mais prósperos, mais estáveis social e politicamente serão esses países.


DC – O Brasil se envolveu em vários conflitos nos últimos anos, com Argentina, Bolívia, Paraguai.


Pinheiro – Temos disputas comerciais com a Argentina, assim como os Estados Unidos têm com a Europa, com a China. Isso é normal, pois afeta o interesse de empresas que acabam pressionando os governos. São coisas pontuais, de circunstância. Nossa relação com a Bolívia é amistosa. No episódio das refinarias, a imprensa disse que haviam sido expropriadas. Elas foram compradas, por um preço avaliado como justo. O desenvolvimento do Paraguai também é do nosso interesse. Trata-se de um dos países mais ricos do mundo em recursos hídricos, mas tem dificuldade de investimento.


DC – O senhor se arrepende de ter sido contra o ingresso do Brasil na Alca?


Pinheiro – Nem por um décimo de segundo. Se tivéssemos entrado na Alca, talvez hoje estaríamos como o México, cujo PIB retrocedeu em mais de 10%. A Alca não é um acordo de livre comércio, ela estabelece regras que eliminam a possibilidade de uma política econômica autônoma. Em um país subdesenvolvido como o Brasil, com enormes diferenças sociais, a ação do Estado é indispensável. Se tivéssemos aderido, o Banco do Brasil não seria mais público, nem existiriam o BNDES ou a Caixa Econômica Federal.


DC – O senhor tem fama de ser doutrinador na época do Itamaraty, que incentiva leituras de esquerda. Isso é verdade?


Pinheiro – Considero que incentivar leituras é importante. Agora, de esquerda não é verdade. Um dos livros que indiquei é a biografia de Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira.


DC – Por que há tanta controvérsia na sua figura? Dizem que foi o senhor que incentivou a ida do Manuel Zelaya, o presidente deposto de Honduras, para a embaixada brasileira.


Pinheiro – Imagina. Quem disse isso foi o escritor Jorge Castañeda. Não o conheço.


DC – O senhor acha que o Brasil não deve reconhecer a eleição presidencial em Honduras?


Pinheiro – Claro que não. É uma eleição conduzida por um governo ilegal. É um grupo de indivíduos que tomou conta do poder.


DC – O senhor acha que a oposição trata de forma ideológica o ingresso da Venezuela no Mercosul?


Pinheiro – Certamente. Há muita desinformação. Nós temos com a Venezuela o maior superávit comercial.


DC – O senhor é realmente o guru do presidente Hugo Chávez?


Pinheiro – Tenho certeza que não. Alguém fez esse comentário porque ele mencionou uma vez que gostava do meu livro (500 Anos de Periferia).


DC – Há muita controvérsia em relação ao governo de Chávez.


Pinheiro – A Venezuela é muito importante para nós, um país muito rico, não só em petróleo. A soberania é parte do povo. Aqui no Brasil houve uma prorrogação de mandato que não foi aprovada pelo povo. Foi um episódio nebuloso, em que pessoas confessaram ter vendido voto. Chávez concorreu a mais de 10 eleições, todas consideradas legítimas.


DC – Política externa é um assunto árido para a maioria da população, mas no governo Lula conquistou interesse. A que o senhor atribui isso?


Pinheiro – É a dimensão brasileira que mudou. Na política internacional ninguém diz: vou ser líder. Isso é convicção que se forma nos outros. O presidente Lula é um grande líder porque ele interpreta os anseios das pessoas. Isso nos permite influir de forma mais eficaz nas negociações.


DC – O governo irá enfrentar polêmica com a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.


Pinheiro – Antes havia o hábito de se pedir licença, de ser pequeno. O Brasil agora é maior de idade, não pede licença para ter relações com qualquer país. Agora mesmo, veio ao Brasil o presidente de Israel, Shimon Peres. Também está aqui o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Eles não vêm para visitar as belezas naturais. É porque eles consideram importante a posição e a atuação do Brasil.


DC – O chanceler Celso Amorim se filiou ao PT, o senhor se tornou ministro. A diplomacia está indo às urnas?


Pinheiro – Nunca fui filiado a nenhum partido. Não sei quais os objetivos do ministro Celso Amorim, mas há outros diplomatas politicamente engajados. O ministro das Cidades, Márcio Fortes, é filiado ao PP. Há vários diplomatas vinculados à oposição, não sei se são filiados, que nos criticam. Eu prefiro a crítica ao elogio. O elogio me ilude, mas a crítica me aperfeiçoa.


fabio.schaffner@gruporbs.com.br

klecio.santos@gruporbs.com.br


FÁBIO SCHAFFNER E KLÉCIO SANTOS
BRASÍLIA


...Disponível no Portal da RBS / Diário Catarinense: (http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2724831.xml&template=3898.dwt&edition=13571§ion=128). Acesso em: 22.nov.2009.