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sábado, 31 de dezembro de 2011

Primaveras. Revoluções. Estamos em plena revolução conduzida pela classe média... Veja observações do Historiador Hobsbawm...


Revoluções de 2011 'me lembram 1848', diz Hobsbawm

Atualizado em  31 de dezembro, 2011 - 19:01 (Brasília) 21:01 GMT
Eric Hobsbawn
Para o historiador, é a classe média e não os operários quem impulsiona as atuais revoltas
O prestigiado historiador britânico Eric Hobsbawm comparou as revoltas no mundo árabe em 2011 às revoluções que explodiram na Europa no fatídico ano de 1848.
Em entrevista à BBC, Hobsbawm ressaltou que desta vez os movimentos de contestação são impulsionados pela classe média, e não pelo proletariado.
"Foi uma grande alegria redescobrir que é possível que as pessoas saiam às ruas para se manifestar e derrubar governos", disse o historiador, que passou toda sua vida ligado às revoluções.
Hobsbawm nasceu poucos meses antes da Revolução Russa, de 1917, e foi comunista a maior parte de sua vida, assim com um influente pensador marxista. Um de seus livros mais conhecidos, a Era das Revoluções, que retrata justamente as revoltas de 1848, é um clássico da historiografia.
Além de escrever sobre as revoluções, Hobsbawm também apoiou algumas revoltas. Com mais de 90 anos, sua longa paixão pela política aparece no título de seu mais novo livro:How to change the World (Como mudar o mundo) e em seu enorme interesse pela Primavera Árabe.
"A verdade é que eu tenho um sentimento de excitação e alívio", disse, ao receber a reportagem em sua casa em Hampstead Heath, bairro no norte de Londres.

Democracias árabes?

Para Hobsbawm, 2011 lembra outro ano de revoluções.
"Me lembra 1848, outra revolução impulsionada de forma autônoma, que começou em um país e depois se estendeu por todo um continente em pouco tempo", diz.
"A esquerda tradicional estava orientada para um tipo de sociedade que já não existe mais ou está deixando de existir. Acreditava-se sobretudo no movimento operário como o grande responsável pelo futuro. Bem, nos desindustrializamos e isso já não é possível"
Eric Hobsbawn
Naquele ano, um levante popular em Paris acabou se alastrando pela área da atual Alemanha e Itália e pelo Império Habsburgo (hoje Áustria).
Para quem ajudou a encher a praça Tahir, no Cairo, derrubando o regime de Hosni Mubarak, em fevereiro, e agora teme pelo destino da revolução egípcia Hobsbawm tem uma palavra de alento.
"Dois anos após 1848, tudo parecia como se houvesse fracassado. Mas no longo prazo não houve fracasso. Conseguiu-se uma boa quantidade de avanços liberais. De modo que foi um fracasso imediato, mas um êxito parcial no médio prazo, ainda que não tenha sido na forma de revolução", diz.
Talvez com exceção da Tunísia, Hobsbawm não vê grandes possibilidades da democracia liberal ou governos representativos ao estilo ocidental triunfarem no mundo árabe.
O historiador ressalta ainda as diferenças entre os vários países varridos pela atual onda revolucionária.
"Estamos no meio de uma revolução, mas não de uma única revolução", diz.
"O que une (os árabes) é um descontentamento comum e forças de mobilização comuns: uma casse média modernizadora, sobretudo jovem, estudantes e, principalmente, uma tecnologia que permite que hoje seja muito mais fácil mobilizar os protestos", afirma.

Indignados e 'Occupy'

A importância das redes sociais também ficou evidente em outro movimento que marcou 2011: os protestos dos indignados e as ocupações que ocorreram na Europa e na América do Norte.
Segundo Hobsbawm, o movimento remonta à campanha eleitora de Barack Obama, em 2008. Na ocasião, o então candidato mobilizou com sucesso uma juventude até então apática à política por meio da internet.
"As ocupações, em sua maioria, não foram protestos de massa, não foram os 99% (da população), mas de estudantes e membros da contracultura. Em momentos, isso encontro eco na opinião pública. É o caso dos protestos contra Wall Street e as ocupações anticapitalistas", afirma.
De todo modo, a velha esquerda, da qual Hobsbawm tomou parte, manteve-se às margens das manifestações.
"A esquerda tradicional estava orientada para um tipo de sociedade que já não existe mais ou está deixando de existir. Acreditava-se sobretudo no movimento operário como o grande responsável pelo futuro. Bem, nos desindustrializamos e isso já não é possível", destaca o historiador.
Praça Tahir, Egito. Reuters
Hobsbawn lembra que houve revezes após as revoluções de 1848, mas o saldo foi positivo
"As mobilizações de massa mais efetivas hoje são aquelas que começam em meio a uma classe média moderna e em particular em um grupo grande de estudantes. São mais efetivos em países onde, demograficamente, os jovens são mais numerosos", diz.

Compreender o passado

Eric Hobsbawm não espera que as revoluções árabes tenham maiores ecos no mundo, ao menos não como uma antessala de uma revolução mais ampla.
Será mais provável, assegura, uma dinâmica que compreenda reformas graduais do estilo das que "ocorreram na Coreia do Sul nos anos 1980, quando uma classe média jovem passou a disputar o poder com os militares".
Sobre o drama político que ainda se desenrola nos países árabes, o historiador diz que vale a pena recordar o Irã de 1979, cenário da primeira revolução que teve o Islã como elemento político.
Esse aspecto da revolução iraniana teve reflexos na Primavera Árabe.
"Quem fez concessões ao Islã sem ser religioso acabou marginalizado. Dentre eles os reformistas, liberais e comunistas", diz, destacando outros grupos que se somaram aos religiosos para derrubar a monarquia iraniana alinhada ao Ocidente.
"A ideologia das massas não é a ideologia dos que começaram as manifestações", pontua.
Embora diga que a Primavera Árabe lhe tenha causado alegria, Hobsbawm diz que o elemento religioso no movimento é "desnecessário e não necessariamente bem-vindo".

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tribunal Penal Internacional. Khadafi será denuncidado pela ONU por crimes contra a humanidade

Atualizado em 27 de fevereiro, 2011 - 07:48 (Brasília) 10:48 GMT
Conselho de Segurança da ONU aprova sanções contra Khadafi

Todos os 15 países do órgão aprovaram as sanções

O Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade sanções contra o regime do líder da Líbia, Muamar Khadafi, pela violência com que vem lidando com os protestos contra seu governo.
O órgão aprovou um embargo à venda de armas, o congelamento de bens e apresentará denúncia contra Khadafi no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.
O presidente americano, Barack Obama, disse que o líder líbio deve deixar o cargo e o país imediatamente.
Khadafi controla ainda a capital, Trípoli, mas o leste do país está na mão dos opositores de seu regime.

Pós-Khadafi

Há relatos de que já começaram as discussões sobre a formação de um governo de transição em um cenário pós-Khadafi.
Mustafa Abdel-Jalil, que se demitiu do posto de ministro da Justiça em protesto contra a violência usada para lidar com os protestos, disse que um grupo formado por lideranças civis e militares se prepararia para eleições dentro de três meses, de acordo com o jornal privado líbio Qurya.
Os EUA teriam manifestado apoio ao plano, discutido na cidade de Benghazi.

A ONU calcula que mais de mil pessoas foram mortas nos últimos 10 dias em tentativas do regime de Khadafi de reprimir o levante.
A votação ocorrida na noite de sábado foi a segunda vez que o Conselho de Segurança decidiu levar um país ao Tribunal Penal Internacional e a primeira vez que isso ocorre por unanimidade.
A ONU estima que mais de mil pessoas já tenham morrido na Líbia
Em 2005, o órgão denunciou a situação em Darfur, no Sudão, mas Brasil, Argélia, China e Estados Unidos se abstiveram.

Contradição

Após a votação, o enviado da Líbia para o Conselho de Segurança disse que as sanções dariam “apoio moral” aos opositores do regime.

Os EUA já impuseram sanções unilaterais ao governo Khadafi e fechou sua embaixada no país. A Austrália também disse que imporá sanções a 22 integrantes do círculo do líder líbio.

No sábado, o filho de Khadafi Saif al-Islam disse que a vida segue normalmente em três quartos do país. Mas opositores do regime dizem que controlam 80% do país.
“A paz está retornando ao nosso país”, disse ele. Acredita-se que Khadafi controle a maior parte de Trípoli, lar de dois milhões dos 6,5 milhões de habitantes da Líbia.
A oposição controla a cidade de Bhengazi e há relatos de confrontos nas cidade de Misrata e Zawiya, no oeste do país.

Milhares de estrangeiros, a maioria empregados da indústria de petróleo, continuam a ser evacuados por ar, terra e pelo mar. Todos os brasileiros já deixaram o país, segundo o Itamaraty.
Correspondentes dizem que milhares de pessoas se encontram no aeroporto de Trípoli tentando embarcar e na fronteira com a Tunísia.

...Disponível no Portal BBC BRASIL: (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/02/110227_libia_onu_rc.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter). Acesso em: 27.fev.2011.

Internacional. Evgeny Morozov: "Graças à internet regimes fracos vão morrer mais rápido". Entrevista à Revista Época

26/02/2011 - 17:46 - Atualizado em 26/02/2011 - 18:00
Evgeny Morozov: "Graças à internet regimes fracos vão morrer mais rápido"

O jornalista bielorusso, autor do livro "The Net Delusion: the dark side of internet freedom" ("A desilusão da rede: o lado obscuro da liberdade na internet"), analisa o potencial e os limites do ativismo digital à luz dos protestos no mundo árabe
Letícia Sorg

QUEM É
Evgeny Morozov nasceu em Soligorsk, Belarus, em 1984. Mora desde 2008 nos EUA, atualmente em Palo Alto, Califórnia, onde é pesquisador visitante na Universidade Stanford

O QUE ESCREVEU
O blog Net Effect, da revista Foreign Policy, e o livro The net delusion (2011)

ÉPOCA - O senhor afirma que a internet tem um poder político limitado, que pode ser usado a favor de governos ditatoriais. Os últimos eventos no mundo árabe fizeram-no mudar de opinião?

Evgeny Morozov – Não muito. Os regimes fracos vão cair com ou sem a internet. Que ela tenha ajudado no caso do Egito e da Tunísia é ótimo – mas não devemos nos esquecer de que os governos que caíram não eram exatamente peritos em controlar a internet – Hosni Mubarak nem baniu sites no Egito. O triunfalismo prematuro sobre o poder da internet pode nos distrair de fazer as perguntas mais difíceis sobre o papel que as empresas e o governo americanos têm de maximizar o potencial democrático da rede. Olhando por essa perspectiva, a cyber-utopia não será muito útil.

ÉPOCA - A idade dos líderes mais ameaçados pelos protestos – Mubarak (82 anos), Ben Ali (74) e Muamar Gadhafi (68) – pode explicar a dificuldade de seus governos de lidar com a internet?

Morozov – Certamente ajuda ter líderes mais jovens, como na Rússia e na China. Eles têm uma relação muito mais próxima com a tecnologia – o presidente russo Dmitri Medvedev, por exemplo, tem Twitter, blog, grava vídeo e podcast. A inabilidade de Tunísia, Egito e Líbia em dominar a internet não tem a ver com a idade de seus líderes, mas com natureza de seus regimes: eles não se adaptaram à globalização – e isso incluiu ignorar o poder da internet. Isso explica por que os egípcios foram tão inábeis em controlar os grupos anti-Mubarak no Facebook. Eles não poderiam imaginar a rede como uma dissidência. Estamos lidando com situações completamente diferentes na Rússia ou na China, onde os regimes são muito mais modernos, globalizados e adeptos ao controle da rede. Se houvesse um grupo semelhante na China, as autoridades estariam monitorando desde o primeiro dia. E são grandes as chances de um grupo assim não durar muito na China. No Egito, sobreviveu por sete meses ou mais, ajudando a levar as pessoas para as ruas.

ÉPOCA - Qual será o papel da juventude no poder depois da queda dos ditadores?

Morozov – É muito cedo para dizer. Certamente os novos governos democráticos do Egito e da Tunísia vão querer demonstrar sua disposição para ouvir aos jovens, ao menos porque eles derrubaram o governo anterior. Podemos, então, esperar nomeações simbólicas de blogueiros como ministros, como aconteceu na Tunísia, por exemplo. Será que isso vai mudar a forma como os governos tratam os jovens? Espero que sim. Mas, novamente, é uma mudança motivada pela demografia, não pela internet.

ÉPOCA - Até onde sabemos, os protestos na Tunísia e no Egito parecem ter sido fomentados via internet. O senhor concorda?

Morozov – Dizer que os protestos nos dois países foram “fomentados” pela internet é como dizer que a revolução bolchevique de 1917 foi formentada pelo telégrafo. Revoluções são eventos complexos que dificilmente podem ser reduzidos a uma só causa, ainda mais a uma tecnologia. Da história nós sabemos que os revolucionários se aproveitarão de quaisquer meios de comunicação à disposição – do correio ao telégrafo em 1917 na Rússia às gravações de áudio no Irã em 1979. Então, de certa forma, é normal ver um certo nível de atividade nas mídias sociais numa revolução que aconteça nos dias de hoje: o que mais nós esperaríamos quando há tantas pessoas online? Porém, argumentar que a internet seja de alguma forma o condutor ou a causa dos protestos me parece absurdo. Graças à internet regimes fracos que estão fadados à morte vão morrer mais rápido, mas é possível que regimes fortes vão usar a internet para se tornar ainda mais fortes.

ÉPOCA - O senhor se surpreendeu com a decisão do presidente egípcio Hosni Mubarak de interromper o acesso à internet e o serviço de telefonia celular durante alguns dias?

Morozov – Não. Isso é o que acontece durante a revolução: as partes contenciosas tentam ganhar o controle total dos meios de comunicação. Por que elas fazem isso varia. Algumas vezes, é para dificultar o vazamento de imagens e vídeos dos protestos para os outros países. Algumas vezes, é para dificultar a organização das manifestações. Em outros casos, ainda, é provavelmente para intimidar os manifestantes em potencial ao dizer a eles que o regime está ansioso em tomar medidas drásticas como cortar meios de comunicação. Eu não tiraria muitas conclusões sobre o papel da internet olhando para como ela é usada durante situações de emergência como revoluções; em eventos como esse, todas as mídias desempenham um papel que é bem diferente do que têm em circunstâncias normais. Isso se aplica a toda a mídia, não somente à internet.

ÉPOCA - Mubarak demorou demais para perceber o que estava acontecendo online?

Morozov – O erro de Mubarak foi negligenciar por muito tempo os grupos no Facebook. Se o seu serviço de segurança tivesse começado a prestar atenção a isso mais cedo, ele teria conseguido gerenciar o levante com mais sucesso.

ÉPOCA - O que é ativismo online?

Morozov – É importante fazer uma distinção entre “ativismo online” – pessoas que fazem abaixo-assinados, pedem doações ou mudam a foto de seu perfil para apoiar uma causa – daquelas que usam a internet para falar de protestos que estão acontecendo no mundo real. São dois tipos diferentes de ativismo. E o último é apenas o bom e velho ativismo se apropriando dos novos canais de comunicação.

ÉPOCA - Na sua opinião, o Egito provou que é possível haver um movimento político nascido nas mídias sociais?

Morozov – Não. Apenas porque os desdobramentos das mídias sociais são aqueles mais fáceis de observar não significa que não haja outras forças políticas e sociais por trás das manifestações. Se você fosse pesquisar mais a fundo veria que associações de trabalhadores, grupos civis, advogados, intelectuais e muitas outras forças se reuniram no Egito. Além disso, muitos dos grupos originais do Facebook que tiveram influência nos protestos existiam há anos e haviam sido criados para apoiar protestos organizados por trabalhadores em greve. Então seria ingênuo deixar de lado o contexto social e político e olhar com lupa a internet.

ÉPOCA - É possível que surja um líder a partir da internet?

Morozov – A web tem um grande poder de marcar as coisas. Seria fácil estabelecer a reputação de um líder usando ferramentas online. Mas é importante lembrar que 20% da população do Egito tem acesso à internet, então, não é possível esperar que esse líderes online serão naturalmente aceitos pela população como um todo.

ÉPOCA - A China decidiu censurar mensagens relacionadas ao Egito. Por quê?

Morozov – Essa é fácil: porque revoluções são contagiosas e a China gosta de censurar.

ÉPOCA - O Google e o Twitter anunciaram um serviço de mensagens de voz para permitir que os egípcios burlassem a decisão do governo de limitar o acesso à internet. Devemos ver mais ações desse tipo?

Morozov – Enquanto elas geraram publicidade de graça para o Vale do Silício, sim. Mas há muitas outras coisas que o Google e o Twitter poderiam ter feito – especialmente em termos de fazer seus serviços mais amigáveis aos ativistas – e não fizeram. Nós devemos nos manter céticos sobre o compromisso das empresas de tecnologia com a liberdade de expressão e os direitos humanos, e não celebrá-las como campeões dessas causas.

ÉPOCA - Ter acesso à internet está geralmente ligado à ideia de democracia e liberdade, mas o senhor argumenta que ela pode ajudar as ditaduras. Como? Morozov – Todos os ditadores dependem do fluxo de informação: eles precisam saber das ameaças emergentes, da competição entre as elites, eles precisam ter canais eficientes para espalhar a propaganda, precisam ter um sistema para controlar o que é publicado e discutir o que não é. A internet pode tornar vários desses processos mais eficientes. Ela pode também dar mais poder aos ativistas? Sim. Mas seria contraproducente argumentar que, em qualquer situação concebível, os ativistas vão sair ganhando dos ditadores.

ÉPOCA - O senhor diz que a internet facilita a tarefa das ditaduras de vigiar a oposição. Será que a oposição não vai aprender a burlar a vigilância, e começar uma corrida de gato e rato virtual com o regime?

Morozov – Espero que isso aconteça – mas enquanto isso não acontece, gostaria de pressionar os governos e as empresas ocidentais a mudar suas políticas de forma a facilitar o “esconderijo”. Quando há empresas americana e europeias vendendo toda a tecnologia que os ditadores agora usam para monitorar os dissidentes, acho difícil de acreditar que os dissidentes consigam vencer um dia. Além disso, precisamos distinguir entre ativistas “profissionais” e “ocasionais”. Claro que aqueles que praticam a dissidência no dia a dia estão mais cientes dos riscos que correm e sabem os pontos fracos das mídias sociais. Mas não tenho certeza se o mesmo acontece com os “ativistas ocasionais” – aqueles que se juntam a um grupo no Facebook porque seus amigos estão lá ou que repassam uma messagem no Twitter. A promessa inicial da mídia social era que os dissidentes profissionais conseguiriam ter contato com os dissidentes ocasionais – mas as capacidades de vigilância cancelaram algumas dessas promessas.

ÉPOCA - O senhor nasceu na Belarus, onde os protestos organizados pela juventude não conseguiram derrubar o ditador, o presidente Alexander Lukashenko. Essa experiência limitou sua visão sobre o ativismo e a internet?

Morozov – Não diria que “limitou” – diria que “enriqueceu”! Crescer em um Estado autoritário e comparar a minha experiência com o que eu li sobre autoritarismo na literatura acadêmicaocidental e na imprensa popular me convenceu de que há severas limitações de como esses regimes estão sendo imaginados e conceitualizados no Ocidente. Há uma tendência de ver todos os ditadores como ludistas burros que não querem lutar pela sobrevivência. Por outro lado, há uma tendência de ver todos os cidadãos de Estados autoritários como equivalentes de Andrei Sakharov (defensor dos direitos humanos na antiga União Soviética, ganhou o Nobel da Paz em 1975) ou Vaclav Havel (defensor da resistência não-violenta que se tornou o primeiro presidente da República Tcheca), com muitas pessoas achando que a primeira coisa que esses cidadãos fazem quando se conectam é navegar pelos relatórios mais recentes dos Vigilantes dos Direitos Humanos. Dada a confusão de muitos observadores ocidentais sobre os Estados autoritários não é surpreendente que eles não entendam direito qual é o papel da internet.

ÉPOCA - O Twitter foi considerado uma ferramenta importante nos protestos de 2009 no Irã, mas depois descartado. Por quê?

Morozov – O que vimos em 2009 foram os especialistas ocidentais e a mídia projetando suas próprias fantasias e sonhos sobre o papel que a internet e o Twitter poderiam ter. Na redalidade, o Twitter não foi amplamente usado para organizar os protestos em Teerã – simplesmente porque não havia muito poucos iranianos no Twitter naquela época (mas a maioria dos repórteres não se deu ao trabalho de checar). Isso não significa que a internet ou a mídia social não possam ser usados para organizar protestos – vimos isso acontecer no Egito mas, mesmo antes disso, na Colômbia. Só que os observadores ocidentais têm uma tendência de aumentar a influência da mídia social para além da sua proporção. Afinal de contas, quando uma empresa privada americana financiada por investidores está sendo usada para espalhar a palavra da democracia e dos direitos humanos ao redor do globo manda uma mensagem reconfortante sobre o estilo naturalmente bom do capitalismo dos Estados Unidos!

ÉPOCA - Será que a mídia social não é mais importante fora do que dentro do país onde estão acontecendo os protestos?

Morozov – A importância é um conceito relativo – certamente para os egípcios agora é de primeira importância para organizar os protestos, não porque os outros estão assistindo (embora isso não prejudique a sua causa). O fato de que o mundo inteiro estava lendo os tweets dos iranianos não fez o governo adotar uma estratégia pacífica: eles ainda assim partiram para cima dos oponentes – e de maneira implacável.

ÉPOCA - Os regimes são eficientes no uso da internet como propaganda?

Morozov – Diria que são bem eficientes. A propaganda tem muitos usos e propósitos: é usada não apenas para manter uma certa ideologia mas também para responder com mais eficácia a escândalos de menor escala e explosões de raiva pública. A China realmente dominou essa tecnologia: sempre quando um blogueiro descobre qualquer escândalo, o governo não censura imediatamente. Em vez disso, eles tentam usar blogueiros pró-governo (disfarçados de “vozes do povo”) para fazer o trabalho de contenção de crise.

ÉPOCA - A web pode ser tão eficaz para os ativistas?

Morozov – Há uma tendência nos círculos tecnológicos de pensar que a internet nivela o campo de jogo, e que o desafiante pode se tornar tão poderoso quanto o favorito. Eu não compro essa ideia. Em muitos Estados autoritários, os regimes têm um controle muito melhor da mídia tradicional e usam esse controle para dar destaque aos seus blogueiros favoritos – ou, no caso da Rússia – para dar a esses blogueiros seus próprios programas na TV, que os ajudam a aumentar ainda mais sua audiência. Enquanto os governos puderem investir mais nesse novo jogo de mídia, eles provavelmente terão mais benefícios com ele.

ÉPOCA - Qual é a relação entre as empresas de tecnologia e os governos – democráticos ou não? As empresas são vulneráveis aos pedidos do poder?

Morozov – As empresas de tecnologia são tão vulneráveis aos pedidos do governo quanto o são às leis. Teoricamente, não há nada de extraordinário oficiais de justiça pedirem certas informações de usuários a empresas de tecnologia – desde que seguindo o processo legal necessário. Uma questão muito mais interessante é como o governo americano deveria se relacionar com o Vale do Silício. Por um lado, é muito tentador (para Washington, pelo menos) explorar o fato de que o Facebook, o Google e o Twitter são empresas americanas e forçá-las a se comportar de forma a ser conveniente para os interesses políticos dos Estados Unidos. Por outro lado, ditadores também reconheceram que essas empresas são americanas e que, embora aleguem oferecer serviços relativamente inocentes, podem acabar agitando revoluções que podem, no fim, beneficiar os americanos (os iranianos valorizaram muito esse argumento). Isso cria inúmeros problemas, em parte porque os governos autoritários tentarão minimizar o impacto que as empresas americanas de tecnologia têm em seus mercados internos e irão frustrar a marcha global do Facebook, do Twitter e do Google, tentando substituí-los por alternativas domésticas sempre que possível.

ÉPOCA - Há democracias preocupadas em controlar o acesso à internet?

Morozov – Certamente. Não consigo pensar em democracias que não estejam tentando controlar certos aspectos da internet. Frequentemente, esse controle é feito por motivos legítimos – há leis (sobre privacidade, pornografia infantil etc.) que tornam imperativo que o governo mantenha uma vigilância da rede. Temos um Estado de direito nas democracias e não é porque a internet é difícil de influenciar que devemos aboli-lo. Algumas vezes, contudo, a natureza peculiar da arquitetura da rede torna muito difícil chegar a soluções razoáveis – isso é o que realmente irrita as autoridades. Nos Estados Unidos, por exemplo, as agências de seguranças têm tentado convencer as empresas do Vale do Silício a construir portas secretas em seus programas para facilitar o monitoramento de conversas. Talvez isso seja um pouco demais. Além disso, esse tipo medida em democracias permite que líderes autoritários apontem para os Estados Unidos e digam: bom, se está acontecendo lá, por que não pode acontecer aqui?

ÉPOCA - Julian Assange, do WikiLeaks, afirma que vazar informações sigilosas pode fortalecer a deomcracia. O senhor concorda com ele?

Morozov – O argumento dele é que os vazamentos podem fomentar a transparência, não a democracia. As teorias dele têm algumas limitações: é muita utopia dele pensar que vazar informações sigilosas pode alterar significativamente regimes autoritários. Pode alterar regimes democráticos, porque é mais fácil constrangê-los através dos jornais, das novas mídias ou da sociedade civil. Em regimes autoritários, porém, os vazamentos podem ter um papel bem menor porque o fator constrangimento é menor. Além disso, os vazamentos sobre os estados democráticos podem indiretamente reforçar governos autoritários. Por exemplo, no vazamento das correspondências diplomáticas americanas, os governos do Zimbábue e de Belarus conseguiram desacreditar a oposição pró-Ocidente dizendo que ela aceita dinheiro de Washington. Os vazamentos podem ser usados pelos dois lados.

ÉPOCA - O senhor afirma que a maioria das pessoas usa a internet como entretenimento e, portanto, ela não é uma ferramenta política. O mesmo poderia ser dito dos livros. O uso como entretenimento prejudica o valor político da rede?

Morozov – Para mim, o argumento sobre entretenimento só me interessa na medida em que ajuda a derrubar o mito de que todos os chineses, russos e iranianos vão imediatamente para os sites de direitos humanos e ONGs em vez de navegar em sites que oferecem filmes de Hollywood de graça. Há essa expectativa Washington – que tem a ver com a glamurização das pessoas que vivem sob regimes autoritários – de que a internet é, acima de tudo, uma plataforma política. Sei que esse não é o caso e é por isso que pesquisei exemplos na história da mídia de alegações semelhantes. Na Alemanha Oridental sob o comunismo, por exemplo, muitas pessoas tinham acesso à TV ocidental. Mas, ao contrário do que a maioria das pessoas nos EUA pensa, os alemães orientais não assistiam ao noticiário, mas às novelas. Pesquisas mostram que as zonas geográficas que tinham acesso à TV ocidental tinham, na verdade, taxas mais baixas de descontentamento do que nas regiões onde ela não estava presente. Servir como entretenimento é uma característica comum a outras tecnologias e mídias – e nós no Ocidente deveríamos ajustar nossas expectativas.

...Disponível no Portal Revista Época: (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI214594-15227,00.html). Acesso em: 27.fev.2011.

Internacional. Arábia Saudita. Monarquia acuada

26 de fevereiro de 2011 • 21h57 • atualizado às 22h01
Conflitos podem chegar à Arábia Saudita, dizem especialistas

Flavia Bemfica

É tão crítica a situação no norte da África e partes do Oriente Médio que nem mesmo os especialistas na geopolítica da região arriscam palpites sobre os desdobramentos dos conflitos. Para os analistas, apesar de a Líbia ser a "bola da vez", é forte a tendência de que os conflitos se estendam por outros países. E a preocupação é de que eles possam chegar à Arábia Saudita, principal produtor mundial de petróleo.

"Do norte da África ao Paquistão, ninguém está a salvo" resume o professor André Reis da Silva, coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Se os conflitos chegarem à Arábia Saudita (para onde já foi marcado um 'dia de fúria' em 11 de março), a sineta que está tocando vai se transformar em um alarme", completa a professora de História Contemporânea da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Cláudia Musa Fay.

As consequências de uma troca de poder na Arábia Saudita, onde a mesma dinastia governa o país desde a sua fundação, em 1930, são "incalculáveis" na opinião dos especialistas. Não apenas pela questão do petróleo, já que hoje o país é governado por uma ditadura amiga do Ocidente. Derrubar o regime teria sobre os vizinhos um efeito bem mais intenso do que o fim das ditaduras na Tunísia e no Egito porque na Arábia existe uma monarquia, e acabar com um sistema inteiro costuma ser mais complexo do que interromper um governo. E, por isso, uma vitória daria aos que clamam por mudanças na região ainda mais força.

O fato de existir uma monarquia no país e as dificuldades de substituição do sistema, por outro lado, podem também ajudar a frear os distúrbios. Além disso, na tentativa de acalmar os ânimos, o idoso rei Abdullah (87 anos, e que retornou ao país na semana que passou após três meses fora em tratamento médico) anunciou um pacote de ações que beneficiam a classe média e o funcionalismo público.

"Mesmo com o maior grau de dificuldade, sempre se pode lembrar o exemplo da revolução inglesa no século XVIII. A instituição monarquia ficou garantida, só que com muito menos poder, e as mudanças foram feitas via gabinete dos ministros", alerta Reis da Silva.

Por enquanto, as atenções continuam a recair sobre a Líbia. Mas, para além dos domínios do ditador Muammar Kadafi, a situação é considerada crítica em pelo menos 10 países, com diferentes graus de tensão. Como, desde o princípio, os conflitos atingem tanto ditaduras aliadas aos Estados Unidos como adversárias, um Ocidente cauteloso se pergunta o que esses países têm em comum além do baixo grau de democracia e da religião, e como os protestos se espalharam de forma tão rápida.

Fatores conjunturais e estruturais explicam a expansão dos distúrbios Além das questões históricas, como o fato de os países terem sido alvo do imperialismo durante um extenso período. A professora Musa Fay destaca o fato de, atualmente, eles sofrerem com os fatores econômicos, como a baixa qualidade de vida e o desemprego que atinge em grande medida inclusive a população jovem. "Falamos de países com desemprego na faixa dos 30% e com uma desigualdade social não apenas grande, mas que perdura há muito tempo. Além disso, não podemos esquecer o fator século XXI, marcado pela velocidade na circulação das informações e na facilidade de comunicação", enumera ela.

A população ocidental que não acompanha de perto a situação daquela região do planeta pode pensar, por exemplo, que Kadafi blefa ao acusar o chefe da rede Al-Qaeda, Osama bin Laden, de alimentar os protestos na Líbia. O professor Reis da Silva explica que o ditador retoma uma disputa histórica na região, onde três grandes correntes de opinião se engalfinham desde o século passado. Elas incluem os nacionalistas, representados em diferentes países pelo partido Baath e por governantes como o próprio Kadafi ou o ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein; os fundamentalistas islâmicos (que encontram expressão na Al-Qaeda e no Hezbollah, e que em determinados momentos foram patrocinados pelos Estados Unidos); e os pró-ocidentais (que incluem representantes das elites locais e os governos de alguns dos países).

"Durante a invasão do Iraque, em 2003, muitos governos tiveram que 'segurar' suas populações, que se manifestavam contra a intervenção ocidental, e aí estas questões de hoje já apareciam. Da mesma forma como aparecem em relação a cada ação de Israel que, neste momento, não pode fazer nenhum movimento brusco. Desde o século VIII é muito forte esta concepção de solidariedade para com o irmão islâmico que está sofrendo. A concepção de grupo no islamismo é completamente diferente da ocidental", assegura o professor.

Para além dos motivos dos distúrbios, os especialistas se debruçam agora sobre seus desdobramentos em termos de política interna. Reis da Silva chama a atenção para o papel que pode ser desempenhado pelos exércitos, já que são eles que podem aparecer como a força "moderada". "No caso da Líbia, por exemplo, têm chamado a atenção estas dissidências. Para os Estados Unidos, se o exército assumir, o dano é menor do que se a população pegar o poder porque ela é francamente anti-Ocidente." O caso do Egito dá ainda mais força às projeções.

...(Disponível no Portal Terra: (http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4963207-EI17594,00-Conflitos+podem+chegar+a+Arabia+Saudita+dizem+especialistas.html),. Acesso em: 27.fev.2011.