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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

“Magistrado não é para dizer o que acha, mas para dizer o que a lei determina" (Nelson Jobim)

Postagem no Abertura Mundo Jurídico em 20/ago/2018...


‘Magistrado não é para dizer o que acha, mas para dizer o que a lei determina’, diz Nelson Jobim

Jobim esteve em Porto Alegre para um evento de segurança pública, promovido pela Escola do Legislativo da Câmara de Vereadores. Foto: Guilherme Santos/Sul21
Fernanda Canofre
Há dois anos, Nelson Jobim se tornou sócio e membro do Conselho de Administração do Banco BTG Pactual. Banco que ganhou as manchetes quando um de seus fundadores, André Esteves, teve o nome envolvido em investigações da Operação Lava Jato. Desde que deixou o cargo de ministro da Defesa, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), em 2011, Jobim saiu da cena pública. Dos 30 anos nela, quatro foram trabalhando com governos do PT, desde que o então ministro da Justiça, Tarso Genro (PT), o convidou para ajudar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a crise aérea de 2007. Segundo um perfil publicado na revista piauí, Jobim hesitou, conversou com a esposa e acabou decidindo dar o sim, comovido pelo acidente da TAM, no aeroporto de Congonhas, que matou 199 pessoas.
Antes disso, tinha sido homem de confiança de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), nos anos 1990. Foi ministro da Justiça e nomeado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por ele. Filiado ao MDB desde meados dos anos 1970, Jobim dividiu apartamento com José Serra (PSDB), foi seu padrinho de casamento e votou no tucano nas eleições de 2010, mesmo ocupando o cargo no ministério de Lula, que iria manter com Dilma.
“Eu me dou com todo mundo”, disse ele durante a entrevista ao Sul21, realizada na sexta-feira (3), durante uma passagem por Porto Alegre, para um evento promovido pela Escola do Legislativo da Câmara de Vereadores. Essa seria a explicação para o porquê do seu nome ser cogitado como um nome de “união”, nas últimas crises institucionais de Brasília, acredita.
Natural de Santa Maria, formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jobim é filho de Hélvio Jobim, advogado eleito presidente da Arena na sua cidade natal, nos anos 1970, e neto do ex-governador do Estado e embaixador, Walter Só Jobim, que participou da Revolução de 1930 ao lado de Getúlio Vargas.
Em maio de 2017, quando os áudios de Michel Temer (MDB) conversando com o empresário Joesley Batista sobre a situação de Eduardo Cunha (MDB) vazaram, Nelson Jobim era o nome forte cogitado para ser colocado em uma eleição indireta para substituir o vice de Dilma. Hoje, ele diz que “não tinha o mínimo interesse” em aceitar.
Mesmo de fora, porém, continua sendo alguém com muito a dizer sobre o que acontece no cenário político brasileiro. Ainda pareça tomar cuidado na fala. Em entrevistas, avaliou como errada a decisão da presidente do STF, Carmen Lúcia, de votar o habeas corpus de Lula antes da questão da prisão após condenação em segunda instância. Homem que aproximou os governos do PT das Forças Armadas e conseguiu enterrar o debate sobre revisão da Lei da Anistia no Supremo, Jobim diz que o deputado Jair Bolsonaro (PSL) não representa o pensamento dos militares brasileiros.
Na entrevista abaixo, ele fala sobre o cenário atual da política e do Judiciário, porque decidiu ficar de fora do pleito deste ano e o que acha de como o Brasil lida com o passado da ditadura militar:
Sobre ser candidato: “Já passou e já virei a página” | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: Quando vazaram os áudios de Michel Temer com o empresário Joesley Batista, da JBS, se falava sobre a possibilidade de eleições indiretas, seu nome era apontado como um dos favoritos. O senhor teria aceitado se postular?
Nelson Jobim: Trabalhar com “se” é muito difícil. Aquilo foi ideia que surgiu de outros. Eu estou fora da política há muito tempo. Fiquei trinta e poucos na atividade pública, agora estou em atividade privada, não tinha o mínimo interesse em fazer isso.
Sul21: Seu nome era colocado como possibilidade porque o senhor era visto como alguém que poderia “unir”. O senhor se enxerga dessa maneira?
Jobim: Eu me dou com todo mundo. Esse é o juízo dos outros. Não avalio o juízo dos outros em relação a mim. Ou seja, eu tenho relação com todo mundo, passei por várias áreas, vários setores, fui razoavelmente bem em cada um deles, então, as coisas agora encerraram.
Sul21: Esse ano circulou na imprensa que o senhor teria perdido o prazo para regularizar sua situação partidária e ter possibilidade de ser o candidato do MDB. O jornal do O Estado de São Paulo disse que o senhor recorreria no Tribunal Regional Eleitoral.
Jobim: Não houve nenhum problema, estava tudo correto. Não lembro o que era, porque isso foi conduzido pelo partido em Santa Maria. Era só para regularizar a situação, porque eu não tinha nenhum interesse em ser candidato. Não aceitei, inclusive, qualquer tipo de candidatura. Está tudo regularizado agora, sou filiado desde 1970 e poucos. Só ficou suspensa a filiação durante o período que eu fui membro do Supremo Tribunal Federal.
Sul21: Intenção de ser candidato o senhor não tem?
Jobim: Nenhuma (risos).
Sul21: Há uma ala do MDB que gostaria de ter o senhor como candidato presidencial do partido. 
Jobim: Houve sim, eu fui sondado diversas vezes. É aquelas coisas de sempre. Mas não é possível.
Sul21: Por que não, ministro?
Jobim: Porque já passou. Já passou e já virei a página.
Sul21: E a possibilidade de ser vice em alguma chapa? Em 2006, o senhor foi sondado para ser o vice de Lula na campanha de reeleição. 
Jobim: Fui, mas muito remotamente. Agora estou com mais de 70 anos, tenho que sossegar um pouco. Estou fora.
Sul21: Isso tem a ver com alguma frustração com a política?
Jobim: Não, eu viro a página. Não é frustração com a política, mas agora estou fazendo outra coisa. Gosto do que estou fazendo e ponto.
“O habeas corpus de Lula era uma matéria subordinada à decisão. Foi votado o subordinado antes do subordinante” | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: Em entrevistas recentes, o senhor criticou a decisão da presidente do STF, ministra Carmen Lúcia, em ter pautado a decisão sobre o habeas corpus do ex-presidente Lula antes de discutir a Ação de Declaração de Constitucionalidade (ADC), sobre execução da pena após condenação em segunda instância. Por quê?
Jobim: Ela tinha que julgar primeiro a matéria abstrata, ou seja, onde não era fulanizado o processo. Discutia-se a tese, em que havia, inclusive, a possibilidade de que essa tese fosse vencida. Mas, venceu colocar em pauta o habeas corpus que era uma questão específica. Tanto é que criou-se um ambiente difícil dentro do tribunal, inclusive, para a ministra Rosa Weber, que tem uma posição de obedecer o colegiado e ficou aquele problema: havia uma decisão do colegiado anterior, sobre o problema da segunda instância, que não tinha sido reformada, ela teve que votar contra o habeas corpus ao Lula, por isso. Mas, como seria se tivesse sido votada primeiro a matéria principal? Ou seja, o habeas corpus de Lula era uma matéria subordinada à decisão. Foi votado o subordinado antes do subordinante.
Sul21: O que o senhor achou do vaivém de decisões sobre outro habeas corpus de Lula, no dia 8 de julho?
Jobim: Eu não conheço bem o caso em si, mas foi algo que ficou marcado. Marcado pelo fato de que, num determinado momento, um juiz que estava em férias, decide interromper suas férias para voltar a tomar jurisdição. Não estou dizendo que a decisão tenha sido certa ou errada, sobre um habeas corpus que eu não conheço, mas acho curioso que, quem está sem jurisdição, porque está gozando de férias, acabe interrompendo as férias para se opor a uma decisão ou outra. Mostra que havia um certo tumulto ali.
Sul21: Como deputado constituinte, o senhor participou da comissão responsável por discutir a separação de poderes. Há poucos minutos, ouvimos o juiz Leandro Paulsen, presidente da 8ª turma do TRF4, que condenou Lula, falando que gostaria que o Judiciário fosse “menos ideológico”. Como o senhor observa isso? 
Jobim: Há uma certa disfuncionalidade. As instituições estão funcionando, mas há uma certa disfuncionalidade. A disfuncionalidade está na Câmara, no Executivo, no próprio Judiciário. Há um momento em que o velho está terminando e o novo ainda não pode nascer.
Sul21: Como se resolve isso?
Jobim: As coisas acabam se acertando. As coisas vão andando e a lucidez começa a tomar, porque o que ocorre hoje no Brasil, principalmente em termos de política, é que tem uma variável nova que é o ódio. O adversário não é mais adversário, é inimigo. Então, você obstruiu qualquer tipo de diálogo e a política é, claramente, o diálogo dos controversos. Ou seja, onde adversários têm que dialogar para criar uma solução alternativa que possa conduzir o país para frente.
“Se quiser fazer alguma coisa para sustentar “o que acha”, então tem que entrar na política. É lá, no Parlamento, que você tenta sustentar ponto de vista” | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: O senhor concorda com uma frase que vem sendo muito repetida, de que hoje temos a judicialização da política e a politização do Judiciário?
Jobim: Ah, não há dúvida. Ocorre que os partidos políticos e os setores políticos não conseguiram resolver suas divergências e acabaram levando para o Judiciário. O Judiciário não intervém voluntariamente em questões, ele é sempre demandado por alguém e quem demanda são exatamente as entidades políticas. Houve um momento, anos atrás, quando eu estava no Tribunal Eleitoral, principalmente, e no Supremo, em que não havia entendimento dos políticos, o sujeito era derrotado em uma decisão qualquer, recorria ao poder Judiciário. Então, houve um deslocamento muito forte em relação às divergências políticas não ajustadas, exatamente pela falta de diálogo. Esse fato, de ter ido para o Judiciário, começou a determinar um certo sabor a alguns juízes, a alguns magistrados, de começar a invadir, a tomar decisões, que não são propriamente as decisões que estão na lei, mas sim as decisões que ele acha que deveria ser. Aí você entra num momento muito complicado. Uma coisa é o seguinte, magistrado não é para dizer o que ele acha, mas para dizer o que a lei determina. Se quiser fazer alguma coisa para sustentar “o que acha”, então tem que entrar na política. É lá, no Parlamento, que você tenta sustentar ponto de vista.
Sul21: O senhor acha que, em geral, é essa a situação que temos visto?
Jobim: Está avançando muito isso. É uma espécie de tentativa de alguns setores do Judiciário, não todos, de extrapolarem a função judicial para pretender – inclusive, passa-se isso com o Ministério Público – ser o gestor, determinar os atos de gestão e os atos de políticas públicas propriamente ditas.
Sul21: Há uma interpretação de que Lula é preso político. O senhor concorda?
Jobim: Aí já é difícil. Ser preso político é um juízo de valor, de natureza política. A questão é que temos uma série de processos em relação ao ex-presidente, as coisas estão sendo postas dessa forma, mas ele não é acusado de ter praticado crime político. Portanto, a questão não é política. Agora, evidente que eu não conheço os processos, o Zé Paulo [Sepulveda] Pertence, que foi meu colega no Supremo, é um dos advogados do presidente, lamento a forma como as coisas têm sido conduzidas, mas não conheço os detalhes do procedimento.
Sul21: A afirmação levaria em conta o contexto das eleições deste ano, onde ele pode ser impedido de concorrer por ocasião da prisão. 
Jobim: A tese que está sendo posta é que esse processo todo se destinaria a isso. Agora, eu não posso afirmar isso. Se é ou não é, mas isso é uma consequência.
Sul21: O senhor tem uma posição bastante definida em relação à execução da pena antes do trânsito em julgado. Ou seja, da prisão após condenação em segunda instância, quando ainda cabe recursos. Pode explicá-la?
Jobim: Sim, eu sou contra. Porque nós discutimos isso em 1988. Essa matéria foi discutida lá, estabelecendo que a presunção de inocência vai até o trânsito em julgado da sentença. Imagina o seguinte, se você não tem a presunção de inocência e tem pena de morte, como funciona? Veja, o problema da presunção da inocência não é algo que vá criar impunidade, é direito do cidadão. A segurança pública não é para o Estado, é para o cidadão. O cidadão é que é o destinatário de tudo. Portanto, não pode se pensar que um personagem estranho chamado “a sociedade” tem que ser protegido. Sociedade é um conceito abstrato, quem vive no mundo são os indivíduos, são os cidadãos.
“O fato de Bolsonaro ter sido militar não significa que é algo que venha dos militares. Isso é confundir as coisas” | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: Como alguém que foi ministro da Justiça, como o senhor avalia o impacto que isso pode ter, caso o entendimento seja mantido, para a manutenção do sistema prisional brasileiro, que já vive uma crise?
Jobim: É um grande problema. O que a gente observa no sistema de segurança pública, que não é a polícia só, é que se tem um problema em todo o sistema. Ou seja, você pega as polícias, as ostensivas que são as militares, que fazem vigilância das cidades, pega a Civil que é investigatória, a Federal, se fala sempre como se o sistema de segurança fosse exclusivamente isso, não é. O Ministério Público é responsável também, o poder Judiciário também é responsável. O que temos hoje, basicamente? Uma grande disputa entre essas entidades que são a base do sistema, não temos integração [entre elas]. As pessoas dizem apenas que não são responsáveis por aquilo. As corporações são muito fortes, no sentido de não abrir espaço…Mas isso vai se resolver.
Sul21: O senhor foi ministro da Defesa nos governos de Lula e Dilma. Durante este tempo, os governos do PT conseguiram ter uma boa relação com as Forças Armadas. Como o senhor avalia a candidatura de alguém como o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que se apresenta como candidato das FFAA?
Jobim: Mas não é. Ele é um capitão que saiu do Exército e virou político, o que é normal. As Forças Armadas brasileiras não tem nenhuma atividade política hoje. Ou seja, você não tem mais aquilo que se tinha antes do golpe de 1964, em que você tinha políticos-militares ou militares-políticos. Hoje são todos profissionais, submetidos ao sistema constitucional e ao poder civil.
Sul21: Pelo o que o senhor conhece das Forças Armadas, acha que o projeto dele os representa?
Jobim: Não, não é projeto das Forças Armadas. O fato de ele ter sido militar não significa que é algo que venha dos militares. Isso é confundir as coisas. Ele está fazendo um discurso que atende setores que estão saturados. Em relação à segurança pública, ao cansaço do politicamente correto, essas coisas todas. É verdade que há um viés na sociedade, no Brasil todo, que tem esse problema de achar que temos que pensar na proteção do cidadão e não propriamente na garantia dos direitos. Essa dicotomia que cada vez mais vai se agravando. Nós contra eles.
Sul21: O senhor acredita que existe a possibilidade de ele se eleger? Em cenários de pesquisa, sem o ex-presidente Lula, ele aparece como favorito. 
Jobim: É difícil dizer quem vence. Competitivos? Bolsonaro é competitivo. O candidato que for indicado pelo presidente Lula, no Partido dos Trabalhadores, também é competitivo. O PSDB, com esses trabalhos todos que foram feitos pelo Geraldo Alckmin agora, também se tornou competitivo. Tem a Marina Silva, que é competitiva. O Ciro Gomes também é, mas muito estridente. A estridência do Ciro lhe cria problemas.
Sul21: Ou seja, impossível fazer projeções agora?
Jobim: Não tem, porque as pesquisas que mostram fulano com 20%, ciclano com 30, etc, são pesquisas que mostram que 60% não está interessado no assunto. O que vai acontecer com esses 60%? Observa que é um fenômeno mundial esse problema do desprezo à política, etc. Surgiu um fato novo, ultimamente, que é ter voz através das redes sociais. Antes, a voz se dava sempre através de. Agora, o sujeito se sente legitimado a ter a voz e você manobra através disso. Há também manipulação.
“Você não constrói futuro retalhando o passado. Você queima uma energia imensa com a retaliação do passado” | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: Há poucas semanas, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Estado brasileiro pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido em 1975, durante a ditadura militar. O Ministério Público Federal anunciou esta semana que vai reabrir o caso. Em uma entrevista ao Sul21, o jurista Fábio Konder Comparato, autor da ação que pediu a revisão da lei de anistia no STF, em 2009, disse que ouviu de um ministro que houve um jantar, na noite anterior à votação, em que o senhor, então ministro da Defesa, e o ex-presidente Lula pediram que eles rejeitassem a ação. O senhor confirma isso? Qual sua posição hoje a respeito?
Jobim: Jantar não houve. Eu continuo entendendo que o assunto da Anistia se encerrou, é um problema que foi resolvido naquela época, foi a forma política pela qual os militares saíram do governo, então não podemos voltar atrás. Aquilo foi bilateral.
Sul21: Nunca houve essa recomendação do governo, para que se rejeitasse?
Jobim: Eu participei. Como ministro da Defesa, tive contato, inclusive levando material para sustentar a defesa da Lei de Anistia. Mas, o presidente não. Ele não se envolveu nisso.
Sul21: O senhor não acha que o fato de nunca termos tido punição a esses crimes, hoje, ajuda movimento pró-intervenção militar, o revisionismo histórico que se cultiva?
Jobim: Não vale a pena. Nós temos que compreender o seguinte. Você não constrói futuro retalhando o passado. Você queima uma energia imensa com a retaliação do passado. Normalmente, quem pretende retaliar o passado é porque quer fazer uma afirmação de visibilidade no futuro. Hoje, se confunde muito transparência, nos setores públicos, com visibilidades individuais.
Sul21: Dê um exemplo. 
Jobim: Não, não dou exemplo não (risos).
Sul21: Mas o senhor não acha preocupante ter como um dos favoritos nas eleições um candidato que fala do Coronel Brilhante Ustra, um torturador processado e reconhecido, como um herói nacional?
Jobim: Mas isso é democracia, não podemos proibir. Você não pode preterir proibir alguém, senão teria um sábio e não precisaria ter processo. Quem tem que resolver isso é a eleição.
Sul21: Em uma entrevista ao Conjur, o senhor falou de uma frase que aprendeu com seu avô. “Se estiver na dúvida sobre qual caminho seguir, siga o que o arrependimento for eficaz”. O senhor tem arrependimentos nesses anos de vida pública?
Jobim: Não, não tenho arrependimento nenhum. A frase se destina ao seguinte, quando você tem dúvidas do que vai fazer, faço A ou faço B, não tem nenhuma razão objetiva para escolher, tem que escolher o caminho que o arrependimento for eficaz. Se tu escolhe o caminho A, depois se arrepende, volta para trás. Agora, se escolhe o B e o B não adianta voltar, então escolha o A que é mais pragmático. Sempre fiz assim. É ótimo. Eu sempre tive mais sorte do que juízo.

sábado, 11 de julho de 2015

Dilma, Xangai e o sopro de esperança (Saul Leblon)

Postagem 11/jul/2015...

Dilma, Xangai e o sopro de esperança

A proteção ao emprego anunciada por Dilma mostra que é possível repactuar a economia fora da receita neoliberal para o Brasil.

por: Saul Leblon
10/07/2015 00:00
Roberto Stuckert Filho/ PR

















A Presidenta Dilma Rousseff fez três movimentos nas últimas horas que podem ser relevantes se refletirem o sopro de um vento novo, não a reatividade efêmera dos abanos em ambientes sufocantes.

Seu efeito mais visível foi sacudir a resistência ao golpe que o conservadorismo discute abertamente no país.

Há aqui uma hierarquia a destacar, cuja importância não é negligenciável.

Não foi o golpismo que gerou a convergência progressista das últimas horas.

Foi a contundência de Dilma em denuncia-lo, e a determinação de combate-lo, que imantou forças e vozes até então esmorecidas e dispersas.

Bingo número um: não haverá resistência sem que o principal protagonista político da trama participe, articule  e convoque a sociedade.

Na Grécia, Tsipras foi às ruas defender o ‘Não’ contra o jogral midiático que amplificava o cerco dos mercados.

Não o fizesse, hoje seria um cadáver político, arrastando seu partido junto para o descarte da História.

No Brasil, a movimentação presidencial sacudiu uma letargia exasperante que se arrasta há oito meses.

Uma das principais avenidas do trânsito golpista atual é a prostração decorrente do fosso aberto nesse período entre o governo reeleito em 2014 e a sua base social.

Em reunião no Palácio, na 2ª feira, Dilma revalidou a aliança com o PMDB não putchista.

Embora limitada, e como toda composição, um equilíbrio precário entre forças diferentes, seria um erro menosprezar esse diálogo.

Por dois motivos.

Um, setores democráticos subsistem no PMDB (o bravo senador Roberto Requião é um exemplo); dois, a prioridade crucial agora é impedir a ampliação da Liga dos Golpistas.

Todo esforço conservador consiste em remar na direção oposta: trazer integralmente o PMDB para a articulação da qual Eduardo Cunha é um operador desabusado.

Ao terceirizar a Câmara Federal à Liga dos Golpistas, Cunha já arregimentou amplas fileiras do PMDB e dos nanicos à conspiração aberta.

Na entrevista ao veículo da família Frias, na 3ª feira, Dilma afrontou esse aluvião num de seus veios mais salientes.

Debulhou-o em bateia assertiva e desassombrada.

O editorial da Folha acusou a pancada na 4ª feira.

Com dificuldade para ocultar as próprias digitais no cerco à Presidenta, o jornal grunhiu a esperança de que tribunais façam o serviço sujo de derruba-la. E fungou à matilha adestrada em mastigar a chefe da nação:

‘Ainda não é o caso’ (Folha; editorial 08/07/015).

Não se pode subestimar os maxilares dessa gente.

Seu histórico compõe um calendário de escombros da legalidade, que se renova cada vez que o interesse popular trisca ou ameaça o privilégio elitista.

Foi assim em 1932, 1954, 1964, 2002, 2006, 2010, 2014...

A mitigação contida no ‘ainda’ da Folha, reflete, de qualquer forma,  o temor de uma resistência imprevisível.

‘Venha tentar. Venha tentar (dar o golpe)’, desafiou Dilma ao predador que saliva diante da presa, sem saber exatamente do que ela é capaz.

Bingo número 2: é fundamental dar ao golpe o seu nome, expor à nação aqueles que adestram o seu conformismo para a ‘fatalidade’.

Dilma é capaz de variadas modalidades de resistência.

Não é hagiografia, é uma questão de biografia.

Em situações até mais extremadas, não hesitou.

Diante da articulação de elites e rentistas, amplificada pela mídia que mastiga diuturnamente a legitimidade dos seus 54 milhões de votos, por que hesitaria agora?

Na reunião com as centrais sindicais no Planalto, no mesmo dia, para apresentar uma salvaguarda de emprego e renda diante da crise, deu-se a terceira e mais importante inflexão da Presidenta.

Mais do que em todas as outras, reside aqui, talvez, a chave da interrogação que tanto atemoriza a Liga dos Golpistas.

Ainda há espaço para uma repactuação do desenvolvimento que reaproxime governo, forças progressistas e setores produtivos?

Bingo número 3: essa é a pergunta de um milhão, que o movimento de Dilma repôs, a contrapelo dos interesses que negam a sua pertinência.

A Política de Proteção ao Emprego, anunciada no momento em que o exército de demitidos atinge 8% da população ativa, carrega relevância econômica e social específica.

Porém, mais que isso.

A PPE é o filho temporão de uma outra lógica de enfrentamento da crise.

Nascido tardiamente, oito meses após a deflagração de um programa de ajuste ortodoxo, deveria --e, como se vê , poderia, tê-lo antecedido.

Tivesse sido o primogênito da reeleição, teria demarcado uma outra lógica ordenadora da transição de ciclo de desenvolvimento no país.

Essa é a força do PPE:  ser o protótipo de algo maior, uma câmara de negociação política para a reordenação em curso da economia; uma ferramenta da democracia para se contrapor ao cavalo xucro da crise capitalista (*leia ao final desta nota um resumo do funcionamento do programa). Uma espécie de ‘Grécia’ a transgredir normas e interditos da hegemonia ortodoxa imposta ao manejo da crise brasileira.

Lateja na lógica da PPE aquilo que a Liga dos Golpistas mais teme: a semente de um aggiornamento na luta pela democracia social brasileira; a ponte política que não desmonta, nem implode salvaguardas e padrões de estabilidade já conquistados, mas ergue as linhas de passagem para o futuro, calafetando o vácuo de onde emergem as manifestações mórbidas da crise.

Quais?

As que avultam no coreto golpista, onde a banda dos cunhas, aécios, caiados, kins catupirys, sardenbergs e assemelhados faz gato e sapato da legalidade.

Homólogos da radicalização da direita urbi et orbi, eles engrossam o pelotão dos gansos sinaleiros da crise capitalista que, paradoxalmente, insiste em declara-la superada, sendo espancados pela sua ressurgência no momento seguinte.

Um episódio resume todos os demais: campanha de 2014, debate na Globo entre o ex-ministro Guido Mantega e o centurião dos mercados e assessor de Aécio, Armínio Fraga. Mirian Leitão interrompe Mantega abrupta e peremptória:

'A crise mundial passou; o problema é o Brasil'.

Sim, o Brasil, grasnam os gansos sinaleiros, ‘a’ ilha de crise num mundo de oceânica prosperidade.

A bofetada da vez nessa turma veio do derretimento de três trilhões de euros na Bolsa de Xangai.

Por trás do ploft da bolha, encontra-se a valorização anual descabida de 150% nos preços das ações – em meio a um ciclo de desaceleração da economia chinesa.

Os ingredientes tóxicos da farmacêutica neoliberal,  vendida aqui como receita virtuosa para o país, estão aí resumidos.

Quais sejam, a decantada capacidade de autorregulação dos mercados e, sobretudo, a proficiente da racionalidade financeira para ordenar o crescimento de uma nação.

O saldo da crença, mais uma vez, não corresponde ao enunciado miraculoso.

O empoçamento de capitais na roleta global, em detrimento da máquina produtiva, explica boa parte da valorização artificial de papeis em Xangai e alhures, adquiridos por milhares de pequenos aplicadores que tomam dinheiro a juro para alicerçar pirâmides de ações  (leia a análise de Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a recorrência das bolhas na desordem neoliberal).

Ao primeiro tranco da liquidez volátil e pró-cíclica que opera à moda das manadas, dá-se a mutação do fastígio (acionário, imobiliário etc) em ruína e pó.

Um novo 1929 foi abortado na China pelas armas da repressão policial a especuladores, ademais da inclemente ação de bordoadas estatais que causam calafrios nos sacerdotes da autorregulação.

Elas vieram na forma de proibição de vendas das carteiras de grandes especuladores; congelamento da negociação de 50% das ações; aquisições impositivas e irrigação de recursos para deter a desova de pequenas acionistas.

O empoçamento da liquidez que faz estragos em Xangai, Londres, Paris ou São Paulo corresponde ao empoçamento do futuro na vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Já foi transcrito neste espaço o desabafo da insuspeita OCDE: grandes empresas mundiais estão sentadas em trilhões de dólares em caixa, mas não investem em produção.

Por quê? Porque falta no mundo aquilo que sobrava no Brasil, mas a ortodoxia está tratando de desidratar: empregos, demanda, ordenação pública do investimento, corrida à infraestrutura.

Sem consertar esse motor quebrado da economia mundial, a OCDE, que agrega as 35 economias mais ricas, vê com ceticismo a superação da crise capitalista, lipoaspirada por essas bandas como ‘a crise do PT’.

Em um mundo de sobras humanas, parte despejada no Mediterrâneo, parte no desemprego, salgadas com o sódio grosso desigualdade, os investimentos globais definham sete anos após a implosão da ordem neoliberal, em 2008.

O paradoxo que desalenta a OCDE e o próprio FMI (leia ao final duas notas técnicas do Fundo sobre a necessidade de controlar a farra financeira) ilustra a gravidade dos desafios enfrentados na luta pelo desenvolvimento nos dias que correm.

Fatos que precisam ser sublinhados, mais uma vez, diante do alucinado diagnóstico de que a retomada do desenvolvimento brasileiro é mera questão de faxina ‘no intervencionista lulopopulista’:

a) o investimento fixo (em bens de produção) nos países ricos e  já neoliberalizados como se quer aqui, está em média 17% abaixo do patamar de 2008;

b) o fluxo global de investimentos estrangeiros produtivos voltou a declinar em 2014;

c) mais de 200 milhões de pessoas continuam desempregadas – número 30 milhões superior ao período anterior à crise;

d) nos países desenvolvidos (já neoliberalizados), a renda média dos 10% mais ricos equivale hoje a quase dez vezes a renda média dos 10% mais pobres --contra a sete ou oito vezes há uma geração.

e) enquanto governos carecem de capitais para obras de infraestrutura, a OCDE informa que investidores institucionais tinham US$ 57 trilhões sob sua gestão no fim de 2013, o equivalente a 120% do PIB somado de todo os países ricos.

Alguma surpresa que esse paiol em chamas produza Xangais em série?

Companhias com os cofres abarrotados destinam fatias crescentes de seus lucros aos acionistas, grandes investidores especulativos e à recompra das próprias ações.

O onanismo rentista financia surtos de alta (bolhas) de ativos, seguidos de crashs dantescos, sem que se esboce uma coordenação mundial para reprimir a farra, com a contundência exibida agora pela China. A emergencia dos BRICs, reunidos em Moscou, é o único e promissor ensaio nessa direção, sugestivamente minimizado pelo dispositivo neoliberal.

É preciso extrair consequências dessas causas.

A mais importante delas nos leva de volta à semente de esperança contida no programa de defesa do emprego lançado pela Presidenta Dilma, em bem-vinda reação ao cerco golpista que a desafia.

Não cabe ilusões.

Políticas de desenvolvimento não lograrão êxito no século XXI –ainda que os preços estejam alinhados, como quer Levy— se não forem providenciados instrumentos de proteção contra a supremacia da lógica rentista.

Carta Maior considera que o PT subestimou a extensão desse descolamento do capital em relação ao seu projeto de desenvolvimento para o Brasil.

A subestimação explica, em parte, que se tenha apostado em uma regeneração das condições de mercado anteriores à crise de 2008.

Mais que isso. Que esse erro de cálculo histórico tenha levado a dois outros, interligados.

O primeiro, insistir apenas na prorrogação de estímulos ao consumo quando medidas estruturais de autoproteção do desenvolvimento deveriam ter sido tomadas diante da desordem financeira que veio para ficar –e da qual a crise de 2008 era um regurgito metabólico, não um soluço passageiro. Por exemplo, o controle de capitais em 2008, quando o próprio FMI o endossava.

O segundo, nos dias que correm, render-se à gororoba da assepsia neoliberal no momento em que os desequilíbrios macroeconômicos explodem no país e uma repactuação política do desenvolvimento figura como a verdadeira alternativa ao descontrole.

Ilusão resgatar essa alternativa agora em que o cerco golpista se estreita?

Mais ilusório, repetimos, é supor que a roda da democracia social poderá ser destravada aqui sem esse repto.

A política de valorização do emprego encerra, em ponto pequeno, aquilo que o campo progressista –e o governo Dilma--  está desafiado a construir a toque de caixa, em resposta ao emparedamento econômico e político em curso.

Basicamente, a PPE reúne Estado, centrais sindicais e  setores produtivos, com triplo objetivo: a) preservar empregos; b) reduzir custos diante de queda de vendas e c) mitigar a perda de receita fiscal diante da recessão.

Trata-se, enfim, de baixar o metabolismo da economia de forma negociada e, sob controle pactuado, transitar rumo a um novo ciclo de crescimento com justiça social.

Esse é o corredor estreito da esperança que foi reaberto pela inflexão da Presidenta Dilma nos últimos dias.

Alargá-lo não é uma questão de fé.

É obra inadiável: dela, porém, só o discernimento histórico das frentes progressistas em formação –e a grandeza de suas lideranças-- poderá dar conta.

O tempo urge.

(*)  Para saber mais (I)


Síntese da Política de Proteção do Emprego

A PPE reduz  a jornada de trabalho e o salário em até 30% durante seis meses, prorrogáveis por mais seis. Não pode haver demissão nesse período; o saldo do FGTS fica preservado, assim como todos os direitos trabalhistas. Os trabalhadores inscritos no programa terão estabilidade quando de seu término (para duração de 6 meses, 2 meses de estabilidade e para duração de um ano, 4 meses). O teto para a redução de jornada e de salário é de até 30%, definido por acordo coletivo, negociado com o sindicato da categoria. O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) complementa 50% deste percentual. Se o PPE evitar a demissão de 50 mil trabalhadores  o governo gastará R$ 112,5 milhões em complementações durante seis meses. Sua receita porém será da ordem de R$ 181,3 milhões em contribuição previdenciária, ademais de economizar  R$ 291 milhões em seguro-desemprego. 

Para saber mais (II)


Notas técnicas do FMI 

Estados Unidos: Programa de Avaliação do Setor Financeiro – Supervisão e Gestão de Risco Sistêmico –

 A importância de reforçar o monitoramento do risco sistêmico e construir ferramentas macroprudenciais eficazes é amplamente reconhecida. Nos Estados Unidos, onde os mercados financeiros exibem um maior grau de heterogeneidade que em outros países, e onde o monitoramento e a regulação são responsabilidade de uma série de diferentes agências especializadas, é especialmente clara a necessidade de construir estruturas que garantam o compartilhamento de informações interagências, de preencher lacunas na regulamentação, obter um bom panorama dos riscos sistêmicos e desenvolver uma estrutura eficaz e cooperativa para enfrentar as eventuais ameaças à estabilidade financeira. Este artigo revisa estes processos nos Estados Unidos, bem como analisa os progressos alcançados quando diversas áreas importantes de risco foram identificadas, particularmente no setor não bancário.

A criação do Conselho de Monitoramento da Estabilidade Financeira (FSOC), em 2010, preencheu uma lacuna importante na estrutura da estabilidade financeira dos Estados Unidos, e é central na resposta regulatória aos problemas que atingiram o setor financeiro em 2007-2009 . A Lei Dodd Frank (DFA) atribui ao Conselho uma série de poderes que lhe permitem responder às ameaças emergentes à estabilidade financeira . Na prática, o Conselho trabalha principalmente através de comunicação reforçada, consulta e coordenação do trabalho das agências reguladoras financeiras dos EUA; a eficácia do FSOC depende amplamente do sucesso do Conselho em construir e pôr em prática um objetivo coletivo e comum às agências reguladoras financeiras dos EUA para identificar e tratar os riscos sistêmicos, e para trabalhar juntos pela promoção da estabilidade financeira. O trabalho empreendido pelo FSOC é bem-vindo. Contudo:

- O propósito coletivo e a responsabilidade do FSOC seriam reforçados se cada agência-membro e cada membro recebesse a missão explícita de promover a estabilidade financeira e, portanto, apoiar o trabalho do FSOC (sujeito à missão e objetivos das agências-membros e dos membros).

- Outras ações são necessárias para: melhorar a base de dados; superar obstáculos ao compartilhamento de dados; apoiar a coordenação e a consulta sobre normas e regulamentações prudenciais; aprimorar as estruturas de monitoramento de riscos; proporcionar maior clareza sobre a natureza e a escala de ameaças sistêmicas emergentes identificadas; e reforçar a transparência e a propriedade coletiva das ações necessárias ao enfrentamento dos riscos identificados, através do esclarecimento e da publicação dos desdobramentos específicos, além de deixar claras as responsabilidades, incluindo o cronograma esperado para a implementação e a comunicação dos resultados.

- O desenvolvimento de ferramentas macroprudenciais ainda está em andamento; as agências-membros e os membros do FSOC devem continuar concentrados em medidas para responder ao aumento dos riscos cíclicos e setoriais e para fortalecer a resiliência aos riscos dos mercados financeiros; assim como deixar claro a estrutura para a implementação de políticas macroprudenciais.

(Nota do FMI 02)

Estados Unidos: Programa de Avaliação do Setor Financeiro – Avaliação de Estabilidade do Sistema Financeiro.

Passos bem-vindos foram dados em direção ao fortalecimento do sistema financeiro. O Conselho de Monitoramento da Estabilidade Financeira (FSOC) consiste hoje em um fórum útil para um trabalho coordenado; o perímetro regulatório foi expandido; o compartilhamento de informações entre as agências melhorou; testes de estresse estão levando a mudanças na avaliação e gestão de risco; e novos poderes de resolução foram estabelecidos.

Antes que a memória da crise comece a se apagar, será importante completar a agenda de reformas e resistir a tentativas de derrubar medidas anteriormente acordadas. É, portanto, fundamental que a regulação iniciada pela Lei Dodd-Frank (DFA) seja completada e que diversas outras medidas já acordadas comecem a ser postas em prática. A paisagem regulamentar continua fragmentada, resultando em lacunas, sobreposições, e em respostas potencialmente tardias a riscos emergentes, e por isso deve ser simplificada. Enquanto o FSOC tem dado passos importantes para lidar com o problema de instituições ‘Too-Big-to-fail' (grandes demais para ir à falência), normas aperfeiçoadas para instituições não bancárias precisam ser postas em prática. Falhas fundamentais são encontradas no financiamento habitacional, nos fundos mútuos do mercado monetário e nos acordos de recompra tripartidos, e é preciso considerar a questão do mercado de empréstimo de títulos.

Enquanto isso, surgiram novos bolsões de vulnerabilidades, em parte em resposta à busca contínua por rendimento. Enquanto a maioria dos indicadores sugere que os riscos para a estabilidade financeira diminuíram, ainda há áreas potenciais de preocupação. Bancos grandes e interconectados dominam o sistema, ainda mais do que antes. Os riscos estão elevados no setor não bancário, onde riscos "run" e "redemption" estão aumentando, como resultado de alavancagem e transformações de maturidade, e cadeias de financiamento por atacado profundamente interligadas. As seguradoras assumiram maior risco de mercado e podem ser confrontadas com um passivo a descoberto em um cenário desvantajoso.

Isso requer um foco contínuo no reforço da estrutura micro e macroprudencial. O FSOC deve ser reforçado com as agências membro recebendo uma missão explícita de estabilidade financeira. Devem ser coletados dados abrangentes necessários para a construção de uma visão clara dos riscos sistêmicos e interconexões. Uma instituição reguladora nacional independente é um imperativo para o setor de seguros para preencher lacunas em relação às normas internacionais (incluindo deficiências na avaliação e requisitos de solvência) e garantir coerência na regulamentação e supervisão. É preciso atualizar orientações de supervisão bancária para risco de concentração, operação e de taxa de juros. Deve ser completada a regulamentação pendente do setor de títulos e derivativos, e as questões sobre o funcionamento eficaz do mercado devem ser tratadas à medida que surgirem. A supervisão dos gestores de ativos deve ser reforçada, incluindo requisitos explícitos de gestão de riscos, controle interno, e o esforço estruturado para realizar testes de estresse das instituições. Normas de gestão de risco para Infraestruturas do mercado financeiro precisam ser plenamente implementadas.

Finalmente, precisa ser claramente definida a responsabilidade pela prontidão e pela gestão de uma crise do sistema. O FSOC é o candidato natural para este papel. O desenvolvimento de planos de recuperação confiáveis para todas as instituições e infraestruturas financeiras importantes para o sistema será um componente importante deste trabalho.

Tradução das notas por Clarisse Meireles

terça-feira, 7 de julho de 2015

Presidente Dilma reage e avisa: governo nao acabou (Cf. Ricardo Kotscho)

Postagem 07/jul/2015...


Presidente Dilma reage e avisa: governo não acabou

Publicado em 07/07/15 às 10h59

 Presidente Dilma reage e avisa: governo não acabou
Ponham-se no meu lugar: por onde começar este texto, depois dos acontecimentos dos últimos dias e horas que, numa velocidade cada vez maior, levaram a guerra política à beira de uma crise institucional sem precedentes, trinta anos após a redemocratização do país?
Tinha ido dormir com a sensação de que o governo estava no chão e as oposições só contavam as horas para saber quando e como assumiriam o poder.
Acordei nesta terça-feira com a manchete da Folha em que a presidente Dilma Rousseff, na mais franca e contundente entrevista desde a primeira posse, reage ao cerco desfechado contra ela na última semana para avisar que o seu governo não acabou:
"O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar", desafiou, indignada com os que se movimentam para encurtar seu segundo mandato e promover um terceiro turno.
Já que ninguém se dispunha a isso, no governo, no PT e na base aliada, a presidente resolveu sair em sua própria defesa. Parece que finalmente ela se deu conta da gravidade da crise que já dura seis meses e atinge todos os setores da vida nacional. Abriu o coração, falou tudo o que estava entalado na garganta e desabafou, referindo-se a "certa oposição um tanto quanto golpista":
"Eu não vou terminar meu mandato por quê? Para tirar um presidente da República, tem que explicar por que vai tirar. Confundiram seus desejos com a realidade ou tem uma base real?".
Na festiva convenção promovida pelo PSDB no domingo, em que foi reeleito para a presidência do partido, o senador mineiro Aécio Neves, derrotado por Dilma nas urnas há apenas oito meses, já se apresentou como candidato a tomar seu lugar o mais rápido possível, com direito a jingle de campanha, claque, camisetas, e tudo.
A euforia dos tucanos era tanta que, ao perguntar a Fernando Henrique Cardoso quando seria a estreia do seu programa de televisão no Canal Brasil, Aécio ouviu a seguinte resposta do ex-presidente, em tom de brincadeira, é claro:
"Pelo ritmo que vai, quando estrear você já será presidente".
Esqueceram de combinar com o governador paulista Geraldo Alckmin, outro pré-candidato, que saiu da convenção enciumado com a babação de ovo sobre Aécio, e com o senador José Serra, que nas últimas semanas já está oferecendo seu passe ao PMDB, caso eles precisem de um nome para disputar as próximas eleições presidenciais.
Dividido como sempre e animado como nunca, o PSDB deu muita bandeira, mostrando que não está disposto a esperar até 2018. Sem apresentar qualquer proposta alternativa ao país para o enfrentamento da crise e jogando tudo apenas no desgaste da presidente, o partido oficial da oposição acabou dando munição aos que denunciam suas manobras golpistas, agora voltadas para os tribunais, com o descarado apoio da mídia hegemônica.
Com esta oposição, Dilma reuniu forças para sair da toca e ir ao ataque, no momento de maior isolamento e mais delicado do seu governo, em que apenas a lealdade do vice Michel Temer parece estar do seu lado.
Na surpreendente e corajosa entrevista concedida por Dilma a Maria Cristina Frias, Valdo Cruz e Natuza Nery, nenhum assunto ficou de fora, nem mesmo o boato espalhado na internet de que teria tentado o suicídio:
"Eu não quis me suicidar na hora que eles estavam querendo me matar lá (quando foi presa durante o regime militar), a troco de quê eu quero me suicidar agora?".
Para deixar clara sua disposição de resistir às tentativas golpistas e retomar a iniciativa da agenda, hoje nas mãos do líder de fato da oposição, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, durante toda a segunda feira a presidente manteve reuniões com a coordenação política do governo e líderes e presidentes dos partidos da base aliada.
Dois são os próximos desafios de Dilma: o julgamento das contas do governo, com as chamadas pedaladas fiscais, no TCU, e o das suas contas da campanha eleitoral, no TSE. É das decisões a serem tomadas nestes tribunais, possivelmente ainda este mês, que dependerão os próximos capítulos desta guerra política sem quartel, e sem fim à vista. Preparem seus corações.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Merkel liga para Obama: “me grampeou também”? (Fernando Brito)

23 de outubro de 2013 | 16:53

grampo

Merkel liga para Obama: “me grampeou também”?

Da Reuters, agora há pouco:

O governo alemão obteve informação de que os Estados Unidos podem ter monitorado o telefone celular da chanceler Angela Merkel, e ela telefonou para o presidente dos EUA, Barack Obama, nesta quarta-feira, para pedir esclarecimento imediato, disse um porta-voz do governo alemão. ”Nós rapidamente enviamos um pedido aos nossos parceiros americanos solicitando um esclarecimento imediato e abrangente”, disse o porta-voz Steffen Seibert em comunicado. Ele acrescentou que Merkel havia deixado claro a Obama que se a informação for verdadeira, seria “completamente inaceitável” e representaria uma “grave quebra de confiança”.
Obama negou, segundo o USA Today, a espionagem. Mas, claro, ninguém acredita.
Brasil, México… Agora, França e Alemanha…
E  houve uns bobalhões que reclamaram da Presidenta Dilma Rousseff ter falado grosso sobre isso no discurso da ONU. Era uma “bravata nacionalista”…
De tanto vergar a coluna, estas pessoas não percebem que diplomacia, muitas vezes, se faz com exemplos, que fixam posições que, mesmo não produzindo resultados imediatos, abrem caminho para entendimentos e composições que afetam o futuro.
Hollande e Merkel, a esta altura, estão levando a posição do Brasil bem mais a sério.
Por: Fernando Brito

(http://tijolaco.com.br/index.php/merkel-liga-para-obama-me-grampeou-tambem/).

domingo, 6 de outubro de 2013

O apocalipse não está na esquina (Antônio Delfim Netto. Entrevistado por Amauri Segalla)

A SEMANA > ENTREVISTA
|  N° Edição:  2290 |  04.Out.13 - 20:55 |  Atualizado em 06.Out.13 - 18:59

Antônio Delfim Netto


"O apocalipse não está na esquina"
O ex-ministro da Fazenda critica a onda de pessimismo e diz que desconfianças do setor privado em relação ao governo Dilma não se justificam
por Amauri Segalla
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OTIMISMO
Delfim em seu escritório: “Crise não existe”
O paulista Antônio Delfim Netto é uma voz dissonante do recorrente pessimismo demonstrado por alguns analistas de mercado e empresários a respeito dos rumos da economia brasileira. Aos 85 anos, esse professor emérito da Universidade de São Paulo e ex-artífice do milagre do crescimento durante a ditadura militar não acha que o País vai de mal a pior, como argumentam os críticos do governo Dilma Rousseff, e vê como injustificada a desconfiança do setor privado. “O apocalipse não está na esquina”, diz Delfim. Nesta entrevista, concedida às 8 horas da manhã (horário em que começa a dar expediente) em seu escritório na zona oeste de São Paulo, ele fala também sobre o fracasso dos programas de concessões, compara o estilo da presidenta com o de seu antecessor e elogia a decisão de Dilma de cancelar a visita oficial que faria aos Estados Unidos. E, claro, destilou o veneno de sempre. “Enquanto no PT o aparelhamento do Estado é com o companheiro de passeata, no PSDB é com o companheiro de tertúlias.”
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"O Lula tem uma inteligência intuitiva. No fundo, ele foi 
um grande acidente positivo na história brasileira”
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“Ao cancelar a visita aos EUA, Dilma mandou um recado claro 
a Obama: Ok, vocês são mais fortes, mas têm moral duvidosa"
 

ISTOÉ -
Afinal, existe ou não uma crise econômica no Brasil? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Crise não existe. O que existe é um pessimismo muito superior àquele justificado pelos fatos. Dizem que abandonaram-se os fundamentos indispensáveis para a boa condução da economia. Não se abandonou nada. Vamos começar pelo acerto fiscal. Você tem uma dívida bruta de 60% do PIB e um déficit fiscal de 2,5%. É uma situação desconfortável, mas que não representa nenhuma tragédia. Se você olhar bem, verá que o déficit fiscal vem sendo reduzido paulatinamente. 
ISTOÉ -
Muitos especialistas dizem que há um risco inflacionário. 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
A inflação vem se mantendo mais ou menos dentro de uma margem aceitável. Hoje, uma inflação de 6% não é baixa. Talvez haja cinco ou seis países importantes com inflação igual a essa. Não é uma inflação fora de controle, mas ela cria dificuldades, principalmente porque você tem alguns preços controlados e um dia vai precisar absorver isso. A questão é que não há nenhum risco de a inflação explodir. Por mais que muita gente diga o contrário, o fato é que o apocalipse não está na esquina. 
ISTOÉ -
O sr. não acha que há certa desconfiança do setor privado em relação ao governo? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Essa desconfiança nasceu agora, mas não é justificada. Basta olhar o que a presidenta Dilma fez. Por exemplo, a intervenção no setor elétrico. Baixar o custo de energia é fundamental. A medida está certa. Em dois ou três anos, ela vai resultar no aumento da eficiência das empresas. O problema é que se criou a ideia de que o setor privado é muito egoísta, só pensa nele, e que o governo é o único defensor das massas. As pessoas esquecem que, sem massas, o setor privado não funciona.  
ISTOÉ -
O sr. mantém contato com muitos empresários. Que visão eles têm do governo Dilma? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Muita gente do setor privado enxerga no governo um bando de trotskistas enrustidos, que querem destruir o capitalismo. Nada disso, claro, é verdade. Duvido que Dilma tenha alguma restrição ao setor privado. Ela declarou recentemente, em Nova York, que o governo precisa não só dos recursos, mas da gestão do setor privado, que é mais ágil e eficiente. Alguém que declara isso numa reunião em Nova York para potenciais investidores não pode ser entendida como uma pessoa que queira fazer do Brasil uma Cuba. O que me parece é que o governo precisa acordar de novo o espírito animal dos empresários. 
ISTOÉ -
O sr. está dizendo que falta entusiasmo ao empresariado? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
O homem é um ser cíclico. Um dia estou com grande entusiasmo, noutro tenho preocupações e fico deprimido. O mecanismo do entusiasmo e da depressão se transfere como um vírus. Na economia é assim também, uma coisa contamina a outra. O trabalhador fica com medo de perder o emprego. Ele procura ficar líquido e, assim, reduz o consumo. O empresário, não tendo certeza que vai haver demanda, reduz a produção e reforça o sentimento de que a coisa vai piorar. Ele fica líquido também. O banqueiro acha que o outro banco está pior do que ele. Então os bancos não emprestam mais entre si. Quando está todo mundo líquido, eles morrem afogados na liquidez, que é a recessão. Mas isso não vai acontecer com o Brasil.  
ISTOÉ -
Que comparações o sr. faz entre Lula e Dilma? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
 A presidenta é uma tecnocrata muita preparada. Sem dúvida, trata-se de uma centralizadora, mas é sua forma de ser. Já o Lula tem uma inteligência intuitiva, quase natural, e exerce grande liderança sobre as pessoas. Ele é capaz de participar de uma reunião com dez sujeitos e depois fazer uma síntese, aproveitar o que tinha de bom naquilo e colocar em prática. No fundo, o Lula foi um grande acidente positivo na história brasileira.
ISTOÉ -
Se o País melhorou, por que os brasileiros falam mal do Brasil? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Porque é assim mesmo. A crítica do mercado é simples de entender. Era muito fácil ganhar a vida com taxa de juro real de 12%. Ganhar a vida com taxa real de 2% é mais difícil. Por isso, a crítica do mercado financeiro é irrelevante, não faz cócega. É uma coisa ridícula, por exemplo, os economistas fixarem as prioridades do governo. Cada economista tem no máximo o seu próprio voto. Não tem nem o da mulher, porque ela desconfia dele.  
ISTOÉ -
Por que os leilões do pré-sal e das rodovais não deram os resultados esperados? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Não tem nada de misterioso acontecendo. Se o governo quer estradas de certa qualidade, ele precisa fazer leilões competentes, com editais transparentes. Leilão é coisa para profissional e não para amador. O governo estabeleceu a qualidade desejada? O mercado define a partir daí a taxa de retorno. O governo estabeleceu a taxa de retorno? Nesse caso, é o mercado que define a qualidade possível. Pelo caminho correto, você tem a menor tarifa para uma determinada qualidade. Pelo caminho que o governo segue, você tem a menor tarifa com a pior qualidade. Ou seja, não funciona.  
ISTOÉ -
O fracasso dos leilões não pode ter impactos negativos na economia? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
O sucesso dos leilões é fundamental porque é a primeira injeção na veia para aumentar a produtividade do sistema. Se eu melhoro a infraestrutura, o ganho de produtividade é espantoso. Digamos que, para chegar ao porto de Paranaguá, uma tonelada de soja gasta 500 quilos. Se eu melhorar a infraestrutura, uma tonelada de soja vai chegar ao mesmo destino com 900 quilos. Esses 400 quilos de diferença representam ganho líquido de produtividade para o sistema inteiro, simplesmente porque a infraestrutura melhorou.
 

ISTOÉ -
Parece simples de fazer, mas não se faz. Por quê? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Porque o Brasil é dominado por corporações que têm seus interesses. Por que estão se criando tantos partidos? Simplesmente porque é um comércio, um negócio. Um partido é um negócio que recebe um fundo partidário. Por que se criam sindicatos todos os dias? Porque tem o fundo dos sindicatos. 
ISTOÉ -
Os interesses próprios resultam também no aparelhamento do Estado. 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
O aparelhamento do Estado existe há muito tempo. Não foi só o PT que aparelhou. O PSDB também. A diferença é que o PSDB aparelhava com companheiros de tertúlias. No PT, o aparelhamento é com o companheiro de passeata.  
ISTOÉ -
Um dia o Brasil será um país desenvolvido? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Não tenho dúvida. O Brasil melhorou dramaticamente nos últimos anos. A Constituição de 1988 mudou tudo para melhor. A Constituição quer uma sociedade em que haja a maior igualdade de oportunidades. Significa que não importa se você foi produzido numa suíte presidencial ou meio por acaso, num sábado à noite, embaixo do Museu do Ipiranga e com os seus pais bêbados. Uma vez produzido, você é senhor de direitos. Não importa. Hoje, não há nenhum país emergente com instituições tão sólidas quanto o Brasil. A prova disso é o Supremo. 
ISTOÉ -
O Supremo trabalhou corretamente no julgamento do Mensalão? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Quando eu vejo as pessoas ficarem tristes porque o Supremo está tentando fazer justiça, acho apavorante. O Supremo não existe para fazer vingança, mas para fazer justiça. O que aconteceu agora reafirma a minha convicção de que caminhamos para o fortalecimento das instituições.  
ISTOÉ -
A presidenta Dilma acertou ao cancelar a viagem oficial para os EUA depois das denúncias de espionagem?  
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Seria muito desconfortável para a presidenta aceitar o convite de Obama. A espionagem diminuiu a nossa soberania. Com o cancelamento da visita, o Brasil mandou um recado claro: Ok, vocês são mais fortes, mas têm moral duvidosa. A força da moral às vezes é maior do que a força das armas.  
ISTOÉ -
Quem faz falta no Brasil de hoje em dia? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
O José Bonifácio (José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência), que estava muito acima de sua geração. Em 1824 ele queria dar instrução gratuita, acabar com a escravidão. Era um cientista, uma mente brilhante. Se o José Bonifácio tivesse sido levado a sério, o Brasil seria os EUA.
 

ISTOÉ -
O sr. era o terror da esquerda brasileira e depois se aproximou do PT. Que convicções foram deixadas para trás? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
A pretensão de saber. Antes, eu acreditava mais no meu conhecimento do que acredito hoje. Atualmente, sou um sujeito muito mais relativista. 
ISTOÉ -
Qual é o seu papel na construção do pensamento econômico brasileiro? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -
Nenhum. Fiz aquilo que me cabia fazer, com o conhecimento e o poder que tinha. Fiz coisas certas, fiz coisas equivocadas. 
ISTOÉ -
O sr. é um homem realizado? 
ANTÔNIO DELFIM NETTO -

Muito. Quando você tem sorte, nunca trabalha, porque faz o que gosta. Você vive. Eu tive uma sorte louca. 

(http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/327900_O+APOCALIPSE+NAO+ESTA+NA+ESQUINA+).