09/out/2014...
O fascismo ronda o
Brasil em 2014
9 de outubro de
2014
Frei Betto
Jean-Marie
le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África
e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele
sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais
perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio.
O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de
Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países
europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo… E
nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus
representantes no Parlamento Europeu.
A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia
foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho
Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma
saída ao capitalismo.
Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro
alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é
dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão.
Caminha-se de novo para o fascismo? Luis Britto García, escritor venezuelano,
frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita
cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na
economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os
mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a
crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus,
a maioria jovens.
O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova
disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar
a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um
“messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça.
A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite
embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve,
passará à primeira classe… E repudia a possibilidade de viajar na classe
econômica.
Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de
pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar
com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim,
odeia se olhar no espelho…
O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e
defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e
abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e
inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”…
O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou
a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava
Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como
Partido Nazista (de Nationalsozialist).
Os fascistas se apropriam de
símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a
boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam
“Revolução”.
O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando
enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco,
na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja
Católica.
O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher.
Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder
(igreja, cozinha e criança).
O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura,
saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as
vanguardas culturais do século XX foram progressistas: expressionismo,
dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas
as consideravam “arte degenerada”.
O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário,
idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das
manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando
“havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios… assegurada pela
férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no
país.
O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima;
encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena
e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez
desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior.
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do
fascismo ou colaborando para extirpá-la.
Disponível em:
(http://www.joaopaulo.org.br/index.php/artigos/detalle/O-Fascismo-Ronda-O-Brasil-Em-2014).
Acesso em: 09/out/2014.
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