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domingo, 22 de janeiro de 2017

Jornalista diz que a morte de Teori foi queima de arquivo e compara à operação mãos limpas

E se Lula for preso - o que temos com isso




sábado, 21 de janeiro de 2017

Lava Jato pode acabar para Temer, Serra, Aécio, Alckmin e caterva (Eduardo Guimarães)



Postagem no AberturaMundoJuridico 21/jan/2017...

Lava Jato pode acabar para Temer, Serra, Aécio, Alckmin e caterva

Posted by on 20/01/17 •teori 2

Continuam surgindo indícios de que a morte de Teori Zavascki pode não ter sido apenas um acidente. Nas primeiras horas da manhã de sexta-feira (20), espalhou-se a notícia de que o site contendo a base de dados do avião em que o ex-ministro do STF morreu foi acessado 1.885 vezes no dia 3 de janeiro último, duas semanas antes do desastre.

teori 1Apesar dos indícios e do imenso número de interessados na paralisação das investigações da Lava Jato contra políticos com foro privilegiado, há sempre uma turma para a qual tudo é teoria da conspiração – o golpe parlamentar contra Dilma que este blog enxergava como plenamente possível anos e anos antes de ocorrer era visto como “exagero” pelos mesmos que, agora, acham que a morte de Teori foi uma infeliz coincidência.

Claro que pode ser coincidência, mas, assim mesmo, entidades da magistratura como a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) divulgaram nota na tarde de quinta-feira, 19, lamentando a morte do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki e cobrando que as causas do acidente que vitimou o magistrado sejam esclarecidas “com a maior rapidez e transparência possível.”

Mais cedo, um dos principais investigadores da Operação Lava Jato, o delegado federal Marcio Adriano Anselmo pediu a investigação “a fundo” da morte do ministro Teori Zavascki na véspera da homologação da colaboração premiada da Odebrecht. “Esse ‘acidente’ deve ser investigado a fundo”, escreveu em sua página no Facebook, destacando a palavra “acidente” entre aspas.

A desconfiança é tanta que o STF já busca soluções “mais transparentes” para que outro ministro daquela Corte dê continuidade ao trabalho de Teori na Lava Jato em vez de seguir a norma escrita de que em caso de vacância do cargo de relator de um processo por morte do titular, o sucessor dele seja o indicado pelo presidente da República.

O STF cogita sortear o processo da Lava Jato entre os diversos ministros porque entregá-lo àquele que Temer indicar para substituir Teori seria o mesmo que colocar o presidente da República para investigar a si mesmo.

Com efeito, a ausência de Teori no processo vai atrasá-lo muito. Dependendo da ministra Carmem Lúcia, o atraso pode durar anos – o que, se vier a acontecer, representará impunidade dos políticos com foro privilegiado que estão sendo delatados pela Lava Jato.

Recentemente foi divulgado pela Folha de São Paulo que, segundo a delação de funcionários da Odebrecht, R$ 2 milhões em propinas foram repassados ao empresário Adhemar Ribeiro, irmão da primeira-dama, Lu Alckmin.

A Odebrecht também apontou à Lava Jato dois nomes como sendo os operadores de R$ 23 milhões em propinas repassados pela empreiteira via caixa dois à campanha presidencial de José Serra, hoje chanceler, na eleição de 2010.

Tudo isso sem falar que o nome do presidente Michel Temer aparece 43 vezes no documento do acordo de delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht.

Produto de acidente ou de sabotagem, o fato é que a morte de Teori Zavascki foi um presente do céu para esses e muitos outros políticos que iriam soçobrar a partir das próximas semanas, quando o ex-ministro do STF homologaria um lote gigante de delações de funcionários da Odebrecht contra esses e outros políticos predominantemente dos partidos que sustentam o governo Temer.

Os petistas estão nas mãos de Sergio Moro, pois não têm foro privilegiado. O único petista graúdo que tinha direito de ser julgado pelo STF foi sumariamente cassado pelo Senado, o ex-senador Delcídio do Amaral. Lula e tantos outros petistas graúdos perseguidos pela Lava Jato não seriam julgados por Teori.

Muito pelo contrário: Teori contrariou fortemente o antipetismo, como fica claro, abaixo, nas imagens dos ataques que movimentos fascistas como o MBL vinham fazendo ao ministro, tendo chegado a cercar a sua casa em Porto Alegre e pendurado faixas com insultos em sua fachada, tudo porque achavam que ele era “petista”

teori 3 

Se existe alguém insuspeito de tramar contra a vida de Teori certamente são os petistas.

Por outro lado, se não houver pressão da sociedade a Lava Jato não irá mais atrás dos políticos com foro privilegiado.

Se os processos forem redistribuído no STF podem cair com qualquer ministro de qualquer uma das duas turmas porque os réus da Lava com foro privilegiado têm direito de ser julgados pelo Pleno daquela Corte, mas esses processos também podem ser entregue a quem Temer nomear para a vaga de Teori.

Processos no STF envolvendo petistas e tucanos têm mania de cair na mão de Gilmar Mendes, mas há muitas mãos naquela Corte que terão dificuldades para tocá-los da mesma forma que o ministro morto.

Após a morte de Teori, nenhum ministro do Supremo terá a mesma credibilidade e tampouco conseguirá dar andamento nas investigações até que entenda tudo. Essa postergação permitirá que a poeira do impeachment assente e dará uma desculpa à Lava Jato para parar tudo nos petistas que já estão sendo processados, sobretudo Lula.

Em minha opinião, a morte de Teori representa o fim tácito da Lava Jato, pois todos os petistas graúdos já foram indiciados. Os únicos políticos que poderiam vir a ser indiciados eram – não são mais, a meu ver – aqueles que têm foro privilegiado, a esmagadora maioria tucanos, peemedebistas, Michel Temer à frente. A morte de Teori poderá deixá-los impunes.

*
PS: pesquisa Paraná divulgada nesta sexta-feira dá conta de que 83% dos brasileiros acham suspeita a morte de Teori Zavascki



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Quem matou Teori Zavascki... (Eduardo Guimarãos. Blog da Cidadania)



Postagem no AberturaMundoJuridico 20/jan/2017...

Quem matou Teori Zavascki…


teori

Morreu nesta quinta-feira (19), aos 68 anos de idade, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki após a queda de uma aeronave em Paraty, litoral do Rio de Janeiro. A informação da morte foi confirmada pelo seu filho Francisco Zavascki.

O Brasil e a humanidade devem lamentar a morte de um homem honesto e corajoso que não teve medo de contrariar ninguém, nem gregos nem troianos, ainda que tenha sido acusado de postergar decisões contra Eduardo Cunha.

O avião no qual Teori foi acidentado era um Hawker Beechcraft King Air C90 prefixo PR-SOM pertencente o grupo Emiliano Empreendimentos.

Trata-se de um excelente avião. É o único bimotor pequeno que o serviço secreto norte-americano autoriza o presidente dos Estados Unidos a usar. E é muito improvável que um ministro do STF se metesse em um avião em condições duvidosas de manutenção.

Zavascki era o relator da Lava Jato no STF. Decidia quem seria investigado ou não. Processado ou não. Condenava, absolvia, ainda que sujeito a ter suas decisões alteradas pelo colegiado. Porém, sem andamento de Teori, nada andava para políticos com foro privilegiado.

Antes que algum espertinho tente vender a tese de que o PT está por trás de tudo isso, é bom que saibam que Lula não tem foro privilegiado e, assim, não seria julgado pelo STF antes de passar por pelo menos duas instâncias da Justiça comum.

Na verdade, os investigados pela Lava Jato que estavam ameaçados pelo STF são justamente os que têm mandatos e ou cargos públicos importantes, como deputados, senadores, presidente da República e ministros de Estado.

Teori estava para homologar dezenas e dezenas de acordos de delação premiada de funcionários da Odebrecht contra alvos que até aqui não vinham sendo incomodados. Os nomes de tucanos graúdos apareceram justamente nas delações da Odebrecht, mas o principal nome envolvido nas delações que Teori iria analisar é o do presidente da República.

O nome do presidente Michel Temer aparece 43 vezes no documento do acordo de delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, é mencionado 45 vezes e Moreira Franco, secretário de Parceria e Investimentos do governo Temer, 34.

O ex-ministro Geddel Vieira Lima, que pediu demissão recentemente, surge em 67 trechos.

O líder do governo no Congresso, Romero Jucá (PMDB-RR), apontado como o “homem de frente” das negociações da empreiteira no Congresso, tem 105 menções no relato, um arquivo preliminar, ao qual a Folha teve acesso, do que o ex-executivo vai dizer em depoimento às autoridades da Lava Jato.

De acordo com Melo Filho, o presidente Temer atua de forma “indireta” na arrecadação financeira do PMDB, mas teve papel “relevante” em 2014, quando, segundo ele, pediu R$ 10 milhões a Marcelo Odebrecht para a campanha eleitoral durante jantar no Palácio do Jaburu, em maio de 2014.

Segundo o delator, Temer incumbiu Padilha de operacionalizar pagamentos de campanha. O ministro, diz o ex-executivo, cuidou da distribuição de R$ 4 milhões daqueles R$ 10 milhões: “Foi ele o representante escolhido por Michel Temer –fato que demonstrava a confiança entre os dois–, que recebeu e endereçou os pagamentos realizados a pretexto de campanha solicitadas por Michel Temer. Este fato deixa claro seu peso político, principalmente quando observado pela ótica do valor do pagamento realizado, na ordem de R$ 4 milhões”.

“Chegamos no Palácio do Jaburu e fomos recebidos por Eliseu Padilha. Como Michel Temer ainda não tinha chegado, ficamos conversando amenidades em uma sala à direita de quem entra na residência pela entrada principal. Acredito que esta sala é uma biblioteca”, disse o delator, que conta detalhes do jantar.

“Após a chegada de Michel Temer, sentamos na varanda em cadeiras de couro preto, com estrutura de alumínio. No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o Vice-Presidente da República como presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$ 10 milhões”, diz.

“Claramente, o local escolhido para a reunião foi uma opção simbólica voltada a dar mais peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião. Inclusive, houve troca de e-mails nos quais Marcelo se referiu à ajuda definida no jantar, fazendo referência a Temer como ‘MT'”, ressalta o ex-executivo da Odebrecht.

Um dos endereços de entrega foi o escritório de advocacia de José Yunes, atual assessor especial da Presidência da República.

Segundo o delator, “o atual presidente da República também utilizava seus prepostos para atingir interesses pessoais, como no caso dos pagamentos que participei, operacionalizado via Eliseu Padilha”.

O delator disse que foi apresentado a Temer por Geddel em agosto de 2005 na festa de aniversário de seu pai.

Ao se referir ao ministro Padilha, ele afirma que o hoje ministro “atua como verdadeiro preposto de Michel Temer e deixa claro que muitas vezes fala em seu nome”, disse Melo Filho.

“Eliseu Padilha concentra as arrecadações financeiras desse núcleo político do PMDB para posteriores repasses internos”, afirmou.

A relação entre os quatro caciques peemedebistas é muito forte, segundo o delator, “o que confere peso aos pedidos formulados por eles (ministros), pois se sabe que o pleito solicitado em contrapartida (pela empresa) será atendido também por Michel Temer”.

“Geddel Vieira Lima também possui influência dentro do grupo, interagindo com agentes privados para atender seus pleitos em troca de pagamentos”, disse o delator.

Melo Filho afirmou que defendia “vigorosamente” as solicitações de pagamento feitas por Geddel junto à Odebrecht “como retribuição” pelo fato de o ex-ministro lhe aproximar das outras lideranças.

Sobre Jucá, ele declarou que um “exemplo” da força dele é “encontrado no fato de que o gabinete do Senador sempre foi concorrido e frequentado por agentes privados interessados na sua atuação estratégica”.

Todos os citados têm negado qualquer irregularidade na relação com a Odebrecht.

POLÍTICOS NA MIRA DA ODEBRECHT

Alguns dos citados em delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-executivo da empreiteira

MICHEL TEMER Ex-executivo disse que parte de valor prometido ao PMDB em 2014 foi entregue em dinheiro no escritório de José Yunes, amigo do presidente

RENAN CALHEIROS (PMDB-AL) O presidente do Senado recebeu o apelido de ‘Justiça’ na lista de codinomes da empreiteira

RODRIGO MAIA (DEM-RJ) Presidente da Câmara dos Deputados teria recebido R$ 100 mil; seu codinome era ‘Botafogo’

ELISEU PADILHA (PMDB-RS) O ministro-chefe da Casa Civil de Michel Temer seria o ‘Primo’ na lista da empreiteira baiana

MOREIRA FRANCO (PMDB-RJ) Secretário-executivo do Programa de Parcerias de Investimentos, seria o ‘Angorá’ das planilhas

ROMERO JUCÁ (PMDB-RR) Senador e ex-ministro, seria o ‘Caju’

EUNÍCIO OLIVEIRA (PMDB-CE) Senador, apelidado de ‘Índio’

GEDDEL VIEIRA LIMA (PMDB-BA) Ex-ministro da Secretaria de Governo, apelidado de ‘Babel’

EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ) Ex-presidente da Câmara e ex-deputado, seria ‘Caranguejo’

JAQUES WAGNER (PT-BA) Ex-ministro-chefe da Casa Civil de Dilma, seria o ‘Polo’*

DELCÍDIO DO AMARAL (ex-PT-MS) O ex-senador aparecia nas planilhas como ‘Ferrari’

INALDO LEITÃO (PB) Ex-deputado, o ‘Todo Feio’ teria recebido R$ 100 mil

AGRIPINO MAIA (DEM-RN) Empresa teria destinado ao senador R$ 1 milhão

DUARTE NOGUEIRA (PSDB-SP) ‘Corredor’ aparece como beneficiário de R$ 350 mil

LÚCIO VIEIRA LIMA (PMDB-BA) Deputado, seria o ‘Bitelo’

FRANCISCO DORNELLES (PP-RJ) Vice-governador do Rio, seria o ‘Velhinho’ nas planilhas

ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB) Prefeito de Manaus teria recebido R$ 300 mil

CIRO NOGUEIRA (PP-PI) Senador seria o ‘Cerrado’

HERÁCLITO FORTES (PSB-PI) Deputado, seria o ‘Boca Mole’ e teria recebido R$ 200 mil

GIM ARGELLO (DF) Ex-senador é o ‘Campari'; teria faturado R$ 1,5 mi

PAES LANDIM (PTB-PI) Deputado, seria o ‘Decrépito’, teria levado R$ 100 mil

ANDERSON DORNELLES Ex-braço direito de Dilma, seria o ‘Las Vegas’

LÍDICE DA MATA (PSB-BA) Senadora, seria a ‘Feia'; teria recebido R$ 200 mil

JOSÉ CARLOS ALELUIA (DEM-BA) Deputado teria recebido R$ 300 mil e seria o ‘Missa’

Agora adivinhe, leitor, quem vai tomar o lugar do falecido Teori. Um novo ministro do STF, indicado pelo presidente da República, Michel Temer.

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PS:  Um dos principais investigadores da Operação Lava Jato, o delegado federal Marcio Adriano Anselmo pediu a investigação “a fundo” da morte do ministro Teori Zavascki na véspera da homologação da colaboração premiada da Odebrecht. “Esse ‘acidente’ deve ser investigado a fundo”, escreveu em sua página no Facebook, destacando a palavra “acidente” entre aspas.

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PS 2: Devido ao flagrante absurdo que seria entregarem a relatório da Lava Jato no STF para o substituto de Teori que Michel Temer irá nomear, formou-se naquela Corte o consenso de que o processo da Lava Jato será redistribuído a algum dos outros ministros, via sorteio.

Original disponível em: (http://www.blogdacidadania.com.br/2017/01/quem-matou-teori-zavascki/). Acesso em 20/jan/2017.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Os assassinos estavam no Comitê Central (Tarso Genro)



Postagem no AberturaMundoJuridico 18/jan/2017...

Os assassinos estavam no Comitê Central

30/maio/2016, 7h07min 

Por Tarso Genro
 
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Enquanto o articulista da Folha, Contardo Calligaris, diz que “a política brasileira está muito difícil para a ficção” (UOL 25.05), o líder do “Movimento Brasil Livre” declara (Clic-RBS 25.05) que a máquina dos partidos “foi utilizada” para financiar os “movimentos pró-impeachment”, informação tratada pela Folha como uma grande novidade. Vou argumentar em sentido contrário. Ficção e realidade se entrecruzam de forma permanente, na nossa esfera política e esta -por sua vez- é facilmente acessada pela ficção. Assim como a ficção se expressa, por maneirismos jornalísticos muito específicos, quase todos os dias na mídia tradicional, a ficção propriamente literária, com o tempo, acessa e inspira-se em situações iguais ou análogas às que vivemos hoje e ilumina o passado através da grade literatura. Lembro-me de “Doctor Faustus” de Thomas Mann, “Os Thibault” de Roger Martin-dGard” ou “As Vinhas da Ira”, de Steinbeck. Quando Faulkner, por exemplo, publicou “Enquanto agonizo”, em 1930, ele já tinha acúmulo suficiente, para dar voz aos pobres do Sul dos Estados Unidos e dizer , na voz de Cash: “…é melhor construir um galinheiro bem-feito do que construir um tribunal malfeito, e se forem bem ou mal construídos não importa, porque não é um ou outro, que vai fazer um homem se sentir bem ou mal”. Um dia os nossos grandes escritores levarão para o plano da arte os nossos atuais galinheiros e Tribunais, com as suas grandezas e misérias.

A imagem da política nacional passada pela grande imprensa, no que refere ao processo de impedimento da Presidenta Dilma - com as exceções de praxe- foi um péssimo jornalismo. Ele ainda vai inspirar uma grande ficção literária, quem sabe para um Raduan Nassar, um Luis Antonio Assis Brasil ou um Antonio Callado redivivo . Esta inspiração poderá partir do comportamento desta imprensa que, insistindo na “espontaneidade”, “despartidarização” e “autenticidade” - tanto das jornadas de 2013, como dos atuais movimentos pró-impeachment- promoveu um vasto painel de ficções. Seus relatos dos movimentos de rua, como se eles fossem sinceramente dirigidos por líderes avessos à corrupção, foi um feito ficcional extraordinário.

Neste processo, a maior parte da grande mídia “fazia de conta” que não sabia, que o que estava sendo armado era a vitória do capitalismo rentista, com a radicalização do “ajuste”. Ela estava consciente, contudo, que quem poderia fazer isso, sob pressão, seria uma Confederação de Investigados e Denunciados: a redução dos gastos públicos com a educação e com o Sistema Único de Saúde, bem como o gradativo sumiço dos demais “gastos supérfluos” -relacionados com as políticas de coesão social em andamento- era o objetivo maldito. E ele só poderia ser cumprido por desesperados ou ameaçados. É o que estava e está em jogo, na cena política brasileira, o que indica que não está difícil para a ficção literária, pois esta vem sempre mais tarde e o presente retratado pela mídia, já é a ficção ao vivo e também matéria bruta da ficção como literatura, que certamente os grandes escritores construirão mais tarde.

Em 1981, Manuel Vàsquez Montalban publicou uma grande novela -“Asesinato en el Comite Central”- apenas seis anos depois da morte do general Francisco Franco. Ali, Montalban abriu um debate, em parte sobre a transição espanhola, mas sobretudo a respeito da falência da esquerda comunista em dirigir aquele processo, pela sua escassa compreensão do problema da integração europeia. Na sua ficção literária, o comunista Montalban relata o assassinato – numa reunião do Comitê Central – do Secretário Geral do Partido, Santiago Carrillo, que se fizera defensor do “eurocomunismo”, teoria que apontava a falência da União Soviética, como experiência socialista universal. A crítica de Carrillo centrava-se, tanto na questão democrática, como na questão da organização da produção. Mas pairou, no livro de Montalban, uma dívida atroz: o assassinato de Carrillo (que no livro tem o nome de Fernando Garrido), teria sido encomendado pela CIA, interessada em fazer fracassar uma transição democrática mais “pela esquerda”, ou pela KGB, interessada em não permitir prosperar um “dissenso comunista” renovador? Quais as forças externas que interferiram na transição espanhola, não se sabe com segurança até hoje. Como não se sabe, nos anos de chumbo da Itália, quem orientou a mão dos fascistas que fizeram explodir, com dezenas de mortos, a Estação Férrea de Bolonha.

Um livro do falecido professor Reneé Dreifuss publicado em 1981, fruto de uma extensa pesquisa documental e bibliográfica (“1964 a Conquista do Estado”), mostrou que naquele ano não ocorreu no Brasil uma simples quartelada , mas uma profunda mudança no padrão de acumulação, obedecendo a uma lógica de dominação imperial, por parte dos EEUU. A obra do grande professor Dreifuss mostrou, ainda, que o golpe militar teve uma expressiva participação de setores da sociedade civil anticomunista, com seus interesses empresariais associados a este novo padrão de desenvolvimento, integrado e submisso à geopolítica americana. Diferentemente do que ocorreu naquela época, cujo revestimento central da política golpista era se opor comunismo soviético, as mobilizações contra o Governo eleito da Presidenta Dilma, trouxeram às ruas um contingentes de pessoas, cujas motivações tem diversas origens. Seja porque ela manejou mal a economia, porque o Governo não correspondeu as suas expectativas eleitorais, ou por puro ódio colonial-escravista, contra as políticas sociais dos Governos do PT.

Ficou claro, porém, nesta última semana, que a central do golpismo institucional passou longe dos militares e foi formado pelo oligopólio da mídia, articulado com setores do Ministério Público, dos Juízes e das lideranças políticas do rentismo “liberal”, que unificaram esta diversidade. E o fizeram -pautados pela mídia- a partir da raiva contra tudo que foge aos seus padrões de civilidade elitista, ao mesmo tempo permissiva e fascista, “liberal” e reacionária, amoral e fisiológica: de Alexandre Frota a Bolsonaro, de Fernando Henrique a Aécio, de Pauderney a Jucá. Mas não pensemos que as instituições do Estado Democrático de Direito estão falidas e que a nossa democracia não tem saída, pois isso é o que nos querem fazer crer a grande mídia e o nosso percentual de fascistas de turno. A questão é mais complexa, não é somente nacional, nem é fruto de uma crise contingente do capitalismo global, mas de um novo ciclo em que ele pretende se renovar. A crise é o pulmão capitalismo, dizia um barbudo subversivo, e através dela ele respira e se renova.

O que se diz aqui, não é que o PT seja uma comunidade de anjos ou que indivíduos dos nossos Governos não tenham cometido ilegalidades ou crimes, tanto nos Governos de Lula, como de Dilma, como de resto sempre ocorreu em todos os Governos que nos precederam, inclusive em maior grau. Nem se defende que a “lava-jato” tenha sido instituída para “aniquilar o PT”, como querem fazer crer alguns formuladores do nosso campo político-partidário, ou que somos vítimas, exclusivamente, dos nossos “acertos”. O que sustento é que a estratégia política de longo curso, da direita liberal-rentista, teve sucesso: hegemonizou uma maioria na sociedade e pôs boa parte dos aparatos institucionais do Estado a seu serviço. Montou uma Frente Política sem qualquer programa visível e uniu os corruptos e fisiológicos de todas as origens, bem como convenceu a maior parte da cidadania – através de um trabalho meticuloso feito pela grande mídia- que estavam “atacando a corrupção”.

Formaram, assim, aquela grande Federação de Investigados e Denunciados, boa parte deles originários dos nossos Governos, para se apropriar do Estado Brasileiro sem votos, o que por si só não revela uma debilidade estrutural do nosso estatuto democrático, pois o que vem daí é o “ajuste” mais severo das últimas décadas, não o fim da democracia política, tal qual a conhecemos. O “ajuste”, todavia, é capaz de reorganizar estrutura de classes da sociedade, através de uma acomodação conservadora, pois -vide a Espanha, França e Portugal- os ajustes também formam, na sociedade civil, as suas próprias bases estáveis, se a esquerda não tiver condições de ampliar a sua liderança para formar maiorias eleitorais. As lutas “sociais” podem mitigar as reformas mais duras, mas um outro ajuste de corte democrático, onde “quem tem mais paga mais”, só pode ser viabilizado a partir dos movimentos sociais, por maiorias políticas que tenham reflexos nos resultados eleitorais. Creio que este deve ser o ponto de partida de uma estratégia de esquerda, para o período que nos aguarda.

As caracterizações políticas do “centro”, da “esquerda” e da “direita”, não tem as mesmas propriedades em distintos períodos históricos. Para dar dois exemplos bem flagrantes, lembremo-nos que o PT chega ao Governo como partido de “esquerda”, pela via democrática e vai rapidamente ao “centro”, para poder governar, encontrando ali situado o PMDB. Este se torna nosso aliado, por um longo período de Governo, para que pudéssemos avançar em políticas sociais e educacionais que mudaram as condições sociais e econômicas de mais de 50 milhões de brasileiros. Hoje, porém, o PMDB é o eixo em torno do qual a direita “liberal” e a extrema direita, se reorganizam para fazer o “ajuste” exigido pelos credores da nossa dívida pública, cujos sacrifícios vão recair sobre os mais pobres e os remediados.

Neste sentido, o PMDB não só não mudou, como é falso dizer que ele traiu, pois a estratégia de enfrentamento da crise mundial, com um ajuste que onere internamente os mais ricos, nunca foi um compromisso deste Partido e nem o PT conseguiu formulá-la claramente. Creio que isso é suficiente para mostrar que o PT só pode se regenerar, como partido democrático de esquerda no interior de uma outra Frente Política, que não vise somente chegar ao Governo, mas, que possa chegar novamente nele com maioria social e parlamentar, para aplicar um novo programa de avanços no emprego, na democracia, no crescimento da economia. A falsa luta contra a corrupção, não o rentismo, foi o que conseguiu dar unidade à frente política do golpismo, por isso agora o “ajuste” passa ser motivo de dissenso, tanto no interior do próprio aparato estatal, como na própria base do Governo Temer, além de sê-lo na sociedade.

Uma estratégia democrática de mudanças sociais e econômicas requer uma tática política democrática coerente com os fins da estratégia desenhada. Opino que, hoje, o que é capaz de definir as propriedades dos campos políticos, tidos como de “esquerda” e “direita”, é a posição dos sujeitos políticos organizados, sobre quatro questões chaves: o enfrentamento com o “ajuste” liberal-rentista, que será inócuo se não apresentarmos qual o nosso “ajuste” e quais a suas consequências imediatas na vida do nosso povo; a proposta de uma reforma política, que será inócua se não deixar clara a proibição do financiamento dos partidos pelas empresas (fonte principal da corrupção) e não barrar os micro partidos de “negócios”; uma reforma para democratizar os meios de comunicação e permitir a livre circulação da opinião, que será inócua se não tiver a possibilidade de resgatar a comunicação para as suas finalidades, já proclamadas na Constituição de 88; e, finalmente -independentemente de continuarmos na luta para bloquear o “impeachment”- um amplo acordo para a relegitimação do Poder Político no país, seja por um referendo para novas eleições, seja por uma PEC que convoque eleições gerais, no menor prazo possível. Este “amplo acordo” será inócuo, se não resgatar, para o nosso lado, inclusive lideranças que transitaram em apoio ao “impeachment”, mas que se revelam hoje contra o “ajuste” liberal-rentista e já se sentem enganados pela cantilena da falsa luta contra a corrupção, promovida pela Rede Globo.

Na novela de Montalban, o tiro que assassinaria Carrillo veio de dentro do próprio Comitê Central, revelando a existência de um enigma sobre a transição espanhola, bem como a incompetência do seu Partido Comunista, para entender o que estava acontecendo na Europa. No golpismo brasileiro, o tiro que quer assassinar o mandato da Presidenta Dilma, também vem de dentro do “Comitê Central”: vem do âmago do Governo, do seu núcleo mais comprometido com todos os seus erros, do seu cerne político mais forte no Parlamento. Esta é a notável realidade, que a mídia nacional transformou numa cruzada fictícia contra a corrupção, que sai da crise, até agora, mais forte. E mais unida, pois quando os partidos mais influentes do país – sem separação de responsabilidades – são atingidos sem que se fixem politicamente as responsabilidades individuais, a tendência é o povo dizer que “se vayan todos”. E ficam, no fim do túnel, os vampiros do ajuste, com seus dentes afiados, celebrando o homem abstrato do mercado e levando ao desespero as pessoas concretas que trabalham.

.oOo.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.


Original disponível em: (http://www.sul21.com.br/jornal/os-assassinos-estavam-no-comite-central/). Acesso em 18/jan/2017.