Acessos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Diário Gauche: Golpistas paraguaios têm partidários no Brasil (João Pedro Stedile)

Diário Gauche: Golpistas paraguaios têm partidários no Brasil:

Você está entrando no DIÁRIO GAUCHE_um blog com vista para o mar incerto do século 21

Foto-legenda:
Pequena coreana do sul abandonada na rua, em 16 de setembro de 1950, depois da invasão da cidade de Inchon pelas tropas estadunidenses da 1a Divisão de Mariners em ação combinada com a Marinha da Coreia do Sul. A guerra das Coreias (Norte contra o Sul) foi o primeiro conflito armada da chamada Guerra Fria. Causou grande preocupação por que o mundo esteve na iminência de ser envolvido numa guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, que contou com uma ajuda discreta da China.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Golpistas paraguaios têm partidários no Brasil


As mentiras paraguaias das elites brasileiras

Mal havia terminado o golpe de Estado contra o presidente Fernando Lugo e flamantes porta-vozes da burguesia brasileira saíram em coro a defender os golpistas.


Seus argumentos eram os mesmos da corrupta oligarquia paraguaia, repetidos também de forma articulada por outros direitistas em todo continente. O impeachment, apesar de tão rápido, teria sido legal. Não importa se os motivos alegados eram verdadeiros ou justos.


Foram repetidos surrados argumentos paranoicos da Guerra Fria: "O Paraguai foi salvo de uma guerra civil" ou "o Paraguai foi salvo do terrorismo dos sem-terra".


Se a sociedade paraguaia estivesse dividida e armada, certamente os defensores do presidente Lugo não aceitariam pacificamente o golpe.


Curuguaty, que resultou em sete policiais e 11 sem-terra assassinados, não foi um conflito de terra tradicional. Sem que ninguém dos dois lados estivesse disposto, houve uma matança indiscriminada, claramente planejada para criar uma comoção nacional. Há indícios de que foi uma emboscada armada pela direita paraguaia para culpar o governo.


Foi o conflito o principal argumento utilizado para depor o presidente. Se esse critério fosse utilizado em todos os países latino-americanos, FHC seria deposto pelo massacre de Carajás. Ou o governador Alckmin pelo caso Pinheirinho.


O Paraguai é o país do mundo de maior concentração da terra. De seus 40 milhões de hectares, 31.086.893 ha são de propriedade privada. Os outros 9 milhões são ainda terras públicas no Chaco, região de baixa fertilidade e incidência de água.


Apenas 2% dos proprietários são donos de 85% de todas as terras. Entre os grandes proprietários de terras no Paraguai, os fazendeiros estrangeiros são donos de 7.889.128 hectares, 25% das fazendas.


Não há paralelo no mundo: um país que tenha "cedido" pacificamente para estrangeiros 25% de seu território cultivável. Dessa área total dos estrangeiros, 4,8 milhões de hectares pertencem brasileiros.


Na base da estrutura fundiária, há 350 mil famílias, em sua maioria pequenos camponeses e médios proprietários. Cerca de cem mil famílias são sem-terra.


O governo reconhece que desde a ditadura Stroessner (1954-1989) foram entregues a fazendeiros locais e estrangeiros ao redor de 10 milhões de hectares de terras públicas, de forma ilegal e corrupta. E é sobre essas terras que os movimentos camponeses do Paraguai exigem a revisão.


Segundo o censo paraguaio, em 2002 existiam 120 mil brasileiros no país sem cidadania. Desses, 2.000 grandes fazendeiros controlam áreas superiores a mil ha e se dedicam a produzir soja e algodão para empresas transnacionais como Monsanto, Syngenta, Dupont, Cargill, Bunge.


Há ainda um setor importante de médios proprietários, e um grande número de sem-terra brasileiros vivem como trabalhadores por lá. São esses brasileiros pobres que a imprensa e a sociologia rural apelidaram de "brasiguaios".


O conflito maior é da sociedade paraguaia e dos camponeses paraguaios: reaver os 4,8 milhões de hectares usurpados pelos fazendeiros brasileiros. Daí a solidariedade de classe que os demais ruralistas brasileiros manifestaram imediatamente contra o governo Lugo e a favor de seus colegas usurpadores.


O mais engraçado é que as elites brasileiras nunca reclamaram de, em função de o Senado paraguaio sempre barrar todas as indicações de nomes durante os quatro anos do governo Lugo, a embaixada no Brasil ter ficado sem mandatário durante todo esse período.


Artigo do economista João Pedro Stedile, da coordenação do MST e da Via Campesina.

Em Tempo: A senadora Ana Amélia Lemos (PP/RS) foi uma das parlamentares brasileiras que se manifestou a favor do golpe no Paraguai. Que fique registrada essa marca indelével na biografia da parlamentar sul-rio-grandense, ligada aos setores mais conservadores e atrasados do estado. Muito embora, na aparência, Ana Amélia queira passar uma imagem mais atualizada e moderna.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Roma locuta, causa finita est (Saulo Marques)

16/jul/2012... Atualização 28/dez/2014...

12.2.07

Roma locuta, causa finita est.

Roma falou, a causa está terminada.

Os argumentos de autoridade devem servir como ponto de partida das discussões. As opiniões de doutores, de especialistas, de pessoas com muita experiência são úteis demais para formarmos nossas primeiras impressões sobre matéria nova. Ao contemplarmos um novo problema, de imediato, podemos consultar autoridades no assunto. Enfeitamos nossas premissas com essas consultas e, por dialética ou por silogismo, avançamos o cálculo de predicados.
Exemplo de cálculo de predicados:
  • Todo homem é mortal.
  • Sócrates é homem.
  • Logo, Sócrates é mortal.
Infelizmente, por despreparo intelectual, muitos são levados e mantidos em erro por um argumento falacioso chamado de " falácia de autoridade".Essa falácia engana nosso juízo com a seguinte fórmula sugestiva:
" A explicação/o procedimento para tal situação só pode ser assim , já que essa é a opinião do doutor Tal. Além disso, ele sabe o que diz e, se não estivesse correto, não estaria onde hoje está! E quem é você para opinar o contrário?"
Essa fórmula carrega o conceito de autoridade e o conceito de "instância infalível". E é tão poderosa, que a pessoa nem raciocina mais. Ela fica convencida por um argumento aparentemente irresistível.
Portanto e por amor à verdade, peço ao leitor que faça o bom uso dos argumentos de autoridade. Use-os no início das discussões e não com o objetivo de encerrá-las.

Do Blog do Saulo Marques: (http://blogdosaulomarques.blogspot.com.br/2007/02/roma-locuta-causa-finita-est.html). Acesso em: 16/jul/2012.

Roma locuta est; causa finita est (Conhecereis a Verdade)

Conhecereis a Verdade: Roma locuta est; causa finita est:

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012


Roma locuta est; causa finita est


Os apologistas católicos  dizem  que os padres da Igreja ensinaram que não era possível ter qualquer certeza do significado objectivo de um texto bíblico determinado, sem recorrer à interpretação do Magistério. Na fundamentação desta afirmação referem-se à alegada citação de Santo Agostinho "Roma locuta est, causa finita est".
Esta declaração é dita provir do Sermão 131 de Agostinho proferido em 23 de setembro de 417. Primeiro, estas palavras não aparecem em nenhuma das obras de Agostinho, ele simplesmente não disse estas palavras ... pelo menos todas elas. Ele disse "Causa finita est" em Sermo 131:10 [1]. Segundo, estas palavras não têm nada a ver com a interpretação de Roma da Bíblia.
Ironicamente, estas palavras são frequentemente usadas por apologistas católicos para demonstrar que Agostinho acreditava que as declarações de Roma eram a palavra final em assuntos doutrinários, mas Agostinho disse estas palavras num contexto que directamente contradiz este uso apologético delas.
Agostinho e os bispos de Cartago excomungaram Pelágio e o seu principal seguidor Celéstio num Sínodo. O papa Inocêncio I concordou com esta decisão e oficialmente apoiou-a. O sucessor de Inocêncio, Zósimo, enganado por confissões de fé ambíguas, revogou as decisões de Inocêncio e exigiu a Agostinho e aos bispos Cartagineses que aprovassem esta revogação. Agostinho e os Cartagineses responderam com outro Sínodo de cerca de 200 bispos que ignoraram a revogação das decisões de Inocêncio e condenaram Pelágio. Após indagações posteriores, Zósimo revogou a sua revogação e apoiou a decisão dos Cartagineses. Antes de todos estes avanços e recuos Agostinho tinha dito o seguinte:
Sermão 131 de Migne, PL 38:734:
"Jam enim de hac causa duo concilia missa sunt ad sedem apostolicam; inde etiam rescripta venerunt; causa finita est: Utinam aliquando finiatur error."
Tradução =
"Já sobre esta causa dois concílios foram enviados à Sé Apostólica, donde também rescritos  chegaram. A causa está terminada. Que o erro possa igualmente terminar."
Para dar um pouco mais de credibilidade à minha extremamente sucinta descrição do evento ...
Como o historiador católico romano Hefele disse,
"No início de 417, ele (Inocêncio) enviou respostas para os bispos que se tinham reunido em Cartago e os que se tinham encontrado em Milevi ... Ele concordou plenamente com a sentença pronunciada contra Celéstio e Pelágio pelos bispos Cartagineses, elogiou os africanos pelo seu discernimento, confirmou a sentença de excomunhão pronunciada contra Celéstio, ameaçando com a mesma punição todos os seus adeptos, e encontrou na obra de Pelágio muitas blasfémias e doutrinas censuráveis. O sucessor de Inocêncio, Zósimo, que no início do seu reinado em 417 foi enganado pela ambígua confissão de fé de Pelágio e Celéstio, adoptou outra linha. Ele tinha há não muito tempo assumido o seu posto quando Celéstio ... deu-lhe uma confissão de fé ... Zósimo imediatamente reuniu um Sínodo Romano, em que Celéstio em termos gerais condenou o que o Papa Inocêncio já tinha condenado. Ele influenciou tanto o Papa em seu favor, que, numa carta aos bispos Africanos, declarou Celéstio ortodoxo, censurou a conduta deles anterior, e representou Heros e Lázaro, os principais opositores de Celéstio, como homens extremamente malvados, a quem ele punia com a excomunhão e deposição. Pouco depois disto Zósimo também recebeu a confissão de fé que Pelágio já tinha enviado, juntamente com uma carta, ao Papa Inocêncio I. Zósimo ... imediatamente enviou uma segunda carta aos africanos, para dizer que tanto Pelágio como Celéstio, se tinham completamente justificado, e que ambos reconheceram a necessidade da graça. Heros e Lázaro, pelo contrário, eram homens malvados, e os africanos eram bastante culpados por se terem deixado influenciar por tais caluniadores desprezíveis." (1)
A propósito da reacção dos Africanos à primeira revogação de Zósimo...
"Os africanos estavam demasiado certos da sua causa, para aceitar submeter-se a um tão fraco juízo, que, aliás, estava em manifesto conflito com o de Inocêncio. Num concílio em Cartago, em 417 ou 418, eles protestaram, respeitosamente mas decididamente, contra a decisão de Zósimo, e lhe deram a entender que ele estava a deixar-se ser grandemente enganado pelas indefinidas explicações de Celéstio. Num concilio geral Africano realizado em Cartago, em 418, os bispos, mais de 200 em número, definiram a sua oposição aos erros pelagianos, em oito (ou nove) Cânones, que são inteiramente conformes  à visão agostiniana.... Estas coisas produziram uma mudança nas opiniões de Zósimo, e a meio do ano 418, ele emitiu uma carta encíclica para todos os bispos do Oriente e do Ocidente, pronunciando o anátema sobre Pelágio e Celéstio… e declarando a sua concordância com as decisões do concílio de Cartago na doutrina da corrupção da natureza humana, do baptismo e da graça. Quem se recusasse a subscrever a encíclica, devia ser deposto, expulso da sua igreja, e privado dos seus bens" (2)

A eclesiologia de Agostinho

O exposto acima prova sem sombra de dúvida que a visão eclesiológica de Agostinho é precisamente a que W.H.C. Frend diz que é:

A sua visão de governo da Igreja é que as questões menos importantes devem ser resolvidas por concílios provinciais, e os assuntos de maior dimensão em concílios gerais. (3)

A conclusão a que chegamos à luz dos factos sobre a eclesiologia de Agostinho demonstrada pela sua exegese e pela sua prática é que no seu entendimento, e para os bispos norte-africanos como um todo, a mais alta autoridade e corte de apelação não é o bispo de Roma, mas um concílio plenário e geral. Como vimos com a controvérsia pelagiana, Agostinho e os bispos norte-africanos não viram o decreto do bispo de Roma ser o juízo final e vinculativo para a Igreja universal. Quando Zósimo, o bispo de Roma, revogou a decisão da Igreja norte-Africana e a do seu antecessor, o Papa Inocêncio I, os norte-africanos opuseram-se a Zósimo e recusaram submeter-se aos seus decretos. Demasiado para Roma locuta est, causa finita est.

Agostinho decisivamente não é defensor de uma eclesiologia papal como a do Vaticano I.

Conclusão

Como mencionado acima o famoso dito atribuído a Santo Agostinho: Roma locuta est, causa finita est, é uma completa invenção. Ele nunca disse isso. A única parte da frase que ele disse é causa finita est (o caso está encerrado). Os apologistas romanos, no entanto, continuam a deturpar este eminente padre da Igreja atribuindo falsamente esta declaração a ele.

Em lado nenhum nos escritos de Agostinho ou na sua prática se encontra a crença no bispo de Roma como critério último da ortodoxia, ou que o seu juízo era a autoridade final em qualquer controvérsia. A controvérsia com o papa Zósimo e Pelágio prova isso sem qualquer sombra de dúvida. Abbe Guettee aponta que na controvérsia pelagiana a sentença do bispo de Roma não era a autoridade final. Ele faz o seguinte resumo da controvérsia com Zósimo e a atitude de Agostinho e dos bispos norte-africanos:

"Além de tudo isso, outra prova de que mesmo em Roma, bem como em outras partes da igreja, a sentença de Inocêncio I não foi considerada como encerrando o caso encontra-se no facto de, após a sua sentença, o caso ter sido reexaminado na própria Roma por Zósimo, o sucessor de Inocêncio, por várias igrejas num grande número de sínodos, e finalmente pelo Concílio Ecuménico de Éfeso, que julgou o caso e confirmou a sentença dada em Roma e em todos os outros lugares onde havia sido examinado.

Quando é dito como o Papa Inocêncio I foi chamado para dar uma opinião no caso de Pelágio, vemos claramente que os teólogos romanistas aplicaram erradamente o texto.

Os bispos Africanos condenaram os erros de Pelágio em dois concílios, sem pensar em Roma ou na sua doutrina. Os Pelagianos então expuseram, para opor-se a eles, a alegada fé de Roma, a qual diziam harmonizava-se com a sua. Em seguida, os bispos Africanos escreveram a Inocêncio, a perguntar-lhe se a afirmação dos pelagianos era verdadeira. Eles foram levados a isso porque os pelagianos tinham grande influência em Roma. Eles não escreveram ao Papa para lhe pedir uma sentença que devesse guiá-los, mas para que pudessem silenciar aqueles que afirmavam que a heresia era mantida em Roma. Inocêncio condenou-a e, portanto, Agostinho diz: "Tu fingiste que Roma estava contigo; Roma te condena, tu também foste condenado por todas as outras igrejas, por isso o caso está terminado". Em vez de pedir uma decisão de Roma, os bispos Africanos apontaram ao Papa o percurso que ele devia seguir nesta questão" (4)  

Se os Cartagineses tivessem subscrito o uso popular das palavras "Roma locuta est; causa finita est" eles teriam concordado com a condenação de Inocêncio, a seguir com a revogação de Zósimo, e se por qualquer razão Zósimo revogasse isto sem o desprezo Norte-Africano, concordariam com esta revogação. Não foi isso o que aconteceu.

**************************************************************************

Notas
[1] Apesar de tudo, ainda se pode encontrar defensores do papado que argumentam que, apesar de Agostinho não ter dito: "Roma locuta est," ele disse "Causa finita est" (a causa  está terminada). Isso é verdade.
Eis a parte relevante do Sermão 131 no contexto:
Já dois concílios sobre esta causa escreveram à Sé Apostólica. Donde também rescritos chegaram. A causa está terminada: que o erro possa um dia terminar! Portanto, nós admoestamos para que eles possam prestar atenção, nós ensinamos para que eles possam ser instruídos, oramos para que o seu caminho mude.
Embora ele tenha dito "a causa está terminada", este slogan realmente não ajuda o defensor papal, por pelo menos as seguintes três razões:
1) O apelo é para a autoridade conciliar estabelecida não para a autoridade papal como tal. De modo que, "Roma falou, o caso está encerrado" não é um resumo muito preciso. Um resumo mais exacto seria "dois concílios falaram - o caso está encerrado". Isto não significa que os rescritos não eram de Roma – eles eram.
2) A referência aos rescritos é uma referência a uma resposta de Roma a respeito das decisões dos concílios. O rescrito como tal, não tem a sua própria infalibilidade, nem dá infalibilidade aos decretos dos concílios, sejam eles considerados pelos moldes romanos daquele tempo ou de hoje.
3) Note-se que houve dois concílios, e não apenas um. Isto é parte do ponto de Agostinho. O seu ponto é que, em termos de processo judicial da igreja, continuar este debate é ficar batendo em cavalo morto. Ele não está a dizer que dois concílios é um número mágico, assim como não está a dizer que obter uma resposta de Roma magicamente torna as decisões conciliares correctas.
Bibliografia
(1) Charles Joseph Hefele, A History of the Councils of the Church (Edinburgh: Clark, 1895), Volume II, pp. 456-457.
(2) Philip Schaff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1910), Volume Three, p. 798-799).

(3) W.H.C. Frend, The Early Church (Philadelphia: Fortress, 1965), p. 222). 

(4) Abbe Guettee, The Papacy (Blanco: New Sarov, 1866) pp. 180-181).

Roma locuta, causa finita (Ricardo Giuliani Neto)

Última Instância - Roma locuta, causa finita

Roma locuta, causa finita
Ricardo Giuliani Neto - 13/06/2011 - 13h12

Chamou-me a atenção a proclamação da decisão do STF sobre o caso Batisti. Kelsen foi vomitado com a declaração infeliz e não republicana do Presidente da mais alta corte  judiciária brasileira. O Presidente Peluso, ao proclamar a decisão, disse que estava "vencido, mas convencido" do erro da decisão do Supremo ao afirmar a soberania nacional na voz do Presidente da República diante do caso Batisti.

Não me interessa o resultado da votação, e, agora, muito menos o seu mérito! Não mais me importam os argumentos de lá e de cá! Nem quero saber se gostaram ou não da decisão. O que importa é o princípio democrático que manda, ordena que as decisões judiciais sejam cumpridas e acatadas.
Eu, um cidadão comum, posso criticar a decisão de qualquer juiz, promotor ou agente público. O Juiz não pode e, mais do que isso, não deve fazê-lo, como fez o Presidente do STF.
A consequência da atitude infantil do Presidente já esta vista pela voz do Ministro plenipotenciário do Universo, Gilmar Mendes. Não passou um dia e o conservador Gilmar já aproveita a esteira da fala "impensada" de Peluso para atacar o que chamou de Presidencialismo Imperial.

Ora, se os membros do Poder Judiciário fragilizam-se pelo seu próprio ativismo político-judicial, como querer que a sociedade atribua legitimidade e respeito aos juízes que estendem suas convicções pessoais aos atos jurisdicionais; arrisco afirmar que seria um tipo de patrimonialismo jurisdicional.

Quando chamei o Hans para o assunto simplesmente quis dialogar com uma compreensão teórica que dá ao Estado-Juiz a condição de "único" intérprete legítimo da Constituição. Vale dizer, esta condição é decorrência de uma proposição política que estrutura o Estado Moderno, para não dizer que é estruturante do próprio Estado de Direito. Então, nem precisaria referir as derivações normativas decorrentes daquele postulado político.

Mas então por que Ministros da Suprema Corte comportam-se desta maneira? Não tenho dúvida alguma em afirmar que tais diálogos nascem de funcionários públicos de carreira. São pessoas que vivem em função dos seus vitalícios cargos. Ou seja, não tem a dimensão política das prerrogativas que a sociedade democrática lhes dá. Como eles mesmo dizem, são escravos das suas próprias convicções; e o mundo? Que abiche! Ou por outra, que o mundo se reduza às convicções destes altos funcionários.

Quando na antiguidade cunhou-se a expressão "Roma locuta, causa finita" estava-se afirmando o postulado político de que quando o Estado se manifesta, decide, a discussão, o litígio, a causa, por império político, chegou ao fim, portanto, uma vez tomada a decisão todos deverão acata-la, mais ainda quando são os titulares da decisão estatal.

Quando o Presidente do STF, em Sessão solene e do alto da cadeira presidencial, faz beicinho ao declarar-se vencido, devemos ficar preocupados, muito preocupados.

Buenas, acreditem, a decisão sobre o Batisti não significa muito para a democracia brasileira, já o beicinho ingênuo do Presidente do STF é muito grave!

Minha opinião sobre o caso Batisti esta aqui mesmo na Última Instância em artigo publicado em fevereiro de 2009.

domingo, 15 de julho de 2012

Golpista negocia base dos EUA no Paraguai

Altamiro Borges: Golpista negocia base dos EUA no Paraguai:
  
terça-feira, 10 de julho de 2012

Golpista negocia base dos EUA no Paraguai

Do jornal Brasil de Fato:

O presidente da comissão da Defesa Nacional, Segurança e Ordem Interna da Câmara de Deputados do Paraguai, José López Chavez, anunciou na sexta-feira (06) que negocia a possibilidade de instalar uma base militar estadunidense em território paraguaio.


Segundo o deputado, representantes do Pentágono visitaram o Paraguai dias após o golpe parlamentar que resultou na destituição de Fernando Lugo da presidência do país, conforme divulgado pelo jornal O Estado de São Paulo. López Chávez é aliado do general Lino Oviedo, líder da Unace (União Nacional de Cidadãos Éticos), partido de centro-direita que não faz parte da bancada governista. Os militares estadunidenses teriam ido a Assunção para conversas sobre programas de cooperação.

De acordo com o López Chávez, a ideia é instalar a base no vilarejo de Mariscal Estigarribia, perto da fronteira com a Bolívia. O deputado justificou o pedido sob a alegação de que a Bolívia está realizando uma corrida armamentista e que o Paraguai precisa proteger essa área pouco povoada do país.

Em 2005, houve um intenso debate em Assunção sobre a conveniência de permitir uma base no local. Na época, o presidente era Nicanor Duarte Frutos, do Partido Colorado. Na ocasião, uma resolução autorizou a presença e livre trânsito de 500 marines estadunidenses. Entretanto, no governo Lugo, a proposta de criação da base foi arquivada. 

Mercosul
Já nessa segunda-feira (9), o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai entrou com um pedido de revisão no Tribunal Permanente de Revisão do Mercado Comum do Sul (Mercosul) da decisão de suspender o país do bloco até que sejam realizadas as eleições presidenciais, marcadas para abril do próximo ano. O Paraguai pediu ainda que seja anulada a decisão da entrada da Venezuela no Mercosul, tomada na última reunião do bloco no mês passado.

O governo paraguaio recorreu ao Protocolo de Olivos, que regula a solução de controvérsias entre os membros do bloco, para pedir a inaplicabilidade da medida que afeta ao Paraguai e a Venezuela. Os paraguaios alegam que houve violação do direito internacional no que diz respeito ao princípio da igualdade jurídica entre os Estados e de não intervenção.

Segundo a chancelaria paraguaia, há prazos entre 60 e 90 dias, que podem ser ampliados, para que o tribunal dê uma resposta ao pedido.

O Paraguai foi suspenso do bloco por conta do modo como ocorreu o impeachment do ex-presidente Fernando Lugo. Os outros três países membros plenos do bloco - Argentina, Brasil e Uruguai - consideraram que houve pouco tempo para que Lugo fizesse sua defesa, pois o processo de destituição ocorreu em dois dias. Com a deposição de Lugo assumiu o vice-presidente, Federico Franco.

O bloco considerou ainda que a saída do poder de Lugo violou os princípios democráticos do Mercosul, aos quais todos os países signatários do bloco estão submetidos.

Com a suspensão do Paraguai, os países do bloco incorporaram a Venezuela como membro pleno, já que apenas o parlamento paraguaio não havia aprovado a entrada do país no bloco (com informações do Opera Mundi e da Agência Brasil).

Rio Grande do Sul terá Comissão Estadual da Verdade

Rio Grande do Sul terá Comissão Estadual da Verdade | Jornal Correio do Brasil

Rio Grande do Sul terá Comissão Estadual da Verdade
15/7/2012 18:25, 

Rio Grande do Sul terá Comissão Estadual da VerdadeDecreto que cria a Comissão Estadual da Verdade será assinado terça-feira (17) pelo governador Tarso Genro. A comissão terá como objetivo resgatar a memória política e histórica do Estado e subsidiar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. A solenidade de criação da Comissão Estadual da Verdade ocorrerá durante a conferência Direitos Humanos, Desenvolvimento e Criminalidade Global, que será apresentada pelo juiz espanhol Baltasar Garzón.

Redação

Porto Alegre – O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, assina terça-feira (17) o decreto que cria a Comissão Estadual da Verdade, destinada a facilitar o acesso da sociedade a documentos oficiais da ditadura civil-militar (1964 – 1985). A comissão terá como objetivo resgatar a memória política e histórica do Estado e subsidiar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, criada no final de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff através da lei 12.528/2011.
A solenidade de criação da Comissão Estadual da Verdade ocorrerá durante a conferência Direitos Humanos, Desenvolvimento e Criminalidade Global, que será apresentada pelo juiz espanhol Baltasar Garzón, a partir das 18h, no auditório do Ministério Público do Estado (Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, 80). Garzón vem ao Brasil a convite do governador Tarso Genro, que o homenageará com a Comenda da Ordem do Ponche Verde.
A conferência também terá a presença do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e atual coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Gilson Dipp, da ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, do ministro de Defesa do Uruguai, Eleutério Huidobro, além do procurador aposentado do Estado, Jacques Alfonsin.
A entrada é gratuita e não depende de inscrições.


Matérias Relacionadas:
  1. Baltasar Garzón fará conferência e será homenageado no Rio Grande do Sul
  2. Audiência promove lançamento do Comitê Estadual da Verdade no RN
  3. Comissão Nacional da Verdade terá sessões públicas, prevê regimento
  4. Projeto que cria Conselho de Estadual de Comunicação no RS será apresentado nesta segunda
  5. Famílias de desaparecidos, OAB e representante da CNBB condenam sigilo na Comissão da Verdade 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A origem do sofrimento (Christian Ingo Lenz Dunker) | Carta Capital

A origem do sofrimento | Carta Capital

A origem do sofrimento

Por Christian Ingo Lenz Dunker

Herdeiro da escola uspiana de Bento Prado Jr. e aluno de Alain Badiou, Vladimir Safatle tem se apresentado como um dos intelectuais mais atuantes e combativos que a esquerda produziu nos últimos anos.  Seu trabalho consegue ser reconhecido tanto no circuito universitário nacional e internacional, quanto alcança o grande público com suas intervenções em jornais, na televisão e em movimentos sociais. Para desespero de seus críticos seu trabalho não é composto como uma obra de divulgação ou meramente como justificativa retórica para o engajamento militante.  Há, de fato, uma linha sinuosa, mas rigorosa, que liga seus estudos de alta densidade conceitual em filosofia, teoria social e psicanálise com a tomada de posição simples, mas muito impactante. Salário máximo, imposto proporcional, democracia direta, avaliação do saldo da ditadura militar brasileira são algumas de suas ideias corrosivas e contundentes, mas não pirotécnicas ou movidas a impactos de ocasião. Trata-se de um novo tipo de intelectual brasileiro, que fala baixo, mas corajosamente. Que consegue se fazer entender no limite do esforço ou da ignorância de seus interlocutores.
Capa do livro 'Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento', de Vladimir Safatle

O novo livro de Vladimir Safatle, Grande Hotel Abismo: Por uma Reconstrução da Teoria do Reconhecimento (Martins Fontes, 2012), originalmente sua tese de livre docência junto ao departamento de Filosofia da USP, no qual é professor, procura estabelecer uma espécie de novo fundamento para uma série de áreas envolvidas com o que se pode chamar de sofrimento social, ou seja, a política, a ética, a clínica e também a educação e as artes. Sua hipótese de fundo é que este sofrimento está intimamente ligado com experiência de reconhecimento e com a forma como as instituições, e no limite o Estado, pode interpretar e responder a tal sofrimento no processo de construção de leis, em nossas práticas políticas, em nossas relações de desejo, de linguagem e de trabalho.
O diagnóstico de Safatle contra a maior parte das teorias disponíveis nesta matéria parte de uma injustificável associação histórica entre o que chamamos de indivíduo e o que denominamos sujeito.  O exemplo maior desta sobreposição é a antropologia humanista tudo o que não se enquadra como espelho de nós mesmos, tudo o que não podemos incluir como uma versão possível de nossa própria identidade simplesmente possui direito a existir. Este é o roteiro pelo qual o humanismo nos leva de volta ao terror do qual ele pretendia nos livrar. Esta forma inflacionada de pensar o indivíduo não será criticada por Safatle nos moldes da oposição tradicional ao egoísmo, à cobiça, ao interesse e às demais fragilidades morais do individualismo. A teoria de Safatle parte do fato de que ser apenas um indivíduo, pensar-se apenas como um indivíduo e sonhar apenas como um indivíduo poder ser uma patologia social, que nos leva a uma forma de vida desnecessariamente pobre e mutilada.
Geralmente atribuímos a origem do sofrimento ao controle, disciplina ou determinação. Sofremos seja pela falta ou pelo excesso de racionalização, de previsibilidade e de segurança. E a maior parte das políticas públicas e das formas morais coletivas dedica-se a produzir e reformar tais sistemas de determinação que dominam a maior parte de nossas práticas de vida. Segundo este pressuposto uma boa teoria do reconhecimento é aquela que permite identificar lacunas e obstáculos à progressiva realização dos ideais dos indivíduos ou fragilidades em seus sistemas de proteção conta a infelicidade. Desde o início da modernidade nossa preocupação com a justiça e com a liberdade tem se apoiado em teorias do reconhecimento que privilegiam a identidade e a determinação como os elementos fundamentais do processo histórico que nos torna sujeitos de nosso próprio destino. Tornar-se “alguém na vida”, diferenciar-se da massa amorfa, criar para si um destino especial, são exemplos de ideais concernentes ao individualismo que moldaram nossa forma de vida como um projeto de autodeterminação. O problema é que nos últimos tempos esta constelação tem rendido uma imaginação política caracterizada pela pobreza abissal.
Apoiado no pensamento dialético de Hegel, Safatle toma um caminho alternativo ao mostrar que na origem desta situação está nosso esquecimento de que existem experiências imprevisíveis, contingentes e indeterminadas que são benéficas e produtivas. Talvez a roupagem representada pelo indivíduo esteja se tornando apertada demais para exprimir toda a extensão infinita de nossa temporalidade e de nosso desejo. Nem tudo que pertence ao ser do sujeito cabe no uniforme pré-fabricado do indivíduo. Muito do que percebemos como desordem, anomia ou instabilidade precisa ser tratado com mais leis, métodos e estratégias de controle feitas para impedir que o imprevisto aconteça de novo. Mas será mesmo que temos que agir com um único remédio para todos os males da modernidade? Boa parte de nosso sentimento de que vivemos uma vida em forma de condomínio, cercados por bárbaros, defendidos por muros e constrangidos por regulamentos, decorre de nossa crença consolidada de que nosso horizonte como indivíduos está dado e concluído. Para aqueles que pensam que o homem, em sua essência, já seria suficientemente dotado de autonomia, espontaneidade e expressividade, seja para o bem ou para o mal, o livro de Safatle é uma provocação inédita. Para aqueles que estão cansados dos benefícios do individualismo o livro em questão é um incentivo para retomar a capacidade de sonhar e de inventar futuros possíveis que não sejam apenas defensivos em relação aos desastres, ecológicos e econômicos, ou às tragédias, morais ou sociais.
É preciso radicalizar a pergunta sobre o que significa a realização de uma vida. Radicalizar de tal forma a reconhecer como no interior do que chamamos de ser humano existe algo que é claramente mais que um indivíduo e menos do que um indivíduo. Somos mais que um indivíduo quando carregamos a marca do infinito em nossos desejos. Somos menos do que um indivíduo quando podemos nos ver também como inhumanos. Mas para isso teríamos que renunciar à fixação na existência em uma essência positiva e pensar que o “sujeito não é mais que o nome do caráter negativo do fundamento”. É preciso arriscar que a liberdade pode ser algo mais do que mero livre arbítrio individual, defesa genérica de direitos abstratos e democracia parlamentar representativa.
Para defender esta reconstrução da teoria do reconhecimento Safatle retira da teoria crítica de Adorno a importância do sentimento repressivo de identidade, com seus sintomas imediatos de perda do espírito, bloqueio da eticidade e fixação na finitude. Isso será feito por meio de uma nova forma de ler Hegel, um dos maiores pensadores da modernidade. A grande lição, neste caso, é que não devemos separar procedimentos de fundamentação e modos de aplicação de princípios. Isso significa, por exemplo, que não é suficiente contentar-se com uma moralidade pensada como mera aplicação de casos a suas regras correspondentes. Finalmente é da psicanálise de Jacques Lacan que Safatle importa algumas ideias para o tratamento possível do sofrimento social. Ao considerar que a causa deste sofrimento não é apenas excesso ou falta de determinação, mas também a dificuldade de reconhecer e dar valor a contingência e indeterminação como experiências produtivas, Safatle nos convida a valorizar a dimensão do ato para além da lei, da ação que leva em conta nossa incerteza prática, sem saber exatamente qual é a realidade que está contida na ideia de liberdade. Se não formos capazes de reconhecer que às vezes é naquele caso único, que contraria a regra, que se encontra a semente de nossa liberdade como futuro ainda impensado e ainda sem nome, jamais seremos capazes de realizar uma vida que seja realmente universal.
Safatle é um universalista radical. Ele toma nosso retrato claro e concluído sobre o que significa ser um indivíduo e nos devolve uma imagem difusa. Em vez de enfatizar as linhas demarcatórias e as fronteiras que definiriam nossa identidade ele nos convida a suspender a paixão pela identidade e examinar a hipótese de uma forma de vida na qual o eu deve incluir também, como possibilidade, sua própria auto-dissolução, sua não identidade e no limite sua inhumanidade. Para isso basta fazer o exercício para o qual o livro nos guia com perícia de negar predicados que nos habituamos a nos conceder de saída, tais como autonomia, autenticidade e unidade. Uma teoria do sujeito que não consegue reconhecer aquilo que está além ou de aquém do individual no homem, como a precariedade de seu corpo, a incoerência de suas ambições e a incerteza de sua temporalidade, só pode nos conduzir a falsos universais. Surgem deste exercício três figuras do inhumano: a animalidade (perda da autonomia), o monstruoso (perda da unidade) e o impessoal (perda da autenticidade). Três condições que estamos sempre demasiadamente prontos para aplicar sobre os outros, assim que estes se mostram desobedientes, indeterminados ou fora da ordem. Em nome da punição, da ordem e da determinação somos nós que nos tornamos inhumanos.  É este truque que o humanismo de coração mole e bolso duro propõe. Tolerar a tortura contra os “animais”, justificar a “monstruosidade” contra o terror, “impessoalizar” as escolhas, tornar o medo afeto central da política, negar direito de rebelião, judicializar a loucura, colonizar os outros com nosso padrão de normalidade, reduzir a justiça ao direito, ou seja, destituir prontamente tudo o que não é o retrato nítido de nossa própria identidade e ao mesmo tempo nos seduzir com a imagem de senhores da razão universal. É neste ponto que o livro de Safatle permite iluminar a teoria do sujeito para além da razão contratual, comunicacional, normativa e institucionalizada.
Se alguém dissesse, apenas dez anos atrás, que seria possível repensar ideias políticas de esquerda retornando a Hegel, reposicionar a teoria filosófica do sujeito, extraindo o melhor do pensamento crítico e estético de Adorno e propor uma leitura original da psicanálise de Lacan, que reconfigurasse sua potência clínica e social, certamente ouviria em resposta que isso pareceria um filme de terror intelectual. Os mais tolerantes talvez dissessem que isso seria bonito na ficção, mas impraticável na vida real. E os otimistas argumentariam que mesmo que fosse possível ninguém reconheceria sua relevância. Grande Hotel, Abismo é, em parte, a teorização desta improbabilidade e a prova viva que o impossível acontece. Caetano Veloso disse que Vladimir Safatle possui uma cabeça de concreto armado. E devemos dar razão ao qualificativo. Egresso da cultura filosófica universitária ele consegue pensar problemas concretos com ousadia e solidez. Armado com ideias elegantes e demonstrações precisas ele testemunha que o tempo das grandes cabeças não se extinguiu. Ele nos convida a escutar a música de nossa época sem deixar de olhar para o abismo do qual ela é feita. A direita que se cuide, pois armado, concreto e cabeça, Vladimir Safatle está abrindo um novo capítulo no pensamento crítico brasileiro.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP.