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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Golpe de Estado no Brasil entra para a História como farsa (Michael Löwy)

Postagem 09/jun/2016...


Golpe de Estado, no Brasil, entra para a História como farsa

“A tragédia foi o golpe de 1964, 20 anos de ditadura, centenas de mortos e milhares de torturados. Agora temos direito à farsa”, afirma o sociólogo Michael Löwy

Diante do golpe de Estado, em curso no país, o sociólogo brasileiro Michael Löwy, radicado na França, alerta para o risco que corre a democracia com os novos golpes na América Latina e com a ascensão da extrema-direita na Europa. O pensador acredita que a esquerda deva se unir para barrar o golpe no Brasil, mas sem perder seus horizontes utópicos.
Especialista em sociologia das religiões, Löwy analisa o impacto político das igrejas neopentecostais no Brasil. Assinala ainda a necessidade de se criticar o atual modelo de desenvolvimento econômico a partir de uma perspectiva que coloque em questão as consequências sócio-ambientais do capitalismo. Esta conversa, conduzida por Daniel Garroux (Doutorando USP / Paris 10), Frederico Lyra (doutorando Lille 3) e Gabriel Zacarias (Pós-doutorando USP / EHESS), inaugura a série de entrevistas doMovimento Democrático 18 de Março (MD18) com grandes intelectuais de esquerda.
— Em um artigo publicado recentemente em português no Blog da Editora Boitempo, o senhor afirma que o que acontece atualmente no Brasil deve ser considerado um golpe de estado. Poderia comentar essa afirmação?
— Cito aquela frase famosa de Marx, que por sua vez cita Hegel, segundo a qual a História acontece duas vezes: a primeira, como tragédia, e a segunda, como farsa. A tragédia foi o golpe de 1964, vinte anos de ditadura, centenas de mortos e milhares de torturados. Agora temos direito à farsa, àquele espetáculo ridículo de centenas de deputados e, em seguida, senadores, a maioria dos quais envolvidos em escândalos de corrupção, dando-se ares de salvadores da pátria e vestindo-se com a bandeira do Brasil. Uma palhaçada total.
Destituíram a presidenta Dilma sob o pretexto ridículo das pedaladas fiscais, algo que todos os governos fizeram antes e que os governadores também fazem. Um recurso comum e corrente, que não configura crime, apenas uma irregularidade administrativa. Trata-se realmente de uma farsa grotesca, mas que pode custar caro para a população. Isso ilustra mais uma vez o desprezo da oligarquia que domina o Brasil há 500 anos – ainda que assuma outros nomes – pela democracia. Passam com o trator quando a democracia não vai para o lado que eles querem.
Foi isso em 1964 e é o mesmo agora. Eu votei na Luciana Genro no primeiro turno e apoiei a Dilma no segundo, mas tenho muitas críticas ao seu governo. Ela fez uma campanha que pendia para a esquerda, com muitas promessas que não cumpriu. Logo no começo já implementou um ajuste fiscal. Fez todas as concessões aos bancos e aos latifundiários, colocou a Kátia Abreu no Ministério da Agricultura, cedeu ao grande capital… Para os trabalhadores, foram só sacrifícios. Foi muito decepcionante, pois ela fez demasiadas concessões à oligarquia. Mas a oligarquia não quer mais concessões, ela quer tudo. Quer a totalidade do poder, não quer mais negociar. Ela quer exercer o poder diretamente por meio de seus paus-mandados. É a isso que estamos assistindo.
— Em outras palavras, podemos dizer que o modelo conciliatório, que fora estabelecido com a transição no final da ditadura, se exauriu?
— É isso.
— Assim sendo, a crise política que vivemos hoje não poderia ser vista também como uma oportunidade? Uma ocasião para inaugurar uma luta de esquerda que não seja mais pautada por esse parâmetro conciliatório?
— Essa seria a versão otimista. Porém, como dizia Gramsci, acredito no “pessimismo da razão e no otimismo da vontade”. O pessimismo da razão diz que a conjuntura no momento não é favorável. Há uma ofensiva da direita em toda América Latina e também no Brasil, e a esquerda ainda está bastante isolada. O otimismo da vontade diz que precisamos justamente construir as condições para uma nova esquerda. Uma esquerda coerente com o programa inicial do PT, que era um programa socialista no Brasil, e que, desta vez, não capitule, não faça conchavos com a oligarquia. Nesse sentido, sim, talvez haja uma oportunidade. Temos que lutar para isso, mas é uma luta a médio e longo prazo. O imediato é unir esforços para barrar os golpistas. Unir todos que se opõem ao golpe, cada qual com seus motivos, em uma frente única. Mas, dentro dessa ampla unidade, os anticapitalistas devem colocar estas questões: “esse método de fazer alianças com o PMDB, com os latifundiários, é um bom método? Deu certo?” Temos que lutar juntos e, ao mesmo tempo, colocar essas perguntas.
— Após junho de 2013, os movimentos sociais têm tomado novas formas no Brasil. Há um deslocamento da luta para dentro da cidade, seja com a ocupação das escolas pelos adolescentes, seja com o fortalecimento do MTST. Há também um forte movimento feminista, que foi o principal a se opor às medidas retrógradas propostas na Câmara pelo então presidente Eduardo Cunha. Como o senhor enxerga os novos atores que estão surgindo e suas articulações com os antigos grupos?
— É impressionante. Há uma efervescência social no Brasil. Vimos isso em junho de 2013, com aquela grande movimentação que começou com os protestos contra o aumento no preço do transporte, mobilizado de maneira fantástica pelo Movimento do Passe Livre (MPL). Há, como você mencionou, o fortalecimento do MTST, um movimento muito político e radical, que talvez seja o movimento social mais importante no Brasil atualmente. Há também o movimento ecológico, o movimento feminista, os cristãos de base e muitas outras movimentações interessantes. Isso não quer dizer, porém, que os movimentos antigos tenham sumido. O movimento sindical e o MST são também muito ativos. Nossa esperança no Brasil são os movimentos sociais, pois eles mantêm uma coerência, uma independência. Esse potencial é muito menor no que se refere aos partidos políticos. Como dizia o Frei Betto, quando a política perde o horizonte utópico, torna-se mesquinha. É exatamente isso que aconteceu com o PT, com a corrupção, as capitulações, os retrocessos. Claro que ainda há pessoas no PT que acreditam no socialismo, e temos de dialogar com elas. Mas, considerando-se as esperanças que tínhamos nos anos 1980, o balanço do PT é decepcionante. Em suma, há no Brasil um potencial de mobilização, organização e protesto social que é impressionante, mas que ainda não encontra uma expressão política adequada. Isso pode mudar em algum momento, mas ainda não é o caso. Nossa grande esperança pro futuro é essa radicalidade do movimento social.
— Quando fala em expressão política, o senhor pensa que essa expressão política deva se dar no âmbito da representação?
— Não só. Um partido político anticapitalista não significa representação parlamentar ou outra. Essa é uma das formas, mas não é a única. Para um partido que tem como vocação mudar a sociedade, a prioridade deve ser organizar as bases, participar dos movimentos sociais, levar uma mensagem anticapitalista e socialista para o povo. Claro que as eleições fazem parte também. Mas um dos problemas do PT foi justamente ter passado a dar prioridade total à questão eleitoral e parlamentar, deixando o restante de lado. Precisamos evitar repetir esse erro.
— O senhor vê alguma relação entre o que está acontecendo hoje na França, onde a população tenta resistir ao avanço de uma reforma trabalhista neoliberal, e o que acontece no Brasil, onde o novo governo também propõe uma agenda de flexibilização dos direitos do trabalho?  
— Sim. Os movimentos populares, os trabalhadores, as classes subalternas, todos os movimentos sociais e de esquerda do mundo inteiro tem um adversário comum, que é o neoliberalismo. Ou melhor, o capitalismo em sua forma neoliberal. Há muitas semelhanças entre o que se passa no Brasil e na França, pois se trata de lutar contra as políticas neoliberais, sejam elas aplicadas por governos de direita ou de centro-esquerda. São as mesmas políticas e o inimigo é o mesmo. Dito isso, há obviamente movimentos específicos em conjunturas específicas. No Brasil de hoje, o problema não é mais se mobilizar contra os retrocessos do governo Dilma, mas sim enfrentar outro governo, muito mais neoliberal. Aqui na França, por enquanto, estamos numa batalha dura contra um governo de pseudoesquerda, mas que está se revelando completamente alinhado com o neoliberalismo. São batalhas difíceis, e não sei se poderemos vencer. Se por toda parte há uma afinidade é porque é sempre uma luta contra o capital, e é o capital quem domina as políticas.
— No Brasil, há o desvio de uma ordem democrática legítima para uma ordem ilegítima, excepcional. Na França, além do Estado de emergência decretado desde os atentados de novembro do ano passado, temos agora o emprego de um dispositivo de exceção (o artigo “49.3”) para forçar a aprovação de uma nova lei trabalhista. Em termos de conjuntura global, observamos, portanto, um crescente uso dos dispositivos de exceção nos Estados dos países ditos desenvolvidos, países normalmente tomados como modelos de países democráticos. Nesse contexto, é possível demandar simplesmente uma restauração da ordem democrática anterior? O senhor acredita que possa existir certo esgotamento da forma democrática?
— Se observarmos a história nos últimos dois séculos, o que predomina é o Estado de exceção. Na verdade, a democracia é que foi excepcional. Não diria que a forma democrática se esgotou, mas, pelo contrário, que ela é um peso grande para o Estado, para as classes dominantes e para o capital financeiro. A democracia atrapalha, ela não facilita o trabalho da política capitalista. Por isso a tendência a reduzir o espaço democrático, tomar medidas de exceção e até mesmo usar o método do golpe, como estamos vendo na América Latina. O golpe no Brasil não é o primeiro. Já tivemos golpes em Honduras e no Paraguai, e possivelmente teremos outro na Venezuela. Isso mostra que a democracia já não está mais sendo útil, que ela está atrapalhando a implantação das políticas neoliberais.
Essa foi também a história recente da Grécia. O povo grego escolheu um caminho e o capital europeu, personificado na Comissão Europeia, passou por cima dos resultados eleitorais em prol das leis do mercado. Se antes já vivíamos em uma democracia de baixa intensidade, agora parece que até mesmo essa democracia era intensa demais para as classes dominantes e para o capital financeiro. Toma-se, portanto, o caminho das medidas de exceção, de maneira diferente em cada país. No caso do Brasil, temos um golpe pseudolegal, supostamente dentro do Estado de direito, mas com uma restrição cada vez maior dos direitos. Há ainda essa tendência bem preocupante, não só na América Latina como também na Europa, de uma extrema-direita que está se aproveitando dessa conjuntura e que se apresenta como um sério candidato ao poder. Se isso se confirmar, o pouco que nos resta da democracia vai desaparecer.
— Uma das principais facetas do seu trabalho é a sociologia das religiões. No Brasil, já há algum tempo, observamos o crescimento das igrejas neopentecostais. Como o senhor avalia a transição dos anos 1980, quando havia um importante trabalho de base na igreja católica, para a situação atual, com as igrejas evangélicas servindo de suporte para essa extrema-direita que ameaça tomar o poder, e que já tem força considerável no Congresso?
— Nas décadas de 1980 e 1990, o cristianismo alimentou a esquerda e os movimentos sociais, o MST, a CUT, o próprio PT. Muitos desses movimentos têm suas raízes nas comunidades eclesiásticas de base, na pastoral do campo, na teologia da libertação. Isso foi importante e teve grandes consequências sociais e políticas ao Brasil. Mas entrou em crise com a adaptação do PT ao Estado burguês e ao interesse do capital, e com o esvaziamento da CUT. Essa dinâmica se esgotou, pois uma parte dos promotores daquilo que eu chamo de “cristianismo da libertação” acabou se acomodando nas instituições – governo federal, prefeituras, direções partidárias. Houve aqueles que mantiveram uma atitude profética de crítica ao poder – caso do Frei Betto, por exemplo – enquanto outros procuraram uma posição intermediária, entre crítica e apoio. Esse campo cristão progressista foi sobretudo católico, mas contou também com o protestantismo histórico: metodistas, luteranos.
Nas últimas décadas, como se sabe, surgiram com cada vez mais força os chamados “evangélicos”. As igrejas neopentecostais assumiram uma agenda bastante reacionária em todos os campos: com relação às mulheres, aos homossexuais, aos cultos afro-brasileiros, ao capitalismo – uma adesão à chamada “teologia da prosperidade”. Trata-se de uma configuração com muito impacto político, pois esses grupos organizam e financiam campanhas eleitorais. Isso é bem preocupante. Há talvez uma esperança de que a teologia da libertação volte a ganhar mais espaço, agora que o Vaticano está abrindo um pouco mais as possibilidades. Quem sabe poderemos assistir a uma nova onda do cristianismo da libertação, que talvez possa disputar este espaço com os evangélicos. Sempre há também a esperança que algum dia surja no seio das igrejas evangélicas um setor mais crítico. Acredito que já exista, aqui e acolá, mas ainda sem conseguir se estruturar em uma força sócio-religiosa de peso. A igreja católica foi durante séculos uma força ultraconservadora, até que de repente surgiu o imprevisto: alguns cristãos começaram a ler Marx. Talvez isso aconteça com os evangélicos.
— Outra dimensão de seu trabalho atual é a reflexão sobre o ecossocialismo. Sabemos que o modelo de desenvolvimento do governo Dilma – e talvez do governo Lula também – foi um modelo desenvolvimentista que não prestou atenção às questões ecológicas…
— Isso é verdade. O modelo de desenvolvimento adotado pelo PT não é muito diferente dos governos anteriores. É baseado na exploração da agroindústria, com a soja, a mineração, o petróleo, que trazem consequências terríveis para o meio-ambiente. A ecologia realmente não é uma preocupação. Daí a Marina Silva ter saído do governo, pelo menos no começo, com uma posição crítica legítima. Mas isso não se passa só no Brasil. Outros governos de esquerda não são diferentes. Por um lado, não é simples nem realista, do ponto de vista econômico e social, propor uma mudança de modelo e deixar de explorar os minérios, o petróleo e o gás.
No caso da Venezuela, por exemplo, a economia é totalmente dependente do petróleo. Por outro lado, do ponto de vista ecológico, seria necessário fechar a torneira – não só para a Venezuela, mas para o planeta. Há um provérbio que diz: “ou se acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. O petróleo é muito pior do que a saúva. Ou acabamos com o petróleo, ou o petróleo acaba com a vida no planeta. É a verdade, mas ninguém quer saber. Se você diz isso aos venezuelanos de esquerda, mesmo os que se dizem ecologistas, eles perguntarão: “e do que nós vamos viver?”
Temos de ter propostas imediatas que sejam transitórias, como o plano do Parque Yasuni. No Equador, havia uma região da Amazônia com uma biodiversidade extraordinária, onde viviam comunidades indígenas. Mas, sob a floresta, havia petróleo. Os ecologistas, indígenas e camponeses fizeram uma proposta: preservar o Parque Yasuni, exigindo, em compensação, uma indenização dos países ricos – que dizem lutar contra os efeitos da poluição – equivalente à metade do valor do petróleo que se deixaria de explorar na região. Era uma proposta razoável, mas é claro que os países ricos não gostaram.
O governo de esquerda do Rafael Correa, que inicialmente havia encampado a proposta, acabou cedendo com o tempo e, infelizmente, abriu a área para as companhias de petróleo. Mas esse não deixa de ser um exemplo daquilo que podemos exigir de países como o Equador, a Colômbia e a Venezuela: preservar áreas de interesse ambiental e exigir de países ricos, como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Alemanha, que os indenizem pelo petróleo não explorado. Assim, uma dinâmica poderia ser criada. Precisamos, portanto, criticar o modelo de desenvolvimento que é ecologicamente insustentável e começar a levantar propostas concretas de coisas a serem feitas imediatamente.
— Como o senhor vê a exploração do pré-sal no Brasil?
— Há um consenso geral de que o pré-sal é o salvador da pátria que vai nos tirar da miséria e promover a educação e a saúde. Isso é uma mistificação, porque a maior parte do dinheiro do petróleo vai ser acaparada pelo capital. Mais do que isso, o pré-sal representa um risco muito grande de desastre ecológico. Ele requer uma nova forma de exploração em profundidade que nunca foi praticada, na qual, se houver um incidente, vai ser praticamente impossível de sanar. Não adianta a Petrobrás jurar que está tudo sob controle. Já ouvimos essa história antes, no Golfo do México, no Alasca… Se algo der errado, todas as praias do Brasil vão ser inundadas de petróleo. Infelizmente, é muito difícil fazer uma campanha contra o pré-sal no Brasil, por conta dos ganhos econômicos que foram prometidos. Temos, pelo menos, de levantar perguntas e colocar em dúvida essa euforia do pré-sal.
— A América Latina como um todo, por ser um continente com grande presença de territórios e populações indígenas – populações que têm uma relação distinta com o território – poderia ser um espaço privilegiado para colocar essas questões contrárias ao modelo atual de desenvolvimento capitalista?
— Absolutamente. Em função de sua cultura, da sua história, de sua espiritualidade, essas comunidades têm uma relação distinta com a natureza e com o meio ambiente. Por mais que se queira comprá-las, subordiná-las ou reprimi-las, elas resistem. Em todos os países da América Latina, e até no Canadá, os indígenas estão na primeira linha da resistência sócio-ecológica à destruição do meio ambiente pelo capital, e merecem todo nosso apoio. Naqueles países em que têm maior peso – como Equador ou Peru – já conseguiram algumas vitórias. No Brasil, o peso demográfico e social das comunidades indígenas é menor, porque foram em parte exterminadas pelo progresso. Mas é muito importante que elas estejam na Amazônia, pois, se não estivessem lá, o capital e o Estado já teriam acabado com a floresta. Um dos aderentes do nosso movimento ecossocialista, Ugo Blanco, um dirigente indígena do Peru, costuma dizer: “nós já praticamos o ecossocialismo há séculos.” Ele tem razão. A maneira com a qual as comunidades indígenas se organizam coletivamente e a relação que estabelecem com a natureza são sementes de ecossocialismo. Elas estão na vanguarda dessa luta para salvar a vida na terra.
Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor deRevolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) eCapitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
  • O Movimento Democrático 18 de Março (MD18) nasceu da luta contra o golpe de Estado no Brasil. Sediado em Paris, e com grande presença de pesquisadores, professores universitários, artistas e militantes de movimentos sociais, o movimento propõe ampliar a reflexão sobre as possibilidades da esquerda na atual conjuntura de crise. É com esse objetivo que o MD18 inaugura uma série de entrevistas com intelectuais, artistas e militantes de diferentes horizontes, que visam ampliar o debate sobre as formas de resistência que podem e devem advir. O projeto se inicia com a participação de grandes pensadores da esquerda como Michael Löwy, Boaventura de Souza Santos, Nancy Fraser e Anselm Jappe, além de contar com a colaboração de inúmeros intelectuais brasileiros. As entrevistas serão disponibilizadas em português e em francês no site do MD18: http://www.md18.org/









quarta-feira, 8 de junho de 2016

Pacote proposto pelo ministro da Fazenda representa o maior desmonte da Constituição desde 1988 (Carlos Drummond)

Postagem 08/jun/2016...
Pacote proposto pelo ministro da Fazenda representa o maior desmonte da Constituição desde 1988
por Carlos Drummond — publicado 03/06/2016 15h30, última modificação 07/06/2016 15h13

Henrique-Meirelles
O ministro aponta os perdedores
O pacote anunciado pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na terça-feira 24 encaminha o desmonte da economia brasileira, com maior ímpeto naqueles setores voltados ao desenvolvimento do País, à proteção da parcela mais frágil da população e à elevação do nível de vida da maioria.
O outro lado da dilapidação é a reconstituição de parte das condições oferecidas na década de 1990 ao capital privado nacional e estrangeiro, na esteira do Consenso de Washington, de exigências do Banco Mundial, do FMI e do neoliberalismo, uma das causas da crise mundial de 2008, até hoje não superada. Um período de intensa privatização, política de FHC retomada pelo atual governo segundo anteciparam assessores do presidente interino Michel Temer. 
“São providências exclusivamente fiscalistas e isso, num primeiro momento, não ajuda a retomada da economia, nem no curto nem no médio prazo”, analisa Mário Bernardini, diretor de Competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.
Para o executivo, medidas fiscais são necessárias, mas poderiam ser acompanhadas de uma redução de 3 pontos porcentuais na Selic, hoje em 14% ao ano. “Seria uma boa sinalização, perfeitamente viável, pois a inflação cairá de 10% para 7% este ano e os juros reais continuariam em 4%, uma loucura no mundo de hoje. Poderiam também liberar um pouco do depósito compulsório para os bancos, vinculado à concessão de capital de giro para as empresas.” 
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Segundo Meirelles, a antecipação do recebimento de 100 bilhões de reais em empréstimos concedidos ao BNDES com vencimento em 2060, um dos itens do pacote, não afeta investimentos. “Isso é conversa para boi dormir, é claro que afetará. Ele e sua turma estão preocupados apenas com o caixa, o resto que se dane”, diz o diretor da Abimaq. Contrabalançar o poder da Fazenda com a indicação de um ministro do Planejamento de visão mais sistêmica seria uma alternativa, mas o nome provavelmente passaria pelo crivo do chefe da equipe econômica do governo. “O Meirelles está virando primeiro-ministro e ele é fraco para isso, é um bancário e entende de caixa, só.”
Uma das medidas mais abrangentes é a limitação permanente do crescimento do gasto público à dotação orçamentária corrigida pela inflação passada. “Representa o desmonte da proteção social prevista pela Constituição de 1988, pois é incompatível com a expansão e mesmo a manutenção de serviços públicos básicos e de caráter universal”, avalia o economista Pedro Rossi, da Unicamp.
As taxas anuais médias do crescimento real do gasto primário no segundo governo FHC, nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma foram 3,9%, 5,2%, 5,5% e 3,8% e garantiram a prestação de serviços públicos, programas sociais e seguridade. “A transição para um crescimento real nulo do gasto público requer um arrocho fiscal enorme, impossível sem uma grande desvinculação de gastos constitucionais.” 
O congelamento em valores reais dos orçamentos da educação e da saúde afetará todos aqueles dependentes desses serviços públicos, com maiores danos à parcela mais pobre da população. “Ganham os menos dependentes dos serviços públicos, avessos a financiá-los com impostos e os grupos econômicos que enxergam o Estado como concorrente e desejam apropriar-se dos espaços econômicos na saúde, na educação, e drenar a renda dos trabalhadores para fundos de previdência e escolas privadas”, aponta Rossi.
Sem um calendário de implantação, o pacote mostra grande agilidade, entretanto, na revisão dos recursos destinados aos mais frágeis. O Ministério do Planejamento definiu como tema da primeira reunião do Comitê Interministerial de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas Federais na atual gestão, terça-feira 31, a discussão do decreto de revisão dos benefícios de prestação continuada e a definição de novos critérios de admissão.
O programa abrange idosos com ao menos 65 anos e deficientes de famílias com renda inferior a um quarto do salário mínimo por integrante. Até 16 de junho, outras reuniões rediscutirão o auxílio-doença, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), o Bolsa Família e a Farmácia Popular. Entre as instituições convidadas a participar figuram ministérios, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a Controladoria-Geral da União e um velho conhecido, muito influente no País nos anos 1990, o Banco Mundial.
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Retirar 100 bilhões do BNDES, diz o ministro, não reduz os empréstimos, mas só ele parece crer nisso (Foto: Lula Marques/Agência PT)
A parcela mais vulnerável da sociedade é o alvo principal também da reforma da Previdência, indispensável, segundo o governo, por causa do tamanho do déficit do setor, de 146 bilhões de reais, equivalentes a 85% do déficit total de 170,5 bilhões para este ano, aprovado pelo Congresso no dia seguinte ao do anúncio das novas medidas. Um rombo falso, evidenciam cálculos de diversos especialistas. Entre 2007 e 2015, computadas todas as receitas e as despesas estabelecidas pela Constituição, houve superávits anuais entre 20 bilhões e 77 bilhões de reais, mostra um estudo da economista Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Um ajuste radical das contas públicas, do tipo aplicado pelo ex-ministro Joaquim Levy, estaria descartado, na análise da economista. “Não haverá o aperto fiscal exigido de Dilma, porque em ciclo eleitoral não se faz isso. Tanto é assim que o déficit deste ano ficará em torno de 170 bilhões. O governo Temer culpará Dilma, mas o fato é que não despejará o saco de maldades de forma integral”, prevê a economista. “Eles tentarão, entretanto, passar a reforma da Previdência. Isso faz parte de uma estratégia de poder que reúne estado e bancos. É o avanço do processo de financeirização dos serviços públicos.”
Todas as medidas prejudicam de algum modo a população. O emprego será a principal vítima da proibição de criar ou renovar subsídios, uma decisão linear que atinge em cheio o Cartão BNDES e o Finame, fontes dos únicos financiamentos com custo viável para o investimento produtivo das empresas pequenas ou médias. Sem o crédito, os estabelecimentos optarão pela compra de títulos do Tesouro, com maior taxa de retorno, ou fecharão as portas.  
O fim da participação obrigatória da Petrobras no pré-sal, fonte de recursos estratégicos para a área da educação, entre outras destinações, aproveita a conjuntura difícil do setor petrolífero mundial e da estatal para encaminhar a abertura das reservas ao capital estrangeiro, interessado em explorá-las por serem as de menor custo e com maior lucratividade no mundo. Seria a dilapidação da maior riqueza do País, detentor também da tecnologia mais avançada de exploração do petróleo em águas profundas. A extinção do Fundo Soberano e o saque do saldo de 2 bilhões de reais vão na mesma direção, de eliminar um instrumento estratégico para atender a objetivos de curto prazo. 
A fixação de regras para a nomeação de dirigentes de fundos de pensão e estatais teria como principal objetivo cercear o acesso de representantes de trabalhadores. A deliberação parte do pressuposto, falso e preconceituoso, da imunidade de outros nomeados a erros e malfeitos.
“Eles tentam implantar o projeto ultraliberal desde os anos 1990 e o impeachment é a grande oportunidade histórica, pois chegaram ao poder sem o voto popular e sabem que um programa desse tipo dificilmente teria a aprovação das urnas”, conclui o economista Eduardo Fagnani, da Unicamp. “É como se tentassem refazer o pacto social sem a participação da sociedade. Trata-se de um ato ilegítimo e autoritário. Esse tipo de proposta não passaria em nenhum pleito eleitoral”, completa Rossi. 

Divórcio. Regime de Separação de bens. Imóvel do Marido utilizado exclusivamente pela Mulher. Aluguel devido. Antecipação da tutela deferida. TJSC.

Postagem 08/jun/2016...

Ementa:

AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE DIVÓRCIO - ANTECIPAÇÃO DOS EFEITOS DAS TUTELA PARCIALMENTE DEFERIDA - ARBITRAMENTO DE ALUGUEL POR UTILIZAÇÃO DE IMÓVEL - INCONFORMISMO DA PARTE REQUERIDA - RECLAMO NÃO ACOLHIDO - LITIGANTES QUE SE CASARAM PELO REGIME PATRIMONIAL DA SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA - BEM QUE, A PRINCÍPIO, FOI ADQUIRIDO ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE PELO AGRAVADO - AGRAVADA QUE UTILIZA O IMÓVEL COMO RESIDÊNCIA E LOCAL DE TRABALHO - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE QUE TENHA CONTRIBUÍDO PARA A AQUISIÇÃO DO BEM - PAGAMENTO DE ALUGUEL QUE SE MOSTRA ADEQUADO - RECURSO DESPROVIDO.   
Demonstrado que a aquisição do imóvel se deu pelo divorciando e a ele pertence por força do regime patrimonial da separação obrigatória de bens, mostra-se razoável que, em sede de antecipação de tutela, seja determinado à divorcianda, que permanece na posse do imóvel, o pagamento de aluguel pela sua utilização exclusiva. 
(TJSC, Agravo de Instrumento n. 2015.073253-6, de Maravilha, rel. Des. Luiz Antônio Zanini Fornerolli, j. 14-03-2016).



Acórdão integral:


Requião anuncia grupo de 30 senadores contrários ao impeachment no Senado (Esmael Morais)

Postagem 08/jun/2016...

Requião anuncia grupo de 30 senadores contrários ao impeachment no Senado

  
Roberto_Requião_impeachment
O senador Roberto Requião (PMDB-PR) reuniu-se ontem (7) à noite num jantar com 30 senadores contrários ao impeachment de Dilma Rousseff.
O anúncio caiu como uma bomba horas antes da comissão do impeachment começar, que começa ouvir às 11 horas desta quarta (8) as testemunhas indicadas pela acusação no Senado.
Para enterrar de vez o afastamento da presidente eleita serão necessários 27 votos. Na votação pela admissibilidade do impeachment, em 12 de maio, foram 22 senadores contrários e 55 favoráveis.
Requião revelou que o grupo convergiu para a realização de novas eleições diretas ainda este ano.
“Num jantar com 30 senadores esta noite, estupefatos com últimos acontecimentos, convergimos para eleições diretas muito logo. Povo decide!”, tuitou.
O senador paranaense pertence ao dito “núcleo desenvolvimentista” no Congresso, isto é, que vê saída para a crise numa forte economia voltada para a produção ao invés da especulação rentista do mercado financeiro.
O Blog do Esmael vai transmitir ao vivo, a partir das 11 horas, a sessão da comissão do impeachment no Senado.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Revolta seletiva: Gilmar agora diz que vazamento é ‘brincadeira’ com STF (Fernando Brito)

Postagem 07/jun/2016...

Revolta seletiva: Gilmar agora diz que vazamento é ‘brincadeira’ com STF

vazagil
Quando os inquéritos da Lava jato atingiam gente do PT, não havia problema algum.
Quando Sérgio Moro divulgou grampo telefônico que envolvia a própria Presidente da República, em conversa com Lula, ele também não se pejou em, inclusive, utilizar seu conteúdo como “fundamento” para a decisão que impediu a posse do ex-presidente como chefe da Casa Civil de Dilma.
Tudo bem, ele pode.
Ele é Gilmar Mendes, a lei.
Mas agora que o vazamento atingiu em cheio a cúpula do PMDB, com a divulgação do pedido de prisão preventiva de Renan Calheiros, Romero Jucá, José Sarney e , sempre ele, Eduardo Cunha, ele quer “chamar às falas” os vazadores.
O sigilo judicial, justificável quando a divulgação pode atrapalhar as investigações, não parece ser adequado a casos onde o conjunto de provas já obtido possa justificar algo da gravidade de um pedido de prisão contra o presidente do Senado, outro senador, um ex-presidente da República e o Presidente afastado da Câmara.
É impensável que a Procuradoria Geral da República tenha pedido algo desta gravidade sem provas e provas robustas.
A outra razão que pode justificar o segredo Judicial é o interesse público.
Mas não é do interesse público saber o que está se acusando a alta cúpula da instituição – o Senado – onde estão sendo julgados os destinos do país, com o processo de impeachment?
Ainda mais porque as gravações que se divulgaram – e continham, na visão de Gilmar – “apenas uma impropriedade” ligam diretamente o processo às negociações de afastar Dilma Rousseff para obstaculizar a Lava jato, “esta sangria”, nas palavras de Romero Jucá?
O país não pode ficar sabendo que se quer prender os presidentes das duas casas do Legislativo e não saber qual a razão disto.
Não há sigilo possível e muito menos o Supremo pode ocultar estas razões até as calendas e, depois, dizer que “os ritos do impeachment” foram cumpridos.
Aliás, não pode fazê-lo e não o conseguirá fazer.
A máquina está em movimento e ela possui uma lógica própria, muito além do que pode – e tem mostrado que pode quase tudo – Gilmar Mendes.

domingo, 5 de junho de 2016

O Judiciário manda (Mino Carta, Carta Capital)

 Postagem 05/jun/2016...

O Judiciário manda

A Polícia Federal substitui os tanques no projeto de poder da turma togada
por Mino Carta — publicado 03/06/2016 10h59
Wanezza Soares e Rafael Arbex/Estadão Conteúdo
Trabuco e Pinheiro
Exemplos gritantes: o indiciamento de Trabuco e a negação do acordo de delação de Pinheiro

O Poder Judiciário ergue o tom de voz, pretende mostrar a que veio e aonde quer chegar no mesmo momento em que o poder parlamentar, em cujas sedes o golpe progrediu até o afastamento de Dilma Rousseff, complica-se com as gravações de Sérgio Machado e as reações ao pacote do ministro Meirelles. Sem contar a ameaça iminente das delações da Odebrecht e de Machado Júnior.
E aí se encaixa o indiciamento do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e de mais dois altos executivos da instituição, e outros seis cidadãos pretensamente envolvidos em uma trama criminosa.
O caso do Bradesco é exemplar da situação em que o golpe em marcha mergulha o País. O banco tem uma tradição digna e sempre foi válido suporte da indústria brasileira. Este enredo mostra que no Brasil os corruptos levam a melhor contra quem não se deixa corromper.
Os fiscais nativos não são flores de orquidário, isto é do conhecimento até do mundo mineral. Desta feita, decidiram achacar o Bradesco por razões que não excluem a chantagem, a ponto de se prontificarem a sugerir a entrada em cena de certo grupo de lobistas, capacitados a encontrar uma solução favorável a todos, com exceção do próprio Fisco e do cofre do Estado.
O Bradesco rejeitou a sugestão, mas os fiscais voltaram à carga: exigiam uma multa de 3 bilhões de reais. O banco propôs um acordo ao Carf, foi negado por 6 a 0.
Ao contrário do alegado pelo indiciamento da Polícia Federal, habilitada a tanto pelo Ministério Público, Trabuco nunca participou de encontros com os lobistas, tampouco se dispôs a usar-lhes os préstimos.
Inclino-me a crer que incomodam togas e polícia as boas relações que o presidente do Bradesco mantém com Luiz Inácio Lula da Silva. Foi quem, aliás, sugeriu a Dilma, logo após a reeleição, chamar Trabuco para o Ministério da Fazenda.
Há mais a exibir o açodamento do Poder Judiciário, que hoje substitui os tanques de outrora pelas indômitas e obedientes coortes da Polícia Federal. Assume a ribalta o costumeiro Sergio Moro, que se nega a selar acordo de delação com Leo Pinheiro, presidente da OAS.
Por quê? Simples, simples demais. Porque Pinheiro insiste em inocentar Lula nos casos da reforma do fantasmagórico triplex na praia dos farofeiros e do sítio de Atibaia cercado pela favela. Cabe, desta vez, invocar até a memória do mundo mineral: o ex-presidente preferiu não ficar com o triplex e a OAS poderá vendê-lo a quem se dispuser a passar seus fins de semana em meio a piqueniques na areia.
Quanto ao sítio, não há cartório em que se prove ser propriedade dos Lula da Silva, e Pinheiro tem todo o direito de afirmar que a reforma, de pouca monta, foi presente de amigo.
Fatos deste naipe afirmam a força de que se sente investido o Poder Judiciário, e, no comando da política brasileira, o juiz curitibano. Consta que, ciente dos riscos a cercá-lo, o presidente interino Michel Temer se prepara a tecer loas à Lava Jato no seu próximo discurso, para reparar os estragos provocados pelos grampos de Sérgio Machado, de gravador escondido no bolso do paletó. 
Uma história mal contada - ou, como confiar no propagandista da Folha?
Uma peça encenada em São Paulo no teatro do Tusp pela Companhia do Latão, O Pão e a Pedra, refere-se a um episódio da greve dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema em 1979. Por dois dias, o presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, melhor conhecido como Lula, teria abandonado os companheiros por dois dias enquanto a ditadura investia contra os grevistas.
O assunto empolga um dos propagandistas que com suas colunas enfeitam a Folha de S.Paulo, Mario Sergio Conti. Trata-se de alguém habilitado a esquecer o fato em proveito da sua versão. Não assisti à encenação e me limito a transcrever a seguinte passagem do texto de Conti: “Reapareceu (Lula) para, contra o ímpeto dos grevistas, fazer com que voltassem às fábricas e engolissem um acordo danoso”.
A revista IstoÉ que então eu dirigia, dedicou mais de uma capa às greves de São Bernardo e Diadema em 1978, 79 e 80. Nas duas primeiras paredes, Lula negociou com os patrões com o apoio dos seus comandados. Situações que tais impõem concessões recíprocas em busca do acordo.
Não consta que o de 1979 tenha sido danoso, de fato a popularidade do presidente do sindicato não arrefeceu. No ano seguinte, chegou ao auge. A repressão foi feroz com o emprego de brucutus, helicópteros de guerra, tropa de choque armada até os dentes.
A greve só terminou com a prisão de Lula, que logo mais acabaria enquadrado na chamada Lei de Segurança Nacional.
Não sei quais similitudes a peça pretende expor com a situação que vivemos desde a reeleição de Dilma Rousseff. A Companhia do Latão tem fama de competente e engajada no melhor sentido. Inconfiável, certamente, é o propagandista da Folha.
Original disponível em: (http://www.cartacapital.com.br/revista/904/o-judiciario-manda). Acesso em 05/jun/2016.

Não há dúvidas de que complô contra Dilma envolveu políticos e Supremo (André Barrocal, Carta Capital)

Postagem 05/jun/2016..

Não há dúvidas de que complô contra Dilma envolveu políticos e Supremo

O desconforto político do presidente interino tende a crescer enquanto Janot tem as cartas na mão
por André Barrocal — publicado 02/06/2016 03h49

Romero Jucá e Sérgio Machado são velhos amigos. Senadores pelo PSDB no governo Fernando Henrique, aderiram via PMDB à gestão Lula e hoje estão enrolados na Operação Lava Jato. Foi em nome dos bons tempos que Jucá abriu a porta de casa quando Machado chegou de surpresa logo cedo em meados de março.
Conversaram longamente sobre a situação política e econômica do País. E também a policial. Especialmente a policial. Com a Lava Jato no encalço de Machado, Jucá comentou estar na política a salvação do amigo e dos figurões em geral.
Um acordão nacional de contenção dos estragos, com a necessária bênção do Supremo Tribunal Federal (STF). “Delimitava onde está, pronto”, disse. Segundo ele, havia, porém, um obstáculo ao pacto, Dilma Rousseff, então na Presidência da República.
Uma visão compartilhada, salientou, por ministros do STF com os quais falara na véspera. “Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca.” Conclusão de Jucá: “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”.
A conversa não deixa dúvidas, razão para Jucá, um dos generais do governo provisório de Michel Temer, ter perdido o emprego de ministro do Planejamento após meros 13 dias no cargo. O impeachment moveu-se por uma conspiração contra o combate à alta corrupção personificado na Lava Jato, e não somente pelos erros políticos e econômicos de Dilma e pela fúria da oposição contra o PT.
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sexta-feira, 3 de junho de 2016

OAB/RS. Advogados que tiveram conversas interceptadas indevidamente serão desagravados

Postagem 03/jun/2016...

Advogados que tiveram conversas interceptadas indevidamente serão desagravados pela OAB/RS
30/mai/2016

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O Conselho Pleno da OAB/RS aprovou o pedido de Desagravo Público aos advogados Antonio Carlos Tovo Loureiro e Jorge Barata de Lacerda. 
Os profissionais tiveram as suas prerrogativas violadas, sendo ofendidos em audiência pública pela delegada de Polícia Civil da Comarca de Camaquã, Karoline Plocharski Calegari. Além disso, suas conversas telefônicas foram interceptadas indevidamente.
Conforme os autos, a delegada enviou ao juízo mídias e transcrições de interceptações telefônicas dos diálogos entre os advogados e seus clientes/investigados, os quais estavam resguardados pelo sigilo profissional. No entanto, no mesmo período, tramitava a ação penal na qual se imputava a prática de homicídio qualificado entre os investigados.
Segundo o voto da relatora do Desagravo Público, conselheira seccional Greice Fonseca Stocker, em sessão realizada na sexta-feira (20), “a inviolabilidade telefônica, quando inerente ao exercício da advocacia, é prerrogativa essencial da classe dos advogados e está expressamente prevista no Art. 7º do Estatuto da Advocacia e a OAB”.
A relatora ainda enfatizou que “o sigilo profissional é imprescindível para o próprio exercício da advocacia. É inadmissível a violação da comunicação entre o advogado e o cliente, quando inerente ao exercício da advocacia, como é o caso dos autos”. O parecer foi acompanhado da decisão unânime da Comissão de Defesa, Assistência e Prerrogativas (CDAP) pelo Desagravo Público.
Desagravo Público
Conforme o Estatuto da OAB, o Desagravo Público é uma medida do Conselho Pleno da OAB/RS em favor de advogado que tenha sido ofendido no exercício da profissão ou em razão dela. É um instrumento de defesa dos direitos e das prerrogativas da advocacia. A Ordem disponibiliza todo o suporte jurídico ao profissional, tanto em ação penal quanto em eventual ação cível.

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