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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Ministro Teori Zavascki rejeita ações de PSDB e PSB contra posse de Lula na Casa Civil

Postagem 04/abr/2016...

Ministro rejeita tramitação de ações contra nomeação do ex-presidente Lula para Casa Civil
Segunda-feira, 04 de abril de 2016

O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), julgou inviável a tramitação das Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) 390 e 391, apresentadas, respectivamente, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Ao indeferir liminarmente as petições iniciais, o ministro destacou que a ADPF não se mostra o instrumento processual apto a questionar o caso em questão.

As ações questionam decreto presidencial que nomeou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República – ato de nomeação que permanece suspenso pelo STF, em razão da decisão liminar do ministro Gilmar Mendes nos Mandados de Segurança (MS) 34070 e 34071.

Na avaliação do ministro Teori Zavascki, ao analisar as ADPFs, os argumentos apresentados não afastam a cláusula da subsidiariedade, prevista no artigo 4º, parágrafo 1º, da Lei 9.882/1999 (Lei das ADPFs), segundo o qual “não será admitida arguição de descumprimento de preceito fundamental quando houver qualquer outro meio eficaz de sanar a lesividade”. Ele observou que haveria outras vias processuais possíveis para questionar o ato atacado, como a ação popular, a ação civil pública proposta via Ministério Público ou outros legitimados previstos em lei, ou mesmo o mandado de segurança coletivo.

O relator salientou que não é a primeira vez que o STF é chamado a se pronunciar sobre atos de nomeação de agentes políticos frente aos princípios constitucionais. Lembrou a ADPF 388, por meio da qual o Partido Popular Socialista (PPS) questionou a nomeação de membro do Ministério Público para o cargo de ministro da Justiça.

Em sua decisão, Zavascki explicou que no caso da ADPF 388 o questionamento não se restringia ao ato concreto de nomeação de membro do Ministério Público estadual para o cargo de ministro da Justiça, mas também à Resolução 72/2011, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que, contrariando jurisprudência do STF, alterou resolução anterior para permitir a nomeação de membros do Ministério Público para cargos fora da instituição. Porém, explicou o relator, diferentemente do que ocorreu naquela ocasião, o STF já havia se pronunciado pela inadmissibilidade de ADPFs ajuizadas com propósitos semelhantes. “Nenhuma delas logrou transpor o crivo da subsidiariedade”, salientou.

Ainda quanto à inviabilidade das ações, o ministro também assinalou que não se pode afastar o pressuposto da recorrência, ou seja, segundo explicou, a possibilidade do surgimento de demandas envolvendo nomeações de diferentes servidores, com alegado desvio de finalidade para alterar a competência jurisdicional do juiz natural de causa criminal. Segundo ele, a hipótese dos autos trata de “um incomum e inédito ato isolado da Presidência, pelo qual se designou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar cargo de ministro de Estado. Não se tem notícia de outro caso análogo, nem da probabilidade, a não ser teórica, de sua reiteração”.

Além de citar os Mandados de Segurança 34070 e 34071, que estão sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, o ministro observou que também foram ajuizadas outras ações no próprio STF e em outras instâncias da Justiça brasileira contra a nomeação do ex-presidente para o cargo de ministro.

Reiteração

Em relação à repetição dos pedidos de mesma natureza feitos em diversas localidades do país, bem como no STF, o ministro observa que essa multiplicidade de ações é um fenômeno com características próprias: “trata-se de reiteração da mesma demanda, veiculada por ações diversas mas substancialmente idênticas, que questionam um único e mesmo ato, postulando as mesmas providências”.

Tal volume de ações levou a Advocacia-Geral da União (AGU) a peticionar pedido de sobrestamento de todas elas até decisão final da Suprema Corte. Contudo, neste ponto, o relator explicou que ADPF não é instrumento apto a substituir conflito de competência, nem de "mecanismo de controle de litispendência". Destacou que, se for o caso, pode-se apresentar Conflito de Competência perante Tribunal Regional Federal ou perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ), conforme expressa previsão constitucional.

As ações indeferidas pelo ministro questionavam o decreto da presidente Dilma Rousseff que nomeou o ex-presidente Lula para cargo de ministro da Casa Civil, alegando que haveria desvio de finalidade na nomeação, violando o princípio do juiz natural ao proporcionar ao ex-presidente a prerrogativa de foro no STF, ante a investigação em curso na 13ª Vara Federal de Curitiba (PR) contra Lula.

Leia a íntegra das decisões:
- ADPF 390
- ADPF 391
AR/FB

Leia mais:

Original disponível em: ((http://stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=313510). Acesso em 04/abr/2016.

domingo, 3 de abril de 2016

Moro das lamentações: a tragédia do juiz que pensava ser um deus (Salah H. Khaled Jr.)

Postagem 03/abr/2016...

Moro das lamentações: a tragédia do juiz que pensava ser um deus

  • Salah H. Khaled Jr.
    Professor


    Sexta-feira, 1 de abril de 2016






Feche os olhos e imagine por um instante que você detém os poderes de uma divindade. Você narra a partir de um ponto de vista privilegiado, que consegue discernir com clareza incomparável a complexidade da realidade e sua conexão com a normatividade. Suas decisões não fazem mais do que refletir os fatos de forma perfeita e acabada, sem qualquer nível de distorção: são simples meios de exteriorização de uma convicção que jamais conhece qualquer falibilidade. Essências são extraídas de coisas e pessoas com incomparável facilidade: realidade e alteridade se curvam diante de seu método de revelação da verdade.
Você é firme e obstinado em seu propósito. Enviado pelos céus e movido por energias extraídas do além, sempre mantém os olhos fixos no grande prêmio e jamais se desvia da trajetória inicialmente delineada. Para você, a magistratura é sacerdócio; uma profissão de fé conduzida pelo mais nobre dos propósitos: extirpar o mal do mundo, em nome do bem da sociedade.
Sua vida é cruzada. Seu ritual é uma prática continua de zelo pelo bem comum. Senhor de todas as certezas, lorde de todos os soldados, você faz do trabalho diário um empreendimento de enfrentamento constante contra o mal. Higienizar o país é seu destino e o triunfo, algo certo e inevitável. Palavra da salvação: toda honra e toda glória, agora e para sempre.
Você é objeto de louvor alheio. As pessoas ostentam seu nome em camisetas, adesivos e cartazes. Seu estandarte tremula de Norte a Sul do país: você é reconhecido como salvador e extrai energias de seus devotos. Obtém deles forças para intensificar ainda mais o combate contra o inimigo. Seu poder cresce a cada dia que passa. Ele faz de você uma divindade onipotente e, logo, capacitada para erradicar a maldade que aflora no mundo. Não é de se estranhar que você aprecie cada vez mais a atenção que lhe é dada. Opinião pública e opinião publicada parecem ter por você uma irrefreável paixão, absolutamente profunda e massivamente sedimentada. Você se sente tocado por ela e faz questão de manifestar seus sentimentos para todos que incansavelmente o bajulam. Nem por um instante sequer você considera que possa estar equivocado. Que alguém insinue que você atua como veículo para difusão de ódio é logicamente uma leviandade.
Mais do que um mero mortal, sua existência transcendeu o plano terreno: as regras aplicáveis aos demais não valem para você. Continuamente estimulado e jamais coibido, você saboreia a delícia do poder ilimitado que lhe é conferido. De fato, você acredita que um juiz pode voar: nem mesmo o céu é limite para a sua audácia. Sua vaidade atinge patamares gigantescos: nem mesmo a segurança de seus próprios devotos parece lhe importar. Você propositalmente desconsidera qualquer limite normativo ou ético que possa comprometer o fim que lhe é caro. Utiliza sem o menor pudor os meios que lhe são conferidos para divulgar a irrecusável verdade de sua palavra. Caso venham a ocorrer, danos colaterais não serão nada mais do que perdas aceitáveis para a consecução da meta perseguida. Sua onisciência não permite qualquer vazio. O interesse público lhe é transparente: não pode ser nada além de um reflexo de sua própria vontade, que, ao final, subjugou completamente a realidade.
E assim seria, se ele, o limite, não promovesse uma alucinada reviravolta no roteiro previamente estabelecido por sua santidade. De forma inesperada, uma vertigem democrática surge no horizonte para usurpar o frágil solo moral no qual assentava sua autoridade, destruída como castelo de cartas por um relâmpago de legalidade.
Sua onipotência não era mais que delírio e devaneio. Complexo de grandeza e abuso de autoridade. Possível prática de crime e flagrante ilegalidade. O destino parece ter lhe pregado uma terrível peça: suas razões não são mais do que pálidos reflexos de uma contaminada subjetividade. Vitimada pela própria arrogância, cai por terra a insustentável identificação com o bem da sociedade. Tragédia até então impensável. Quem dizia que falava por todos falava por si mesmo: refém da própria e indevidamente atribuída discricionariedade.
Resta o lamento dramático e a entrega narrativa da própria dignidade, corroída pelo esforço impossível de legitimar uma indefensável ilegalidade. Esgotada sua serventia, desvelada a humanidade, resta a você o papel de cordeiro: passível de ser sacrificado no altar do próprio autoritarismo, ainda que mostre incredulidade diante dessa possibilidade. Talvez a sorte seja generosa e você apenas caia na obscuridade. Lamento de um Moro, Moro das lamentações. Equivocado até o final, ainda lhe escapa a ideia de impessoalidade. A Tragédia de um Moro é a morte metafórica de uma pseudodivindade. Que ela descanse em paz. A democracia agradece.

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escritor de obras jurídicas. Autor de A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial, editora Atlas, 2013 e Ordem e Progresso: a Invenção do Brasil e a Gênese do Autoritarismo Nosso de Cada Dia, editora Lumen Juris, 2014 e coordenador de Sistema Penal e Poder Punitivo: Estudos em Homenagem ao Prof. Aury Lopes Jr., Empório do Direito, 2015.

Documentos indicam grampo ilegal e abusos de Moro na origem da Lava Jato (Pedro Lopes e Vinícius Segalla)

Postagem 03/abr/2016...

Documentos indicam grampo ilegal e abusos de Moro na origem da Lava Jato

Pedro Lopes e Vinícius Segalla
Do UOL, em São Paulo

  • STF irá julgar nas próximas semanas se Moro continuará ou não julgando os crimes relacionados à Operação Lava Jato
Nas últimas semanas, a operação Lava Jato levantou polêmica ao divulgar conversas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a atual presidente Dilma Rousseff (PT). Os questionamentos sobre a legalidade da investigação, entretanto, surgem desde sua origem, há quase dez anos. Documentos obtidos pelo UOL apontam indícios da existência de uma prova ilegal no embrião da operação, manobras para manter a competência na 13ª Vara Federal de Curitiba, do juiz Sergio Moro, e até pressão sobre prisioneiros.
Esses fatos são alvo de uma reclamação constitucional, movida pela defesa de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, no STF (Supremo Tribunal Federal). A ação pede que as investigações da Lava Jato que ainda não resultaram em denúncias sejam retiradas de Moro e encaminhadas aos juízos competentes, em São Paulo e no próprio STF. Para ler a íntegra do documento, clique aqui.
Como presidente do Instituto Lula, Okamatto também foi alvo da 24ª fase da operação. Ele foi ouvido pela força-tarefa para tentar esclarecer como o instituto e a LILS Palestras receberam R$ 30 milhões de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras. Parte do dinheiro foi transferido do Instituto Lula para empresas de filhos do ex-presidente, segundo a investigação.
A reportagem ouviu nove profissionais do Direito, dentre advogados sem relação com o caso e especialistas de renome em processo penal, e a eles submeteu a reclamação constitucional e os documentos obtidos. Os juristas afirmam que a Operação Lava Jato, já há algum tempo, deveria ter sido retirada da 13ª Vara Federal de Curitiba, além de ter sido palco de abusos de legalidade.
O portal também questionou o juiz Sergio Moro sobre o assunto, mas o magistrado preferiu não se pronunciar (leia mais ao final desta reportagem).

sábado, 2 de abril de 2016

Moro soltou operação Carbono em represália ao STF (Marcelo Auler)

Postagem 02/abr/2016...

Do Blog do Marcelo Auler
Por Marcelo Auler























Um detalhe, nada insignificante, nesta 27ª fase da Operação Lava Jato vem corroborar uma desconfiança forte em Brasília de que o juiz Sérgio Moro joga politicamente com esta investigação.
Os mandados utilizados nesta sexta-feira (01/04) estavam assinados desde 15 de fevereiro e ficaram guardados em alguma gaveta. Por quê?
Talvez não tenha sido mera coincidência o fato de a Operação Carbono 14, que mais uma vez tem como alvo o Partido dos Trabalhadores (PT) – inclusive remexendo em um caso mal esclarecido até o momento -, ter ocorrido no dia seguinte à sessão em que o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a decisão do ministro Teori Zavascki de avocar para a corte as investigações em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Agora, mesmo sem poder investigar Lula por conta do sítio de Atibaia, Moro continua em cima do PT através do Caso Celso Daniel e das propinas que o ex-secretário do partido, Sílvio Rodrigues, teria recebido. Tudo girando sempre em torno do desvio de verbas dos contratos da Petrobras, segundo as justificativas dos operadores da Lava Jato. A grande curiosidade é com relação a datas.
Os mandados para a operação desta sexta-feira (01/04) foram assinados pelo juiz Sérgio Moro em 15 de fevereiro e revistos no dia 22 do mesmo mês. Apesar disso, sem qualquer explicação plausível, eles só foram cumpridos agora, decorridos 39 dias. Em Brasília, acredita-se que o juiz está jogando com as operações politicamente.
O fato de os mandados terem ficado guardados por tanto tempo e utilizados, por coincidência ou estratégia, um dia depois da sessão do STF e das manifestações pró-Dilma, chamou a atenção de autoridade do governo. Agora, se buscará saber se foi mera coincidência ou se faz parte de uma estratégia para se ganhar espaço na mídia, abafar o noticiário desfavorável e manter mobilizada a opinião pública.
O objetivo por detrás desta estratégia seria de manter a opinião pública como aliada dos operadores da Lava Jato, ainda que gerando grandes risco de conflito. Inclusive com agressões até a ministros do STF, como ocorreu com Teori Zavascki. Isso já vem sendo admitido naquela corte. Ali, o próprio ministro Marco Aurélio, na sessão de quinta-feira, ao criticar a divulgação do conteúdo dos grampos usou uma expressão direta que não deixa de demonstrar a suspeita com relação às atitudes do juiz. Na sua manifestação, acusou Moro dizendo que ele:
“colocou mais lenha em uma fogueira cuja chama já estava muito alta, em prejuízo da paz social e da segurança jurídica”.
O decano da corte, Celso de Mello, foi mais comedido, mas também cutucou Moro com relação à preocupação do juiz em satisfazer a opinião pública. Ele lertou que  o dever de proteção constitucional precisa ser respeitado “mesmo que o clamor popular se manifeste contrariamente”.
Condução coercitiva novamente –Independentemente da questão da data e coincidência com as manifestações pró-Dilma, nessa 27ª fase a equipe da Lava Jato voltou a utilizar o expediente da condução coercitiva. O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares e o jornalista Breno Altman, também colaborador do partido – não se sabe se como testemunhas ou suspeitos – foram forçados a acompanhar os agentes para prestarem depoimento. Isto sem que eles, antes, tenham sido intimados. Legalmente, a condução coercitiva só pode acontecer depois que a testemunha – jamais o suspeito – recusar-se duas vezes a cumprir intimações.
No artigo/depoimento que Breno Altamn escreveu no JornalGGN de Luis Nassif. – Operação Lava Jato esculacha a Constituição -, ele corrobora a hipótese do uso político das operações:
“Sou apenas mais um dos alvos deste tornado antidemocrático.
Não foi apresentada, durante o interrogatório, qualquer prova ou indício de meu eventual envolvimento no caso investigado, de suposto empréstimo ao empresário Ronan Maria Pinto.
A falta de solidez na inquirição também se revela, por exemplo, pelas perguntas que diziam respeito às atividades de antiga editora da minha propriedade, fechada há quase vinte anos, com indagações até sobre o tipo de livros que publicávamos, e à doação eleitoral de dois mil reais que fiz, em 2006, a Renato Cinco, então candidato a deputado estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.
O que importava, afinal, era a criação de fato político que realimentasse tanto a Operação Lava Jato quanto a ofensiva por um golpe parlamentar contra a presidente da República”.
O risco das irregularidades da Lava Jato – Usando uma expressão de Nassif, “o fim da fase Pôncio Pilatos do STF” – veja em O xadrez do fim da síndrome de Pilatos no STF – espera-se que tenha se iniciado um novo período em torno da Operação Lava Jato com a posse do novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, e com a sessão de quinta-feira (31/03) do Supremo Tribunal Federal.
Aragão promete controlar a Polícia Federal. Não a investigação, mas a legalidade da mesma. Precisa agir rápido, antes que a máquina o absorva ou comece a lhe dar bola nas costas. Infelizmente, ele não pode confiar na equipe que está à frente do Departamento de Polícia Federal (DPF), a começar por Leandro Coimbra Daiello, seu diretor-geral. Ali, quase ninguém escapa, no mínimo, da omissão ao longo deste 24 meses de Lava Jato, quando a superintendência do DPF no Paraná cometeu inúmeras ilegalidades e/ou irregularidades. Não é de hoje que se denuncia isto, sem que nada tenha sido feito pela direção-geral do DPF. Antes pelo contrário, tentaram abafar tudo e jogar para debaixo do tapete.
Basta ver sindicâncias que não terminam ou as que foram arquivadas sorrateiramente, beneficiando quem cometeu irregularidades. Aragão sabe disso e tem prometido agir. Da mesma forma que ele é crítico a alguns de seus colegas do Ministério Público Federal.
Só que, na condição de ministro, não é sua intenção passar como um trator no DPF fazendo a política de terra arrasada. Vai comer pelas bordas, até para não comprometer projetos maiores, como o da segurança nos Jogos Olímpicos. Mas, há quem ache que ele já deveria estar sinalizando com gestos concretos e não apenas com discursos. É confiar e esperar para ver.
Mas, se o ministro é novo e ainda passa pela fase de reconhecimento do terreno onde pisa, não se pode falar o mesmo dos ministros do STF. Sabe-se que eles não gostaram do comentário de Lula, em um dos telefonemas grampeados a mando de Moro, de que estariam sendo omissos. Mas, no fundo, se omitiram – ou lavaram as mãos como Pilatos, na expressão de Nassif – em muitas situações.
Na sessão de quinta-feira (31/03), porém, parecem ter iniciado uma mudança de posição. Nela, além da maioria ter concordado com a cautelar do ministro Teori Zavascki avocando as investigações contra o ex-presidente Lula para aquela corte, alguns verbalizaram algo que este blog vem alertando desde 20 de agosto: as irregularidades cometidas nas investigações da Lava Jato poderão comprometer toda a operação ou, pelo menos, parte dela.
Um dos alertas partiu do próprio relator dos recursos do caso no STF, ministro Teori Zavascki, que parecia estar com os olhos vendados ao que vem ocorrendo Em sua manifestação, deixou claro que é preciso punir todos os responsáveis por crimes, independentemente do cargo ocupado. Mas, avançou:
“Para o Judiciário, e sobretudo para o STF, é importante que tudo isso seja feito com estrita observância da Constituição Federal, porque eventuais excessos que se possam cometer com a melhor das intenções de apressar o desfecho das investigações, nós já conhecemos essa história e já vimos esse filme, isso pode se reverter num resultado contrário. Não será a primeira vez que, por ilegalidades no curso de uma apuração penal, o STF e o STJ anularam procedimentos penais nessas situações”.
Até o momento, porém, nenhuma autoridade a quem caberia tomar as rédeas das investigações destas irregularidades, fez qualquer gesto neste sentido. Antes pelo contrário, estão deixando correr solto em sindicâncias que não acabam ou outras feitas sorrateiramente sem alarde. Enquanto isso, os Operadores da Lava Jato continuam tentando tampar o sol com a peneira escondendo fatos do passado, bem como insistindo em erros anteriores. Dois exemplos claros foram divulgados recentemente e não geraram qualquer espécie de reação, nem mesmo do ministro Aragão. Ambos, porém, salvo melhor juízo – como gostam de dizer os operadores do Direito -, deveriam preocupar.
O bilhete que cita Dilma – No dia 11 de março, na sua edição nº 2414, a revista Isto É, em primeira mão, publicou um bilhete que teria sido passado ao delegado Marcio Anselmo Adriano, em abril de 2014. Segundo a reportagem O bilhete que liga o doleiro a Dilma, a entrega foi feita pela contadora de Alberto Youssef,  Meire Poza, figura bastante polêmica e controversa. Inclusive, e principalmente, na sua relação com a Polícia Federal e a Justiça
A revista, dentro de sua linha editorial de incentivo ao impeachment, abordou o caso como sendo mais lenha na fogueira em que querem queimar a presidente.
O curioso foi a falta de percepção que algo mais grave pode estar por detrás deste pedaço de papel. Ele, na verdade, tem o nome de Dilma mas não tem nenhuma insinuação de que seja alguma contabilidade, embora cite valores. Na descrição da revista, ao receber o papel, o delegado Marcio Anselmo Adriano, chefe da investigação da Lava Jato, não escondeu seu contentamento:
“Que coisa maravilhosa”, teria dito.
O bilhete não diz muita coisa. Tem algumas cifras. Um endereço incompleto, aparentemente no bairro de Copacabana, zona Sul do Rio de Janeiro. Relaciona o valor de R$ 1 milhão com Brasília. Cita um “novo embaixador” tendo ao lado o valor de 1.000 e outro de 50, com uma palavra ininteligível. Por fim vem a citação “Dilma 17 viagem”. Embaixo o que seria um horário 16:30.
O surgimento do bilhete deveria gerar uma investigação em torno do caso, até para se destrinchar o que ele quer dizer. Mas isso, obviamente, com o aparecimento do nome Dilma, deveria ser feito sob o controle direto do Supremo Tribunal. O que não aconteceu No final, o papelucho que despertou o comentário do delegado – “que maravilha” – segundo a revista Isto É, não teve qualquer serventia à Lava Jato. Sequer foi juntado a algum processo. Uma dúvida inicial é a quem o delegado o mostrou. O juiz e os procuradores saberiam dele? Concordaram em não remetê-lo ao Supremo?
Ao que tudo indica, o bilhete ficou escondido pois, em abril de 2014, se o remetessem para o Supremo – como deveria ter sido feito -, a Força Tarefa de Curitiba corria o risco de perder o controle das investigações. Uma hipótese que assusta os seus operadores. Com isso, até hoje, porém, ninguém investigou este fato ou pediu explicações ao delegado.
A falta de investigação, de transparência e do esclarecimento do que este papel significa, entretanto, serviu para jogadas escusa nos bastidores político. O que se sabe, e é grave, foi narrado por Nassif no artigo O xadrez da Polícia Federal na era das corporações. Segundo ele, o bilhete foi utilizado para a Associação dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pressionar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o líder do governo no Senado, Humberto Costa (PT-PE), pela aprovação de leis do interesse dos delegados. Consta ainda da reportagem:
“Costa e Cardozo tiveram papel central na aprovação dessas duas leis.  E se aliaram aos delegados nas discussões sobre a MP 650, que pretendia definir uma carreira única para o órgão.
Na verdade, os delegados colocaram uma faca no pescoço do governo e saíram vitoriosos.
A faca, no caso, foi um bilhete manuscrito de Alberto Yousseff que continha um mero “Dilma 17 viagem”. O bilhete apareceu em abril de 2014 e não foi encaminhado à Procuradoria Geral da República, ficou nas mãos dos delegados”
A reportagem relaciona a este papel e às leis aprovadas à correria, uma frase atribuída ao delegado/deputado federal Fernando Francischini (SD-PR) pela Folha de S. Paulo (veja foto acima).É mais uma denúncia grave, mas quem irá apura-la? Com a palavra o ministro Aragão.
Versões contraditórias - O segundo fato narrado recentemente veio da publicação da revista eletrônica Consultor Jurídico (conjur.com.br) – Operadora informou juiz Sergio Moro sobre grampo em escritório de advocacia. Nela, a revista afirma que, ao contrário do que o juiz Moro disse em carta ao Supremo Tribunal – na qual ele se desculpa e pede escusas -, ele foi informado, por duas vezes, pela operadora de telefonia do grampo que atingia uma banca de 25 advogados. Moro havia dito ao Supremo desconhecer o grampo à banca de advogados, que ele mesmo autorizou na Lava Jato.
Mesmo que se leve em conta que a revista eletrônica pertence ao mesmo grupo empresarial que assessora  o escritório  Teixeira, Martins e Advogados, cujo principal sócio é Ricardo Teixeira, advogado e compadre de Lula, a denúncia é sustentada no ofício encaminhado pela operadora de telefonia, motivo mais do que justificável para o Supremo e o próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ) verificarem se o juiz Moro passou informações inverídicas aos ministros do STF, fato gravíssimo, caso tenha ocorrido.
O próprio Consultor Jurídico, em outra postagem, informa que, em um mês, foram protocoladas 14 representações contra o juiz Moro junto ao CNJ – Em um mês, CNJ recebeu 14 representações contra juiz Sergio Moro, Destas, duas tiveram a liminar negada pela corregedora nacional de Justiça, ministra Nancy Andrighi. As outras foram colocadas por ela em tramitação sigilosa.
Alertas do blog - No sentido de refrescar a memória de quem possa investigar estes casos, relaciono abaixo algumas das reportagens em que alertamos que as ilegalidade/irregularidades cometidas pelos operadores da Lava Jato podem vir a comprometer toda a investigação, como agora o próprio ministro Teori admitiu. Até agora, faltou interesse político para investigá-los. Confiamos que este quadro se modifique:
20 de agosto - Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR: “Muito embora os chamados operadores da Lava Jato – juiz, procuradores e delegados federais -garantam que em nenhuma das 36 ações – criminais e de improbidade – já propostas contra 180 pessoas (veja infográfico ao lado) tenha sido usado material de escutas clandestinas, há sempre o risco de surgir o que no Direito chamam de “fruto da árvore podre”. Isto é, as defesas poderão questionar se informações colhidas ilegalmente alimentaram em algum momento as ações policiais”.
26 de setembro – O grampo da discórdia na Lava Jato: “Só o completo esclarecimento do tal grampo poderá demonstrar que a Lava Jato não ultrapassa os limites da legalidade em seu ímpeto louvável de punir a corrupção no Brasil. Para quem está imbuído da missão de limpar o País, a transparência não é só recomendável. É essencial”.
12 de outubro – Surgem os áudios da cela do Youssef: são mais de 100 horas““Não farei juízo de valores sobre esta descoberta e as suas consequências. Só acho que quem não agiu corretamente no início desta Operação – que é importante no combate à corrupção – deve responder legalmente por isso. O efeito que isto terá em toda a Operação, cabe ao Judiciário avaliar. Não tenho elementos para fazê-lo”, comentou o deputado Aluísio Mendes Guimarães (PSDC-MA)
18 de outubro – Lava Jato: o polêmico organograma:”Não se trata aqui, frise-se mais uma vez, de querer questionar os resultados que as investigações da Força Tarefa da Lava Jato têm apresentado e que geram aplausos de todos. Antes pelo contrário, a preocupação maior deve ser exatamente para que no futuro as defesas dos envolvidos não venham questionar possíveis falhas nesta investigação que levem a anulação dela ou de parte dela, como já aconteceu com outras operações policiais”.
19 de ouubro – Satiagraha & Lava Jato: dois pesos, duas medidas: Não se pode esquecer que a Lava Jato, assim como a Satiagraha mexe com gente poderosa, empresários com entrada junto ao Poder e aos políticos e, principalmente, pessoas acostumadas a resolverem seus problemas na base do toma lá dá cá. Por isto, mais do que nunca, o exemplo daquela operação deve ser visto hoje para se evitar  o mesmo final melancólico de um passado recente.
25 de outubro - Lava jato: um fato, duas versões da PF-PR. Mentira?: O sucesso da Operação Lava Jato é um anseio de toda a sociedade. Pela primeira vez podemos ver punidos os políticos, empresários e seus asseclas corruptos que tomaram dinheiro dos cofres públicos para financiarem suas campanhas e o estilo de vida que decidiram ter às custas dos mais pobres. Mas, o resultado que já se começa a verificar, com condenações que foram até confirmadas em 2ª instância, precisa ser garantido com a transparência nas investigações. Como já defendemos aqui, sem subterfúgios, práticas ilegais ou mesmo antiéticas. Por isso, é preciso esclarecer logo as dúvidas que surgem no meio do caminho. Como certas contradições. Para um mesmo fato – o resgate do aparelho de escuta em poder do doleiro Alberto Youssef na cela da carceragem da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal do Paraná  (SR/DPF/PR) -, apareceram duas versões diferentes. Logo, sem uma explicação plausível – que não veio -, a conclusão lógica é que uma não corresponde à realidade. Qual delas?
4 de novembro – Lava Jato: surgem mais grampos na PF-PR. “Grampolândia”?: “Surpreendente mesmo é que tais fatos, demonstram claramente  que a SR/DPF/PR é palco de disputas, algumas irregularidades e prováveis perseguições pessoais, no decorrer de uma Operação do quilate da Lava Jato. Operação esta que a sociedade como um todo apóia e passa a acreditar que fará uma limpa na corrupção no país. Tal como delegados, procuradores e o próprio juiz Sérgio Moro, em diversas oportunidades, apregoaram. Ou seja, algo de suma importância que – como disse Elio Gaspari – não pode deixar brecha para as defesas recorrerem em Brasília em busca da sua anulação. Nada disso, porém, parece sensibilizar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que nada comenta e, pior ainda, não demonstra tomar providências para por ordem na casa e garantir a lisura da investigação para que ela não corra risco. Isto sim, é surreal”.
21 de novembro – Grampo da Lava Jato: aproxima-se a hora da verdade: A dúvida maior, no entanto, é se todos estes fatos – grampo ilegal, os áudios das conversas do doleiro com seus parceiros de cela, a possível perda de credibilidade de delegados caso mentiras sejam confirmadas – afetarão de alguma forma toda a Operação Lava Jato. Justamente o medo de que tudo isso venha a prejudicar a punição dos responsáveis pelo grande esquema de corrupção que foi descoberto, é que leva muita gente – a grande imprensa, inclusive – a evitar tocar no assunto. Esquecem, porém, que há um exército de advogados, muitos deles dos melhores escritórios do país, que no legítimo dever/direito de defenderem seus clientes, esmiúçam os bastidores de tudo o que foi feito pela Polícia Federal, Procuradoria da República e a Justiça Federal do Paraná na tentativa de absolver ou, pelo menos, minimizar as punições dos réus que defendem”.
6 de dezembro – Lava Jato: surge nova denúncia de irregularidade: “O que desde julho era falado em conversas em “off”, papos de corredor,  hoje encontra-se oficializado. Em dois depoimentos – o primeiro em Brasília, o outro em Curitiba, nesta última semana -prestados à  delegada federal Tânia Fogaça, da Corregedoria Geral (Coger) do Departamento de Polícia Federal (DPF), o também delegado de Polícia Federal, Paulo Renato herrera, e o advogado paulista, Augusto de Arruda Botelho, denunciaram que policiais da Força Tarefa da Lava Jato tentaram obter dados sigilosos de pessoas com foro privilegiado. Tudo sem a autorização da Justiça Federal”. 
30 de dezembro – Investigações da Lava Jato: dois pesos e duas medidas: Há, porém, uma área em que o trabalho da Força Tarefa da Lava Jato, composta pela Polícia Federal (DPF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), resiste e não caminha: as investigações de irregularidades e até mesmo crimes supostamente cometidos na superintendência no Paraná (SR/DPF/PR) seja com a possível participação direta, conivência ou apenas uma suposta “distração” de agentes e delegados. ela maneira como encaram este problema, verifica-se que não é por falta de instrumentos ou dificuldade na investigação que elas não caminham. Seria muito mais uma opção política. O medo de que estas possíveis ações delituosas ponham o trabalho – ou parte dele – a se perder.

Brasil pode retomar tradição terceiro-mundista de derrubar presidentes (Eduardo Guimarães)

Postagem 02/abr/2016...

Brasil pode retomar tradição terceiro-mundista de derrubar presidentes
folha capa
Alguns dirão que se trata de uma psicose de minha parte o hábito que cultivo de “dialogar” com os teleguiados da mídia corporativa de direita, mas julgo muito útil manter esse diálogo informal para entender e até antecipar o que esses autômatos irão jogar na cena pública.
Faço isso há muito tempo. Cheguei a manter intenso diálogo até com o Reinaldo Azevedo (Veja/Folha de São Paulo) há mais ou menos 15 anos, na época em que ele era um ilustre desconhecido, funcionariozinho de Luiz Carlos Mendonça de Barros na revista Primeira Leitura, onde tinha a nobre função de avaliar e liberar comentários de leitores.
Detalhe: aqueles debates intermináveis com RA me autorizam a dizer que ele é um debatedor fraquinho, que nunca me venceu nos argumentos, que hoje ele interpreta um personagem e que, em uma das derrotas que lhe impus, ele chegou a me oferecer espaço naquela porcaria de publicação (Primeira Leitura) para me contrapôr a algo que saiu por lá.
Eis por que obtive um aperitivo do que publicaria hoje o colunista da página A2 da Folha de São Paulo Hélio Schwartsman. Envio provocações a esses teleguiados das famílias midiáticas e, via de regra, vaidosos intelectuais que são eles respondem. Foi assim que, no dia 26, recebi prévia do que esse colunista diria hoje sobre o processo mal-ajambrado que pretende derrubar Dilma Rousseff.
Como qualquer pessoa com olhos de ver reconhece, esse colunista se rende ao fato de que o processo que pretende derrubar Dilma Rousseff é falho, não tem causa, trata-se de uma esperteza, de um processo conduzido por corruptos (Eduardo Cunha, o correntista suíço, à frente) contra uma mulher de vida limpa, contra quem não pesa uma única acusação ou mesmo investigação.
Porém, como todo militante terceiro-mundista de direita – e, claro, como seus patrões terceiro-mundistas, porque ninguém é de ferro – ele não valoriza o voto popular.
No Brasil, voto não vale muito para a elite conservadora e concentradora de renda porque, para ela, “votar qualquer um vota”. A grande maioria dos eleitores é pobre, não tem diploma, de modo que a maioria dos brasileiros é considerada pela elite como sendo composta por cidadãos de segunda classe, dos quais o voto não merece respeito.
Além disso, a ignorância democrática característica da direita a faz confundir (quando lhe convém) presidencialismo com um parlamentarismo de ocasião no qual, quando um presidente perde “apoio político” (leia-se apoio da elite, dos empresários), não tem mais como seguir governando.
O desprezo pelo voto popular é o que gerou o golpe militar de 1964 e o que leva às ruas pessoas pedindo a volta da ditadura militar.
Nesse aspecto, argumentei com o tal colunista da Folha que Dilma não cometeu crime de responsabilidade para sofrer impeachment. Schwartsman reconheceu que era verdade, mas, em troca de e-mails com este que escreve, justificou o processo em curso da seguinte forma:
Há uma grande lista de crimes de responsabilidade que ela terá cometido se 2/3 dos senadores assim o declararem. Qualquer governo de qq partido que perca quase todo o apoio político de q disponha no Congresso tb sofreria impeachment. Isso é básico e aconteceu com Collor. Fhc e Lula não caíram pq não produziram crises econômicas do mesmo tamanho q Dilma. Lula sobreviveu ao mensalão pq a economia ia bem
Isso foi no dia 26. Neste 30 de março, a Folha publica coluna em que o sujeito aprofunda sua “tese”.
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Esse tipo de pensamento é o que faz do Brasil um país em que raros presidentes civis terminaram seus mandatos. Para que se tenha uma ideia, dois dos cinco presidentes eleitos no pós-redemocratização não terminaram seus mandatos e um terceiro pode não terminar.
Um deles é Tancredo Neves, substituído por José Sarney antes mesmo de assumir a Presidência. Mas Fernando Collor foi derrubado, tentaram derrubar Lula e estão tentando derrubar Dilma.
Alguns dirão que quem derrubou Collor “foi o PT”. Bobagem. Collor foi derrubado por quase todos os partidos. E isso ocorreu porque foi encontrado dinheiro sujo do esquema PC Farias pagando contas do então presidente da República.
Com efeito, dos oito presidentes civis eleitos desde 1950, quatro não terminaram o mandato, tarefa que foi repassada a seus vices – Café Filho (vice de Getúlio Vargas), João Goulart (vice de Janio Quadros), José Sarney (vice de Tancredo Neves) e Itamar Franco (vice de Fernando Collor). Desses quatro vices, aliás, os dois primeiros foram depostos.
Derrubar presidentes legitimamente eleitos é uma enfermidade que acomete o simulacro de democracia que vige no Brasil e que, nos dias que correm, está visível e chocante como uma fratura exposta – com efeito, a pretensão (com chance de vingar) de derrubar Dilma é uma fratura exposta de nossa democracia.
Não há nada de normal em presidentes serem derrubados como acontece no Brasil, por “perderem apoio político”. Nosso sistema político é amplamente baseano no sistema norte-americano. Ora, basta olhar para o que acontece no nosso modelo de democracia para entender a besteira dita pelo colunista da Folha supracitado.
Dos 44 indivíduos eleitos presidentes dos Estados Unidos, quatro vieram a falecer no cargo por causas naturais (William Henry Harrison, Zachary Taylor, Warren Harding e Franklin Roosevelt), um renunciou (Richard Nixon) e quatro foram assassinados (Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley, John Kennedy). Nos EUA não houve essa tempestade de “impeachment” ou de derrubada na marra mesmo que vige na América Latina, apesar de o grande irmão do norte ser o modelo de democracia da região.
A coluna de Schwartsman, a argumentação que contém e que é usada à larga por esse bando de fascistas e golpistas soltos por aí é terceiro-mundismo galopante, é prova de que o país está regredindo democraticamente, o que terá implicações seriíssimas nos próximos anos, se o golpe contra Dilma vingar.
O que está ocorrendo no país, portanto, é golpe. Clássico, habitual neste país toda vez que algum presidente ameaça governar para o povo, que frequentemente coloca a corda no próprio pescoço, pois o regime que vem por aí ameaça todas as conquistas sociais que este povo obteve na primeira década do século XX até os três primeiros anos da segunda.
A retomada do golpismo no Brasil é uma tragédia para este país. Um grande desastre natural como terremoto, tsunami, um mega furacão não seria mais danoso. O retrocesso em nossa democracia produzirá efeitos que irão durar décadas. Há que estaurar a democracia no país a qualquer preço. Antes ou depois do golpe, se este se consumar…
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Assista, abaixo, vídeo que mostra como o golpismo produz tragédias neste país desde sempre.