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sábado, 5 de janeiro de 2013

Execução. Suspensão por ausência de bens. Não corre prazo prescricional...


Execução deve ser suspensa por ausência de bens

Câmara acolheu recurso do Bradesco, o qual pretendia suspender o prazo de cobrança da dívida

Fonte | TJMT - Sexta Feira, 04 de Janeiro de 2013



Estando suspensa a execução por não terem sido encontrados bens passíveis de penhora (art. 791, inc. III, do CPC), o prazo prescricional não deve correr, razão pela qual não há como ser reconhecida a prescrição intercorrente. Com este entendimento, a Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso acolheu a Apelação Cível nº 34082/2012, proposta pelo Banco Bradesco S.A., que pretendia suspender o prazo de cobrança de dívida. A extinção da demanda havia sido decretada pelo Juízo singular.

Consta dos autos que o banco apelante ingressou com Ação de Execução com base em Cédula Rural Pignoratícia e Hipotecária no valor de R$ 100.000,00, com vencimento final estabelecido em 16/09/1995. A execução foi distribuída em 14/03/1997, sendo que os executados foram citados por edital, datado de 15/04/1997. Posteriormente, o apelante requereu o desentranhamento do mandado de execução para integral cumprimento, pedido acolhido pelo Juízo, todavia, não encontrando bens passíveis de penhora, conforme certidão, foi requerida a suspensão da execução com fundamento no artigo 791, inciso III, do CPC.

O banco sustentou que passado o prazo da suspensão foi intimado para se manifestar e, em razão da falta de bens, novamente requereu a suspensão do feito, e diante do novo decurso do prazo, deu andamento ao processo requerendo a citação da parte, ato efetivado por meio de carta precatória. Mencionou que novamente intimado para dar andamento ao feito, requereu a sua suspensão até que fossem localizados bens dos devedores, contudo, o Juízo da inicial determinou a extinção do feito sob fundamento de ocorrência de prescrição intercorrente. Salientou ainda que durante a suspensão não flui prazo prescricional.

Mencionou o artigo 793 do CPC, que estabelece que, suspensa a execução, é defeso praticar quaisquer atos processuais, sendo que não houve qualquer despacho para que o apelante promovesse o seu andamento, não havendo que se falar em inércia. Pugnou pelo provimento do recurso. Nas contrarrazões, os apelados alegaram falta de fundamentação, que a prescrição intercorrente é admitida no processo de execução e que o fato de o devedor não possuir bens penhoráveis não constitui motivo para a suspensão da execução.

A relatora, desembargadora Maria Helena Gargaglione Povoas, considerou que por ser aspecto relevante e pertinente, motivo de força maior para o prosseguimento do feito, não é caso de contagem de prazo a fim de ser aplicada a chamada prescrição intercorrente, em conformidade com entendimento jurisprudencial dominante do Superior Tribunal de Justiça e do TJMT.

Destacou que não houve inércia do credor, tendo em vista que ingressou com a demanda no prazo legal, sendo que a execução permaneceu suspensa na forma do artigo 791, III, do CPC, em razão da falta de bens dos devedores. Uma vez suspensa a execução não deve correr o prazo prescricional, ainda que se trate de prescrição intercorrente.

Ressaltou que o entendimento é no sentido de que para decretação da prescrição intercorrente, de rigor é que, antes, haja manifestação da parte credora mediante regular intimação desta por parte do órgão jurisdicional. Assim, determinou o afastamento da extinção do feito e a remessa dos autos à Comarca de origem para regular seguimento.

Decisão unânime composta pelos votos das desembargadoras Clarice Claudino da Silva, revisora, e Marilsen Andrade Addario, vogal.

O julgamento ocorreu no dia 5 de setembro de 2012.

(http://jornal.jurid.com.br/materias/noticias/execucao-deve-ser-suspensa-por-ausencia-bens/idp/9002). 

Gonzaga Belluzzo: “O medo do futuro deve ser atenuado pela ação do Estado” (Marilza de Melo Foucher)


Gonzaga Belluzzo: “O medo do futuro deve ser atenuado pela ação do Estado”

1/1/2013 15:26
Pela correspondente Marilza de Melo Foucher - de Paris

Luiz Gonzaga Belluzzo estuda formas de aplicar as teorias de Keynes em uma solução para a crise sistêmica do capitalismo
Luiz Gonzaga Belluzzo estuda formas de aplicar as teorias de Keynes em uma solução para a crise sistêmica do capitalismo
O economista e analista político Luiz Gonzaga De Mello Belluzzo, um dos intelectuais brasileiros que tem a capacidade de interpretar as questões econômicas sob os pontos de vista marxista e keynesiano, levando em conta a complexidade da globalização econômica, acredita que a crise estrutural do capitalismo ainda causará mais desemprego nos países ricos do Ocidente. Em uma entrevista exclusiva para o Correio do Brasil, Belluzzo avalia se seria possível, no estado atual da globalização econômica, reinventar um plano keynesiano para reorganizar o capitalismo.
– A crise atual tem uma dimensão que corresponde à proposta de Keynes relacionada com a questão da demanda efetiva. A economia capitalista tem uma tendência de trabalhar sistematicamente abaixo do pleno emprego, quando não a produzir crises catastróficas como a dos anos 30. Essa economia monetária da produção não tem capacidade de se reerguer a partir de uma recuperação “espontânea” do gasto das famílias e dos empresários, de modo a absorver a massa de trabalhadores que deseja emprego. Ou seja, a ineficiência do sistema capitalista em empregar todos que querem trabalhar. Mas essa visão ainda que correta, é muito parcial, conjuntural – afirmou o professor.
Belluzzo diz sempre aos seus alunos: “vocês devem ler a Teoria Geral ao revés, têm que começar pelo ultimo capitulo. Aí Keynes trata da filosofia social a que conduz a Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda. Aí está concentrada a visão mais estrutural do capitalismo, que inclui a questão da demanda afetiva, mas não se restringe a seus aspectos mais óbvios e imediatos. Keynes vai além das questões conjunturais. Ele revela que o seu reformismo é mais radical do que os keynesiano, seus seguidores, costumam admitir”.
E pontua: “Eu trago à discussão aqui os quatros pontos levantados por Keynes ao tratar da política econômica do pleno emprego num economia capitalista:
1- Socialização dos investimentos
2- Do sistema fiscal progressivo
3- Da eutanásia do “rentier” ( ter o controle publico do crédito da moeda)
4- Da coordenação entre as economias nacionais.

“Quando aborda a socialização do investimento, Keynes explica que o Estado deve estar sempre presente na coordenação das relações entre o investimento público e privado. A definição por parte do governo de um orçamento de capital cumpre o papel de amortecer as tendências à instabilidade do investimento privado. O ‘orçamento de capital’ do governo deve ser administrado de modo a minorar as incertezas que contaminam o investimento privado. Nos escritos posteriores à Teoria Geral, ele condena sistematicamente as políticas que se preocupam com a cura, ou seja, com intervenções ex-post, aquelas que ocorrem depois do desastre. A socialização do investimento é uma forma de prevenção”, afirmou, na entrevista.
Segundo o também advogado e cientista político, “numa economia monetária, segundo Keynes, os capitalistas têm que decidir adquirir um novo bem de capital , construir uma nova uma fábrica. Todavia, eles estão sempre maculados pela incerteza, pelo medo do futuro. O medo do futuro deve ser atenuado pela ação do Estado. Isto significa criar um horizonte mais seguro para as apostas privadas. Keynes apresenta a socialização do investimento como o melhor remédio contra a socialização dos meios de produção. O Estado, ao controlar uma fração importante e crucial do gasto funciona como um mediador, um gestor da convergência das expectativas”.
“Creio que uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a iniciativa privada.”
– Diante de um Estado esfacelado como está hoje, de que forma um plano keynesiano seria capaz de reorganizar o capitalismo?
– Keynes trata o Estado como uma instância ética e política capaz de fazer a mediação dos interesses conflitantes da sociedade civil. É preciso que o Estado e seus corpos intermediários tenham um papel indutor e regulador. Tudo isto tem que ser contextualizado no período em que ele viveu. Keynes tinha uma confiança enorme na capacidade do Estado. O Estado keynesiano é capaz de ver além dos interesses privados. Liberal e hegeliano, o Estado de Keynes é o espaço da universalização dos particularismos da sociedade civil.
Keynes tinha horror do individualismo, mas dizia que há sempre um espaço para certo individualismo, este sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Ele achava “o amor ao dinheiro” um horror, mesmo sendo um fator de progresso e de mudança social, todavia,the love of Money ‘pode se transformar em um tormento para o homem moderno’. No livroPerspectivas econômicas para nossos netos Keynes escrevia que os homens precisam voltar para os valores fundamentais da religião, da boa vida, da convivência. Este é um texto muito bonito. Havia uma visão ética ali por trás. Havia também uma concepção liberal do Estado na sua origem, ele não foi capaz de ver a transformação que o estado ia sofrer no capitalismo monopolista e na na sociedade de massas, em que essa independência do Estado em relação à sociedade civil vai sendo minada. Falo aqui da sociedade civil como sociedade dos interesses.
A mesma coisa diz respeito à taxação progressiva. Keynes não acredita que o capitalismo entregue à sua razão interna possa reduzir as desigualdades de renda e riqueza. Hoje se observa a dilaceração do Estado Social . Os sistemas tributários abandonaram a progressividade e começaram a cobrar impostos sobre as mercadorias e serviços em cima dos assalariados. A tentativa de manter o peso do imposto de renda, dos impostos do patrimônio, tudo isto foi destruído pelo movimento do capitalismo.
Quanto ao terceiro pilar da proposta keynesiana trata-se da eutanásia do “rentier”. Keynes explicou no Tratado da Moeda que o sistema bancário moderno é muito integrado e muito desenvolvido não há razão que o capital seja considerado escasso. Ricardo discutiu a questão da renda da terra. Na medida em que a terra vai sendo ocupada, os proprietários podem exigir uma renda derivada da escassez.
O moderno sistema bancário cria moeda (depósitos) ao conceder empréstimos. Cria liquidez à frente. Na economia monetária podem surgir problemas de liquidez, ou seja, de adiantamento de dinheiro para a realização do gasto. O investimento pode não ocorrer se há um problema de confiança dos bancos em relação ao pagamento dos empréstimos adiantados pelos bancos ou se os empresários não tomam crédito porque antecipam resultados ruins de seu empreendimento futuro.
A existência dos bancos modernos superou o obstáculo da poupança prévia próprio de uma economia natural. Numa economia natural, por exemplo, que trabalha só com o trigo, você precisa reservar uma parte de sua colheita pra plantar no ano seguinte. Isto é poupança, um conceito da economia real não monetária, se tal coisa existisse.

Numa economia monetária, os empresários só não vão investir se observarem que o rendimento esperado com a posse de um novo bem de capital (criação de uma fábrica) é inferior às taxas de juros. Keynes propunha a administração pública do sistema bancário a fim de facilitar a oferta de capital monetário para empreendimentos rentáveis. É a mesma coisa que Marx escreve no volume 3 de O Capital. Diga-se eles tem uma visão muito parecida sobre a ontologia do econômico.
Em que sentido? Keynes diz que pode definir a economia empresarial capitalista como uma existência de um lado de empresas que tenham o controle dos meios de produção e do dinheiro e de outro os trabalhadores que são obrigados a vender sua força de trabalho. No volume 29 de Obras Escolhidas estão os escritos que antecedem a Teoria Geral. Ele abordou o capitalismo desta maneira, estas informações se encontram nos manuscritos que foram descobertos mais tarde.
Os capitalistas não gastam com objetivo de maximizar a produção, ele gasta com o objetivo de maximizar seus ganhos, seu lucro monetário. O tratamento que os dois dão à estrutura do capital vai ser fundamental para a compreensão da evolução do capitalismo. Voltando pra questão da crise atual, Marx tem páginas muito importantes que Keynes não tem sobre o progresso técnico a desvalorização do capital e desvalorização do trabalho.

Então Marx vai muito mais além do que Keynes. Ainda que Keynes tenha uma visão que para segurar a este ímpeto do capitalismo de desvalorizar o capital, é preciso segurar a concorrência e não deixar que ela seja devastadora. Isto é uma visão muito conservadora, por isso ele acha possível manter o capitalismo funcionando mais ou menos com aquela condição que eu já descrevi sobre a socialização de investimentos, sistema fiscal progressivo, eutanásia rentier. Ele defendia no quarto ponto uma coordenação das economias nacionais e esboça aí uma ordem econômica mundial.
Propõe a construção das instituições internacionais públicas que permita o ajustamento sem traumas cambiais e monetários dos déficits (e superávits) dos balanços de pagamentos. Isto significaria facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Mais tarde, em Bretton Woods, Keynes propôs a Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos centrais. Este emitiria uma moeda bancária, o “bancor”, que seria destinada exclusivamente a liquidar posições entre os bancos centrais. O controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem mundial”.
– Professor, diante da realidade de hoje, quanto ao papel do FMI, perdoe insistir, mas como explicar que o plano Keynes continue atual no contexto da globalização econômica, face a tudo o que assistimos nesses últimos tempos?
– O plano Keynes nunca foi tão verdadeiro e atual, mas sua implantação nunca foi tão difícil.
– Por isso eu tenho curiosidade de saber o como, o por quê?
– Isto teria uma implicação muito séria que tem a ver com a questão do poder político das nações. Ter o controle da moeda reserva confere muitas vantagens, como bem disse (o ex-presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva) no seminário. De Gaulle também denunciava este privilégio exorbitante. Ele tinha implicância com esse poder norte-americano, que ele conhecia muito bem, isto facilitava o movimento das empresas norte-americanas, facilitava muito bem os investimentos externos, facilitava o fato dos Estados Unidos não terem problema com sua dívida pública, ao contrário do que pensam os republicanos norte-americanos. Eles podem refinanciá-las com grande facilidade, usando até o movimento de capitais do resto do mundo para os Estados Unidos. Isto foi importantíssimo na montagem da crise e é importante agora com a taxa de juros sobre um ativo de 10 anos. Um título do Tesouro para 10 anos estar hoje em 1.32 é baixíssimo. É um convite ao endividamento para poder gastar. Mas os republicanos norte-americanos estão obcecados pela divida.
– Mas voltando ao plano Keynes…
Belluzzo, um dos mais respeitados economistas brasileiros, acredita que 'União Européia poderia ser reconstruída se ela usufruísse um pouco mais liberdade'
Belluzzo, um dos mais respeitados economistas brasileiros, acredita que ‘União Européia poderia ser reconstruída se ela usufruísse um pouco mais liberdade’
– Ele nunca foi tão clarividente na sua análise e proposições, ele queria evitar exatamente que ocorresse esses desequilíbrios crônicos entre balanço de pagamentos dos países mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil, pois as condições políticas para proceder a uma reforma dessas não existem, existiram naquele momento, por várias razões na verdade, uma das quais era o sistema monetário internacional, que estava destruído e precisava ser reconstruído desde o inicio, após a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos saíram da guerra em condições melhores, com suas indústrias, empresas e seu aparato produtivo intocados. Eles vinham da experiência do “New Deal”, tinham essa visão reformista, foram eles que propuseram as reuniões que criaram a ONU, como as de Bretton Woods que estabeleceram as organizações multilaterais. Logicamente que, quando chega o momento de definir o que o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional fariam, eles asseguraram na verdade a superioridade deles, dos Estados Unidos, que ficaram no coração do sistema. Eles foram generosos, pois ajudaram na reconstrução da Europa, com os mecanismos de ajuda que criaram. Este gesto de generosidade não é gratuito face à guerra fria travada com o bloco soviético. Aqui na Europa houve uma confrontação política entre as duas concepções. A construção do Estado de bem-estar na Europa tem muito a ver com a presença da União Soviética, com o medo da expansão União Soviética.
Eu acho que hoje em dia todas as propostas de reformas passam ao largo disso que o Keynes disse e nunca foi tão atual, pois não há outra maneira de resolver esta questão dos desequilíbrios globais.
Só eu e o Lula abordamos esta questão, os outros não trataram da questão da coordenação internacional. Por que o engano é supor que você vai partir para as políticas de competividade como se a competição fosse um processo que criaria um espaço comum a que todos convergiriam?… A concorrência internacional é geradora de desequilíbrio. Basta ver a China em relação ao resto do mundo, ou a Alemanha em relação Europa. No caso da China, quando fez as reformas, abriu seu espaço territorial para os investimentos estrangeiros e vai oferecer mão de obra barata para alentar a competição por preços das empresas nos Estados Unidos e Europa. Quem foi para a China? As grandes empresas norte-americanas, europeias e japonesas. Eles criaram lá seu espaço de competição. O que aconteceu? Um problema de desemprego crescente nos Estados Unidos e Europa. Então você tem hoje o seguinte fenômeno: o sistema empresarial norte-americano vai muito bem obrigado. Isto é verdade também para as empresas europeias. Mas o espaço da economia territorial, o espaço territorial de convivência, onde as pessoas trabalham, vivem, moram, estudam, comem, têm lazer, esta cada vez mais ameaçado com os cortes nas áreas dos direitos, da redução de salários, de rebaixamento do padrão de vida etc. Por isso, as propostas de Keynes continuam atuais e, no entanto, nunca foram tão impossível.

Os Estados Unidos não querem nem saber disso. Mas os norte-americanos terão que enfrentar estas questões. Porque se eles mantiverem esse sistema monetário internacional, não é porque o dólar é fraco, o dólar é forte, então os chineses vão amealhar, em vez de US$ 3 trilhões de reserva, US$ 5 trilhões! Isto é ruim para o comércio internacional e ao mesmo tempo é muito grave porque os chineses vão exercer de alguma forma esse poder, assim como o Brasil, que tem hoje uma reserva de US$ 370 bilhões e vai ter que acoplar mais.
– O que o senhor achou da proposta dos dois presidentes do Brasil e da França sobre a criação de um conselho de segurança econômica e social, nos moldes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU)? Já existe o Conselho Econômico e Social na ONU, todavia, ele não tem grandes poderes…Nem Lula, nem Jospim demonstraram muito entusiasmo…
– Eu acho que o Lula pegou as resoluções do G20 e mostrou que todas elas eram corretas, porém nenhuma delas foi implementada. Por quê? Porque quando você encontra esses obstáculos como esse que eu mencionei com a questão da gestão da reserva de moedas, os Estados Unidos terão que discutir este ponto, não tem como. Os Estados Unidos tinham 40% da produção mundial, hoje eles só têm um pouco mais de 20%. Assim como a União Européia, que também perdeu espaço com o surgimento dos emergentes mais parrudos. Eles terão que rediscutir a reforma do sistema monetário. Por exemplo, o Brasil já estar criando um fundo comum de estabilização para a América Latina. Os fundos regionais vão surgir. O Brasil com o Pré-Sal terá que fazer um fundo soberano e isto é uma arma incrível do Brasil, se bem utilizado. Todavia, isto não vai resolver a questão do desequilíbrio e nem do emprego. A ideia, por exemplo, de o presidente (Barack) Obama dizer que os Estados Unidos terão que trazer de volta as empresas norte-americanas dando-lhes um grau superior de automação, introduzir a robótica, a lógica é a mesma.
– Então, professor Belluzzo, como seria esta nova governança mundial?
– Pois então, a nova governança mundial terá que caminhar nessa direção, do Keynes, não tem como. Torna-se necessário restringir um pouco esta competição, estabelecer regras do comércio internacional que não são estas atualmente aplicadas. A organização da economia internacional passa por outras questões, como a da coordenação mais adequada do comércio, que não podem ser satisfeitas pelas regras atuais Organização Mundial do Comércio (OMC).
Estas regras estipulam o livre comércio o que não é possível, não existe competitividade entre os países, existe entre empresas. Se você aceita as regras da competitividade, deverá aceitar o movimento das empresas para fora; o abandono da economia territorial se estabelece num conflito entre a vida no território. É a lógica abstrata da economia. Esse é o problema do capitalismo. Olhado por certo ângulo, ele é muito suficiente, mas como explicar que existe uma abundancia de capacidade produtiva que poderia atender às necessidades básicas e não básicas das pessoas, e essa incapacidade de gerar igualdade etc. Isto só pode ser feito pela intervenção pública.
Sinceramente, eu fiquei muito impressionado com perplexidade do governo socialista da França. As propostas que eles fazem são francamente insuficientes para enfrentar a gravidade da situação hoje e do que estar pra vir. Adotar por exemplo, políticas de competitividade e austeridade neste momento significa sacrificar ainda mais a população.
Existe certa contradição entre o discurso da competitividade e a criação do Banco de Investimento que ainda não vimos a sua estruturação… A idéia de ter um Banco de Desenvolvimento com o Brasil é muito boa. Hoje o BNDES é o maior do mundo. Talvez seja a melhor resposta para a crise territorial que se vive hoje na Europa.
– A presidenta Dilma apareceu como uma ferrenha defensora da União Européia e do euro, chegando a afirmar que sua criação foi a maior construção política do mundo. Todavia, para a maioria dos cidadãos franceses a Europa política ainda não foi construída daí o não ao tratado de Lisboa… Que sugestões o senhor teria sobre a saída da crise européia? E por que o fortalecimento da União européia é importante para o Brasil?
– Eu venho observando e acompanhando os últimos passos desta crise européia, inclusive esta questão do debate sobre a União Bancaria.
A Alemanha poderia conduzir a rearticulação e o rearranjo da Europa política, não o faz porque caminha numa direção oposta e a França esta numa posição um pouco subordinada. Há uma situação muito difícil, porque o país que poderia funcionar como país residual na absorção dos choques tem bloqueios históricos e ideológicos. A Alemanha está jogando em função de seus próprios interesses, muito diferente do que os Estados Unidos fizeram no pós-guerra. A Alemanha tem essa característica de se considerar um pouco acima, isto é uma mancha que não sai. Considera-se uma nação privilegiada, no certo sentido um pouco parecido no conteúdo e na forma como os Estados Unidos de hoje, da utopia realizada.
Existe hoje uma resistência da Alemanha em romper com a política de austeridade europeia. O povo alemão está convencido de sua capacidade de fazer sacrifícios e suportar; e não está disposto a sacrificar os seus princípios em nome daqueles considerados gastadores e nada cuidadosos com suas economias e endividamentos, tais como os europeus do Sul. Nós temos aí um bloqueio sério.
A Alemanha tem essa coisa também que o Weber percebeu e disse que o povo alemão tinha esse vicio da obediência, é uma condição meio complicada, ao mesmo tempo em que eles se acham superiores, eles são obedientes. Então eles se submetem ao Estado de fato, ao que está ai. Eles têm uma relação muito tosca com o resto da Europa.
Então, penso que a União Europeia poderia ser reconstruída se ela usufruísse um pouco mais liberdade, mais fôlego em suas unidades e nos países membros. Se ela adotasse um mecanismo de compensação fiscal. É um absurdo que os países tenham déficits entre si com uma moeda comum. É preciso uma coordenação dentro do Euro que compreenda diversas estratégias.
No mês de maio deste ano, o prêmio de risco da Espanha, por exemplo, calculado sobre os rendimentos dos títulos alemães de 10 anos chegou a 500 pontos. Para juntar a desgraça ao infortúnio, a corrida bancária e a fuga de capitais chegaram à Ibéria, ameaçando a solvência das instituições grandes, médias e pequenas.
O colapso da confiança não pode ser superado sem a centralização das decisões na autoridade monetária encarregada de zelar pela higidez das relações interbancárias e, portanto, pela “normalidade” das operações de crédito. Você me desculpe, mas isto é de uma burrice inacreditável. Como pensar que uma moeda comum vai funcionar assim? Eu vejo isto no curto e médio prazo com muito pessimismo.
É provável que a crise não atingisse tais culminâncias se as autoridades europeias tivessem admitido a inevitabilidade de uma reestruturação ordenada da dívida e do controle público do sistema bancário. Teriam assim mitigado as agruras da recessão e bloqueados o avanço contagiosos da crise financeira. Trata-se de um caso de psiquiatria política: a opção mesquinha por fazer pouco e devagar – too little, too late - transformou-se numa reação avassaladora do tipo too much forever.
John Maynard Keines
John Keynes
Nota da correspondente: O economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946) foi o mentor intelectual das políticas econômicas que se sucederam à crise de 1929 e se consolidaram no pós-guerra. Ele apostava em investimentos públicos e estímulo ao consumo para vencer a recessão. Para Keynes, o crescimento econômico envolve elementos de incerteza e subjetividade, como o “espírito animal” dos empreendedores ou a confiança nos agentes econômicos. O plano Keynes foi esboçado desde 1941 com o objetivo de preparar um sistema mundial fundado sobre uma unidade de reserva não nacional.
Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris. 
(http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/belluzzo-medo-do-futuro-deve-ser-atenuado-pelo-estado/564948/?fb_ref=recommendations-bar). 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Plano para matar presidente do Equador está na agenda da CIA, revela dossiê (Correio do Brasil)

Plano para matar presidente do Equador está na agenda da CIA, revela dossiê

4/1/2013 21:19
Por Redação, com Andes - de Quito



Rafael Correa é candidato à reeleição no Equador e concentra o maior apoio popular entre os demais candidatos
O jornalista chileno Patricio Mery alertou às autoridades equatorianas, nesta sexta-feira, para um plano da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA, na sigla em inglês) para assassinar o presidente do Equador, Rafael Correa. A medida seria em retaliação ao fechamento de uma base dos EUA naquele país, que existiu até 2009, e por dar asilo ao jornalista australiano Julian Assange, diretor do sítio WikiLeaks, na internet.
O repórter apresentou suas pesquisas ao ministro das Relações Exteriores do Equador, Ricardo Patiño, e promoveu uma conferência com jornalistas nesta capital. À agência latino-americana de notícias Andes, Mery revelou detalhes do trabalho de apuração realizado ao longo dos últimos cinco anos.
Sua pesquisa abre várias frentes de investigação e detalha as relações de autoridades chilenas com a CIA. Ele organizou um roteiro que se repete em vários países da região. A agência norte-americana, com o apoio de autoridades do governo chileno, promove a entrada de drogas produzidas no Equador, cerca de 200 quilos de cocaína por mês, a fim de gerar dinheiro sujo: chega no Chile segue para a Europa e os Estados Unidos. Do dinheiro gerado, uma parte permanece no Chile “e me disseram as fontes que este dinheiro é destinado a desestabilizar o governo do presidente Correa”, afirma o jornalista.
Mery comprova as informações passadas ao governo equatoriano com uma denúncia, feita no Chile, pelo inspetor Fernando Ulloa, após reunião com ministro do Interior da época, Rodrigo Hinzpeter, ao qual apresentou um dossiê com todos os fatos e nomes dos líderes do PDIs (Polícia de Investigações, na sigla em espanhol) envolvidos com o tráfico de drogas, incluindo Luis Carreno, “que aponto como um agente da CIA e que agora trabalha como inspetor área de Arica e integra o alto comando do PDI. Após a denúncia, a única medida tomada foi afastar o denunciante, Fernando Ulloa, de suas funções.
A apuração do jornalista começou quando ele suspeitou da corrupção nos meadros policiais de seu país e um agente da Agência Nacional de Inteligência (ANI) confirmou-lhe que a droga serviria para abastecer financeiramente um plano de desestabilização do presidente Correa, por dois motivos: o líder equatoriano havia fechado a base de Manta e concedido asilo a Julian Assange, que pode ser condenado a morte se for extraditado de Londres, onde se encontra, para os EUA, por vazar informações de segurança nacional sobre os norte-americanos. A partir dessa perspectiva Correa tornou-se também um alvo da CIA. A agência, com base em Langley, no Estado da Virgínia, atua em paralelo ao governo dos EUA e aplica suas próprias regras nas ações daquele país em território estrangeiro.
No relatório entregue ao governo equatoriano, Mery afirma que algumas fontes lhe permitiram revelar seus nomes:
– Minhas fontes são: Hector Guzman, Fernando Ulloa, um terceiro membro da Polícia de Investigações que prefiro não revelar ainda seu nome porque sua vida está em perigo no Chile e há uma quarta fonte, que é o agente da ANI. Reúno também documentos histórico e fatos devidamente checados, como a reunião com o ministro Rodrigo Hinzpeter, que atualmente é o ministro da Defesa no meu país – relatou.
O ministro Hinzpeter esteve envolvido em quatro “armações” no Chile: no primeiro caso, que o liga diretamente com a CIA, um paquistanês chamado Saif Khan é chamado à embaixada dos EUA e dizem que vão lhe arranjar um emprego. Eles o deixaram trancado em um quarto e, ato seguinte, entra Grupo de Operações Especiais da Polícia (OGPE, na sigla chilena) e o levam preso.
– O homem não sabia de nada, é paquistanês e espero que saiba falar Inglês. Ele é acusado de ter traços de TNT (explosivos), ou seja, como se tivesse entrado com uma bomba na embaixada. A operação foi coordenada por um agente da CIA chamado Stanley Stoy, que ordena à polícia de investigações para que faça uma incursão na casa de Saif Khan, o que é irônico, porque a Polícia Nacional não pode receber ordens de um policial estrangeiro. Em seguida, descobriu-se que o jovem Saif Khan não tinha nada a ver com o que o estavam acusando, mas a parafernália serviu para mostrar como o país auxilia os EUA na luta contra o terrorismo no mundo. No Chile, temos um quadro onde podemos ver que as autoridades mais altas estão ligadas à CIA e à extrema-direita norte-americana – disse.
Um outro escândalo denunciado a Portiño mostra que Rubén Ballesteros, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi o juiz que participou dos conselhos de guerra da ditadura de Augusto Pinochet e ordenou o fuzilamento de prisioneiros.
– Ele é acusado de violação dos Direitos Humanos e mantém ligações estreitas com a direita dos EUA – acusa o jornalista.
Ainda segundo o relatório de Mary, Sabas Chahuán, procurador-geral da República (PGR), quem deve investigar os crimes no país, “tem uma relação estreita com o FBI através de um acordo firmado com os EUA, depois da prisão de Saif Khan”. De acordo com documentos apresentandos pelo jornalista, com base na prisão arbitrária foi criado um programa chamado LEO, o qual permite que os norte-americanos obtenham qualquer informação acerca dos cidadãos chilenos.
– E tudo o que o FBI sabe, a CIA sabe também – presume.
Chahuán teria recebido ordens da Embaixada dos EUA no Chile para criar essas “armações”, denuncia Mary.
– Com tudo o que eu disse, mais o que disseram as fontes e provam os documentos e fatos, há uma estrutura que nos permite dizer que a CIA coordena as políticas daquele país com o exterior – garantiu.
Drogas contra o socialismo
As ligações entre a CIA e o governo chileno, segundo as denúncias, permitem que a agência norte-americana monitore a situação política no pais vizinho. No Equador, o presidente é socialista e tem um dos mais altos índices de aprovação popular.
– Nossas fontes afirmam que a droga traficada para fora do Chile destina-se a desestabilizar ou até matar o presidente Correa. Por quê? Porque quando um presidente passa em um mês de 60% de aprovação pública para 80%, de acordo com pesquisas divulgadas nesta quinta-feira, e reúne todas as condições para vencer as eleição no Equador, a única maneira de tirá-lo do caminho é por meio de um assassinato – afirmou.
Embora não acuse diretamente o governo do presidente Barack Obama de participar do plano para matar um colega sul-americano, “parece uma atitude muito suspeita da CIA e temos as provas que definem as relações entre a CIA e o governo do meu país. O presidente Sebastián Piñera é filho de José Piñera, que foi embaixador do Chile nos Estados Unidos. Ele também é irmão de José Piñera, que foi ministro do (ditador Augusto) Pinochet”.
Em 1980, lembrou, “o presidente Piñera faliu o Banco de Talca. Ele era gerente e promoveu um imenso desfalque. Devia estar preso. Nada foi investigado sobre a participação da CIA neste episódio, mas a informação que temos é que o presidente Piñera foi retirado do país por quase um ano, para que não precisasse enfrentar a Justiça. O pai do presidente sempre teve laços estreitos com os EUA e com a CIA”.
– Temos agora todos os elementos que mostram pelo menos 90% de possibilidade da existência de um processo de desestabilização permanente contra o presidente Correa, por ele fechar a base de Manta e dar asilo a Julian Assange. Mas isso, na realidade, não é uma questão política, e sim, comercial, porque a CIA tráfica de drogas, e faz isso através do PDI chileno, e você diz um nome, Luis Carreno, quando se chega ao bolso de um empresário, um empreendedor, mesmo ilegal, ele fica chateado e busca vingança – esclarece.
Mery acredita que haja um esquema em que CIA desestabiliza os governos, uma semana antes de tomarem posse.
– Foi o caso do presidente Salvador Allende. Eles mataram o comandante-em-chefe, René Schneider. Este crime foi perpetrado pela CIA, segundo telegramas revelados, nos quais há uma conversa entre Richard Nixon e Henry Kissinger, que assume total responsabilidade pela morte de Schneider – disse Mery à agência de notícias.
Mídia corrompida
No relatório do jornalista consta também a entrega de US$ 3 milhões ao jornal El Mercurio, do empresário Agustín Edwards Eastman, como pagamento pela cobertura favorável às “armações” realizadas pela agência de inteligência norte-americana.
– Durante a ditadura, o jornal disse que não havia desaparecidos, negou que os direitos humanos tenham sido violados e agora, todos os dias publica notas e matérias contra os presidentes Correa e Hugo Chávez, da Venezuela – constata.
Mery também aponta o fato de o ex-chefe do PDI, Arturo Herrera estar ligado a um caso de pedofilia, como um cliente de uma rede de exploração sexual infantil.
– Posteriormente, ele foi nomeado vice-chefe da Interpol. Como uma pessoa acaba de ser acusado de pedofilia e assume como vice-diretor da Interpol? – questiona.
Herrera, segundo o dossiê entregue ao governo equatoriano, “foi contratado para desestabilizar o governo de Hugo Chávez. Como fez isso? Armando uma série de histórias para vincular Chávez às FARC. Em seguida, ligam Correa às Farc para, finalmente, envolver o Partido Comunista do Chile, especialmente Guillermo Teillier e Lautaro Carmona, os deputados chilenos que disseram ter ligações com membros das FARC. Esse é o mesmo roteiro utilizado na Venezuela, Equador e Chile”.
Mery convidado pelo ministro Ricardo Patiño, em uma visita oficial, para a entrega do relatório.
– O que ele vai fazer com essa informação é uma atribuição do governo equatoriano. Eu confio no julgamento do chanceler. Depois de nos conhecermos, ele lançou uma nota no Twitter para dar maior peso ao que lhe havia dito. Então, eu entendo que é uma questão sensível e levada a sério – concluiu. 
(http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/plano-para-matar-presidente-equador-esta-na-agenda-da-cia-revela-dossie/566401/). 

Disputa entre Câmara e STF gera crise institucional em Honduras (Correio do Brasil)


Disputa entre Câmara e STF gera crise institucional em Honduras

4/1/2013 10:16
Por Redação, com agências internacionais - de San Salvador

Xiomara Castro, mulher de Manuel Zelaya, será candidata à presidência de Honduras
Xiomara Castro, mulher de Manuel Zelaya, será candidata à presidência de Honduras
O conflito entre os Poderes Judiciário e Legislativo abriu uma crise institucional em Honduras. O prédio principal da Suprema Corte foi cercado por policiais, na manhã desta sexta-feira. Os ministros foram convocados pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Jorge Rivera Avilés, para definir medidas que impeçam o agravamento da crise institucional, deflagrada em há duas semanas, após a destituição de quatro dos cinco integrantes do Supremo.
A destituição foi aprovada pelo Parlamento de Honduras, que indicou em seguida os nomes dos substitutos. Para os magistrados, trata-se de uma interferência d Legislativo nas ações do Judiciário.
Os dois poderes divergem sobre o processo de depuração da polícia de Honduras. Em 12 de dezembro, o Parlamento aprovou a destituição dos magistrados por 91 votos favoráveis e 31 contrários. Na ocasião, o presidente de Honduras, Porfirio Pepe Lobo, não se manifestou sobre a decisão. Foram destituídos de suas funções José Antonio Gutiérrez Navas, presidente da Corte, Enrique Gustavo Bustillo Palma, Rosalinda Cruz e José Francisco Ruiz Sequeira Gaekel.
Em meio à disputa de forças, parlamentares defenderam uma consulta popular para que os eleitores decidam como se resolver o impasse. O clima político é delicado na República hondurenha desde a deposição do ex-presidente Manuel Zelaya, em 2009. Em junho daquele ano, Zelaya foi deposto quando integrantes das Forças Armadas, do Parlamento e do Judiciário se uniram para retirá-lo do poder. Zelaya foi retirado de casa durante a madrugada e obrigado a deixar o país – quando seguiu para a Costa Rica. Três meses depois, ele pediu abrigo na Embaixada do Brasil em Honduras, onde permaneceu por cerca de 120 dias.
Privatização de
cidades inteiras

Os juízes cassados da Suprema Corte de Justiça foram aqueles que votaram favoravelmente à lei que aprovou a polêmica privatização de cidades inteiras, em Honduras. Algumas delas seriam ‘vendidas’ a grandes corporações dos Estados Unidos. Foram os mesmos que vetaram a criação de impostos às grandes empresas hondurenhas. Presidente de Honduras, Porfirio Lobo foi a público denunciar, na semana passada, a possibilidade de um novo golpe de Estado no país, em favor de grupos econômicos ligados à mídia conservadora naquele país, apoiados pela Suprema Corte de Justiça.
– Esses magistrados não estão cumprindo seu papel, com a aprovação de leis em função de grupos minoritários de poder e não respondendo aos desejos da maioria da população hondurenha. Não vamos permitir outro golpe de Estado. Qualquer tentativa desse grupo que financiou, dirigiu e assessorou o golpe de 2009 irá fracassar – afirmou o deputado Sergio Castellanos, do Partido de Unificação Democrática, ao sítio na internet especializado em Relações Exteriores Opera Mundi.
Em declaração à imprensa apoiada por aqueles mesmos grupos econômicos denunciados por Lobo Porfírio, o procurador-geral da República, Roy Urtecho, afirmou que o Poder Judiciário poderia ordenar a prisão de todos os deputados que votaram em favor da deposição dos magistrados. De acordo com o vice-presidente do Congresso, Marvin Ponce, a decisão é válida e tem precedentes. Em 1992, por exemplo, Osvaldo Ramos Soto foi destituído do cargo de presidente da Suprema Corte de Justiça. Embora o Exército não tenha se posicionado sobre a deposição dos magistrados ou a prisão dos deputados e senadores, o Parlamento hondurenho ficou cercado por militares durante toda a sessão.
Volta por cima
Zelaya, hoje, é líder do Partido Liberdad y Refundación (Libre, na sigla em espanhol), de tendência socialista, e voltará a disputar o cargo perdido nas eleições gerais que ocorrerão em novembro deste ano. Há, ainda, notícias de que a mulher dele, Xiomara, poderá disputar a Presidência do país caso haja algum impedimento legal para que o ex-presidente volte ao posto. Em sua reestreia na política hondurenha, Zelaya recebeu o apoio de integrantes do Partido Liberal, de direita e principal força de oposição ao atual governo de Porfírio.
Nas eleições primárias e internas, o equivalente no Brasil ás eleições municipais, ocorridas em 18 de novembro do ano passado, o ex-presidente conquistou o direito de concorrer a uma vaga no Parlamento por seu Estado natal, Olancho. Nestas mesmas eleições, Xiomara Castro foi candidata única ao governo do Estado, portanto, concorrente natural à Presidência de Honduras, segundo o sistema político interno daquele país.
Os comícios deste ano serão marcados, pela primeira vez, pela presença de nove partidos políticos, quatro deles surgidos após o golpe de Estado de 2009, que pretendem romper com o tradicional bipartidarismo imposto pelo Partido Nacional (de extrema-direita, atualmente no poder) e o Liberal, equivalente no Brasil ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e à Aliança Renovadora Nacional (Arena) estabelecidos após a quartelada de 1964.
A primeira proposta de Zelaya e Xiomara, caso cheguem ao poder pela legenda do Libre, é realizar uma Assembleia Constituinte. Ele foi derrubado do poder às vésperas de realizar uma consulta popular que promovia em seu mandato. A oposição conservadora e parte do Partido Liberal discordaram da forma como era conduzido o processo e o golpe de Estado ocorreu horas depois de determinado pela Corte Suprema. A mesma que atualmente foi dissolvida por determinação do Poder Legislativo.
O Libre foi criado em meados de 2011, alguns dias depois que o ex-presidente regressou ao país de um exílio forçado na República Dominicana, iniciado em 27 de janeiro de 2010, logo após o ex-presidente receber o salvo conduto para deixar a embaixada brasileira, na capital San Salvador. 
(http://correiodobrasil.com.br/internacional/disputa-entre-camara-stf-gera-crise-institucioonal-honduras/566094/). 

Crise entre Câmara e STF se agrava após declarações de candidato a presidente (Correio d Brasil)


Crise entre Câmara e STF se agrava após declarações de candidato a presidente

4/1/2013 15:24
Por Redação - de Brasília



A eventual substituição do atual presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT/RS), por um nome do PMDB, eventualmente o do potiguar Henrique Eduardo Alves, está longe de frear a crise institucional que se avizinha com a ordem do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, de cassar o mandato e mandar para a prisão os deputados petistas João Paulo Cunha e José Genoino, ambos da bancada paulista. Alves é um dos nomes mais cotados na bancada para assumir o terceiro cargo mais importante da República e já avisou que, uma vez eleito, não pretende cumprir o mandato expedido pela Corte Suprema pela cassação automática dos condenados no julgamento da Ação Penal 470, conhecida como ‘mensalão’.
– Não (abro mão de colocar a matéria para votação em Plenário). Nem o Judiciário vai querer que isso aconteça. Na hora em que um Poder se fragiliza ou se diminui, não é bom para a democracia – sentencia Henrique Alves, em entrevista nesta sexta-feira ao diário conservador paulistano Folha de S. Paulo.
A decisão do STF ocorreu com o voto de desempate do ministro Celso de Mello, em 17 de dezembro. Ele decidiu que os deputados João Paulo Cunha (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP) perderão o mandato ao final da análise de todos os recursos cabíveis, com o processo da AP 470 transitado em julgado. A decisão agora se estende a Genoino, que era suplente e tomou posse, nesta quinta-feira, como titular na Câmara Federal. Alves aproveitou para alfinetar o STF:
– Algum mais desavisado pode ter esquecido mas a Constituição de 1988 foi elaborada pelos congressistas. Cada palavra, vírgula e ponto ali foram colocados por nós. Então, temos absoluta consciência de nossos direitos, deveres, limites e prerrogativas. A questão da declaração da perda do mandato é inequívoca que é do Parlamento.
No final do ano passado, Marco Maia classificou como uma “ingerência” no Parlamento a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e disse que o país pode ter uma crise institucional. Maia, logo após a decisão do STF, avisou que a Casa representará contra a decisão do Supremo. Ele conversou sobre o assunto com o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, e aguarda para os próximos dias a estrutura do processo que será movido contra o STF.
– Eu tive uma conversa com o ministro Adams para que ele iniciasse os estudos, e que se a Câmara fosse chamada à lide, que a Câmara pudesse entrar no processo. Como esta decisão [do Supremo pela cassação] aconteceu, a Câmara vai entrar neste processo – disse o presidente da Câmara, na época.
O raciocínio de Alves segue a mesma linha de Maia, a de que a Casa não cumprirá a decisão do Supremo.
– Isso não é desobedecer o STF. É obedecer a Constituição – declarou Maia, a jornalistas.
Maia também afirmou que, se decisão do Supremo for mantida, o Congresso perderia a autoridade para definir sobre perda de mandato de parlamentares.
– Se esta decisão se confirmar, a Câmara não tratará de mais nenhum processo de cassação de parlamentares. Todos eles vão parar no STF. Deixa de ser uma prerrogativa da Câmara a cassação de deputados – disse.
Panos quentes
Apenas algumas horas após a publicação das declarações de Alves, o ministro do STF Marco Aurélio Mello rebateu as declarações de Henrique Eduardo Alves, que disse que conhece a Constituição e que compete exclusivamente ao Legislativo o poder de cassar parlamentares. O ministro Marco Aurélio atribuiu a declaração de Alves a um “arroubo retórico” por ele estar em campanha pela Presidência da Casa.
– Temos que dar um desconto, pois ele está numa caminhada política e diz isso para agradar a Casa. Uma coisa é a voz política de um candidato, a outra é a voz ponderada de um presidente da Câmara. Só espero que prevaleça a voz ponderada. Mas neste momento, ele tem que atender sua clientela interna – ponderou. 
(http://correiodobrasil.com.br/noticias/politica/crise-entre-camara-e-stf-se-agrava-apos-declaracoes-de-candidato-a-presidente/566293/).